
Transcrição da entrevista completa [00:00:00] EQUIPE: Preparação das câmeras A e B e início da gravação. [00:00:18] ENTREVISTADOR: Nei, vamos começar falando um pouquinho da sua infância. Como foi a sua infância nas Sete Quedas? NEI: A minha infância nas Sete Quedas foi, sem dúvida alguma, uma experiência maravilhosa, porque nós vivíamos em função das Sete Quedas desde garotos, desde crianças. Eu, meus irmãos, minhas irmãs, meu pai, nós vivíamos e tínhamos o porquê. Na verdade, Sete Quedas era a grande indústria sem chaminés que nós tínhamos em Guaíra. [00:00:59] ENTREVISTADOR: E como é que foi? Você começou a trabalhar lá muito cedo. Me conta um pouco desse trabalho, desde criancinha. NEI: Sim, eu comecei nas Sete Quedas muito cedo, em torno de sete anos de idade. Eu já comecei a lavar carros. Depois, chegando próximo dos nove até os onze anos, eu levava turistas nas Sete Quedas, até que fui convidado pelo único restaurante que tinha lá para ser garçom. Naquele tempo, eu já fui trabalhar como funcionário. Meu pai era operário da usina; tinha uma pequena usina hidrelétrica lá. Meu pai era operário, e eu e a minha irmã, mais velha que eu, vendíamos souvenirs, lembranças das Sete Quedas, tudo o que tinha como tema as Sete Quedas. Então nós vivíamos literalmente das Sete Quedas. [00:02:07] ENTREVISTADOR: E como é que eram elas, sentimentalmente? Como era estar naquele lugar? NEI: Todos os turistas que vinham e que a gente acompanhava — como os demais colegas que acompanhavam os turistas — tinham aquele impacto, uma emoção muito grande. Porque as Sete Quedas tinham um trajeto de dois quilômetros e meio, onde você passava por pontes, passarelas, ilhas, até chegar do início ao final. Então, a cada ângulo de visão era uma emoção, porque era uma cachoeira muito forte, muito emocionante. Aquela brisa, o barulho, o estrondo... Para nós que vivíamos ali, o dia a dia tinha essa mesma impressão, essa emoção de viver ali, porque era encantador para quem visitava as Sete Quedas e via toda aquela beleza natural que nós tínhamos. [00:03:15] ENTREVISTADOR: Faz de conta que eu sou um turista, vim de longe, acabei de chegar em Guaíra, não sei nada sobre as Sete Quedas e caí com você para você me guiar. O que você vai falar para mim? NEI: Primeiramente, a gente sempre se identificava, porque nós tivemos, ainda que de forma bastante rudimentar, algumas orientações de pessoas mais experientes, do pessoal ligado ao turismo. O seu Ernesto Mann era uma pessoa muito ligada ao turismo de Guaíra. Então nós nos apresentávamos e acompanhávamos o turista dizendo: “Olha, aqui, a primeira ponte era uma ponte de ferro”. Nós mostrávamos que, indo no sentido das Sete Quedas, do lado esquerdo do canal estava o país vizinho, o Paraguai. Acima estava o Mato Grosso do Sul. Nós caminhávamos, víamos a segunda ponte, que é aquela do fatídico acidente, falávamos das cachoeiras e assim por diante, até chegar ao que nós chamávamos, na época, de último salto, o Salto 14. [00:04:27] ENTREVISTADOR: E quando chegava no Salto 14, como é que você apresentava esse salto para as pessoas? NEI: Apresentava como o maior salto em quedas d’água. [00:04:39] [Interrupção técnica causada por ruído externo. A equipe interrompe e retoma a pergunta.] [00:05:39] ENTREVISTADOR: Vamos lá, então. Eu estou de frente para o Salto 14. Acabei de chegar em Guaíra. Você vai me apresentar ele? NEI: O Salto 14 era o maior em volume d’água, o maior em extensão, porque praticamente partia de um extremo a outro, chegando quase ao país vizinho, o Paraguai, já quase na divisa. E ele era intransponível a partir dali. Então ele era o último. Você não tinha como acessar mais lugar nenhum por ele. Era interessante: você tinha uma visão de frente, uma visão ampla, que pegava todo o ângulo. Depois fazia um contorno, uma pequena caminhada por dentro da mata, e conseguia pegar mais um canto dele. Então ele era o maior salto que compunha as Sete Quedas. [00:06:32] ENTREVISTADOR: E quando as pessoas chegavam nele, qual era a reação delas? NEI: De grande admiração, de impacto, porque era uma coisa fenomenal. Principalmente ele, porque era o que proporcionava o maior som, o maior barulho, pela sua extensão, pelo seu volume d’água. [00:06:55] ENTREVISTADOR: E qual é a primeira memória que você tem das Sete Quedas? NEI: A primeira memória... Como eu praticamente me criei lá dentro, é aquela memória de todo dia ser um fato novo, apesar de a gente ser criança. Você estava ali recebendo pessoas que vinham com a curiosidade de conhecer. E lá tinha uma pequena usina; essa usina fornecia, inclusive, energia elétrica gratuitamente para quem morava lá. Então era uma coisa interessante, porque nós não pagávamos luz. Tinha mais ou menos umas sete ou oito residências, alguns comércios e o restaurante onde eu fui trabalhar depois. Brincávamos lá também. Eu praticamente não tive infância, porque com sete anos já comecei a trabalhar, mas era gostoso. Todo dia ganhávamos presentes dos turistas. E era muito bom, porque financeiramente a gente era de uma renda inferior. Então, aproveitando essa questão da memória, um belo dia, por volta de 1969, chegaram quatro turistas jovens do Rio de Janeiro em um carro chamado Gordini — um carro que muita gente hoje nem sabe o que era. [00:08:39] [Pequena interrupção técnica. A equipe pede que a história seja retomada desde o início.] [00:09:28] ENTREVISTADOR: Nei, está rodando. Conta essa história dos turistas desde o começo, por favor. NEI: Perfeito. Um belo dia, nessa minha memória de criança, acho que por volta de 1969, chegaram quatro turistas jovens em um carro chamado Gordini, um carro que muita gente hoje não sabe o que era. Eles eram do Rio de Janeiro. Pediram para eu levá-los, e eu fui. Mostrei as Sete Quedas, contei toda a história, e eles ficaram encantados. Depois foram para o restaurante que tinha lá — naquela época eu ainda não trabalhava nesse restaurante —, almoçaram e, na hora de ir embora, eu não sei por qual razão, hoje não me lembro mais, eles tinham um cabrito, literalmente um cabritinho dentro do carro, e me deram de presente. Disseram: “Olha, nós não vamos levar”. Eu não sei por que estavam com aquele cabrito, mas me deram de presente. Eu fiquei feliz da vida, como criança. Levei para casa, cheguei para o meu pai e para a minha mãe, contei, e nós cuidamos do cabrito. [00:11:00] ENTREVISTADOR: Vamos falar mais um pouquinho. Qual era o seu lugar ou momento preferido nas Sete Quedas? NEI: Nas Sete Quedas nós ficávamos a postos onde tinha uma barragem, o canal. Logo abaixo do canal vinha um bosque, e nós ficávamos bem na ponta desse bosque, porque era uma disputa muito grande entre todos. Havia várias crianças e jovens adolescentes que trabalhavam levando turistas, e o fluxo era significativo, principalmente nos finais de semana. Então nós ficávamos a postos para pré-escolher. Naquele tempo, aparecia um carro como uma Veraneio, um Dodge Dart, um Galaxie; mais para frente vieram a TL e a Variant. Eram carros que, supostamente, eram de turistas mais afortunados. A gente prestava atenção nisso porque a gorjeta também era melhor. Nós não tínhamos uma tabela, não existia uma tabela; era tudo muito simples. A gente levava, fazia todo aquele trabalho de informação, de mostrar, de contar sobre os saltos, e na volta eles nos davam um cachê, que ficava a critério do turista. [00:12:29] ENTREVISTADOR: E como os sons das Sete Quedas acompanhavam a sua vida? O quanto eles eram importantes para você? NEI: Esses sons das Sete Quedas eram extremamente interessantes. Meu pai, por exemplo, plantava; nós tínhamos uma área ali mesmo onde plantávamos. Pelo som das Sete Quedas, naquela época, você sabia de que posição vinha a chuva, a tempestade. Enfim, vários fatores você conseguia perceber através do barulho das Sete Quedas. Era muito interessante. Na época, pela lua você também sabia o que fazer em termos de plantação. E outra coisa que nós poderíamos dizer era sobre o clima com as Sete Quedas. Nós tínhamos um inverno muito rigoroso em Guaíra, que não existe mais. Hoje nós temos dias de frio, mas não temos mais aquele inverno. No período das Sete Quedas, o inverno em Guaíra era rigoroso durante os três meses de inverno. [00:14:05] ENTREVISTADOR: E como era morar em um dos lugares mais bonitos do mundo? NEI: Era, volto a repetir, entusiasmante. A gente era criança e, apesar das dificuldades financeiras, todos nós que morávamos ali éramos muito felizes, alegres, porque sempre nos deparávamos com pessoas diferentes, conversando, e a gente acabava sendo um elo de ligação. Quando fui trabalhar no restaurante, ficou ainda mais entusiasmante, porque a gente atendia, contava histórias. Esse restaurante era especializado em peixe; não tínhamos outro cardápio, era tudo à base de peixe. Fazíamos vários pratos à base de peixe, todos capturados no Rio Paraná para atender os turistas. Era um fluxo de movimento muito grande. A gente estava sempre se deparando com novidades. Eu trabalhava de manhã no restaurante, almoçava, andava quatro quilômetros e meio até o Colégio Mendes Gonçalves para estudar, fazer o meu primário, voltava depois e trabalhava mais um período. Assim era. Eu fiz todo o meu primário e ainda um pedacinho do colegial indo e voltando dessa forma. Naquele tempo não tinha pavimentação, asfalto, sistema de transporte coletivo, nada. Você vinha a pé. [00:15:55] ENTREVISTADOR: Vou pular um pouquinho uma pergunta que estava mais para frente. Você falou dos peixes, da alimentação. Você foi premiado diversas vezes com o Pintado na Telha e com pratos de peixe. Me conta sobre esse prato, como você aprendeu, e depois a gente fala um pouco sobre como o descaso com o rio e com esses peixes prejudicou a culinária típica guairense. NEI: Perfeito. Vamos começar lá na base, quando a pesca era farta em Guaíra. Nesse restaurante em que eu trabalhei, e depois nas peixarias de Guaíra, havia muito peixe. Esse restaurante se chamava Restaurante do Salto e tinha peixaria também. Havia vários pescadores profissionais na época. Tem um fato curioso que é preciso contar historicamente. O seu Miguel, que era o proprietário do restaurante, recebia os pescadores. Eles perguntavam: “Seu Miguel, o senhor precisa de peixe hoje?”. Ele abria os freezers, e pela fartura de peixe dizia: “Bom, hoje você me traz só dourado e pintado, porque jaú, pacu e [nome de peixe pouco nítido] ainda tem bastante”. Para vocês terem uma ideia, isso é história que eu vivi, que acompanhei. Havia uma fartura muito grande de peixe. Depois, ainda continuou existindo uma quantidade razoável, mas, após o fechamento do lago, houve uma pesca predatória muito grande no início da formação do reservatório. E aí tivemos uma diminuição muito grande do pescado em Guaíra, principalmente dos chamados pescados nobres, como pintado e dourado. Foi um problema sério. Já não era mais aquela fartura, embora ainda houvesse uma quantidade significativa. Eu cresci, vim para o comércio de Guaíra e, na época em que participei do poder público, tive a ideia de criar o Pintado na Telha como prato típico de Guaíra. Inclusive, a lei é de minha autoria e foi sancionada pela gestão da época. Nós criamos o Pintado na Telha. Não era “peixe na telha”; era “Pintado na Telha”. Ocorre que, com o passar dos anos, esse peixe ficou bastante difícil de capturar no lago e no Rio Paraná, e esse prato acabou ficando um pouco esquecido. Mas ele ainda existe, ainda é servido em hotéis de Guaíra. Eu participei de vários concursos e tive a felicidade de, por várias vezes, ser campeão do Pintado na Telha. Depois vim para o comércio de eventos, onde também trabalhávamos com peixe. [00:19:17] ENTREVISTADOR: Vamos terminar só mais uma aqui e depois a gente dá uma pausa. Fala para mim sobre o turismo às vésperas do fim das Sete Quedas. NEI: O turismo no final das Sete Quedas foi uma loucura. Vamos usar essa expressão: foi uma loucura. Nessa época eu tinha um restaurante no Hotel Guarujá II. Era algo absurdo. Só para vocês terem uma ideia, a fila de ônibus para chegar às Sete Quedas vinha até a Igrejinha de Pedra; depois o pessoal ia a pé. Não tinha como colocar carro no pátio das Sete Quedas. No hotel, para se ter uma ideia, nós alugávamos até o escritório do diretor porque não tinha vaga. Nós tínhamos amizade com um hospital aqui de Guaíra, na época o Hospital Santa Rita. O médico era nosso amigo. Quando havia leito vago, chegaram a alugar leitos para turistas, porque não tinha mais acomodação. E isso num período em que Guaíra tinha vários hotéis, de categorias inferiores e superiores, restaurantes, churrascarias, enfim. Era tudo lotado. Eu atribuo o episódio da queda da ponte ao excesso de peso e à falta de cuidado e fiscalização, porque aquilo era uma loucura. Eram milhares de pessoas passando ao mesmo tempo por aquelas passarelas, por aquelas pontes. [00:21:08] [PAUSA TÉCNICA] [00:21:20] ENTREVISTADOR: Então, talvez um dos dias mais tristes que você tenha vivido ali nas Sete Quedas. Onde você estava quando soube do acidente na ponte? E quando você chegou lá, o que encontrou? NEI: Nesse fatídico acidente, eu estava exatamente no hotel onde tinha o restaurante. Como eu estava dizendo, havia muita gente visitando Guaíra. Eu tinha acabado de construir uma casa e a havia alugado para dois casais do interior de São Paulo, porque o hotel estava lotado. Eu os hospedei nessa casa. De manhã, eles foram tomar o café e seguiram para as Sete Quedas. Por volta das nove, nove e pouco da manhã, veio a triste notícia. Nesse momento, eu fui, juntamente com mais algumas pessoas, me deslocando rapidamente. Cheguei ao local do acidente em torno de quarenta a quarenta e cinco minutos depois. Ainda havia pessoas penduradas, gritos, pessoas ilhadas do outro lado e muita gente do lado que poderíamos chamar de continente. Foi uma coisa absurda. Todo mundo em pavor, desesperado, gritos, choro, e você vendo as pessoas. Muitos já tinham sido levados pela corredeira. O João Lima Moraes, o popular João Mandi, estava ali e teve um papel importante no auxílio ao resgate, de onde ele estava, ali nas pedras. Foi uma coisa terrível, terrível. [00:23:22] ENTREVISTADOR: E me conta como foi o dia seguinte ao acidente. As pessoas ligando, tentando entrar em contato com familiares, poucos orelhões, poucos telefones, hotéis... Como foi essa confusão? NEI: Naquele tempo só existiam fax e telefone fixo. Inclusive no hotel. No Hotel Guarujá II foi montada toda a estrutura de jornalismo do Brasil. Foi ali que vieram as televisões da época, O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo, pessoal de Londrina, enfim, jornais escritos, falados, televisionados, tudo. Ali foi a central. Só que demorava para você passar a matéria. Por exemplo, você mandava uma matéria de manhã para ser exibida só à noite. Ali foi toda a central de divulgação. Foi uma tragédia que tomou proporção mundial. Guaíra ficou estarrecida, ficou de luto. Começaram a chegar familiares, e havia familiares que não tinham contato, porque a comunicação era difícil. Na época, não se sabia ao certo, mas o número oficial de mortos foi 32. [00:24:47] ENTREVISTADOR: Você participou da homenagem final, quando os indigentes foram enterrados no cemitério? Você estava lá ou soube como foi esse momento? NEI: Exatamente nesse dia, não. Mas, na época, eu já tinha uma ligação forte com o comércio de Guaíra e conhecia o secretário responsável pela pasta. Fui até ele. Como nós não tínhamos aqui na cidade estrutura para fazer reconhecimento dos corpos, autópsia e tudo aquilo, eu pedi a ele para entrar no cemitério e ver. Foi um momento que me marcou muito, porque eu contei: havia 19 corpos, todos colocados de maneira rudimentar, esperando vir de fora a Polícia Científica para fazer a autópsia. Naquele momento havia 19 corpos ali. Posteriormente, a grande maioria foi levada, após a identificação, por seus familiares. E, se não me falha a memória, dois ou três foram enterrados como indigentes, porque não apareceu familiar, não apareceu ninguém. [00:26:08] ENTREVISTADOR: E como foi essa busca pelos corpos, que durou quase um mês? NEI: A busca foi extremamente difícil, pelo fato de ser um canal de grande volume d’água e de corredeira muito forte. Isso foi levando os corpos. Houve corpos encontrados a cem quilômetros daqui, rio abaixo. Muitos ficaram enroscados também nas grotas de pedra. Por isso, até hoje, não se tem literalmente a certeza de que foram só 32 mortos. Foi uma coisa muito triste. Houve corpos retirados da água vários dias depois, em um estado que dificultava até a identificação. [00:26:59] [AJUSTE TÉCNICO E NOVO CORTE DE CÂMERA] [00:27:17] ENTREVISTADOR: Vamos voltar ao acidente da ponte, último assunto. Toda essa tragédia aconteceu e alguém tentou colocar a culpa sobre uma pessoa, sobre [nome pouco nítido na gravação]. Você pode me contar como foi essa tentativa? NEI: Com relação a esse fato, que foi atribuído ao Pedimar Porã, que era indígena: ele não era uma pessoa muito antiga ali, mas eu o conheci, conversávamos pouco, como todos conversavam. Na minha opinião — e é só uma opinião pessoal — precisavam arrumar um bode expiatório para alguma coisa. Eu não acredito jamais que ele faria isso, até porque ele era zelador, cuidava dali, estava sempre, vamos dizer assim, vigilante dentro do pátio das Sete Quedas, de todo o complexo. Então eu atribuo isso à criação de um bode expiatório. Estávamos vivendo um momento em que não deram importância para ninguém para acabar com as Sete Quedas. Quando veio essa tragédia, precisavam atribuir a alguém. A formação do lago foi no mesmo ano. Então atribuíram isso a ele. Essa é a minha opinião. [00:29:01] ENTREVISTADOR: Você pode repetir só essa frase? “Eles criaram um bode expiatório.” NEI: Eles criaram um bode expiatório. [00:29:09] ENTREVISTADOR: Vamos fazer uma comparação que eu sei que você gosta de fazer: Sete Quedas e Cataratas do Iguaçu. NEI: Com relação a essa comparação, eu gostaria de fazer um adendo. A natureza foi perfeita. Ela criou duas belezas, eu diria, na mesma direção. O homem, dentro do seu processo de transformação, quis, na sua preponderância, fazer a maior usina do mundo e, para isso, teve que sacrificar uma dessas maravilhas da natureza. Eu conheci as Sete Quedas desde criança, vivi dentro delas. Tive também, ainda bem jovem, a experiência de conhecer as Cataratas do Iguaçu e depois estive lá outras vezes. Na minha visão, as Cataratas do Iguaçu eram bonitas — e são bonitas até hoje; é um dos locais mais visitados do mundo —, só que elas têm uma visão panorâmica praticamente única. Você chega pelo lado brasileiro — elas também podem ser visitadas pelo lado argentino — e tem aquela visão. As Sete Quedas, não. Nas Sete Quedas você cansava. Tinha que fazer aquela enorme caminhada de dois quilômetros e meio e, para cada lado que olhava, tinha uma cachoeira, tinha uma queda, tinha todo o esplendor da natureza ao longo daquele processo de caminhada. Então, para mim, as Sete Quedas eram extremamente superiores às Cataratas do Iguaçu. [00:31:04] ENTREVISTADOR: Vamos começar a falar um pouquinho da despedida. Como foi quando você soube que as Sete Quedas iam acabar? As pessoas acreditaram de começo? Como foi essa notícia? NEI: Eu quero voltar um pouquinho, bem no início. Quando se falou da construção da Usina de Itaipu, que formaria o lago e deixaria as Sete Quedas submersas, eu ainda era criança. Meu pai era operário lá dentro, fazia parte de um órgão do governo ligado ao que hoje vem a ser a nossa Copel. Ele era funcionário dessa empresa, chamada Minas e Energia. Sendo operário, meu pai acompanhou os engenheiros e técnicos, carregando aparelhos de topografia, quando começaram a fazer as demarcações. Eles iam em vários pontos, subindo desde Foz do Iguaçu até Guaíra. Colocavam uma marca metálica, de bronze, que indicava a graduação, a cota que a água atingiria. Eu lembro que, apesar de ser criança, ouvia os mais velhos comentarem que jamais o homem teria capacidade de acabar com uma beleza daquela. Que não teria. Bom, erramos. Guaíra talvez tenha pecado, o sistema pecou e, como nós vivíamos um sistema, vamos dizer assim, de exceção, não tinha para quem apelar. Nós esperamos o fatídico dia. Foram feitas as marcações da cota 220 e, por incrível que pareça, o lago chegou exatamente ali. Nessa altura eu já era adulto, já estava na vida pública e conseguimos constatar. Para nós foi um choque, um luto total. Guaíra, do dia para a noite, paralisou. Ficou totalmente enlutada. Vou dar um exemplo: eu tinha restaurante no hotel, onde servíamos 50, 60, 70, 100 refeições por dia, mais o café da manhã. A partir do outro dia, você não tinha mais nada. Foi fechando tudo. Os hotéis de Guaíra foram fechando, os restaurantes foram fechando. Para se ter uma ideia, juntamente com o diretor do hotel, começamos a doar parte das louças e objetos do hotel, porque não tinha mais porquê. Paralisou. Isso ficou durante vários anos. Foram anos de total ostracismo econômico em Guaíra, porque perdemos a nossa fonte. Foi aí que veio a grande promessa. Na época, engenheiros e técnicos das Centrais Elétricas do Sul do Brasil, a Eletrosul, diziam que aqui seria construído o Complexo de Ilha Grande, acompanhado de ferrovia, rodovia e hidrelétrica. Teríamos uma usina para fazer a contenção dos dejetos de Itaipu Binacional, teríamos ferrovia, rodovia e hidrelétrica. Diziam que Guaíra jamais iria se lembrar das Sete Quedas. De certa maneira, diante do quadro que estávamos vivendo, quase aceitamos e acreditamos nessa ideia. Só que tudo sucumbiu e nada aconteceu. Chegou em 1989, 1990, e simplesmente o governo da época disse: “Está cancelado”. Não se faria mais nada. [00:35:23] ENTREVISTADOR: E quando elas foram sendo inundadas? Foi muito rápido, mas, ao mesmo tempo, pouco a pouco dava para ver a água subindo. Qual era a sensação? NEI: Demorou vários dias, várias semanas. Era uma sensação terrível, principalmente para quem não acreditava que aquilo aconteceria e estava vendo acontecer. Muita gente de Guaíra foi lá, os mais antigos também. Eu tive a oportunidade de ir até quando a água já estava chegando a um determinado ponto. Você via que o canal em si, o canal-base, o que nós chamávamos popularmente de canal, já estava totalmente nivelado. As quedas começaram a diminuir. Começou ali pela queda da ponte, que era praticamente a primeira de cima para baixo. A água começou a subir, e você via que a queda já era bem menor. E não tinha para quem reclamar. Não tinha. O fato estava consumado. [00:36:44] ENTREVISTADOR: E como foi dormir sem o som das Sete Quedas? NEI: Volto a repetir: nós ficamos totalmente à deriva, ficamos de luto, sem saber o que fazer. Não querendo me vitimizar, mas eu, de empresário, fui trabalhar como empregado, de porteiro no hotel, porque não tinha mais o que fazer. Esse foi o meu caso, e muitos foram embora. Muitos empresários deixaram suas propriedades e foram para outras regiões. Teve gente que foi para Mato Grosso, Rondônia, Curitiba, enfim. Foram deixando Guaíra porque não havia alternativa. A própria imprensa chegou a dizer que nós tínhamos nos tornado uma cidade fantasma em determinado período. [00:37:39] ENTREVISTADOR: Me fala mais sobre essa “cidade fantasma”. Como era Guaíra? Como era essa sensação de que aqui tinha, de fato, virado uma cidade fantasma? NEI: A cidade fantasma vem já com a questão da não construção do Complexo de Ilha Grande. Nós havíamos perdido a maior fonte de renda, a maior indústria propulsora da economia local. Aí nos prometeram um grande polo com esse complexo. Tanto é que fizeram mil e poucas casas em Guaíra para acomodar as pessoas e empresas que viriam construir a usina, a ferrovia e a rodovia, fazendo a transposição do Rio Paraná para o Mato Grosso do Sul. E isso não aconteceu. Ali foi o desastre total, porque era gente abandonando, gente indo embora. Aquele grupo de pessoas que veio para Guaíra tinha dado certo fomento à economia guairense. Os hotéis já haviam retomado um pouco daquilo que era possível fazer. E, a partir do momento em que foi decretado o cancelamento da obra do Complexo de Ilha Grande, foi quando a grande imprensa passou a chamar Guaíra de cidade fantasma. [00:39:12] ENTREVISTADOR: Antes de a gente ir para outra pergunta, queria que você falasse sobre o que sente em relação aos últimos anos em Guaíra. Você sente alguma espécie de redescobrimento, de renascimento da cidade? Compara essa Guaíra “cidade fantasma” com a Guaíra de hoje e com a forma como ela tenta se projetar para o futuro. NEI: Eu diria que Guaíra, nos últimos 20, 25 anos, saiu desse luto que viveu, saiu desse ostracismo econômico pelo qual passou. Através de diálogo e de um novo olhar, por meio de todos os setores da sociedade organizada de Guaíra — ainda que de maneira incipiente na indústria, no comércio — começou a encontrar novos caminhos. Veio a questão do comércio com o país vizinho, o Paraguai, o comércio de importados, e gestões que começaram a ter uma visão de não apenas reclamar, mas buscar alternativas junto ao governo estadual e ao governo federal para colocar Guaíra como uma cidade importante. Porque é importante dizer: Guaíra é um dos grandes polos de passagem entre o Norte e o Sul do país. Quem sai do Sul para atingir o Norte do Brasil passa por Guaíra. Foi aí que o comércio começou a se redistribuir e aumentar, a parte hoteleira melhorou, a gastronomia começou também a ganhar uma dimensão melhor e, sem dúvida, a conclusão da ponte sobre o Rio Paraná, substituindo a travessia por balsa, incrementou bastante isso. Eu diria que Guaíra vive uma nova fase, uma fase boa, principalmente agora, buscando o turismo de pesca esportiva, o turismo de aventura. A própria cultura está se levantando, se redescobrindo e colocando projetos em prática. Tivemos também, ainda que de forma acanhada, uma boa recompensa com um percentual maior dos royalties por parte de Itaipu. [00:42:03] ENTREVISTADOR: Então essa vai ser a nossa última pergunta. Conta para mim desde o início: como foi a distribuição dos royalties? Ela foi justa? Foi pouco benéfica para Guaíra até os dias de hoje? NEI: Muito bem. Quando se formou o Lago de Itaipu Binacional, através de todo o seu corpo jurídico e técnico, estabeleceu-se que as indenizações seriam baseadas nos metros quadrados de área inundada e nas benfeitorias que havia em cada propriedade e em cada cidade. Acontece que a cidade de Guaíra está exatamente no último ponto do alagamento, no último extremo. Então, a área em metros quadrados inundada aqui foi a menor. Sem dúvida alguma, foi a menor. No entanto, inundou-se a maior fonte de renda da cidade e uma das maiores belezas do mundo. Isso não foi levado em consideração. Por outro lado, a própria política local, regional e nacional não se ateve, não teve compromisso com Guaíra para fazer um questionamento junto à Itaipu Binacional, no sentido de que isso já tivesse sido considerado no momento da indenização e dos aportes destinados à cidade. Como isso não aconteceu, Guaíra ficou com um dos menores percentuais de royalties, um dos menores valores mensais em dinheiro. Como era cotado em dólar, o nosso percentual em dólar foi um dos menores. Houve lugares em que cidades tiveram áreas maiores submersas e recebiam cinco, seis, dez vezes mais do que nós, por causa desse critério de metros quadrados de área inundada. Aí houve demandas através da política local, juntamente com o governo do Estado, deputados e senadores, no sentido de reverter isso. Numa primeira etapa, levou acho que uns 15 anos e não aconteceu nada. Falava-se, discutia-se, até que, depois de muitos anos de briga, saiu alguma coisa — usando essa expressão —, mas ainda era muito pouco. Por fim, houve um projeto de uma pessoa que jamais podemos esquecer, que teve um papel importante: o então deputado Osmar Serraglio. Ele teve um projeto muito importante e, juntamente com a última gestão do prefeito Eraldo, conseguiram conscientizar os senadores da República e boa parcela dos deputados federais de que havia uma grande injustiça com o município de Guaíra, e que não era possível continuarmos de mãos cruzadas sem fazer nada. Se não me engano, dos 81 senadores, 70 votaram favoravelmente à proposição para o município de Guaíra. Jamais nada vai compensar a perda das Sete Quedas, na minha opinião. Jamais. Mas, pelo menos, é um alívio para a nossa infraestrutura local, para podermos prestar um bom atendimento à comunidade de Guaíra com esse percentual de royalties. [00:45:57] ENTREVISTADOR: Que maravilha. [CORTE / AJUSTE TÉCNICO] ──────────────────────────────────────── SEGUNDA PARTE — MEMÓRIAS A PARTIR DE FOTOGRAFIAS E RECORTES ──────────────────────────────────────── [00:46:04] ENTREVISTADOR: Você pode relaxar um pouquinho mais com a caixinha. Se estiver desconfortável, pode colocar na sua perna. Fica tranquilo. Você vai abrir a caixinha e vão ter algumas memórias, algumas coisinhas aí. Pega uma por uma e vai comentando. Quando quiser comentar, comenta; quando quiser só olhar, pode só olhar. Pode abrir. [00:46:32] NEI: Legal. Essa foto aqui já é de quando estávamos no finalzinho. Eu fiz questão de ir lá, porque as Sete Quedas estavam para terminar. E hoje essa foto é uma lembrança que ninguém mais vai poder ver daquele jeito. [00:46:56] ENTREVISTADOR: Pode olhar para você e, quando quiser, mostrar para a câmera ali atrás. [00:47:02] NEI: Eu fiz um comentário na época. Aqui ficou bem característica a palavra “ADEUS”, como uma despedida. E a pessoa que escreveu esse “adeus” deixou dois pingos de tinta que, para mim, representam duas lágrimas. Eu fiz esse comentário na época e agora é interessante trazer isso à memória. [00:47:36] ENTREVISTADOR: Pode continuar olhando para você mesmo. Assim está ótimo. [00:47:47] NEI: Aqui já é uma cena que nos demonstra tristeza. Mostra a tristeza de saber que hoje não temos mais isso, não existe mais a possibilidade de estarmos lá, naquele lugar onde a gente esteve. E assim vão vindo as memórias com essas fotos. Da mesma forma aqui: era um pedaço das Sete Quedas em que eu fazia essa caminhada três, quatro vezes por dia, levando turistas. Hoje só vem a memória. Sem dúvida alguma, isso nos deixa emocionados. Aqui está o canal também. Não tem como não se emocionar de lembrar que a gente vivenciou isso. Era o nosso caminho de casa, era o nosso pátio de casa. Essa foto aqui já nos traz uma certa indignação. Eu acompanhei também toda a construção dessas torres, que eram torres de transmissão para atingir o Mato Grosso do Sul. Isso nos deixa uma certa indignação porque, em função da construção daquilo que se dizia necessário, que precisava ser feito para o desenvolvimento econômico, social e industrial do Brasil, nós tivemos que perder essa beleza. Aqui também é uma foto aérea que dá uma dimensão das Sete Quedas. Eu já vi vários quadros assim e presenciei aquilo. Nesta foto aérea, todo esse percurso eu fazia caminhando com os turistas, passo a passo, para chegar do início ao final. [00:50:18] NEI: E aqui está aquilo que comentamos anteriormente, a loucura que se tornou o final das Sete Quedas. Estou com uma foto que representa exatamente a ponte do fatídico acidente de 17 de janeiro de 1982. [00:50:49] ENTREVISTADOR: Dá só uma leve viradinha na foto para a câmera. NEI: Essa foto demonstra aquilo que eu falei sobre a loucura que foi o final. Acho que todo mundo queria conhecer as Sete Quedas ainda vivas. Quem já conhecia voltou para ver pela última vez. Era uma loucura. Aqui ainda temos a presença da antiga ponte do fatídico acidente que nós presenciamos, vivenciamos, sofremos. Aqui, mais um dos saltos das Sete Quedas que vêm à memória. A própria foto representa a neblina que se formava. Você tomava uma chuva ao chegar perto, porque a gente conseguia chegar muito próximo da queda. [00:51:58] NEI: E aqui eu tenho mais um saudosismo triste para lembrar. Essa foto representa uma das grandes vivências da minha infância. Um belo dia fui levar um casal de turistas. O marido era de origem japonesa. Eles chegaram à tarde, já no final da tarde, e eu disse: “Agora é impossível, porque não tem iluminação. Marcamos para amanhã cedo para visitar as Sete Quedas”. Eles estavam em lua de mel. Ele gostava muito de fotografia, estava com uma máquina profissional. Quando nós descemos para ele fotografar, em determinado momento ele entregou a máquina para a esposa e escorregou. Foi levado pelas águas. Eu, ainda criança, com oito ou nove anos de idade, presenciei as Sete Quedas engolindo aquele homem exatamente neste lugar da foto. Foi uma coisa que marcou muito a minha vida. Chamamos os guardas, chamamos as pessoas. Eu nem sei dizer se ele foi encontrado, porque ali era um turbilhão de água. Era algo terrível. [00:53:44] NEI: Aqui está o ângulo da ponte. Era uma ponte que balançava, e muita gente tinha mania de subir nela e balançar. Havia também muita gente que sentia medo ao atravessar. Vamos ver mais aqui. [00:54:21] NEI: Aqui, se não me falha a memória, estou vendo uma foto do lado paraguaio. Exatamente aqui nós tínhamos a confluência, o canal, o Grande Canal. Do outro lado havia uma visão menor, naturalmente, mas o país vizinho, o Paraguai, e a comunidade de Salto del Guairá conseguiam ter uma vista parcial das Sete Quedas. Aqui, outra bela visão de um salto. Era um mais lindo que o outro. Se formos falar, não tem como fazer diferenciação entre um e outro. Aqui, tudo indica que estava num período de cheia, porque está bastante avolumado. [00:55:24] NEI: E assim vamos passando pela sequência de fotos das Sete Quedas. Esse aqui era o chamado “Saltinho”. Havia essa ponte, que fazia a ligação com uma das maiores ilhas que compunham as Sete Quedas. Naturalmente, praticamente todo o percurso era feito por pontes e passarelas. Era uma ilha bem grande. Depois dela havia outra ponte. Para ir ao Salto 14, que era o último salto, ainda tínhamos mais duas pontes. Então esse aqui é o famoso Saltinho. Na parte de cima dessa ponte havia um ponto que nós chamávamos de remanso. Era uma parte em que muita gente tomava banho, fazia piquenique. [00:56:37] ENTREVISTADOR: Pode continuar. Quando quiser comentar, comenta; quando não quiser, pode só olhar. Dá só uma viradinha um pouquinho para cá. Isso, está ótimo. [00:56:49] NEI: Aqui é mais uma ponte. Era a penúltima ponte, que fazia a travessia entre a ilha que acabei de citar e o trecho final. Tinha mais uma ponte, um canal, e depois chegávamos ao Salto 14, o último salto do Complexo de Sete Quedas. Aqui também, mais uma vista da ponte. Aqui nós temos as pontes. [00:57:31] NEI: E aqui eu volto a frisar: esse é, sem dúvida alguma, o salto mais bonito. Era o mais volumoso, onde aconteceu aquela tragédia que citei. A gente conseguia chegar muito perto. Como não havia tanta sinalização nem fiscalização, os turistas aproveitavam ao máximo. Pela força da água, formava-se aquela cascata, aquela névoa de água em cima do pessoal. Então esse era o salto mais volumoso. [00:58:11] NEI: Aqui vamos ver. Esse é um recorte. [00:58:14] [PAUSA TÉCNICA PARA TROCA DE BATERIA E AJUSTE DA POSIÇÃO DO MATERIAL] [00:58:41] ENTREVISTADOR: Podemos seguir na ordem em que você estava. [00:58:46] NEI: Aqui estamos com um recorte de jornal, provavelmente da época, cujo texto diz: “Último dia de visitação de Sete Quedas: 40 mil pessoas formaram fila de quilômetros para atingir Sete Quedas”. Quer dizer, aquilo que nós já comentamos é fato: isso aconteceu. Lembrando que, nesse episódio, a ponte já tinha sido reconstruída. Por incrível que pareça, depois de toda a tragédia que aconteceu e já no período final das Sete Quedas, ainda reconstruíram a ponte e ela foi aproveitada por alguns meses. A tragédia foi em janeiro e o lago se formou, se não me falha a memória, entre setembro e outubro. Isso aqui condiz com a realidade daquela época. [00:59:45] NEI: Essa aqui é bem icônica. É também uma foto aérea. Ela pega todo o dorso do canal e as cachoeiras. É bem interessante. Aqui, mais uma vez, aparece aquilo que eu sempre falava e explicava aos turistas: o salto mais bonito, o salto mais imponente das Sete Quedas. Nesta foto ele está numa dimensão um pouco diferente, mais alongada. [01:00:38] NEI: Aqui, mais uma vez, nós temos a ponte que fazia a travessia entre a ilha e o penúltimo espaço para chegar até o Salto 14. Ali nós já tínhamos o canal, um canal mestre. Nós tivemos algumas frases de efeito na época, mas já não surtiam efeito prático. Não conseguiam mais reverter o que já estava estabelecido. [01:01:35] NEI: Aqui diz: “Destruir Sete Quedas é crime, diz prefeito”. Eu costumo dizer que tudo o que vou falar é opinião minha, mas tem uma concepção coletiva. Na época, boa parte da comunidade atribuiu muita culpa ao gestor do município. Mas, na minha opinião, o gestor da época não tinha culpa. Ele era empregado do patrão, tinha que cumprir o que vinha de cima. Talvez seja injusto atribuir a ele a culpa pelo fim. Eu acho que isso não condiz com a verdade, porque o sistema vinha de cima e dizia: “Nós vamos construir uma usina; para construir uma usina, precisamos sufocar as Sete Quedas”. Ele simplesmente cumpriu. Ficou 21 anos no poder como gestor do município, como empregado do governo federal. [01:02:46] NEI: E aqui a frase diz o seguinte: “Figueiredo: é uma pena”. Não vou ler o texto porque não há necessidade. Eu estava ali quando ele e sua comitiva saíram em um Galaxie. Ele deu uma passada muito rápida pelas Sete Quedas. Eu estava muito próximo, junto com outras pessoas, acenando para ele parar, para a gente perguntar, mas ele não parou. Ele simplesmente foi embora. Fez um contorno pelas Sete Quedas, acompanhado por segurança e várias viaturas atrás. Várias pessoas gritavam: “Pare! Pare! Queremos perguntar...”, mas ele não parou. E aqui está a frase: “É uma pena”. É muito pouco para aquilo tudo. [01:03:43] NEI: Aqui eu acredito que sejam autoridades. A imagem está um pouco ofuscada. ENTREVISTADOR: O próprio Figueiredo. NEI: Sim. Mas o relato que fiz é esse: quando ele estava dentro do carro, todo mundo pediu para ele parar e ele não parou. [01:04:12] NEI: E aqui é aquilo que eu disse na entrevista anterior: quando começou a se formar o lago, realmente só havia o que lamentar, sofrer e sentir todo esse episódio. Aqui nós já temos praticamente uma dimensão do lago. Provavelmente há uma numeração indicando onde ficavam partes geográficas das Sete Quedas. Essas fotos aqui eu vou passando, porque já retratam o complexo e nós já falamos bastante sobre as Sete Quedas. Aqui, da mesma forma, é mais uma dimensão de uma das quedas d’água. [01:06:06] NEI: E aqui, essa foto com essa imensidão humana e esse amontoado de ônibus, veículos, Kombis e vans retrata bem aquilo que eu falei há pouco. Foi uma verdadeira enxurrada humana, vamos dizer assim. Era muita gente, muita gente. A foto retrata pessoas descendo a pé para chegar às Sete Quedas, porque já não havia como entrar com os veículos. Foi realmente uma loucura. [01:06:56] NEI: Aqui já é uma foto que retrata o período com pavimentação asfáltica, já no final, nos últimos anos de visitação. Até então era estrada de chão. Essa torre de energia me traz uma lembrança. Ela ficava muito próxima da casa onde eu morei, uns quinhentos, seiscentos metros. A minha casa ficava aqui do lado direito. Essa torre está no continente; não está em uma ilha, porque algumas ficaram em ilhas. [01:07:51] NEI: E, para fecharmos, quero agradecer a todos por essa surpresa. A gente sente muito. Aqui está mais uma visão de uma das cachoeiras das Sete Quedas, compondo todo aquele complexo maravilhoso. Aquilo que jamais, jamais o homem poderia ter feito. Mas, infelizmente, não sei se podemos dizer que, pelo progresso, a gente tem que sacrificar. Talvez essa fosse a visão da época daqueles que detinham o poder. [01:08:25] ENTREVISTADOR: Maravilha. Corta, gente. [FIM DA ENTREVISTA]
ENTREVISTA #01
Ney José Neotte
Ney Neotte foi nascido e criado em Guaíra e nas Sete Quedas. Guia turístico desde pequeno, tornou-se cozinheiro e depois vereador quando as cachoeiras foram inundadas. Suas histórias trazem uma perspectiva única de como foi viver à beira das sete quedas.

ENTREVISTA #02
Ana Menel
Ana Menel foi professora e artista multifacetada; contadorade histórias e artista plástica, levou a história real e ahistória mítica de Guaíra para milhares de ouvidos de estudantes, turistas e curiosos. Infelizmente, faleceu em 2026, antes de ver nossos projetos das Sete Quedas ganharem vida.

Transcrição da entrevista completa [00:00:00] EQUIPE: Preparação das câmeras A e B e início da gravação. [00:00:18] ENTREVISTADOR: Nei, vamos começar falando um pouquinho da sua infância. Como foi a sua infância nas Sete Quedas? NEI: A minha infância nas Sete Quedas foi, sem dúvida alguma, uma experiência maravilhosa, porque nós vivíamos em função das Sete Quedas desde garotos, desde crianças. Eu, meus irmãos, minhas irmãs, meu pai, nós vivíamos e tínhamos o porquê. Na verdade, Sete Quedas era a grande indústria sem chaminés que nós tínhamos em Guaíra. [00:00:59] ENTREVISTADOR: E como é que foi? Você começou a trabalhar lá muito cedo. Me conta um pouco desse trabalho, desde criancinha. NEI: Sim, eu comecei nas Sete Quedas muito cedo, em torno de sete anos de idade. Eu já comecei a lavar carros. Depois, chegando próximo dos nove até os onze anos, eu levava turistas nas Sete Quedas, até que fui convidado pelo único restaurante que tinha lá para ser garçom. Naquele tempo, eu já fui trabalhar como funcionário. Meu pai era operário da usina; tinha uma pequena usina hidrelétrica lá. Meu pai era operário, e eu e a minha irmã, mais velha que eu, vendíamos souvenirs, lembranças das Sete Quedas, tudo o que tinha como tema as Sete Quedas. Então nós vivíamos literalmente das Sete Quedas. [00:02:07] ENTREVISTADOR: E como é que eram elas, sentimentalmente? Como era estar naquele lugar? NEI: Todos os turistas que vinham e que a gente acompanhava — como os demais colegas que acompanhavam os turistas — tinham aquele impacto, uma emoção muito grande. Porque as Sete Quedas tinham um trajeto de dois quilômetros e meio, onde você passava por pontes, passarelas, ilhas, até chegar do início ao final. Então, a cada ângulo de visão era uma emoção, porque era uma cachoeira muito forte, muito emocionante. Aquela brisa, o barulho, o estrondo... Para nós que vivíamos ali, o dia a dia tinha essa mesma impressão, essa emoção de viver ali, porque era encantador para quem visitava as Sete Quedas e via toda aquela beleza natural que nós tínhamos. [00:03:15] ENTREVISTADOR: Faz de conta que eu sou um turista, vim de longe, acabei de chegar em Guaíra, não sei nada sobre as Sete Quedas e caí com você para você me guiar. O que você vai falar para mim? NEI: Primeiramente, a gente sempre se identificava, porque nós tivemos, ainda que de forma bastante rudimentar, algumas orientações de pessoas mais experientes, do pessoal ligado ao turismo. O seu Ernesto Mann era uma pessoa muito ligada ao turismo de Guaíra. Então nós nos apresentávamos e acompanhávamos o turista dizendo: “Olha, aqui, a primeira ponte era uma ponte de ferro”. Nós mostrávamos que, indo no sentido das Sete Quedas, do lado esquerdo do canal estava o país vizinho, o Paraguai. Acima estava o Mato Grosso do Sul. Nós caminhávamos, víamos a segunda ponte, que é aquela do fatídico acidente, falávamos das cachoeiras e assim por diante, até chegar ao que nós chamávamos, na época, de último salto, o Salto 14. [00:04:27] ENTREVISTADOR: E quando chegava no Salto 14, como é que você apresentava esse salto para as pessoas? NEI: Apresentava como o maior salto em quedas d’água. [00:04:39] [Interrupção técnica causada por ruído externo. A equipe interrompe e retoma a pergunta.] [00:05:39] ENTREVISTADOR: Vamos lá, então. Eu estou de frente para o Salto 14. Acabei de chegar em Guaíra. Você vai me apresentar ele? NEI: O Salto 14 era o maior em volume d’água, o maior em extensão, porque praticamente partia de um extremo a outro, chegando quase ao país vizinho, o Paraguai, já quase na divisa. E ele era intransponível a partir dali. Então ele era o último. Você não tinha como acessar mais lugar nenhum por ele. Era interessante: você tinha uma visão de frente, uma visão ampla, que pegava todo o ângulo. Depois fazia um contorno, uma pequena caminhada por dentro da mata, e conseguia pegar mais um canto dele. Então ele era o maior salto que compunha as Sete Quedas. [00:06:32] ENTREVISTADOR: E quando as pessoas chegavam nele, qual era a reação delas? NEI: De grande admiração, de impacto, porque era uma coisa fenomenal. Principalmente ele, porque era o que proporcionava o maior som, o maior barulho, pela sua extensão, pelo seu volume d’água. [00:06:55] ENTREVISTADOR: E qual é a primeira memória que você tem das Sete Quedas? NEI: A primeira memória... Como eu praticamente me criei lá dentro, é aquela memória de todo dia ser um fato novo, apesar de a gente ser criança. Você estava ali recebendo pessoas que vinham com a curiosidade de conhecer. E lá tinha uma pequena usina; essa usina fornecia, inclusive, energia elétrica gratuitamente para quem morava lá. Então era uma coisa interessante, porque nós não pagávamos luz. Tinha mais ou menos umas sete ou oito residências, alguns comércios e o restaurante onde eu fui trabalhar depois. Brincávamos lá também. Eu praticamente não tive infância, porque com sete anos já comecei a trabalhar, mas era gostoso. Todo dia ganhávamos presentes dos turistas. E era muito bom, porque financeiramente a gente era de uma renda inferior. Então, aproveitando essa questão da memória, um belo dia, por volta de 1969, chegaram quatro turistas jovens do Rio de Janeiro em um carro chamado Gordini — um carro que muita gente hoje nem sabe o que era. [00:08:39] [Pequena interrupção técnica. A equipe pede que a história seja retomada desde o início.] [00:09:28] ENTREVISTADOR: Nei, está rodando. Conta essa história dos turistas desde o começo, por favor. NEI: Perfeito. Um belo dia, nessa minha memória de criança, acho que por volta de 1969, chegaram quatro turistas jovens em um carro chamado Gordini, um carro que muita gente hoje não sabe o que era. Eles eram do Rio de Janeiro. Pediram para eu levá-los, e eu fui. Mostrei as Sete Quedas, contei toda a história, e eles ficaram encantados. Depois foram para o restaurante que tinha lá — naquela época eu ainda não trabalhava nesse restaurante —, almoçaram e, na hora de ir embora, eu não sei por qual razão, hoje não me lembro mais, eles tinham um cabrito, literalmente um cabritinho dentro do carro, e me deram de presente. Disseram: “Olha, nós não vamos levar”. Eu não sei por que estavam com aquele cabrito, mas me deram de presente. Eu fiquei feliz da vida, como criança. Levei para casa, cheguei para o meu pai e para a minha mãe, contei, e nós cuidamos do cabrito. [00:11:00] ENTREVISTADOR: Vamos falar mais um pouquinho. Qual era o seu lugar ou momento preferido nas Sete Quedas? NEI: Nas Sete Quedas nós ficávamos a postos onde tinha uma barragem, o canal. Logo abaixo do canal vinha um bosque, e nós ficávamos bem na ponta desse bosque, porque era uma disputa muito grande entre todos. Havia várias crianças e jovens adolescentes que trabalhavam levando turistas, e o fluxo era significativo, principalmente nos finais de semana. Então nós ficávamos a postos para pré-escolher. Naquele tempo, aparecia um carro como uma Veraneio, um Dodge Dart, um Galaxie; mais para frente vieram a TL e a Variant. Eram carros que, supostamente, eram de turistas mais afortunados. A gente prestava atenção nisso porque a gorjeta também era melhor. Nós não tínhamos uma tabela, não existia uma tabela; era tudo muito simples. A gente levava, fazia todo aquele trabalho de informação, de mostrar, de contar sobre os saltos, e na volta eles nos davam um cachê, que ficava a critério do turista. [00:12:29] ENTREVISTADOR: E como os sons das Sete Quedas acompanhavam a sua vida? O quanto eles eram importantes para você? NEI: Esses sons das Sete Quedas eram extremamente interessantes. Meu pai, por exemplo, plantava; nós tínhamos uma área ali mesmo onde plantávamos. Pelo som das Sete Quedas, naquela época, você sabia de que posição vinha a chuva, a tempestade. Enfim, vários fatores você conseguia perceber através do barulho das Sete Quedas. Era muito interessante. Na época, pela lua você também sabia o que fazer em termos de plantação. E outra coisa que nós poderíamos dizer era sobre o clima com as Sete Quedas. Nós tínhamos um inverno muito rigoroso em Guaíra, que não existe mais. Hoje nós temos dias de frio, mas não temos mais aquele inverno. No período das Sete Quedas, o inverno em Guaíra era rigoroso durante os três meses de inverno. [00:14:05] ENTREVISTADOR: E como era morar em um dos lugares mais bonitos do mundo? NEI: Era, volto a repetir, entusiasmante. A gente era criança e, apesar das dificuldades financeiras, todos nós que morávamos ali éramos muito felizes, alegres, porque sempre nos deparávamos com pessoas diferentes, conversando, e a gente acabava sendo um elo de ligação. Quando fui trabalhar no restaurante, ficou ainda mais entusiasmante, porque a gente atendia, contava histórias. Esse restaurante era especializado em peixe; não tínhamos outro cardápio, era tudo à base de peixe. Fazíamos vários pratos à base de peixe, todos capturados no Rio Paraná para atender os turistas. Era um fluxo de movimento muito grande. A gente estava sempre se deparando com novidades. Eu trabalhava de manhã no restaurante, almoçava, andava quatro quilômetros e meio até o Colégio Mendes Gonçalves para estudar, fazer o meu primário, voltava depois e trabalhava mais um período. Assim era. Eu fiz todo o meu primário e ainda um pedacinho do colegial indo e voltando dessa forma. Naquele tempo não tinha pavimentação, asfalto, sistema de transporte coletivo, nada. Você vinha a pé. [00:15:55] ENTREVISTADOR: Vou pular um pouquinho uma pergunta que estava mais para frente. Você falou dos peixes, da alimentação. Você foi premiado diversas vezes com o Pintado na Telha e com pratos de peixe. Me conta sobre esse prato, como você aprendeu, e depois a gente fala um pouco sobre como o descaso com o rio e com esses peixes prejudicou a culinária típica guairense. NEI: Perfeito. Vamos começar lá na base, quando a pesca era farta em Guaíra. Nesse restaurante em que eu trabalhei, e depois nas peixarias de Guaíra, havia muito peixe. Esse restaurante se chamava Restaurante do Salto e tinha peixaria também. Havia vários pescadores profissionais na época. Tem um fato curioso que é preciso contar historicamente. O seu Miguel, que era o proprietário do restaurante, recebia os pescadores. Eles perguntavam: “Seu Miguel, o senhor precisa de peixe hoje?”. Ele abria os freezers, e pela fartura de peixe dizia: “Bom, hoje você me traz só dourado e pintado, porque jaú, pacu e [nome de peixe pouco nítido] ainda tem bastante”. Para vocês terem uma ideia, isso é história que eu vivi, que acompanhei. Havia uma fartura muito grande de peixe. Depois, ainda continuou existindo uma quantidade razoável, mas, após o fechamento do lago, houve uma pesca predatória muito grande no início da formação do reservatório. E aí tivemos uma diminuição muito grande do pescado em Guaíra, principalmente dos chamados pescados nobres, como pintado e dourado. Foi um problema sério. Já não era mais aquela fartura, embora ainda houvesse uma quantidade significativa. Eu cresci, vim para o comércio de Guaíra e, na época em que participei do poder público, tive a ideia de criar o Pintado na Telha como prato típico de Guaíra. Inclusive, a lei é de minha autoria e foi sancionada pela gestão da época. Nós criamos o Pintado na Telha. Não era “peixe na telha”; era “Pintado na Telha”. Ocorre que, com o passar dos anos, esse peixe ficou bastante difícil de capturar no lago e no Rio Paraná, e esse prato acabou ficando um pouco esquecido. Mas ele ainda existe, ainda é servido em hotéis de Guaíra. Eu participei de vários concursos e tive a felicidade de, por várias vezes, ser campeão do Pintado na Telha. Depois vim para o comércio de eventos, onde também trabalhávamos com peixe. [00:19:17] ENTREVISTADOR: Vamos terminar só mais uma aqui e depois a gente dá uma pausa. Fala para mim sobre o turismo às vésperas do fim das Sete Quedas. NEI: O turismo no final das Sete Quedas foi uma loucura. Vamos usar essa expressão: foi uma loucura. Nessa época eu tinha um restaurante no Hotel Guarujá II. Era algo absurdo. Só para vocês terem uma ideia, a fila de ônibus para chegar às Sete Quedas vinha até a Igrejinha de Pedra; depois o pessoal ia a pé. Não tinha como colocar carro no pátio das Sete Quedas. No hotel, para se ter uma ideia, nós alugávamos até o escritório do diretor porque não tinha vaga. Nós tínhamos amizade com um hospital aqui de Guaíra, na época o Hospital Santa Rita. O médico era nosso amigo. Quando havia leito vago, chegaram a alugar leitos para turistas, porque não tinha mais acomodação. E isso num período em que Guaíra tinha vários hotéis, de categorias inferiores e superiores, restaurantes, churrascarias, enfim. Era tudo lotado. Eu atribuo o episódio da queda da ponte ao excesso de peso e à falta de cuidado e fiscalização, porque aquilo era uma loucura. Eram milhares de pessoas passando ao mesmo tempo por aquelas passarelas, por aquelas pontes. [00:21:08] [PAUSA TÉCNICA] [00:21:20] ENTREVISTADOR: Então, talvez um dos dias mais tristes que você tenha vivido ali nas Sete Quedas. Onde você estava quando soube do acidente na ponte? E quando você chegou lá, o que encontrou? NEI: Nesse fatídico acidente, eu estava exatamente no hotel onde tinha o restaurante. Como eu estava dizendo, havia muita gente visitando Guaíra. Eu tinha acabado de construir uma casa e a havia alugado para dois casais do interior de São Paulo, porque o hotel estava lotado. Eu os hospedei nessa casa. De manhã, eles foram tomar o café e seguiram para as Sete Quedas. Por volta das nove, nove e pouco da manhã, veio a triste notícia. Nesse momento, eu fui, juntamente com mais algumas pessoas, me deslocando rapidamente. Cheguei ao local do acidente em torno de quarenta a quarenta e cinco minutos depois. Ainda havia pessoas penduradas, gritos, pessoas ilhadas do outro lado e muita gente do lado que poderíamos chamar de continente. Foi uma coisa absurda. Todo mundo em pavor, desesperado, gritos, choro, e você vendo as pessoas. Muitos já tinham sido levados pela corredeira. O João Lima Moraes, o popular João Mandi, estava ali e teve um papel importante no auxílio ao resgate, de onde ele estava, ali nas pedras. Foi uma coisa terrível, terrível. [00:23:22] ENTREVISTADOR: E me conta como foi o dia seguinte ao acidente. As pessoas ligando, tentando entrar em contato com familiares, poucos orelhões, poucos telefones, hotéis... Como foi essa confusão? NEI: Naquele tempo só existiam fax e telefone fixo. Inclusive no hotel. No Hotel Guarujá II foi montada toda a estrutura de jornalismo do Brasil. Foi ali que vieram as televisões da época, O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo, pessoal de Londrina, enfim, jornais escritos, falados, televisionados, tudo. Ali foi a central. Só que demorava para você passar a matéria. Por exemplo, você mandava uma matéria de manhã para ser exibida só à noite. Ali foi toda a central de divulgação. Foi uma tragédia que tomou proporção mundial. Guaíra ficou estarrecida, ficou de luto. Começaram a chegar familiares, e havia familiares que não tinham contato, porque a comunicação era difícil. Na época, não se sabia ao certo, mas o número oficial de mortos foi 32. [00:24:47] ENTREVISTADOR: Você participou da homenagem final, quando os indigentes foram enterrados no cemitério? Você estava lá ou soube como foi esse momento? NEI: Exatamente nesse dia, não. Mas, na época, eu já tinha uma ligação forte com o comércio de Guaíra e conhecia o secretário responsável pela pasta. Fui até ele. Como nós não tínhamos aqui na cidade estrutura para fazer reconhecimento dos corpos, autópsia e tudo aquilo, eu pedi a ele para entrar no cemitério e ver. Foi um momento que me marcou muito, porque eu contei: havia 19 corpos, todos colocados de maneira rudimentar, esperando vir de fora a Polícia Científica para fazer a autópsia. Naquele momento havia 19 corpos ali. Posteriormente, a grande maioria foi levada, após a identificação, por seus familiares. E, se não me falha a memória, dois ou três foram enterrados como indigentes, porque não apareceu familiar, não apareceu ninguém. [00:26:08] ENTREVISTADOR: E como foi essa busca pelos corpos, que durou quase um mês? NEI: A busca foi extremamente difícil, pelo fato de ser um canal de grande volume d’água e de corredeira muito forte. Isso foi levando os corpos. Houve corpos encontrados a cem quilômetros daqui, rio abaixo. Muitos ficaram enroscados também nas grotas de pedra. Por isso, até hoje, não se tem literalmente a certeza de que foram só 32 mortos. Foi uma coisa muito triste. Houve corpos retirados da água vários dias depois, em um estado que dificultava até a identificação. [00:26:59] [AJUSTE TÉCNICO E NOVO CORTE DE CÂMERA] [00:27:17] ENTREVISTADOR: Vamos voltar ao acidente da ponte, último assunto. Toda essa tragédia aconteceu e alguém tentou colocar a culpa sobre uma pessoa, sobre [nome pouco nítido na gravação]. Você pode me contar como foi essa tentativa? NEI: Com relação a esse fato, que foi atribuído ao Pedimar Porã, que era indígena: ele não era uma pessoa muito antiga ali, mas eu o conheci, conversávamos pouco, como todos conversavam. Na minha opinião — e é só uma opinião pessoal — precisavam arrumar um bode expiatório para alguma coisa. Eu não acredito jamais que ele faria isso, até porque ele era zelador, cuidava dali, estava sempre, vamos dizer assim, vigilante dentro do pátio das Sete Quedas, de todo o complexo. Então eu atribuo isso à criação de um bode expiatório. Estávamos vivendo um momento em que não deram importância para ninguém para acabar com as Sete Quedas. Quando veio essa tragédia, precisavam atribuir a alguém. A formação do lago foi no mesmo ano. Então atribuíram isso a ele. Essa é a minha opinião. [00:29:01] ENTREVISTADOR: Você pode repetir só essa frase? “Eles criaram um bode expiatório.” NEI: Eles criaram um bode expiatório. [00:29:09] ENTREVISTADOR: Vamos fazer uma comparação que eu sei que você gosta de fazer: Sete Quedas e Cataratas do Iguaçu. NEI: Com relação a essa comparação, eu gostaria de fazer um adendo. A natureza foi perfeita. Ela criou duas belezas, eu diria, na mesma direção. O homem, dentro do seu processo de transformação, quis, na sua preponderância, fazer a maior usina do mundo e, para isso, teve que sacrificar uma dessas maravilhas da natureza. Eu conheci as Sete Quedas desde criança, vivi dentro delas. Tive também, ainda bem jovem, a experiência de conhecer as Cataratas do Iguaçu e depois estive lá outras vezes. Na minha visão, as Cataratas do Iguaçu eram bonitas — e são bonitas até hoje; é um dos locais mais visitados do mundo —, só que elas têm uma visão panorâmica praticamente única. Você chega pelo lado brasileiro — elas também podem ser visitadas pelo lado argentino — e tem aquela visão. As Sete Quedas, não. Nas Sete Quedas você cansava. Tinha que fazer aquela enorme caminhada de dois quilômetros e meio e, para cada lado que olhava, tinha uma cachoeira, tinha uma queda, tinha todo o esplendor da natureza ao longo daquele processo de caminhada. Então, para mim, as Sete Quedas eram extremamente superiores às Cataratas do Iguaçu. [00:31:04] ENTREVISTADOR: Vamos começar a falar um pouquinho da despedida. Como foi quando você soube que as Sete Quedas iam acabar? As pessoas acreditaram de começo? Como foi essa notícia? NEI: Eu quero voltar um pouquinho, bem no início. Quando se falou da construção da Usina de Itaipu, que formaria o lago e deixaria as Sete Quedas submersas, eu ainda era criança. Meu pai era operário lá dentro, fazia parte de um órgão do governo ligado ao que hoje vem a ser a nossa Copel. Ele era funcionário dessa empresa, chamada Minas e Energia. Sendo operário, meu pai acompanhou os engenheiros e técnicos, carregando aparelhos de topografia, quando começaram a fazer as demarcações. Eles iam em vários pontos, subindo desde Foz do Iguaçu até Guaíra. Colocavam uma marca metálica, de bronze, que indicava a graduação, a cota que a água atingiria. Eu lembro que, apesar de ser criança, ouvia os mais velhos comentarem que jamais o homem teria capacidade de acabar com uma beleza daquela. Que não teria. Bom, erramos. Guaíra talvez tenha pecado, o sistema pecou e, como nós vivíamos um sistema, vamos dizer assim, de exceção, não tinha para quem apelar. Nós esperamos o fatídico dia. Foram feitas as marcações da cota 220 e, por incrível que pareça, o lago chegou exatamente ali. Nessa altura eu já era adulto, já estava na vida pública e conseguimos constatar. Para nós foi um choque, um luto total. Guaíra, do dia para a noite, paralisou. Ficou totalmente enlutada. Vou dar um exemplo: eu tinha restaurante no hotel, onde servíamos 50, 60, 70, 100 refeições por dia, mais o café da manhã. A partir do outro dia, você não tinha mais nada. Foi fechando tudo. Os hotéis de Guaíra foram fechando, os restaurantes foram fechando. Para se ter uma ideia, juntamente com o diretor do hotel, começamos a doar parte das louças e objetos do hotel, porque não tinha mais porquê. Paralisou. Isso ficou durante vários anos. Foram anos de total ostracismo econômico em Guaíra, porque perdemos a nossa fonte. Foi aí que veio a grande promessa. Na época, engenheiros e técnicos das Centrais Elétricas do Sul do Brasil, a Eletrosul, diziam que aqui seria construído o Complexo de Ilha Grande, acompanhado de ferrovia, rodovia e hidrelétrica. Teríamos uma usina para fazer a contenção dos dejetos de Itaipu Binacional, teríamos ferrovia, rodovia e hidrelétrica. Diziam que Guaíra jamais iria se lembrar das Sete Quedas. De certa maneira, diante do quadro que estávamos vivendo, quase aceitamos e acreditamos nessa ideia. Só que tudo sucumbiu e nada aconteceu. Chegou em 1989, 1990, e simplesmente o governo da época disse: “Está cancelado”. Não se faria mais nada. [00:35:23] ENTREVISTADOR: E quando elas foram sendo inundadas? Foi muito rápido, mas, ao mesmo tempo, pouco a pouco dava para ver a água subindo. Qual era a sensação? NEI: Demorou vários dias, várias semanas. Era uma sensação terrível, principalmente para quem não acreditava que aquilo aconteceria e estava vendo acontecer. Muita gente de Guaíra foi lá, os mais antigos também. Eu tive a oportunidade de ir até quando a água já estava chegando a um determinado ponto. Você via que o canal em si, o canal-base, o que nós chamávamos popularmente de canal, já estava totalmente nivelado. As quedas começaram a diminuir. Começou ali pela queda da ponte, que era praticamente a primeira de cima para baixo. A água começou a subir, e você via que a queda já era bem menor. E não tinha para quem reclamar. Não tinha. O fato estava consumado. [00:36:44] ENTREVISTADOR: E como foi dormir sem o som das Sete Quedas? NEI: Volto a repetir: nós ficamos totalmente à deriva, ficamos de luto, sem saber o que fazer. Não querendo me vitimizar, mas eu, de empresário, fui trabalhar como empregado, de porteiro no hotel, porque não tinha mais o que fazer. Esse foi o meu caso, e muitos foram embora. Muitos empresários deixaram suas propriedades e foram para outras regiões. Teve gente que foi para Mato Grosso, Rondônia, Curitiba, enfim. Foram deixando Guaíra porque não havia alternativa. A própria imprensa chegou a dizer que nós tínhamos nos tornado uma cidade fantasma em determinado período. [00:37:39] ENTREVISTADOR: Me fala mais sobre essa “cidade fantasma”. Como era Guaíra? Como era essa sensação de que aqui tinha, de fato, virado uma cidade fantasma? NEI: A cidade fantasma vem já com a questão da não construção do Complexo de Ilha Grande. Nós havíamos perdido a maior fonte de renda, a maior indústria propulsora da economia local. Aí nos prometeram um grande polo com esse complexo. Tanto é que fizeram mil e poucas casas em Guaíra para acomodar as pessoas e empresas que viriam construir a usina, a ferrovia e a rodovia, fazendo a transposição do Rio Paraná para o Mato Grosso do Sul. E isso não aconteceu. Ali foi o desastre total, porque era gente abandonando, gente indo embora. Aquele grupo de pessoas que veio para Guaíra tinha dado certo fomento à economia guairense. Os hotéis já haviam retomado um pouco daquilo que era possível fazer. E, a partir do momento em que foi decretado o cancelamento da obra do Complexo de Ilha Grande, foi quando a grande imprensa passou a chamar Guaíra de cidade fantasma. [00:39:12] ENTREVISTADOR: Antes de a gente ir para outra pergunta, queria que você falasse sobre o que sente em relação aos últimos anos em Guaíra. Você sente alguma espécie de redescobrimento, de renascimento da cidade? Compara essa Guaíra “cidade fantasma” com a Guaíra de hoje e com a forma como ela tenta se projetar para o futuro. NEI: Eu diria que Guaíra, nos últimos 20, 25 anos, saiu desse luto que viveu, saiu desse ostracismo econômico pelo qual passou. Através de diálogo e de um novo olhar, por meio de todos os setores da sociedade organizada de Guaíra — ainda que de maneira incipiente na indústria, no comércio — começou a encontrar novos caminhos. Veio a questão do comércio com o país vizinho, o Paraguai, o comércio de importados, e gestões que começaram a ter uma visão de não apenas reclamar, mas buscar alternativas junto ao governo estadual e ao governo federal para colocar Guaíra como uma cidade importante. Porque é importante dizer: Guaíra é um dos grandes polos de passagem entre o Norte e o Sul do país. Quem sai do Sul para atingir o Norte do Brasil passa por Guaíra. Foi aí que o comércio começou a se redistribuir e aumentar, a parte hoteleira melhorou, a gastronomia começou também a ganhar uma dimensão melhor e, sem dúvida, a conclusão da ponte sobre o Rio Paraná, substituindo a travessia por balsa, incrementou bastante isso. Eu diria que Guaíra vive uma nova fase, uma fase boa, principalmente agora, buscando o turismo de pesca esportiva, o turismo de aventura. A própria cultura está se levantando, se redescobrindo e colocando projetos em prática. Tivemos também, ainda que de forma acanhada, uma boa recompensa com um percentual maior dos royalties por parte de Itaipu. [00:42:03] ENTREVISTADOR: Então essa vai ser a nossa última pergunta. Conta para mim desde o início: como foi a distribuição dos royalties? Ela foi justa? Foi pouco benéfica para Guaíra até os dias de hoje? NEI: Muito bem. Quando se formou o Lago de Itaipu Binacional, através de todo o seu corpo jurídico e técnico, estabeleceu-se que as indenizações seriam baseadas nos metros quadrados de área inundada e nas benfeitorias que havia em cada propriedade e em cada cidade. Acontece que a cidade de Guaíra está exatamente no último ponto do alagamento, no último extremo. Então, a área em metros quadrados inundada aqui foi a menor. Sem dúvida alguma, foi a menor. No entanto, inundou-se a maior fonte de renda da cidade e uma das maiores belezas do mundo. Isso não foi levado em consideração. Por outro lado, a própria política local, regional e nacional não se ateve, não teve compromisso com Guaíra para fazer um questionamento junto à Itaipu Binacional, no sentido de que isso já tivesse sido considerado no momento da indenização e dos aportes destinados à cidade. Como isso não aconteceu, Guaíra ficou com um dos menores percentuais de royalties, um dos menores valores mensais em dinheiro. Como era cotado em dólar, o nosso percentual em dólar foi um dos menores. Houve lugares em que cidades tiveram áreas maiores submersas e recebiam cinco, seis, dez vezes mais do que nós, por causa desse critério de metros quadrados de área inundada. Aí houve demandas através da política local, juntamente com o governo do Estado, deputados e senadores, no sentido de reverter isso. Numa primeira etapa, levou acho que uns 15 anos e não aconteceu nada. Falava-se, discutia-se, até que, depois de muitos anos de briga, saiu alguma coisa — usando essa expressão —, mas ainda era muito pouco. Por fim, houve um projeto de uma pessoa que jamais podemos esquecer, que teve um papel importante: o então deputado Osmar Serraglio. Ele teve um projeto muito importante e, juntamente com a última gestão do prefeito Eraldo, conseguiram conscientizar os senadores da República e boa parcela dos deputados federais de que havia uma grande injustiça com o município de Guaíra, e que não era possível continuarmos de mãos cruzadas sem fazer nada. Se não me engano, dos 81 senadores, 70 votaram favoravelmente à proposição para o município de Guaíra. Jamais nada vai compensar a perda das Sete Quedas, na minha opinião. Jamais. Mas, pelo menos, é um alívio para a nossa infraestrutura local, para podermos prestar um bom atendimento à comunidade de Guaíra com esse percentual de royalties. [00:45:57] ENTREVISTADOR: Que maravilha. [CORTE / AJUSTE TÉCNICO] ──────────────────────────────────────── SEGUNDA PARTE — MEMÓRIAS A PARTIR DE FOTOGRAFIAS E RECORTES ──────────────────────────────────────── [00:46:04] ENTREVISTADOR: Você pode relaxar um pouquinho mais com a caixinha. Se estiver desconfortável, pode colocar na sua perna. Fica tranquilo. Você vai abrir a caixinha e vão ter algumas memórias, algumas coisinhas aí. Pega uma por uma e vai comentando. Quando quiser comentar, comenta; quando quiser só olhar, pode só olhar. Pode abrir. [00:46:32] NEI: Legal. Essa foto aqui já é de quando estávamos no finalzinho. Eu fiz questão de ir lá, porque as Sete Quedas estavam para terminar. E hoje essa foto é uma lembrança que ninguém mais vai poder ver daquele jeito. [00:46:56] ENTREVISTADOR: Pode olhar para você e, quando quiser, mostrar para a câmera ali atrás. [00:47:02] NEI: Eu fiz um comentário na época. Aqui ficou bem característica a palavra “ADEUS”, como uma despedida. E a pessoa que escreveu esse “adeus” deixou dois pingos de tinta que, para mim, representam duas lágrimas. Eu fiz esse comentário na época e agora é interessante trazer isso à memória. [00:47:36] ENTREVISTADOR: Pode continuar olhando para você mesmo. Assim está ótimo. [00:47:47] NEI: Aqui já é uma cena que nos demonstra tristeza. Mostra a tristeza de saber que hoje não temos mais isso, não existe mais a possibilidade de estarmos lá, naquele lugar onde a gente esteve. E assim vão vindo as memórias com essas fotos. Da mesma forma aqui: era um pedaço das Sete Quedas em que eu fazia essa caminhada três, quatro vezes por dia, levando turistas. Hoje só vem a memória. Sem dúvida alguma, isso nos deixa emocionados. Aqui está o canal também. Não tem como não se emocionar de lembrar que a gente vivenciou isso. Era o nosso caminho de casa, era o nosso pátio de casa. Essa foto aqui já nos traz uma certa indignação. Eu acompanhei também toda a construção dessas torres, que eram torres de transmissão para atingir o Mato Grosso do Sul. Isso nos deixa uma certa indignação porque, em função da construção daquilo que se dizia necessário, que precisava ser feito para o desenvolvimento econômico, social e industrial do Brasil, nós tivemos que perder essa beleza. Aqui também é uma foto aérea que dá uma dimensão das Sete Quedas. Eu já vi vários quadros assim e presenciei aquilo. Nesta foto aérea, todo esse percurso eu fazia caminhando com os turistas, passo a passo, para chegar do início ao final. [00:50:18] NEI: E aqui está aquilo que comentamos anteriormente, a loucura que se tornou o final das Sete Quedas. Estou com uma foto que representa exatamente a ponte do fatídico acidente de 17 de janeiro de 1982. [00:50:49] ENTREVISTADOR: Dá só uma leve viradinha na foto para a câmera. NEI: Essa foto demonstra aquilo que eu falei sobre a loucura que foi o final. Acho que todo mundo queria conhecer as Sete Quedas ainda vivas. Quem já conhecia voltou para ver pela última vez. Era uma loucura. Aqui ainda temos a presença da antiga ponte do fatídico acidente que nós presenciamos, vivenciamos, sofremos. Aqui, mais um dos saltos das Sete Quedas que vêm à memória. A própria foto representa a neblina que se formava. Você tomava uma chuva ao chegar perto, porque a gente conseguia chegar muito próximo da queda. [00:51:58] NEI: E aqui eu tenho mais um saudosismo triste para lembrar. Essa foto representa uma das grandes vivências da minha infância. Um belo dia fui levar um casal de turistas. O marido era de origem japonesa. Eles chegaram à tarde, já no final da tarde, e eu disse: “Agora é impossível, porque não tem iluminação. Marcamos para amanhã cedo para visitar as Sete Quedas”. Eles estavam em lua de mel. Ele gostava muito de fotografia, estava com uma máquina profissional. Quando nós descemos para ele fotografar, em determinado momento ele entregou a máquina para a esposa e escorregou. Foi levado pelas águas. Eu, ainda criança, com oito ou nove anos de idade, presenciei as Sete Quedas engolindo aquele homem exatamente neste lugar da foto. Foi uma coisa que marcou muito a minha vida. Chamamos os guardas, chamamos as pessoas. Eu nem sei dizer se ele foi encontrado, porque ali era um turbilhão de água. Era algo terrível. [00:53:44] NEI: Aqui está o ângulo da ponte. Era uma ponte que balançava, e muita gente tinha mania de subir nela e balançar. Havia também muita gente que sentia medo ao atravessar. Vamos ver mais aqui. [00:54:21] NEI: Aqui, se não me falha a memória, estou vendo uma foto do lado paraguaio. Exatamente aqui nós tínhamos a confluência, o canal, o Grande Canal. Do outro lado havia uma visão menor, naturalmente, mas o país vizinho, o Paraguai, e a comunidade de Salto del Guairá conseguiam ter uma vista parcial das Sete Quedas. Aqui, outra bela visão de um salto. Era um mais lindo que o outro. Se formos falar, não tem como fazer diferenciação entre um e outro. Aqui, tudo indica que estava num período de cheia, porque está bastante avolumado. [00:55:24] NEI: E assim vamos passando pela sequência de fotos das Sete Quedas. Esse aqui era o chamado “Saltinho”. Havia essa ponte, que fazia a ligação com uma das maiores ilhas que compunham as Sete Quedas. Naturalmente, praticamente todo o percurso era feito por pontes e passarelas. Era uma ilha bem grande. Depois dela havia outra ponte. Para ir ao Salto 14, que era o último salto, ainda tínhamos mais duas pontes. Então esse aqui é o famoso Saltinho. Na parte de cima dessa ponte havia um ponto que nós chamávamos de remanso. Era uma parte em que muita gente tomava banho, fazia piquenique. [00:56:37] ENTREVISTADOR: Pode continuar. Quando quiser comentar, comenta; quando não quiser, pode só olhar. Dá só uma viradinha um pouquinho para cá. Isso, está ótimo. [00:56:49] NEI: Aqui é mais uma ponte. Era a penúltima ponte, que fazia a travessia entre a ilha que acabei de citar e o trecho final. Tinha mais uma ponte, um canal, e depois chegávamos ao Salto 14, o último salto do Complexo de Sete Quedas. Aqui também, mais uma vista da ponte. Aqui nós temos as pontes. [00:57:31] NEI: E aqui eu volto a frisar: esse é, sem dúvida alguma, o salto mais bonito. Era o mais volumoso, onde aconteceu aquela tragédia que citei. A gente conseguia chegar muito perto. Como não havia tanta sinalização nem fiscalização, os turistas aproveitavam ao máximo. Pela força da água, formava-se aquela cascata, aquela névoa de água em cima do pessoal. Então esse era o salto mais volumoso. [00:58:11] NEI: Aqui vamos ver. Esse é um recorte. [00:58:14] [PAUSA TÉCNICA PARA TROCA DE BATERIA E AJUSTE DA POSIÇÃO DO MATERIAL] [00:58:41] ENTREVISTADOR: Podemos seguir na ordem em que você estava. [00:58:46] NEI: Aqui estamos com um recorte de jornal, provavelmente da época, cujo texto diz: “Último dia de visitação de Sete Quedas: 40 mil pessoas formaram fila de quilômetros para atingir Sete Quedas”. Quer dizer, aquilo que nós já comentamos é fato: isso aconteceu. Lembrando que, nesse episódio, a ponte já tinha sido reconstruída. Por incrível que pareça, depois de toda a tragédia que aconteceu e já no período final das Sete Quedas, ainda reconstruíram a ponte e ela foi aproveitada por alguns meses. A tragédia foi em janeiro e o lago se formou, se não me falha a memória, entre setembro e outubro. Isso aqui condiz com a realidade daquela época. [00:59:45] NEI: Essa aqui é bem icônica. É também uma foto aérea. Ela pega todo o dorso do canal e as cachoeiras. É bem interessante. Aqui, mais uma vez, aparece aquilo que eu sempre falava e explicava aos turistas: o salto mais bonito, o salto mais imponente das Sete Quedas. Nesta foto ele está numa dimensão um pouco diferente, mais alongada. [01:00:38] NEI: Aqui, mais uma vez, nós temos a ponte que fazia a travessia entre a ilha e o penúltimo espaço para chegar até o Salto 14. Ali nós já tínhamos o canal, um canal mestre. Nós tivemos algumas frases de efeito na época, mas já não surtiam efeito prático. Não conseguiam mais reverter o que já estava estabelecido. [01:01:35] NEI: Aqui diz: “Destruir Sete Quedas é crime, diz prefeito”. Eu costumo dizer que tudo o que vou falar é opinião minha, mas tem uma concepção coletiva. Na época, boa parte da comunidade atribuiu muita culpa ao gestor do município. Mas, na minha opinião, o gestor da época não tinha culpa. Ele era empregado do patrão, tinha que cumprir o que vinha de cima. Talvez seja injusto atribuir a ele a culpa pelo fim. Eu acho que isso não condiz com a verdade, porque o sistema vinha de cima e dizia: “Nós vamos construir uma usina; para construir uma usina, precisamos sufocar as Sete Quedas”. Ele simplesmente cumpriu. Ficou 21 anos no poder como gestor do município, como empregado do governo federal. [01:02:46] NEI: E aqui a frase diz o seguinte: “Figueiredo: é uma pena”. Não vou ler o texto porque não há necessidade. Eu estava ali quando ele e sua comitiva saíram em um Galaxie. Ele deu uma passada muito rápida pelas Sete Quedas. Eu estava muito próximo, junto com outras pessoas, acenando para ele parar, para a gente perguntar, mas ele não parou. Ele simplesmente foi embora. Fez um contorno pelas Sete Quedas, acompanhado por segurança e várias viaturas atrás. Várias pessoas gritavam: “Pare! Pare! Queremos perguntar...”, mas ele não parou. E aqui está a frase: “É uma pena”. É muito pouco para aquilo tudo. [01:03:43] NEI: Aqui eu acredito que sejam autoridades. A imagem está um pouco ofuscada. ENTREVISTADOR: O próprio Figueiredo. NEI: Sim. Mas o relato que fiz é esse: quando ele estava dentro do carro, todo mundo pediu para ele parar e ele não parou. [01:04:12] NEI: E aqui é aquilo que eu disse na entrevista anterior: quando começou a se formar o lago, realmente só havia o que lamentar, sofrer e sentir todo esse episódio. Aqui nós já temos praticamente uma dimensão do lago. Provavelmente há uma numeração indicando onde ficavam partes geográficas das Sete Quedas. Essas fotos aqui eu vou passando, porque já retratam o complexo e nós já falamos bastante sobre as Sete Quedas. Aqui, da mesma forma, é mais uma dimensão de uma das quedas d’água. [01:06:06] NEI: E aqui, essa foto com essa imensidão humana e esse amontoado de ônibus, veículos, Kombis e vans retrata bem aquilo que eu falei há pouco. Foi uma verdadeira enxurrada humana, vamos dizer assim. Era muita gente, muita gente. A foto retrata pessoas descendo a pé para chegar às Sete Quedas, porque já não havia como entrar com os veículos. Foi realmente uma loucura. [01:06:56] NEI: Aqui já é uma foto que retrata o período com pavimentação asfáltica, já no final, nos últimos anos de visitação. Até então era estrada de chão. Essa torre de energia me traz uma lembrança. Ela ficava muito próxima da casa onde eu morei, uns quinhentos, seiscentos metros. A minha casa ficava aqui do lado direito. Essa torre está no continente; não está em uma ilha, porque algumas ficaram em ilhas. [01:07:51] NEI: E, para fecharmos, quero agradecer a todos por essa surpresa. A gente sente muito. Aqui está mais uma visão de uma das cachoeiras das Sete Quedas, compondo todo aquele complexo maravilhoso. Aquilo que jamais, jamais o homem poderia ter feito. Mas, infelizmente, não sei se podemos dizer que, pelo progresso, a gente tem que sacrificar. Talvez essa fosse a visão da época daqueles que detinham o poder. [01:08:25] ENTREVISTADOR: Maravilha. Corta, gente. [FIM DA ENTREVISTA]


Transcrição da entrevista completa [00:00:00] EQUIPE: Preparação das câmeras A e B e início da gravação. [00:00:18] ENTREVISTADOR: Nei, vamos começar falando um pouquinho da sua infância. Como foi a sua infância nas Sete Quedas? NEI: A minha infância nas Sete Quedas foi, sem dúvida alguma, uma experiência maravilhosa, porque nós vivíamos em função das Sete Quedas desde garotos, desde crianças. Eu, meus irmãos, minhas irmãs, meu pai, nós vivíamos e tínhamos o porquê. Na verdade, Sete Quedas era a grande indústria sem chaminés que nós tínhamos em Guaíra. [00:00:59] ENTREVISTADOR: E como é que foi? Você começou a trabalhar lá muito cedo. Me conta um pouco desse trabalho, desde criancinha. NEI: Sim, eu comecei nas Sete Quedas muito cedo, em torno de sete anos de idade. Eu já comecei a lavar carros. Depois, chegando próximo dos nove até os onze anos, eu levava turistas nas Sete Quedas, até que fui convidado pelo único restaurante que tinha lá para ser garçom. Naquele tempo, eu já fui trabalhar como funcionário. Meu pai era operário da usina; tinha uma pequena usina hidrelétrica lá. Meu pai era operário, e eu e a minha irmã, mais velha que eu, vendíamos souvenirs, lembranças das Sete Quedas, tudo o que tinha como tema as Sete Quedas. Então nós vivíamos literalmente das Sete Quedas. [00:02:07] ENTREVISTADOR: E como é que eram elas, sentimentalmente? Como era estar naquele lugar? NEI: Todos os turistas que vinham e que a gente acompanhava — como os demais colegas que acompanhavam os turistas — tinham aquele impacto, uma emoção muito grande. Porque as Sete Quedas tinham um trajeto de dois quilômetros e meio, onde você passava por pontes, passarelas, ilhas, até chegar do início ao final. Então, a cada ângulo de visão era uma emoção, porque era uma cachoeira muito forte, muito emocionante. Aquela brisa, o barulho, o estrondo... Para nós que vivíamos ali, o dia a dia tinha essa mesma impressão, essa emoção de viver ali, porque era encantador para quem visitava as Sete Quedas e via toda aquela beleza natural que nós tínhamos. [00:03:15] ENTREVISTADOR: Faz de conta que eu sou um turista, vim de longe, acabei de chegar em Guaíra, não sei nada sobre as Sete Quedas e caí com você para você me guiar. O que você vai falar para mim? NEI: Primeiramente, a gente sempre se identificava, porque nós tivemos, ainda que de forma bastante rudimentar, algumas orientações de pessoas mais experientes, do pessoal ligado ao turismo. O seu Ernesto Mann era uma pessoa muito ligada ao turismo de Guaíra. Então nós nos apresentávamos e acompanhávamos o turista dizendo: “Olha, aqui, a primeira ponte era uma ponte de ferro”. Nós mostrávamos que, indo no sentido das Sete Quedas, do lado esquerdo do canal estava o país vizinho, o Paraguai. Acima estava o Mato Grosso do Sul. Nós caminhávamos, víamos a segunda ponte, que é aquela do fatídico acidente, falávamos das cachoeiras e assim por diante, até chegar ao que nós chamávamos, na época, de último salto, o Salto 14. [00:04:27] ENTREVISTADOR: E quando chegava no Salto 14, como é que você apresentava esse salto para as pessoas? NEI: Apresentava como o maior salto em quedas d’água. [00:04:39] [Interrupção técnica causada por ruído externo. A equipe interrompe e retoma a pergunta.] [00:05:39] ENTREVISTADOR: Vamos lá, então. Eu estou de frente para o Salto 14. Acabei de chegar em Guaíra. Você vai me apresentar ele? NEI: O Salto 14 era o maior em volume d’água, o maior em extensão, porque praticamente partia de um extremo a outro, chegando quase ao país vizinho, o Paraguai, já quase na divisa. E ele era intransponível a partir dali. Então ele era o último. Você não tinha como acessar mais lugar nenhum por ele. Era interessante: você tinha uma visão de frente, uma visão ampla, que pegava todo o ângulo. Depois fazia um contorno, uma pequena caminhada por dentro da mata, e conseguia pegar mais um canto dele. Então ele era o maior salto que compunha as Sete Quedas. [00:06:32] ENTREVISTADOR: E quando as pessoas chegavam nele, qual era a reação delas? NEI: De grande admiração, de impacto, porque era uma coisa fenomenal. Principalmente ele, porque era o que proporcionava o maior som, o maior barulho, pela sua extensão, pelo seu volume d’água. [00:06:55] ENTREVISTADOR: E qual é a primeira memória que você tem das Sete Quedas? NEI: A primeira memória... Como eu praticamente me criei lá dentro, é aquela memória de todo dia ser um fato novo, apesar de a gente ser criança. Você estava ali recebendo pessoas que vinham com a curiosidade de conhecer. E lá tinha uma pequena usina; essa usina fornecia, inclusive, energia elétrica gratuitamente para quem morava lá. Então era uma coisa interessante, porque nós não pagávamos luz. Tinha mais ou menos umas sete ou oito residências, alguns comércios e o restaurante onde eu fui trabalhar depois. Brincávamos lá também. Eu praticamente não tive infância, porque com sete anos já comecei a trabalhar, mas era gostoso. Todo dia ganhávamos presentes dos turistas. E era muito bom, porque financeiramente a gente era de uma renda inferior. Então, aproveitando essa questão da memória, um belo dia, por volta de 1969, chegaram quatro turistas jovens do Rio de Janeiro em um carro chamado Gordini — um carro que muita gente hoje nem sabe o que era. [00:08:39] [Pequena interrupção técnica. A equipe pede que a história seja retomada desde o início.] [00:09:28] ENTREVISTADOR: Nei, está rodando. Conta essa história dos turistas desde o começo, por favor. NEI: Perfeito. Um belo dia, nessa minha memória de criança, acho que por volta de 1969, chegaram quatro turistas jovens em um carro chamado Gordini, um carro que muita gente hoje não sabe o que era. Eles eram do Rio de Janeiro. Pediram para eu levá-los, e eu fui. Mostrei as Sete Quedas, contei toda a história, e eles ficaram encantados. Depois foram para o restaurante que tinha lá — naquela época eu ainda não trabalhava nesse restaurante —, almoçaram e, na hora de ir embora, eu não sei por qual razão, hoje não me lembro mais, eles tinham um cabrito, literalmente um cabritinho dentro do carro, e me deram de presente. Disseram: “Olha, nós não vamos levar”. Eu não sei por que estavam com aquele cabrito, mas me deram de presente. Eu fiquei feliz da vida, como criança. Levei para casa, cheguei para o meu pai e para a minha mãe, contei, e nós cuidamos do cabrito. [00:11:00] ENTREVISTADOR: Vamos falar mais um pouquinho. Qual era o seu lugar ou momento preferido nas Sete Quedas? NEI: Nas Sete Quedas nós ficávamos a postos onde tinha uma barragem, o canal. Logo abaixo do canal vinha um bosque, e nós ficávamos bem na ponta desse bosque, porque era uma disputa muito grande entre todos. Havia várias crianças e jovens adolescentes que trabalhavam levando turistas, e o fluxo era significativo, principalmente nos finais de semana. Então nós ficávamos a postos para pré-escolher. Naquele tempo, aparecia um carro como uma Veraneio, um Dodge Dart, um Galaxie; mais para frente vieram a TL e a Variant. Eram carros que, supostamente, eram de turistas mais afortunados. A gente prestava atenção nisso porque a gorjeta também era melhor. Nós não tínhamos uma tabela, não existia uma tabela; era tudo muito simples. A gente levava, fazia todo aquele trabalho de informação, de mostrar, de contar sobre os saltos, e na volta eles nos davam um cachê, que ficava a critério do turista. [00:12:29] ENTREVISTADOR: E como os sons das Sete Quedas acompanhavam a sua vida? O quanto eles eram importantes para você? NEI: Esses sons das Sete Quedas eram extremamente interessantes. Meu pai, por exemplo, plantava; nós tínhamos uma área ali mesmo onde plantávamos. Pelo som das Sete Quedas, naquela época, você sabia de que posição vinha a chuva, a tempestade. Enfim, vários fatores você conseguia perceber através do barulho das Sete Quedas. Era muito interessante. Na época, pela lua você também sabia o que fazer em termos de plantação. E outra coisa que nós poderíamos dizer era sobre o clima com as Sete Quedas. Nós tínhamos um inverno muito rigoroso em Guaíra, que não existe mais. Hoje nós temos dias de frio, mas não temos mais aquele inverno. No período das Sete Quedas, o inverno em Guaíra era rigoroso durante os três meses de inverno. [00:14:05] ENTREVISTADOR: E como era morar em um dos lugares mais bonitos do mundo? NEI: Era, volto a repetir, entusiasmante. A gente era criança e, apesar das dificuldades financeiras, todos nós que morávamos ali éramos muito felizes, alegres, porque sempre nos deparávamos com pessoas diferentes, conversando, e a gente acabava sendo um elo de ligação. Quando fui trabalhar no restaurante, ficou ainda mais entusiasmante, porque a gente atendia, contava histórias. Esse restaurante era especializado em peixe; não tínhamos outro cardápio, era tudo à base de peixe. Fazíamos vários pratos à base de peixe, todos capturados no Rio Paraná para atender os turistas. Era um fluxo de movimento muito grande. A gente estava sempre se deparando com novidades. Eu trabalhava de manhã no restaurante, almoçava, andava quatro quilômetros e meio até o Colégio Mendes Gonçalves para estudar, fazer o meu primário, voltava depois e trabalhava mais um período. Assim era. Eu fiz todo o meu primário e ainda um pedacinho do colegial indo e voltando dessa forma. Naquele tempo não tinha pavimentação, asfalto, sistema de transporte coletivo, nada. Você vinha a pé. [00:15:55] ENTREVISTADOR: Vou pular um pouquinho uma pergunta que estava mais para frente. Você falou dos peixes, da alimentação. Você foi premiado diversas vezes com o Pintado na Telha e com pratos de peixe. Me conta sobre esse prato, como você aprendeu, e depois a gente fala um pouco sobre como o descaso com o rio e com esses peixes prejudicou a culinária típica guairense. NEI: Perfeito. Vamos começar lá na base, quando a pesca era farta em Guaíra. Nesse restaurante em que eu trabalhei, e depois nas peixarias de Guaíra, havia muito peixe. Esse restaurante se chamava Restaurante do Salto e tinha peixaria também. Havia vários pescadores profissionais na época. Tem um fato curioso que é preciso contar historicamente. O seu Miguel, que era o proprietário do restaurante, recebia os pescadores. Eles perguntavam: “Seu Miguel, o senhor precisa de peixe hoje?”. Ele abria os freezers, e pela fartura de peixe dizia: “Bom, hoje você me traz só dourado e pintado, porque jaú, pacu e [nome de peixe pouco nítido] ainda tem bastante”. Para vocês terem uma ideia, isso é história que eu vivi, que acompanhei. Havia uma fartura muito grande de peixe. Depois, ainda continuou existindo uma quantidade razoável, mas, após o fechamento do lago, houve uma pesca predatória muito grande no início da formação do reservatório. E aí tivemos uma diminuição muito grande do pescado em Guaíra, principalmente dos chamados pescados nobres, como pintado e dourado. Foi um problema sério. Já não era mais aquela fartura, embora ainda houvesse uma quantidade significativa. Eu cresci, vim para o comércio de Guaíra e, na época em que participei do poder público, tive a ideia de criar o Pintado na Telha como prato típico de Guaíra. Inclusive, a lei é de minha autoria e foi sancionada pela gestão da época. Nós criamos o Pintado na Telha. Não era “peixe na telha”; era “Pintado na Telha”. Ocorre que, com o passar dos anos, esse peixe ficou bastante difícil de capturar no lago e no Rio Paraná, e esse prato acabou ficando um pouco esquecido. Mas ele ainda existe, ainda é servido em hotéis de Guaíra. Eu participei de vários concursos e tive a felicidade de, por várias vezes, ser campeão do Pintado na Telha. Depois vim para o comércio de eventos, onde também trabalhávamos com peixe. [00:19:17] ENTREVISTADOR: Vamos terminar só mais uma aqui e depois a gente dá uma pausa. Fala para mim sobre o turismo às vésperas do fim das Sete Quedas. NEI: O turismo no final das Sete Quedas foi uma loucura. Vamos usar essa expressão: foi uma loucura. Nessa época eu tinha um restaurante no Hotel Guarujá II. Era algo absurdo. Só para vocês terem uma ideia, a fila de ônibus para chegar às Sete Quedas vinha até a Igrejinha de Pedra; depois o pessoal ia a pé. Não tinha como colocar carro no pátio das Sete Quedas. No hotel, para se ter uma ideia, nós alugávamos até o escritório do diretor porque não tinha vaga. Nós tínhamos amizade com um hospital aqui de Guaíra, na época o Hospital Santa Rita. O médico era nosso amigo. Quando havia leito vago, chegaram a alugar leitos para turistas, porque não tinha mais acomodação. E isso num período em que Guaíra tinha vários hotéis, de categorias inferiores e superiores, restaurantes, churrascarias, enfim. Era tudo lotado. Eu atribuo o episódio da queda da ponte ao excesso de peso e à falta de cuidado e fiscalização, porque aquilo era uma loucura. Eram milhares de pessoas passando ao mesmo tempo por aquelas passarelas, por aquelas pontes. [00:21:08] [PAUSA TÉCNICA] [00:21:20] ENTREVISTADOR: Então, talvez um dos dias mais tristes que você tenha vivido ali nas Sete Quedas. Onde você estava quando soube do acidente na ponte? E quando você chegou lá, o que encontrou? NEI: Nesse fatídico acidente, eu estava exatamente no hotel onde tinha o restaurante. Como eu estava dizendo, havia muita gente visitando Guaíra. Eu tinha acabado de construir uma casa e a havia alugado para dois casais do interior de São Paulo, porque o hotel estava lotado. Eu os hospedei nessa casa. De manhã, eles foram tomar o café e seguiram para as Sete Quedas. Por volta das nove, nove e pouco da manhã, veio a triste notícia. Nesse momento, eu fui, juntamente com mais algumas pessoas, me deslocando rapidamente. Cheguei ao local do acidente em torno de quarenta a quarenta e cinco minutos depois. Ainda havia pessoas penduradas, gritos, pessoas ilhadas do outro lado e muita gente do lado que poderíamos chamar de continente. Foi uma coisa absurda. Todo mundo em pavor, desesperado, gritos, choro, e você vendo as pessoas. Muitos já tinham sido levados pela corredeira. O João Lima Moraes, o popular João Mandi, estava ali e teve um papel importante no auxílio ao resgate, de onde ele estava, ali nas pedras. Foi uma coisa terrível, terrível. [00:23:22] ENTREVISTADOR: E me conta como foi o dia seguinte ao acidente. As pessoas ligando, tentando entrar em contato com familiares, poucos orelhões, poucos telefones, hotéis... Como foi essa confusão? NEI: Naquele tempo só existiam fax e telefone fixo. Inclusive no hotel. No Hotel Guarujá II foi montada toda a estrutura de jornalismo do Brasil. Foi ali que vieram as televisões da época, O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo, pessoal de Londrina, enfim, jornais escritos, falados, televisionados, tudo. Ali foi a central. Só que demorava para você passar a matéria. Por exemplo, você mandava uma matéria de manhã para ser exibida só à noite. Ali foi toda a central de divulgação. Foi uma tragédia que tomou proporção mundial. Guaíra ficou estarrecida, ficou de luto. Começaram a chegar familiares, e havia familiares que não tinham contato, porque a comunicação era difícil. Na época, não se sabia ao certo, mas o número oficial de mortos foi 32. [00:24:47] ENTREVISTADOR: Você participou da homenagem final, quando os indigentes foram enterrados no cemitério? Você estava lá ou soube como foi esse momento? NEI: Exatamente nesse dia, não. Mas, na época, eu já tinha uma ligação forte com o comércio de Guaíra e conhecia o secretário responsável pela pasta. Fui até ele. Como nós não tínhamos aqui na cidade estrutura para fazer reconhecimento dos corpos, autópsia e tudo aquilo, eu pedi a ele para entrar no cemitério e ver. Foi um momento que me marcou muito, porque eu contei: havia 19 corpos, todos colocados de maneira rudimentar, esperando vir de fora a Polícia Científica para fazer a autópsia. Naquele momento havia 19 corpos ali. Posteriormente, a grande maioria foi levada, após a identificação, por seus familiares. E, se não me falha a memória, dois ou três foram enterrados como indigentes, porque não apareceu familiar, não apareceu ninguém. [00:26:08] ENTREVISTADOR: E como foi essa busca pelos corpos, que durou quase um mês? NEI: A busca foi extremamente difícil, pelo fato de ser um canal de grande volume d’água e de corredeira muito forte. Isso foi levando os corpos. Houve corpos encontrados a cem quilômetros daqui, rio abaixo. Muitos ficaram enroscados também nas grotas de pedra. Por isso, até hoje, não se tem literalmente a certeza de que foram só 32 mortos. Foi uma coisa muito triste. Houve corpos retirados da água vários dias depois, em um estado que dificultava até a identificação. [00:26:59] [AJUSTE TÉCNICO E NOVO CORTE DE CÂMERA] [00:27:17] ENTREVISTADOR: Vamos voltar ao acidente da ponte, último assunto. Toda essa tragédia aconteceu e alguém tentou colocar a culpa sobre uma pessoa, sobre [nome pouco nítido na gravação]. Você pode me contar como foi essa tentativa? NEI: Com relação a esse fato, que foi atribuído ao Pedimar Porã, que era indígena: ele não era uma pessoa muito antiga ali, mas eu o conheci, conversávamos pouco, como todos conversavam. Na minha opinião — e é só uma opinião pessoal — precisavam arrumar um bode expiatório para alguma coisa. Eu não acredito jamais que ele faria isso, até porque ele era zelador, cuidava dali, estava sempre, vamos dizer assim, vigilante dentro do pátio das Sete Quedas, de todo o complexo. Então eu atribuo isso à criação de um bode expiatório. Estávamos vivendo um momento em que não deram importância para ninguém para acabar com as Sete Quedas. Quando veio essa tragédia, precisavam atribuir a alguém. A formação do lago foi no mesmo ano. Então atribuíram isso a ele. Essa é a minha opinião. [00:29:01] ENTREVISTADOR: Você pode repetir só essa frase? “Eles criaram um bode expiatório.” NEI: Eles criaram um bode expiatório. [00:29:09] ENTREVISTADOR: Vamos fazer uma comparação que eu sei que você gosta de fazer: Sete Quedas e Cataratas do Iguaçu. NEI: Com relação a essa comparação, eu gostaria de fazer um adendo. A natureza foi perfeita. Ela criou duas belezas, eu diria, na mesma direção. O homem, dentro do seu processo de transformação, quis, na sua preponderância, fazer a maior usina do mundo e, para isso, teve que sacrificar uma dessas maravilhas da natureza. Eu conheci as Sete Quedas desde criança, vivi dentro delas. Tive também, ainda bem jovem, a experiência de conhecer as Cataratas do Iguaçu e depois estive lá outras vezes. Na minha visão, as Cataratas do Iguaçu eram bonitas — e são bonitas até hoje; é um dos locais mais visitados do mundo —, só que elas têm uma visão panorâmica praticamente única. Você chega pelo lado brasileiro — elas também podem ser visitadas pelo lado argentino — e tem aquela visão. As Sete Quedas, não. Nas Sete Quedas você cansava. Tinha que fazer aquela enorme caminhada de dois quilômetros e meio e, para cada lado que olhava, tinha uma cachoeira, tinha uma queda, tinha todo o esplendor da natureza ao longo daquele processo de caminhada. Então, para mim, as Sete Quedas eram extremamente superiores às Cataratas do Iguaçu. [00:31:04] ENTREVISTADOR: Vamos começar a falar um pouquinho da despedida. Como foi quando você soube que as Sete Quedas iam acabar? As pessoas acreditaram de começo? Como foi essa notícia? NEI: Eu quero voltar um pouquinho, bem no início. Quando se falou da construção da Usina de Itaipu, que formaria o lago e deixaria as Sete Quedas submersas, eu ainda era criança. Meu pai era operário lá dentro, fazia parte de um órgão do governo ligado ao que hoje vem a ser a nossa Copel. Ele era funcionário dessa empresa, chamada Minas e Energia. Sendo operário, meu pai acompanhou os engenheiros e técnicos, carregando aparelhos de topografia, quando começaram a fazer as demarcações. Eles iam em vários pontos, subindo desde Foz do Iguaçu até Guaíra. Colocavam uma marca metálica, de bronze, que indicava a graduação, a cota que a água atingiria. Eu lembro que, apesar de ser criança, ouvia os mais velhos comentarem que jamais o homem teria capacidade de acabar com uma beleza daquela. Que não teria. Bom, erramos. Guaíra talvez tenha pecado, o sistema pecou e, como nós vivíamos um sistema, vamos dizer assim, de exceção, não tinha para quem apelar. Nós esperamos o fatídico dia. Foram feitas as marcações da cota 220 e, por incrível que pareça, o lago chegou exatamente ali. Nessa altura eu já era adulto, já estava na vida pública e conseguimos constatar. Para nós foi um choque, um luto total. Guaíra, do dia para a noite, paralisou. Ficou totalmente enlutada. Vou dar um exemplo: eu tinha restaurante no hotel, onde servíamos 50, 60, 70, 100 refeições por dia, mais o café da manhã. A partir do outro dia, você não tinha mais nada. Foi fechando tudo. Os hotéis de Guaíra foram fechando, os restaurantes foram fechando. Para se ter uma ideia, juntamente com o diretor do hotel, começamos a doar parte das louças e objetos do hotel, porque não tinha mais porquê. Paralisou. Isso ficou durante vários anos. Foram anos de total ostracismo econômico em Guaíra, porque perdemos a nossa fonte. Foi aí que veio a grande promessa. Na época, engenheiros e técnicos das Centrais Elétricas do Sul do Brasil, a Eletrosul, diziam que aqui seria construído o Complexo de Ilha Grande, acompanhado de ferrovia, rodovia e hidrelétrica. Teríamos uma usina para fazer a contenção dos dejetos de Itaipu Binacional, teríamos ferrovia, rodovia e hidrelétrica. Diziam que Guaíra jamais iria se lembrar das Sete Quedas. De certa maneira, diante do quadro que estávamos vivendo, quase aceitamos e acreditamos nessa ideia. Só que tudo sucumbiu e nada aconteceu. Chegou em 1989, 1990, e simplesmente o governo da época disse: “Está cancelado”. Não se faria mais nada. [00:35:23] ENTREVISTADOR: E quando elas foram sendo inundadas? Foi muito rápido, mas, ao mesmo tempo, pouco a pouco dava para ver a água subindo. Qual era a sensação? NEI: Demorou vários dias, várias semanas. Era uma sensação terrível, principalmente para quem não acreditava que aquilo aconteceria e estava vendo acontecer. Muita gente de Guaíra foi lá, os mais antigos também. Eu tive a oportunidade de ir até quando a água já estava chegando a um determinado ponto. Você via que o canal em si, o canal-base, o que nós chamávamos popularmente de canal, já estava totalmente nivelado. As quedas começaram a diminuir. Começou ali pela queda da ponte, que era praticamente a primeira de cima para baixo. A água começou a subir, e você via que a queda já era bem menor. E não tinha para quem reclamar. Não tinha. O fato estava consumado. [00:36:44] ENTREVISTADOR: E como foi dormir sem o som das Sete Quedas? NEI: Volto a repetir: nós ficamos totalmente à deriva, ficamos de luto, sem saber o que fazer. Não querendo me vitimizar, mas eu, de empresário, fui trabalhar como empregado, de porteiro no hotel, porque não tinha mais o que fazer. Esse foi o meu caso, e muitos foram embora. Muitos empresários deixaram suas propriedades e foram para outras regiões. Teve gente que foi para Mato Grosso, Rondônia, Curitiba, enfim. Foram deixando Guaíra porque não havia alternativa. A própria imprensa chegou a dizer que nós tínhamos nos tornado uma cidade fantasma em determinado período. [00:37:39] ENTREVISTADOR: Me fala mais sobre essa “cidade fantasma”. Como era Guaíra? Como era essa sensação de que aqui tinha, de fato, virado uma cidade fantasma? NEI: A cidade fantasma vem já com a questão da não construção do Complexo de Ilha Grande. Nós havíamos perdido a maior fonte de renda, a maior indústria propulsora da economia local. Aí nos prometeram um grande polo com esse complexo. Tanto é que fizeram mil e poucas casas em Guaíra para acomodar as pessoas e empresas que viriam construir a usina, a ferrovia e a rodovia, fazendo a transposição do Rio Paraná para o Mato Grosso do Sul. E isso não aconteceu. Ali foi o desastre total, porque era gente abandonando, gente indo embora. Aquele grupo de pessoas que veio para Guaíra tinha dado certo fomento à economia guairense. Os hotéis já haviam retomado um pouco daquilo que era possível fazer. E, a partir do momento em que foi decretado o cancelamento da obra do Complexo de Ilha Grande, foi quando a grande imprensa passou a chamar Guaíra de cidade fantasma. [00:39:12] ENTREVISTADOR: Antes de a gente ir para outra pergunta, queria que você falasse sobre o que sente em relação aos últimos anos em Guaíra. Você sente alguma espécie de redescobrimento, de renascimento da cidade? Compara essa Guaíra “cidade fantasma” com a Guaíra de hoje e com a forma como ela tenta se projetar para o futuro. NEI: Eu diria que Guaíra, nos últimos 20, 25 anos, saiu desse luto que viveu, saiu desse ostracismo econômico pelo qual passou. Através de diálogo e de um novo olhar, por meio de todos os setores da sociedade organizada de Guaíra — ainda que de maneira incipiente na indústria, no comércio — começou a encontrar novos caminhos. Veio a questão do comércio com o país vizinho, o Paraguai, o comércio de importados, e gestões que começaram a ter uma visão de não apenas reclamar, mas buscar alternativas junto ao governo estadual e ao governo federal para colocar Guaíra como uma cidade importante. Porque é importante dizer: Guaíra é um dos grandes polos de passagem entre o Norte e o Sul do país. Quem sai do Sul para atingir o Norte do Brasil passa por Guaíra. Foi aí que o comércio começou a se redistribuir e aumentar, a parte hoteleira melhorou, a gastronomia começou também a ganhar uma dimensão melhor e, sem dúvida, a conclusão da ponte sobre o Rio Paraná, substituindo a travessia por balsa, incrementou bastante isso. Eu diria que Guaíra vive uma nova fase, uma fase boa, principalmente agora, buscando o turismo de pesca esportiva, o turismo de aventura. A própria cultura está se levantando, se redescobrindo e colocando projetos em prática. Tivemos também, ainda que de forma acanhada, uma boa recompensa com um percentual maior dos royalties por parte de Itaipu. [00:42:03] ENTREVISTADOR: Então essa vai ser a nossa última pergunta. Conta para mim desde o início: como foi a distribuição dos royalties? Ela foi justa? Foi pouco benéfica para Guaíra até os dias de hoje? NEI: Muito bem. Quando se formou o Lago de Itaipu Binacional, através de todo o seu corpo jurídico e técnico, estabeleceu-se que as indenizações seriam baseadas nos metros quadrados de área inundada e nas benfeitorias que havia em cada propriedade e em cada cidade. Acontece que a cidade de Guaíra está exatamente no último ponto do alagamento, no último extremo. Então, a área em metros quadrados inundada aqui foi a menor. Sem dúvida alguma, foi a menor. No entanto, inundou-se a maior fonte de renda da cidade e uma das maiores belezas do mundo. Isso não foi levado em consideração. Por outro lado, a própria política local, regional e nacional não se ateve, não teve compromisso com Guaíra para fazer um questionamento junto à Itaipu Binacional, no sentido de que isso já tivesse sido considerado no momento da indenização e dos aportes destinados à cidade. Como isso não aconteceu, Guaíra ficou com um dos menores percentuais de royalties, um dos menores valores mensais em dinheiro. Como era cotado em dólar, o nosso percentual em dólar foi um dos menores. Houve lugares em que cidades tiveram áreas maiores submersas e recebiam cinco, seis, dez vezes mais do que nós, por causa desse critério de metros quadrados de área inundada. Aí houve demandas através da política local, juntamente com o governo do Estado, deputados e senadores, no sentido de reverter isso. Numa primeira etapa, levou acho que uns 15 anos e não aconteceu nada. Falava-se, discutia-se, até que, depois de muitos anos de briga, saiu alguma coisa — usando essa expressão —, mas ainda era muito pouco. Por fim, houve um projeto de uma pessoa que jamais podemos esquecer, que teve um papel importante: o então deputado Osmar Serraglio. Ele teve um projeto muito importante e, juntamente com a última gestão do prefeito Eraldo, conseguiram conscientizar os senadores da República e boa parcela dos deputados federais de que havia uma grande injustiça com o município de Guaíra, e que não era possível continuarmos de mãos cruzadas sem fazer nada. Se não me engano, dos 81 senadores, 70 votaram favoravelmente à proposição para o município de Guaíra. Jamais nada vai compensar a perda das Sete Quedas, na minha opinião. Jamais. Mas, pelo menos, é um alívio para a nossa infraestrutura local, para podermos prestar um bom atendimento à comunidade de Guaíra com esse percentual de royalties. [00:45:57] ENTREVISTADOR: Que maravilha. [CORTE / AJUSTE TÉCNICO] ──────────────────────────────────────── SEGUNDA PARTE — MEMÓRIAS A PARTIR DE FOTOGRAFIAS E RECORTES ──────────────────────────────────────── [00:46:04] ENTREVISTADOR: Você pode relaxar um pouquinho mais com a caixinha. Se estiver desconfortável, pode colocar na sua perna. Fica tranquilo. Você vai abrir a caixinha e vão ter algumas memórias, algumas coisinhas aí. Pega uma por uma e vai comentando. Quando quiser comentar, comenta; quando quiser só olhar, pode só olhar. Pode abrir. [00:46:32] NEI: Legal. Essa foto aqui já é de quando estávamos no finalzinho. Eu fiz questão de ir lá, porque as Sete Quedas estavam para terminar. E hoje essa foto é uma lembrança que ninguém mais vai poder ver daquele jeito. [00:46:56] ENTREVISTADOR: Pode olhar para você e, quando quiser, mostrar para a câmera ali atrás. [00:47:02] NEI: Eu fiz um comentário na época. Aqui ficou bem característica a palavra “ADEUS”, como uma despedida. E a pessoa que escreveu esse “adeus” deixou dois pingos de tinta que, para mim, representam duas lágrimas. Eu fiz esse comentário na época e agora é interessante trazer isso à memória. [00:47:36] ENTREVISTADOR: Pode continuar olhando para você mesmo. Assim está ótimo. [00:47:47] NEI: Aqui já é uma cena que nos demonstra tristeza. Mostra a tristeza de saber que hoje não temos mais isso, não existe mais a possibilidade de estarmos lá, naquele lugar onde a gente esteve. E assim vão vindo as memórias com essas fotos. Da mesma forma aqui: era um pedaço das Sete Quedas em que eu fazia essa caminhada três, quatro vezes por dia, levando turistas. Hoje só vem a memória. Sem dúvida alguma, isso nos deixa emocionados. Aqui está o canal também. Não tem como não se emocionar de lembrar que a gente vivenciou isso. Era o nosso caminho de casa, era o nosso pátio de casa. Essa foto aqui já nos traz uma certa indignação. Eu acompanhei também toda a construção dessas torres, que eram torres de transmissão para atingir o Mato Grosso do Sul. Isso nos deixa uma certa indignação porque, em função da construção daquilo que se dizia necessário, que precisava ser feito para o desenvolvimento econômico, social e industrial do Brasil, nós tivemos que perder essa beleza. Aqui também é uma foto aérea que dá uma dimensão das Sete Quedas. Eu já vi vários quadros assim e presenciei aquilo. Nesta foto aérea, todo esse percurso eu fazia caminhando com os turistas, passo a passo, para chegar do início ao final. [00:50:18] NEI: E aqui está aquilo que comentamos anteriormente, a loucura que se tornou o final das Sete Quedas. Estou com uma foto que representa exatamente a ponte do fatídico acidente de 17 de janeiro de 1982. [00:50:49] ENTREVISTADOR: Dá só uma leve viradinha na foto para a câmera. NEI: Essa foto demonstra aquilo que eu falei sobre a loucura que foi o final. Acho que todo mundo queria conhecer as Sete Quedas ainda vivas. Quem já conhecia voltou para ver pela última vez. Era uma loucura. Aqui ainda temos a presença da antiga ponte do fatídico acidente que nós presenciamos, vivenciamos, sofremos. Aqui, mais um dos saltos das Sete Quedas que vêm à memória. A própria foto representa a neblina que se formava. Você tomava uma chuva ao chegar perto, porque a gente conseguia chegar muito próximo da queda. [00:51:58] NEI: E aqui eu tenho mais um saudosismo triste para lembrar. Essa foto representa uma das grandes vivências da minha infância. Um belo dia fui levar um casal de turistas. O marido era de origem japonesa. Eles chegaram à tarde, já no final da tarde, e eu disse: “Agora é impossível, porque não tem iluminação. Marcamos para amanhã cedo para visitar as Sete Quedas”. Eles estavam em lua de mel. Ele gostava muito de fotografia, estava com uma máquina profissional. Quando nós descemos para ele fotografar, em determinado momento ele entregou a máquina para a esposa e escorregou. Foi levado pelas águas. Eu, ainda criança, com oito ou nove anos de idade, presenciei as Sete Quedas engolindo aquele homem exatamente neste lugar da foto. Foi uma coisa que marcou muito a minha vida. Chamamos os guardas, chamamos as pessoas. Eu nem sei dizer se ele foi encontrado, porque ali era um turbilhão de água. Era algo terrível. [00:53:44] NEI: Aqui está o ângulo da ponte. Era uma ponte que balançava, e muita gente tinha mania de subir nela e balançar. Havia também muita gente que sentia medo ao atravessar. Vamos ver mais aqui. [00:54:21] NEI: Aqui, se não me falha a memória, estou vendo uma foto do lado paraguaio. Exatamente aqui nós tínhamos a confluência, o canal, o Grande Canal. Do outro lado havia uma visão menor, naturalmente, mas o país vizinho, o Paraguai, e a comunidade de Salto del Guairá conseguiam ter uma vista parcial das Sete Quedas. Aqui, outra bela visão de um salto. Era um mais lindo que o outro. Se formos falar, não tem como fazer diferenciação entre um e outro. Aqui, tudo indica que estava num período de cheia, porque está bastante avolumado. [00:55:24] NEI: E assim vamos passando pela sequência de fotos das Sete Quedas. Esse aqui era o chamado “Saltinho”. Havia essa ponte, que fazia a ligação com uma das maiores ilhas que compunham as Sete Quedas. Naturalmente, praticamente todo o percurso era feito por pontes e passarelas. Era uma ilha bem grande. Depois dela havia outra ponte. Para ir ao Salto 14, que era o último salto, ainda tínhamos mais duas pontes. Então esse aqui é o famoso Saltinho. Na parte de cima dessa ponte havia um ponto que nós chamávamos de remanso. Era uma parte em que muita gente tomava banho, fazia piquenique. [00:56:37] ENTREVISTADOR: Pode continuar. Quando quiser comentar, comenta; quando não quiser, pode só olhar. Dá só uma viradinha um pouquinho para cá. Isso, está ótimo. [00:56:49] NEI: Aqui é mais uma ponte. Era a penúltima ponte, que fazia a travessia entre a ilha que acabei de citar e o trecho final. Tinha mais uma ponte, um canal, e depois chegávamos ao Salto 14, o último salto do Complexo de Sete Quedas. Aqui também, mais uma vista da ponte. Aqui nós temos as pontes. [00:57:31] NEI: E aqui eu volto a frisar: esse é, sem dúvida alguma, o salto mais bonito. Era o mais volumoso, onde aconteceu aquela tragédia que citei. A gente conseguia chegar muito perto. Como não havia tanta sinalização nem fiscalização, os turistas aproveitavam ao máximo. Pela força da água, formava-se aquela cascata, aquela névoa de água em cima do pessoal. Então esse era o salto mais volumoso. [00:58:11] NEI: Aqui vamos ver. Esse é um recorte. [00:58:14] [PAUSA TÉCNICA PARA TROCA DE BATERIA E AJUSTE DA POSIÇÃO DO MATERIAL] [00:58:41] ENTREVISTADOR: Podemos seguir na ordem em que você estava. [00:58:46] NEI: Aqui estamos com um recorte de jornal, provavelmente da época, cujo texto diz: “Último dia de visitação de Sete Quedas: 40 mil pessoas formaram fila de quilômetros para atingir Sete Quedas”. Quer dizer, aquilo que nós já comentamos é fato: isso aconteceu. Lembrando que, nesse episódio, a ponte já tinha sido reconstruída. Por incrível que pareça, depois de toda a tragédia que aconteceu e já no período final das Sete Quedas, ainda reconstruíram a ponte e ela foi aproveitada por alguns meses. A tragédia foi em janeiro e o lago se formou, se não me falha a memória, entre setembro e outubro. Isso aqui condiz com a realidade daquela época. [00:59:45] NEI: Essa aqui é bem icônica. É também uma foto aérea. Ela pega todo o dorso do canal e as cachoeiras. É bem interessante. Aqui, mais uma vez, aparece aquilo que eu sempre falava e explicava aos turistas: o salto mais bonito, o salto mais imponente das Sete Quedas. Nesta foto ele está numa dimensão um pouco diferente, mais alongada. [01:00:38] NEI: Aqui, mais uma vez, nós temos a ponte que fazia a travessia entre a ilha e o penúltimo espaço para chegar até o Salto 14. Ali nós já tínhamos o canal, um canal mestre. Nós tivemos algumas frases de efeito na época, mas já não surtiam efeito prático. Não conseguiam mais reverter o que já estava estabelecido. [01:01:35] NEI: Aqui diz: “Destruir Sete Quedas é crime, diz prefeito”. Eu costumo dizer que tudo o que vou falar é opinião minha, mas tem uma concepção coletiva. Na época, boa parte da comunidade atribuiu muita culpa ao gestor do município. Mas, na minha opinião, o gestor da época não tinha culpa. Ele era empregado do patrão, tinha que cumprir o que vinha de cima. Talvez seja injusto atribuir a ele a culpa pelo fim. Eu acho que isso não condiz com a verdade, porque o sistema vinha de cima e dizia: “Nós vamos construir uma usina; para construir uma usina, precisamos sufocar as Sete Quedas”. Ele simplesmente cumpriu. Ficou 21 anos no poder como gestor do município, como empregado do governo federal. [01:02:46] NEI: E aqui a frase diz o seguinte: “Figueiredo: é uma pena”. Não vou ler o texto porque não há necessidade. Eu estava ali quando ele e sua comitiva saíram em um Galaxie. Ele deu uma passada muito rápida pelas Sete Quedas. Eu estava muito próximo, junto com outras pessoas, acenando para ele parar, para a gente perguntar, mas ele não parou. Ele simplesmente foi embora. Fez um contorno pelas Sete Quedas, acompanhado por segurança e várias viaturas atrás. Várias pessoas gritavam: “Pare! Pare! Queremos perguntar...”, mas ele não parou. E aqui está a frase: “É uma pena”. É muito pouco para aquilo tudo. [01:03:43] NEI: Aqui eu acredito que sejam autoridades. A imagem está um pouco ofuscada. ENTREVISTADOR: O próprio Figueiredo. NEI: Sim. Mas o relato que fiz é esse: quando ele estava dentro do carro, todo mundo pediu para ele parar e ele não parou. [01:04:12] NEI: E aqui é aquilo que eu disse na entrevista anterior: quando começou a se formar o lago, realmente só havia o que lamentar, sofrer e sentir todo esse episódio. Aqui nós já temos praticamente uma dimensão do lago. Provavelmente há uma numeração indicando onde ficavam partes geográficas das Sete Quedas. Essas fotos aqui eu vou passando, porque já retratam o complexo e nós já falamos bastante sobre as Sete Quedas. Aqui, da mesma forma, é mais uma dimensão de uma das quedas d’água. [01:06:06] NEI: E aqui, essa foto com essa imensidão humana e esse amontoado de ônibus, veículos, Kombis e vans retrata bem aquilo que eu falei há pouco. Foi uma verdadeira enxurrada humana, vamos dizer assim. Era muita gente, muita gente. A foto retrata pessoas descendo a pé para chegar às Sete Quedas, porque já não havia como entrar com os veículos. Foi realmente uma loucura. [01:06:56] NEI: Aqui já é uma foto que retrata o período com pavimentação asfáltica, já no final, nos últimos anos de visitação. Até então era estrada de chão. Essa torre de energia me traz uma lembrança. Ela ficava muito próxima da casa onde eu morei, uns quinhentos, seiscentos metros. A minha casa ficava aqui do lado direito. Essa torre está no continente; não está em uma ilha, porque algumas ficaram em ilhas. [01:07:51] NEI: E, para fecharmos, quero agradecer a todos por essa surpresa. A gente sente muito. Aqui está mais uma visão de uma das cachoeiras das Sete Quedas, compondo todo aquele complexo maravilhoso. Aquilo que jamais, jamais o homem poderia ter feito. Mas, infelizmente, não sei se podemos dizer que, pelo progresso, a gente tem que sacrificar. Talvez essa fosse a visão da época daqueles que detinham o poder. [01:08:25] ENTREVISTADOR: Maravilha. Corta, gente. [FIM DA ENTREVISTA]

ENTREVISTA #03
João Mandi
Herói das Sete Quedas, ribeirinho do Rio Paranazão desde os cinco anos de idade. Criou-se na região,órfão de pai, cresceu com nove irmãos e fez sua vidana cidade de Guaíra. Foi vereador e empresário.
ENTREVISTA #04
Suemy Folleto
Suemy escolheu viver em Guaíra. Ela foi professora e é editora do Jornal Ilha Grande até hoje – entrega as cópias do jornal ela mesma, em sua motinha amarela para os trezentos fieis assinantes.


Transcrição da entrevista completa [00:00:00] EQUIPE: Preparação das câmeras A e B e início da gravação. [00:00:18] ENTREVISTADOR: Nei, vamos começar falando um pouquinho da sua infância. Como foi a sua infância nas Sete Quedas? NEI: A minha infância nas Sete Quedas foi, sem dúvida alguma, uma experiência maravilhosa, porque nós vivíamos em função das Sete Quedas desde garotos, desde crianças. Eu, meus irmãos, minhas irmãs, meu pai, nós vivíamos e tínhamos o porquê. Na verdade, Sete Quedas era a grande indústria sem chaminés que nós tínhamos em Guaíra. [00:00:59] ENTREVISTADOR: E como é que foi? Você começou a trabalhar lá muito cedo. Me conta um pouco desse trabalho, desde criancinha. NEI: Sim, eu comecei nas Sete Quedas muito cedo, em torno de sete anos de idade. Eu já comecei a lavar carros. Depois, chegando próximo dos nove até os onze anos, eu levava turistas nas Sete Quedas, até que fui convidado pelo único restaurante que tinha lá para ser garçom. Naquele tempo, eu já fui trabalhar como funcionário. Meu pai era operário da usina; tinha uma pequena usina hidrelétrica lá. Meu pai era operário, e eu e a minha irmã, mais velha que eu, vendíamos souvenirs, lembranças das Sete Quedas, tudo o que tinha como tema as Sete Quedas. Então nós vivíamos literalmente das Sete Quedas. [00:02:07] ENTREVISTADOR: E como é que eram elas, sentimentalmente? Como era estar naquele lugar? NEI: Todos os turistas que vinham e que a gente acompanhava — como os demais colegas que acompanhavam os turistas — tinham aquele impacto, uma emoção muito grande. Porque as Sete Quedas tinham um trajeto de dois quilômetros e meio, onde você passava por pontes, passarelas, ilhas, até chegar do início ao final. Então, a cada ângulo de visão era uma emoção, porque era uma cachoeira muito forte, muito emocionante. Aquela brisa, o barulho, o estrondo... Para nós que vivíamos ali, o dia a dia tinha essa mesma impressão, essa emoção de viver ali, porque era encantador para quem visitava as Sete Quedas e via toda aquela beleza natural que nós tínhamos. [00:03:15] ENTREVISTADOR: Faz de conta que eu sou um turista, vim de longe, acabei de chegar em Guaíra, não sei nada sobre as Sete Quedas e caí com você para você me guiar. O que você vai falar para mim? NEI: Primeiramente, a gente sempre se identificava, porque nós tivemos, ainda que de forma bastante rudimentar, algumas orientações de pessoas mais experientes, do pessoal ligado ao turismo. O seu Ernesto Mann era uma pessoa muito ligada ao turismo de Guaíra. Então nós nos apresentávamos e acompanhávamos o turista dizendo: “Olha, aqui, a primeira ponte era uma ponte de ferro”. Nós mostrávamos que, indo no sentido das Sete Quedas, do lado esquerdo do canal estava o país vizinho, o Paraguai. Acima estava o Mato Grosso do Sul. Nós caminhávamos, víamos a segunda ponte, que é aquela do fatídico acidente, falávamos das cachoeiras e assim por diante, até chegar ao que nós chamávamos, na época, de último salto, o Salto 14. [00:04:27] ENTREVISTADOR: E quando chegava no Salto 14, como é que você apresentava esse salto para as pessoas? NEI: Apresentava como o maior salto em quedas d’água. [00:04:39] [Interrupção técnica causada por ruído externo. A equipe interrompe e retoma a pergunta.] [00:05:39] ENTREVISTADOR: Vamos lá, então. Eu estou de frente para o Salto 14. Acabei de chegar em Guaíra. Você vai me apresentar ele? NEI: O Salto 14 era o maior em volume d’água, o maior em extensão, porque praticamente partia de um extremo a outro, chegando quase ao país vizinho, o Paraguai, já quase na divisa. E ele era intransponível a partir dali. Então ele era o último. Você não tinha como acessar mais lugar nenhum por ele. Era interessante: você tinha uma visão de frente, uma visão ampla, que pegava todo o ângulo. Depois fazia um contorno, uma pequena caminhada por dentro da mata, e conseguia pegar mais um canto dele. Então ele era o maior salto que compunha as Sete Quedas. [00:06:32] ENTREVISTADOR: E quando as pessoas chegavam nele, qual era a reação delas? NEI: De grande admiração, de impacto, porque era uma coisa fenomenal. Principalmente ele, porque era o que proporcionava o maior som, o maior barulho, pela sua extensão, pelo seu volume d’água. [00:06:55] ENTREVISTADOR: E qual é a primeira memória que você tem das Sete Quedas? NEI: A primeira memória... Como eu praticamente me criei lá dentro, é aquela memória de todo dia ser um fato novo, apesar de a gente ser criança. Você estava ali recebendo pessoas que vinham com a curiosidade de conhecer. E lá tinha uma pequena usina; essa usina fornecia, inclusive, energia elétrica gratuitamente para quem morava lá. Então era uma coisa interessante, porque nós não pagávamos luz. Tinha mais ou menos umas sete ou oito residências, alguns comércios e o restaurante onde eu fui trabalhar depois. Brincávamos lá também. Eu praticamente não tive infância, porque com sete anos já comecei a trabalhar, mas era gostoso. Todo dia ganhávamos presentes dos turistas. E era muito bom, porque financeiramente a gente era de uma renda inferior. Então, aproveitando essa questão da memória, um belo dia, por volta de 1969, chegaram quatro turistas jovens do Rio de Janeiro em um carro chamado Gordini — um carro que muita gente hoje nem sabe o que era. [00:08:39] [Pequena interrupção técnica. A equipe pede que a história seja retomada desde o início.] [00:09:28] ENTREVISTADOR: Nei, está rodando. Conta essa história dos turistas desde o começo, por favor. NEI: Perfeito. Um belo dia, nessa minha memória de criança, acho que por volta de 1969, chegaram quatro turistas jovens em um carro chamado Gordini, um carro que muita gente hoje não sabe o que era. Eles eram do Rio de Janeiro. Pediram para eu levá-los, e eu fui. Mostrei as Sete Quedas, contei toda a história, e eles ficaram encantados. Depois foram para o restaurante que tinha lá — naquela época eu ainda não trabalhava nesse restaurante —, almoçaram e, na hora de ir embora, eu não sei por qual razão, hoje não me lembro mais, eles tinham um cabrito, literalmente um cabritinho dentro do carro, e me deram de presente. Disseram: “Olha, nós não vamos levar”. Eu não sei por que estavam com aquele cabrito, mas me deram de presente. Eu fiquei feliz da vida, como criança. Levei para casa, cheguei para o meu pai e para a minha mãe, contei, e nós cuidamos do cabrito. [00:11:00] ENTREVISTADOR: Vamos falar mais um pouquinho. Qual era o seu lugar ou momento preferido nas Sete Quedas? NEI: Nas Sete Quedas nós ficávamos a postos onde tinha uma barragem, o canal. Logo abaixo do canal vinha um bosque, e nós ficávamos bem na ponta desse bosque, porque era uma disputa muito grande entre todos. Havia várias crianças e jovens adolescentes que trabalhavam levando turistas, e o fluxo era significativo, principalmente nos finais de semana. Então nós ficávamos a postos para pré-escolher. Naquele tempo, aparecia um carro como uma Veraneio, um Dodge Dart, um Galaxie; mais para frente vieram a TL e a Variant. Eram carros que, supostamente, eram de turistas mais afortunados. A gente prestava atenção nisso porque a gorjeta também era melhor. Nós não tínhamos uma tabela, não existia uma tabela; era tudo muito simples. A gente levava, fazia todo aquele trabalho de informação, de mostrar, de contar sobre os saltos, e na volta eles nos davam um cachê, que ficava a critério do turista. [00:12:29] ENTREVISTADOR: E como os sons das Sete Quedas acompanhavam a sua vida? O quanto eles eram importantes para você? NEI: Esses sons das Sete Quedas eram extremamente interessantes. Meu pai, por exemplo, plantava; nós tínhamos uma área ali mesmo onde plantávamos. Pelo som das Sete Quedas, naquela época, você sabia de que posição vinha a chuva, a tempestade. Enfim, vários fatores você conseguia perceber através do barulho das Sete Quedas. Era muito interessante. Na época, pela lua você também sabia o que fazer em termos de plantação. E outra coisa que nós poderíamos dizer era sobre o clima com as Sete Quedas. Nós tínhamos um inverno muito rigoroso em Guaíra, que não existe mais. Hoje nós temos dias de frio, mas não temos mais aquele inverno. No período das Sete Quedas, o inverno em Guaíra era rigoroso durante os três meses de inverno. [00:14:05] ENTREVISTADOR: E como era morar em um dos lugares mais bonitos do mundo? NEI: Era, volto a repetir, entusiasmante. A gente era criança e, apesar das dificuldades financeiras, todos nós que morávamos ali éramos muito felizes, alegres, porque sempre nos deparávamos com pessoas diferentes, conversando, e a gente acabava sendo um elo de ligação. Quando fui trabalhar no restaurante, ficou ainda mais entusiasmante, porque a gente atendia, contava histórias. Esse restaurante era especializado em peixe; não tínhamos outro cardápio, era tudo à base de peixe. Fazíamos vários pratos à base de peixe, todos capturados no Rio Paraná para atender os turistas. Era um fluxo de movimento muito grande. A gente estava sempre se deparando com novidades. Eu trabalhava de manhã no restaurante, almoçava, andava quatro quilômetros e meio até o Colégio Mendes Gonçalves para estudar, fazer o meu primário, voltava depois e trabalhava mais um período. Assim era. Eu fiz todo o meu primário e ainda um pedacinho do colegial indo e voltando dessa forma. Naquele tempo não tinha pavimentação, asfalto, sistema de transporte coletivo, nada. Você vinha a pé. [00:15:55] ENTREVISTADOR: Vou pular um pouquinho uma pergunta que estava mais para frente. Você falou dos peixes, da alimentação. Você foi premiado diversas vezes com o Pintado na Telha e com pratos de peixe. Me conta sobre esse prato, como você aprendeu, e depois a gente fala um pouco sobre como o descaso com o rio e com esses peixes prejudicou a culinária típica guairense. NEI: Perfeito. Vamos começar lá na base, quando a pesca era farta em Guaíra. Nesse restaurante em que eu trabalhei, e depois nas peixarias de Guaíra, havia muito peixe. Esse restaurante se chamava Restaurante do Salto e tinha peixaria também. Havia vários pescadores profissionais na época. Tem um fato curioso que é preciso contar historicamente. O seu Miguel, que era o proprietário do restaurante, recebia os pescadores. Eles perguntavam: “Seu Miguel, o senhor precisa de peixe hoje?”. Ele abria os freezers, e pela fartura de peixe dizia: “Bom, hoje você me traz só dourado e pintado, porque jaú, pacu e [nome de peixe pouco nítido] ainda tem bastante”. Para vocês terem uma ideia, isso é história que eu vivi, que acompanhei. Havia uma fartura muito grande de peixe. Depois, ainda continuou existindo uma quantidade razoável, mas, após o fechamento do lago, houve uma pesca predatória muito grande no início da formação do reservatório. E aí tivemos uma diminuição muito grande do pescado em Guaíra, principalmente dos chamados pescados nobres, como pintado e dourado. Foi um problema sério. Já não era mais aquela fartura, embora ainda houvesse uma quantidade significativa. Eu cresci, vim para o comércio de Guaíra e, na época em que participei do poder público, tive a ideia de criar o Pintado na Telha como prato típico de Guaíra. Inclusive, a lei é de minha autoria e foi sancionada pela gestão da época. Nós criamos o Pintado na Telha. Não era “peixe na telha”; era “Pintado na Telha”. Ocorre que, com o passar dos anos, esse peixe ficou bastante difícil de capturar no lago e no Rio Paraná, e esse prato acabou ficando um pouco esquecido. Mas ele ainda existe, ainda é servido em hotéis de Guaíra. Eu participei de vários concursos e tive a felicidade de, por várias vezes, ser campeão do Pintado na Telha. Depois vim para o comércio de eventos, onde também trabalhávamos com peixe. [00:19:17] ENTREVISTADOR: Vamos terminar só mais uma aqui e depois a gente dá uma pausa. Fala para mim sobre o turismo às vésperas do fim das Sete Quedas. NEI: O turismo no final das Sete Quedas foi uma loucura. Vamos usar essa expressão: foi uma loucura. Nessa época eu tinha um restaurante no Hotel Guarujá II. Era algo absurdo. Só para vocês terem uma ideia, a fila de ônibus para chegar às Sete Quedas vinha até a Igrejinha de Pedra; depois o pessoal ia a pé. Não tinha como colocar carro no pátio das Sete Quedas. No hotel, para se ter uma ideia, nós alugávamos até o escritório do diretor porque não tinha vaga. Nós tínhamos amizade com um hospital aqui de Guaíra, na época o Hospital Santa Rita. O médico era nosso amigo. Quando havia leito vago, chegaram a alugar leitos para turistas, porque não tinha mais acomodação. E isso num período em que Guaíra tinha vários hotéis, de categorias inferiores e superiores, restaurantes, churrascarias, enfim. Era tudo lotado. Eu atribuo o episódio da queda da ponte ao excesso de peso e à falta de cuidado e fiscalização, porque aquilo era uma loucura. Eram milhares de pessoas passando ao mesmo tempo por aquelas passarelas, por aquelas pontes. [00:21:08] [PAUSA TÉCNICA] [00:21:20] ENTREVISTADOR: Então, talvez um dos dias mais tristes que você tenha vivido ali nas Sete Quedas. Onde você estava quando soube do acidente na ponte? E quando você chegou lá, o que encontrou? NEI: Nesse fatídico acidente, eu estava exatamente no hotel onde tinha o restaurante. Como eu estava dizendo, havia muita gente visitando Guaíra. Eu tinha acabado de construir uma casa e a havia alugado para dois casais do interior de São Paulo, porque o hotel estava lotado. Eu os hospedei nessa casa. De manhã, eles foram tomar o café e seguiram para as Sete Quedas. Por volta das nove, nove e pouco da manhã, veio a triste notícia. Nesse momento, eu fui, juntamente com mais algumas pessoas, me deslocando rapidamente. Cheguei ao local do acidente em torno de quarenta a quarenta e cinco minutos depois. Ainda havia pessoas penduradas, gritos, pessoas ilhadas do outro lado e muita gente do lado que poderíamos chamar de continente. Foi uma coisa absurda. Todo mundo em pavor, desesperado, gritos, choro, e você vendo as pessoas. Muitos já tinham sido levados pela corredeira. O João Lima Moraes, o popular João Mandi, estava ali e teve um papel importante no auxílio ao resgate, de onde ele estava, ali nas pedras. Foi uma coisa terrível, terrível. [00:23:22] ENTREVISTADOR: E me conta como foi o dia seguinte ao acidente. As pessoas ligando, tentando entrar em contato com familiares, poucos orelhões, poucos telefones, hotéis... Como foi essa confusão? NEI: Naquele tempo só existiam fax e telefone fixo. Inclusive no hotel. No Hotel Guarujá II foi montada toda a estrutura de jornalismo do Brasil. Foi ali que vieram as televisões da época, O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo, pessoal de Londrina, enfim, jornais escritos, falados, televisionados, tudo. Ali foi a central. Só que demorava para você passar a matéria. Por exemplo, você mandava uma matéria de manhã para ser exibida só à noite. Ali foi toda a central de divulgação. Foi uma tragédia que tomou proporção mundial. Guaíra ficou estarrecida, ficou de luto. Começaram a chegar familiares, e havia familiares que não tinham contato, porque a comunicação era difícil. Na época, não se sabia ao certo, mas o número oficial de mortos foi 32. [00:24:47] ENTREVISTADOR: Você participou da homenagem final, quando os indigentes foram enterrados no cemitério? Você estava lá ou soube como foi esse momento? NEI: Exatamente nesse dia, não. Mas, na época, eu já tinha uma ligação forte com o comércio de Guaíra e conhecia o secretário responsável pela pasta. Fui até ele. Como nós não tínhamos aqui na cidade estrutura para fazer reconhecimento dos corpos, autópsia e tudo aquilo, eu pedi a ele para entrar no cemitério e ver. Foi um momento que me marcou muito, porque eu contei: havia 19 corpos, todos colocados de maneira rudimentar, esperando vir de fora a Polícia Científica para fazer a autópsia. Naquele momento havia 19 corpos ali. Posteriormente, a grande maioria foi levada, após a identificação, por seus familiares. E, se não me falha a memória, dois ou três foram enterrados como indigentes, porque não apareceu familiar, não apareceu ninguém. [00:26:08] ENTREVISTADOR: E como foi essa busca pelos corpos, que durou quase um mês? NEI: A busca foi extremamente difícil, pelo fato de ser um canal de grande volume d’água e de corredeira muito forte. Isso foi levando os corpos. Houve corpos encontrados a cem quilômetros daqui, rio abaixo. Muitos ficaram enroscados também nas grotas de pedra. Por isso, até hoje, não se tem literalmente a certeza de que foram só 32 mortos. Foi uma coisa muito triste. Houve corpos retirados da água vários dias depois, em um estado que dificultava até a identificação. [00:26:59] [AJUSTE TÉCNICO E NOVO CORTE DE CÂMERA] [00:27:17] ENTREVISTADOR: Vamos voltar ao acidente da ponte, último assunto. Toda essa tragédia aconteceu e alguém tentou colocar a culpa sobre uma pessoa, sobre [nome pouco nítido na gravação]. Você pode me contar como foi essa tentativa? NEI: Com relação a esse fato, que foi atribuído ao Pedimar Porã, que era indígena: ele não era uma pessoa muito antiga ali, mas eu o conheci, conversávamos pouco, como todos conversavam. Na minha opinião — e é só uma opinião pessoal — precisavam arrumar um bode expiatório para alguma coisa. Eu não acredito jamais que ele faria isso, até porque ele era zelador, cuidava dali, estava sempre, vamos dizer assim, vigilante dentro do pátio das Sete Quedas, de todo o complexo. Então eu atribuo isso à criação de um bode expiatório. Estávamos vivendo um momento em que não deram importância para ninguém para acabar com as Sete Quedas. Quando veio essa tragédia, precisavam atribuir a alguém. A formação do lago foi no mesmo ano. Então atribuíram isso a ele. Essa é a minha opinião. [00:29:01] ENTREVISTADOR: Você pode repetir só essa frase? “Eles criaram um bode expiatório.” NEI: Eles criaram um bode expiatório. [00:29:09] ENTREVISTADOR: Vamos fazer uma comparação que eu sei que você gosta de fazer: Sete Quedas e Cataratas do Iguaçu. NEI: Com relação a essa comparação, eu gostaria de fazer um adendo. A natureza foi perfeita. Ela criou duas belezas, eu diria, na mesma direção. O homem, dentro do seu processo de transformação, quis, na sua preponderância, fazer a maior usina do mundo e, para isso, teve que sacrificar uma dessas maravilhas da natureza. Eu conheci as Sete Quedas desde criança, vivi dentro delas. Tive também, ainda bem jovem, a experiência de conhecer as Cataratas do Iguaçu e depois estive lá outras vezes. Na minha visão, as Cataratas do Iguaçu eram bonitas — e são bonitas até hoje; é um dos locais mais visitados do mundo —, só que elas têm uma visão panorâmica praticamente única. Você chega pelo lado brasileiro — elas também podem ser visitadas pelo lado argentino — e tem aquela visão. As Sete Quedas, não. Nas Sete Quedas você cansava. Tinha que fazer aquela enorme caminhada de dois quilômetros e meio e, para cada lado que olhava, tinha uma cachoeira, tinha uma queda, tinha todo o esplendor da natureza ao longo daquele processo de caminhada. Então, para mim, as Sete Quedas eram extremamente superiores às Cataratas do Iguaçu. [00:31:04] ENTREVISTADOR: Vamos começar a falar um pouquinho da despedida. Como foi quando você soube que as Sete Quedas iam acabar? As pessoas acreditaram de começo? Como foi essa notícia? NEI: Eu quero voltar um pouquinho, bem no início. Quando se falou da construção da Usina de Itaipu, que formaria o lago e deixaria as Sete Quedas submersas, eu ainda era criança. Meu pai era operário lá dentro, fazia parte de um órgão do governo ligado ao que hoje vem a ser a nossa Copel. Ele era funcionário dessa empresa, chamada Minas e Energia. Sendo operário, meu pai acompanhou os engenheiros e técnicos, carregando aparelhos de topografia, quando começaram a fazer as demarcações. Eles iam em vários pontos, subindo desde Foz do Iguaçu até Guaíra. Colocavam uma marca metálica, de bronze, que indicava a graduação, a cota que a água atingiria. Eu lembro que, apesar de ser criança, ouvia os mais velhos comentarem que jamais o homem teria capacidade de acabar com uma beleza daquela. Que não teria. Bom, erramos. Guaíra talvez tenha pecado, o sistema pecou e, como nós vivíamos um sistema, vamos dizer assim, de exceção, não tinha para quem apelar. Nós esperamos o fatídico dia. Foram feitas as marcações da cota 220 e, por incrível que pareça, o lago chegou exatamente ali. Nessa altura eu já era adulto, já estava na vida pública e conseguimos constatar. Para nós foi um choque, um luto total. Guaíra, do dia para a noite, paralisou. Ficou totalmente enlutada. Vou dar um exemplo: eu tinha restaurante no hotel, onde servíamos 50, 60, 70, 100 refeições por dia, mais o café da manhã. A partir do outro dia, você não tinha mais nada. Foi fechando tudo. Os hotéis de Guaíra foram fechando, os restaurantes foram fechando. Para se ter uma ideia, juntamente com o diretor do hotel, começamos a doar parte das louças e objetos do hotel, porque não tinha mais porquê. Paralisou. Isso ficou durante vários anos. Foram anos de total ostracismo econômico em Guaíra, porque perdemos a nossa fonte. Foi aí que veio a grande promessa. Na época, engenheiros e técnicos das Centrais Elétricas do Sul do Brasil, a Eletrosul, diziam que aqui seria construído o Complexo de Ilha Grande, acompanhado de ferrovia, rodovia e hidrelétrica. Teríamos uma usina para fazer a contenção dos dejetos de Itaipu Binacional, teríamos ferrovia, rodovia e hidrelétrica. Diziam que Guaíra jamais iria se lembrar das Sete Quedas. De certa maneira, diante do quadro que estávamos vivendo, quase aceitamos e acreditamos nessa ideia. Só que tudo sucumbiu e nada aconteceu. Chegou em 1989, 1990, e simplesmente o governo da época disse: “Está cancelado”. Não se faria mais nada. [00:35:23] ENTREVISTADOR: E quando elas foram sendo inundadas? Foi muito rápido, mas, ao mesmo tempo, pouco a pouco dava para ver a água subindo. Qual era a sensação? NEI: Demorou vários dias, várias semanas. Era uma sensação terrível, principalmente para quem não acreditava que aquilo aconteceria e estava vendo acontecer. Muita gente de Guaíra foi lá, os mais antigos também. Eu tive a oportunidade de ir até quando a água já estava chegando a um determinado ponto. Você via que o canal em si, o canal-base, o que nós chamávamos popularmente de canal, já estava totalmente nivelado. As quedas começaram a diminuir. Começou ali pela queda da ponte, que era praticamente a primeira de cima para baixo. A água começou a subir, e você via que a queda já era bem menor. E não tinha para quem reclamar. Não tinha. O fato estava consumado. [00:36:44] ENTREVISTADOR: E como foi dormir sem o som das Sete Quedas? NEI: Volto a repetir: nós ficamos totalmente à deriva, ficamos de luto, sem saber o que fazer. Não querendo me vitimizar, mas eu, de empresário, fui trabalhar como empregado, de porteiro no hotel, porque não tinha mais o que fazer. Esse foi o meu caso, e muitos foram embora. Muitos empresários deixaram suas propriedades e foram para outras regiões. Teve gente que foi para Mato Grosso, Rondônia, Curitiba, enfim. Foram deixando Guaíra porque não havia alternativa. A própria imprensa chegou a dizer que nós tínhamos nos tornado uma cidade fantasma em determinado período. [00:37:39] ENTREVISTADOR: Me fala mais sobre essa “cidade fantasma”. Como era Guaíra? Como era essa sensação de que aqui tinha, de fato, virado uma cidade fantasma? NEI: A cidade fantasma vem já com a questão da não construção do Complexo de Ilha Grande. Nós havíamos perdido a maior fonte de renda, a maior indústria propulsora da economia local. Aí nos prometeram um grande polo com esse complexo. Tanto é que fizeram mil e poucas casas em Guaíra para acomodar as pessoas e empresas que viriam construir a usina, a ferrovia e a rodovia, fazendo a transposição do Rio Paraná para o Mato Grosso do Sul. E isso não aconteceu. Ali foi o desastre total, porque era gente abandonando, gente indo embora. Aquele grupo de pessoas que veio para Guaíra tinha dado certo fomento à economia guairense. Os hotéis já haviam retomado um pouco daquilo que era possível fazer. E, a partir do momento em que foi decretado o cancelamento da obra do Complexo de Ilha Grande, foi quando a grande imprensa passou a chamar Guaíra de cidade fantasma. [00:39:12] ENTREVISTADOR: Antes de a gente ir para outra pergunta, queria que você falasse sobre o que sente em relação aos últimos anos em Guaíra. Você sente alguma espécie de redescobrimento, de renascimento da cidade? Compara essa Guaíra “cidade fantasma” com a Guaíra de hoje e com a forma como ela tenta se projetar para o futuro. NEI: Eu diria que Guaíra, nos últimos 20, 25 anos, saiu desse luto que viveu, saiu desse ostracismo econômico pelo qual passou. Através de diálogo e de um novo olhar, por meio de todos os setores da sociedade organizada de Guaíra — ainda que de maneira incipiente na indústria, no comércio — começou a encontrar novos caminhos. Veio a questão do comércio com o país vizinho, o Paraguai, o comércio de importados, e gestões que começaram a ter uma visão de não apenas reclamar, mas buscar alternativas junto ao governo estadual e ao governo federal para colocar Guaíra como uma cidade importante. Porque é importante dizer: Guaíra é um dos grandes polos de passagem entre o Norte e o Sul do país. Quem sai do Sul para atingir o Norte do Brasil passa por Guaíra. Foi aí que o comércio começou a se redistribuir e aumentar, a parte hoteleira melhorou, a gastronomia começou também a ganhar uma dimensão melhor e, sem dúvida, a conclusão da ponte sobre o Rio Paraná, substituindo a travessia por balsa, incrementou bastante isso. Eu diria que Guaíra vive uma nova fase, uma fase boa, principalmente agora, buscando o turismo de pesca esportiva, o turismo de aventura. A própria cultura está se levantando, se redescobrindo e colocando projetos em prática. Tivemos também, ainda que de forma acanhada, uma boa recompensa com um percentual maior dos royalties por parte de Itaipu. [00:42:03] ENTREVISTADOR: Então essa vai ser a nossa última pergunta. Conta para mim desde o início: como foi a distribuição dos royalties? Ela foi justa? Foi pouco benéfica para Guaíra até os dias de hoje? NEI: Muito bem. Quando se formou o Lago de Itaipu Binacional, através de todo o seu corpo jurídico e técnico, estabeleceu-se que as indenizações seriam baseadas nos metros quadrados de área inundada e nas benfeitorias que havia em cada propriedade e em cada cidade. Acontece que a cidade de Guaíra está exatamente no último ponto do alagamento, no último extremo. Então, a área em metros quadrados inundada aqui foi a menor. Sem dúvida alguma, foi a menor. No entanto, inundou-se a maior fonte de renda da cidade e uma das maiores belezas do mundo. Isso não foi levado em consideração. Por outro lado, a própria política local, regional e nacional não se ateve, não teve compromisso com Guaíra para fazer um questionamento junto à Itaipu Binacional, no sentido de que isso já tivesse sido considerado no momento da indenização e dos aportes destinados à cidade. Como isso não aconteceu, Guaíra ficou com um dos menores percentuais de royalties, um dos menores valores mensais em dinheiro. Como era cotado em dólar, o nosso percentual em dólar foi um dos menores. Houve lugares em que cidades tiveram áreas maiores submersas e recebiam cinco, seis, dez vezes mais do que nós, por causa desse critério de metros quadrados de área inundada. Aí houve demandas através da política local, juntamente com o governo do Estado, deputados e senadores, no sentido de reverter isso. Numa primeira etapa, levou acho que uns 15 anos e não aconteceu nada. Falava-se, discutia-se, até que, depois de muitos anos de briga, saiu alguma coisa — usando essa expressão —, mas ainda era muito pouco. Por fim, houve um projeto de uma pessoa que jamais podemos esquecer, que teve um papel importante: o então deputado Osmar Serraglio. Ele teve um projeto muito importante e, juntamente com a última gestão do prefeito Eraldo, conseguiram conscientizar os senadores da República e boa parcela dos deputados federais de que havia uma grande injustiça com o município de Guaíra, e que não era possível continuarmos de mãos cruzadas sem fazer nada. Se não me engano, dos 81 senadores, 70 votaram favoravelmente à proposição para o município de Guaíra. Jamais nada vai compensar a perda das Sete Quedas, na minha opinião. Jamais. Mas, pelo menos, é um alívio para a nossa infraestrutura local, para podermos prestar um bom atendimento à comunidade de Guaíra com esse percentual de royalties. [00:45:57] ENTREVISTADOR: Que maravilha. [CORTE / AJUSTE TÉCNICO] ──────────────────────────────────────── SEGUNDA PARTE — MEMÓRIAS A PARTIR DE FOTOGRAFIAS E RECORTES ──────────────────────────────────────── [00:46:04] ENTREVISTADOR: Você pode relaxar um pouquinho mais com a caixinha. Se estiver desconfortável, pode colocar na sua perna. Fica tranquilo. Você vai abrir a caixinha e vão ter algumas memórias, algumas coisinhas aí. Pega uma por uma e vai comentando. Quando quiser comentar, comenta; quando quiser só olhar, pode só olhar. Pode abrir. [00:46:32] NEI: Legal. Essa foto aqui já é de quando estávamos no finalzinho. Eu fiz questão de ir lá, porque as Sete Quedas estavam para terminar. E hoje essa foto é uma lembrança que ninguém mais vai poder ver daquele jeito. [00:46:56] ENTREVISTADOR: Pode olhar para você e, quando quiser, mostrar para a câmera ali atrás. [00:47:02] NEI: Eu fiz um comentário na época. Aqui ficou bem característica a palavra “ADEUS”, como uma despedida. E a pessoa que escreveu esse “adeus” deixou dois pingos de tinta que, para mim, representam duas lágrimas. Eu fiz esse comentário na época e agora é interessante trazer isso à memória. [00:47:36] ENTREVISTADOR: Pode continuar olhando para você mesmo. Assim está ótimo. [00:47:47] NEI: Aqui já é uma cena que nos demonstra tristeza. Mostra a tristeza de saber que hoje não temos mais isso, não existe mais a possibilidade de estarmos lá, naquele lugar onde a gente esteve. E assim vão vindo as memórias com essas fotos. Da mesma forma aqui: era um pedaço das Sete Quedas em que eu fazia essa caminhada três, quatro vezes por dia, levando turistas. Hoje só vem a memória. Sem dúvida alguma, isso nos deixa emocionados. Aqui está o canal também. Não tem como não se emocionar de lembrar que a gente vivenciou isso. Era o nosso caminho de casa, era o nosso pátio de casa. Essa foto aqui já nos traz uma certa indignação. Eu acompanhei também toda a construção dessas torres, que eram torres de transmissão para atingir o Mato Grosso do Sul. Isso nos deixa uma certa indignação porque, em função da construção daquilo que se dizia necessário, que precisava ser feito para o desenvolvimento econômico, social e industrial do Brasil, nós tivemos que perder essa beleza. Aqui também é uma foto aérea que dá uma dimensão das Sete Quedas. Eu já vi vários quadros assim e presenciei aquilo. Nesta foto aérea, todo esse percurso eu fazia caminhando com os turistas, passo a passo, para chegar do início ao final. [00:50:18] NEI: E aqui está aquilo que comentamos anteriormente, a loucura que se tornou o final das Sete Quedas. Estou com uma foto que representa exatamente a ponte do fatídico acidente de 17 de janeiro de 1982. [00:50:49] ENTREVISTADOR: Dá só uma leve viradinha na foto para a câmera. NEI: Essa foto demonstra aquilo que eu falei sobre a loucura que foi o final. Acho que todo mundo queria conhecer as Sete Quedas ainda vivas. Quem já conhecia voltou para ver pela última vez. Era uma loucura. Aqui ainda temos a presença da antiga ponte do fatídico acidente que nós presenciamos, vivenciamos, sofremos. Aqui, mais um dos saltos das Sete Quedas que vêm à memória. A própria foto representa a neblina que se formava. Você tomava uma chuva ao chegar perto, porque a gente conseguia chegar muito próximo da queda. [00:51:58] NEI: E aqui eu tenho mais um saudosismo triste para lembrar. Essa foto representa uma das grandes vivências da minha infância. Um belo dia fui levar um casal de turistas. O marido era de origem japonesa. Eles chegaram à tarde, já no final da tarde, e eu disse: “Agora é impossível, porque não tem iluminação. Marcamos para amanhã cedo para visitar as Sete Quedas”. Eles estavam em lua de mel. Ele gostava muito de fotografia, estava com uma máquina profissional. Quando nós descemos para ele fotografar, em determinado momento ele entregou a máquina para a esposa e escorregou. Foi levado pelas águas. Eu, ainda criança, com oito ou nove anos de idade, presenciei as Sete Quedas engolindo aquele homem exatamente neste lugar da foto. Foi uma coisa que marcou muito a minha vida. Chamamos os guardas, chamamos as pessoas. Eu nem sei dizer se ele foi encontrado, porque ali era um turbilhão de água. Era algo terrível. [00:53:44] NEI: Aqui está o ângulo da ponte. Era uma ponte que balançava, e muita gente tinha mania de subir nela e balançar. Havia também muita gente que sentia medo ao atravessar. Vamos ver mais aqui. [00:54:21] NEI: Aqui, se não me falha a memória, estou vendo uma foto do lado paraguaio. Exatamente aqui nós tínhamos a confluência, o canal, o Grande Canal. Do outro lado havia uma visão menor, naturalmente, mas o país vizinho, o Paraguai, e a comunidade de Salto del Guairá conseguiam ter uma vista parcial das Sete Quedas. Aqui, outra bela visão de um salto. Era um mais lindo que o outro. Se formos falar, não tem como fazer diferenciação entre um e outro. Aqui, tudo indica que estava num período de cheia, porque está bastante avolumado. [00:55:24] NEI: E assim vamos passando pela sequência de fotos das Sete Quedas. Esse aqui era o chamado “Saltinho”. Havia essa ponte, que fazia a ligação com uma das maiores ilhas que compunham as Sete Quedas. Naturalmente, praticamente todo o percurso era feito por pontes e passarelas. Era uma ilha bem grande. Depois dela havia outra ponte. Para ir ao Salto 14, que era o último salto, ainda tínhamos mais duas pontes. Então esse aqui é o famoso Saltinho. Na parte de cima dessa ponte havia um ponto que nós chamávamos de remanso. Era uma parte em que muita gente tomava banho, fazia piquenique. [00:56:37] ENTREVISTADOR: Pode continuar. Quando quiser comentar, comenta; quando não quiser, pode só olhar. Dá só uma viradinha um pouquinho para cá. Isso, está ótimo. [00:56:49] NEI: Aqui é mais uma ponte. Era a penúltima ponte, que fazia a travessia entre a ilha que acabei de citar e o trecho final. Tinha mais uma ponte, um canal, e depois chegávamos ao Salto 14, o último salto do Complexo de Sete Quedas. Aqui também, mais uma vista da ponte. Aqui nós temos as pontes. [00:57:31] NEI: E aqui eu volto a frisar: esse é, sem dúvida alguma, o salto mais bonito. Era o mais volumoso, onde aconteceu aquela tragédia que citei. A gente conseguia chegar muito perto. Como não havia tanta sinalização nem fiscalização, os turistas aproveitavam ao máximo. Pela força da água, formava-se aquela cascata, aquela névoa de água em cima do pessoal. Então esse era o salto mais volumoso. [00:58:11] NEI: Aqui vamos ver. Esse é um recorte. [00:58:14] [PAUSA TÉCNICA PARA TROCA DE BATERIA E AJUSTE DA POSIÇÃO DO MATERIAL] [00:58:41] ENTREVISTADOR: Podemos seguir na ordem em que você estava. [00:58:46] NEI: Aqui estamos com um recorte de jornal, provavelmente da época, cujo texto diz: “Último dia de visitação de Sete Quedas: 40 mil pessoas formaram fila de quilômetros para atingir Sete Quedas”. Quer dizer, aquilo que nós já comentamos é fato: isso aconteceu. Lembrando que, nesse episódio, a ponte já tinha sido reconstruída. Por incrível que pareça, depois de toda a tragédia que aconteceu e já no período final das Sete Quedas, ainda reconstruíram a ponte e ela foi aproveitada por alguns meses. A tragédia foi em janeiro e o lago se formou, se não me falha a memória, entre setembro e outubro. Isso aqui condiz com a realidade daquela época. [00:59:45] NEI: Essa aqui é bem icônica. É também uma foto aérea. Ela pega todo o dorso do canal e as cachoeiras. É bem interessante. Aqui, mais uma vez, aparece aquilo que eu sempre falava e explicava aos turistas: o salto mais bonito, o salto mais imponente das Sete Quedas. Nesta foto ele está numa dimensão um pouco diferente, mais alongada. [01:00:38] NEI: Aqui, mais uma vez, nós temos a ponte que fazia a travessia entre a ilha e o penúltimo espaço para chegar até o Salto 14. Ali nós já tínhamos o canal, um canal mestre. Nós tivemos algumas frases de efeito na época, mas já não surtiam efeito prático. Não conseguiam mais reverter o que já estava estabelecido. [01:01:35] NEI: Aqui diz: “Destruir Sete Quedas é crime, diz prefeito”. Eu costumo dizer que tudo o que vou falar é opinião minha, mas tem uma concepção coletiva. Na época, boa parte da comunidade atribuiu muita culpa ao gestor do município. Mas, na minha opinião, o gestor da época não tinha culpa. Ele era empregado do patrão, tinha que cumprir o que vinha de cima. Talvez seja injusto atribuir a ele a culpa pelo fim. Eu acho que isso não condiz com a verdade, porque o sistema vinha de cima e dizia: “Nós vamos construir uma usina; para construir uma usina, precisamos sufocar as Sete Quedas”. Ele simplesmente cumpriu. Ficou 21 anos no poder como gestor do município, como empregado do governo federal. [01:02:46] NEI: E aqui a frase diz o seguinte: “Figueiredo: é uma pena”. Não vou ler o texto porque não há necessidade. Eu estava ali quando ele e sua comitiva saíram em um Galaxie. Ele deu uma passada muito rápida pelas Sete Quedas. Eu estava muito próximo, junto com outras pessoas, acenando para ele parar, para a gente perguntar, mas ele não parou. Ele simplesmente foi embora. Fez um contorno pelas Sete Quedas, acompanhado por segurança e várias viaturas atrás. Várias pessoas gritavam: “Pare! Pare! Queremos perguntar...”, mas ele não parou. E aqui está a frase: “É uma pena”. É muito pouco para aquilo tudo. [01:03:43] NEI: Aqui eu acredito que sejam autoridades. A imagem está um pouco ofuscada. ENTREVISTADOR: O próprio Figueiredo. NEI: Sim. Mas o relato que fiz é esse: quando ele estava dentro do carro, todo mundo pediu para ele parar e ele não parou. [01:04:12] NEI: E aqui é aquilo que eu disse na entrevista anterior: quando começou a se formar o lago, realmente só havia o que lamentar, sofrer e sentir todo esse episódio. Aqui nós já temos praticamente uma dimensão do lago. Provavelmente há uma numeração indicando onde ficavam partes geográficas das Sete Quedas. Essas fotos aqui eu vou passando, porque já retratam o complexo e nós já falamos bastante sobre as Sete Quedas. Aqui, da mesma forma, é mais uma dimensão de uma das quedas d’água. [01:06:06] NEI: E aqui, essa foto com essa imensidão humana e esse amontoado de ônibus, veículos, Kombis e vans retrata bem aquilo que eu falei há pouco. Foi uma verdadeira enxurrada humana, vamos dizer assim. Era muita gente, muita gente. A foto retrata pessoas descendo a pé para chegar às Sete Quedas, porque já não havia como entrar com os veículos. Foi realmente uma loucura. [01:06:56] NEI: Aqui já é uma foto que retrata o período com pavimentação asfáltica, já no final, nos últimos anos de visitação. Até então era estrada de chão. Essa torre de energia me traz uma lembrança. Ela ficava muito próxima da casa onde eu morei, uns quinhentos, seiscentos metros. A minha casa ficava aqui do lado direito. Essa torre está no continente; não está em uma ilha, porque algumas ficaram em ilhas. [01:07:51] NEI: E, para fecharmos, quero agradecer a todos por essa surpresa. A gente sente muito. Aqui está mais uma visão de uma das cachoeiras das Sete Quedas, compondo todo aquele complexo maravilhoso. Aquilo que jamais, jamais o homem poderia ter feito. Mas, infelizmente, não sei se podemos dizer que, pelo progresso, a gente tem que sacrificar. Talvez essa fosse a visão da época daqueles que detinham o poder. [01:08:25] ENTREVISTADOR: Maravilha. Corta, gente. [FIM DA ENTREVISTA]

Transcrição da entrevista completa [00:00:00] EQUIPE: Preparação das câmeras A e B e início da gravação. [00:00:18] ENTREVISTADOR: Nei, vamos começar falando um pouquinho da sua infância. Como foi a sua infância nas Sete Quedas? NEI: A minha infância nas Sete Quedas foi, sem dúvida alguma, uma experiência maravilhosa, porque nós vivíamos em função das Sete Quedas desde garotos, desde crianças. Eu, meus irmãos, minhas irmãs, meu pai, nós vivíamos e tínhamos o porquê. Na verdade, Sete Quedas era a grande indústria sem chaminés que nós tínhamos em Guaíra. [00:00:59] ENTREVISTADOR: E como é que foi? Você começou a trabalhar lá muito cedo. Me conta um pouco desse trabalho, desde criancinha. NEI: Sim, eu comecei nas Sete Quedas muito cedo, em torno de sete anos de idade. Eu já comecei a lavar carros. Depois, chegando próximo dos nove até os onze anos, eu levava turistas nas Sete Quedas, até que fui convidado pelo único restaurante que tinha lá para ser garçom. Naquele tempo, eu já fui trabalhar como funcionário. Meu pai era operário da usina; tinha uma pequena usina hidrelétrica lá. Meu pai era operário, e eu e a minha irmã, mais velha que eu, vendíamos souvenirs, lembranças das Sete Quedas, tudo o que tinha como tema as Sete Quedas. Então nós vivíamos literalmente das Sete Quedas. [00:02:07] ENTREVISTADOR: E como é que eram elas, sentimentalmente? Como era estar naquele lugar? NEI: Todos os turistas que vinham e que a gente acompanhava — como os demais colegas que acompanhavam os turistas — tinham aquele impacto, uma emoção muito grande. Porque as Sete Quedas tinham um trajeto de dois quilômetros e meio, onde você passava por pontes, passarelas, ilhas, até chegar do início ao final. Então, a cada ângulo de visão era uma emoção, porque era uma cachoeira muito forte, muito emocionante. Aquela brisa, o barulho, o estrondo... Para nós que vivíamos ali, o dia a dia tinha essa mesma impressão, essa emoção de viver ali, porque era encantador para quem visitava as Sete Quedas e via toda aquela beleza natural que nós tínhamos. [00:03:15] ENTREVISTADOR: Faz de conta que eu sou um turista, vim de longe, acabei de chegar em Guaíra, não sei nada sobre as Sete Quedas e caí com você para você me guiar. O que você vai falar para mim? NEI: Primeiramente, a gente sempre se identificava, porque nós tivemos, ainda que de forma bastante rudimentar, algumas orientações de pessoas mais experientes, do pessoal ligado ao turismo. O seu Ernesto Mann era uma pessoa muito ligada ao turismo de Guaíra. Então nós nos apresentávamos e acompanhávamos o turista dizendo: “Olha, aqui, a primeira ponte era uma ponte de ferro”. Nós mostrávamos que, indo no sentido das Sete Quedas, do lado esquerdo do canal estava o país vizinho, o Paraguai. Acima estava o Mato Grosso do Sul. Nós caminhávamos, víamos a segunda ponte, que é aquela do fatídico acidente, falávamos das cachoeiras e assim por diante, até chegar ao que nós chamávamos, na época, de último salto, o Salto 14. [00:04:27] ENTREVISTADOR: E quando chegava no Salto 14, como é que você apresentava esse salto para as pessoas? NEI: Apresentava como o maior salto em quedas d’água. [00:04:39] [Interrupção técnica causada por ruído externo. A equipe interrompe e retoma a pergunta.] [00:05:39] ENTREVISTADOR: Vamos lá, então. Eu estou de frente para o Salto 14. Acabei de chegar em Guaíra. Você vai me apresentar ele? NEI: O Salto 14 era o maior em volume d’água, o maior em extensão, porque praticamente partia de um extremo a outro, chegando quase ao país vizinho, o Paraguai, já quase na divisa. E ele era intransponível a partir dali. Então ele era o último. Você não tinha como acessar mais lugar nenhum por ele. Era interessante: você tinha uma visão de frente, uma visão ampla, que pegava todo o ângulo. Depois fazia um contorno, uma pequena caminhada por dentro da mata, e conseguia pegar mais um canto dele. Então ele era o maior salto que compunha as Sete Quedas. [00:06:32] ENTREVISTADOR: E quando as pessoas chegavam nele, qual era a reação delas? NEI: De grande admiração, de impacto, porque era uma coisa fenomenal. Principalmente ele, porque era o que proporcionava o maior som, o maior barulho, pela sua extensão, pelo seu volume d’água. [00:06:55] ENTREVISTADOR: E qual é a primeira memória que você tem das Sete Quedas? NEI: A primeira memória... Como eu praticamente me criei lá dentro, é aquela memória de todo dia ser um fato novo, apesar de a gente ser criança. Você estava ali recebendo pessoas que vinham com a curiosidade de conhecer. E lá tinha uma pequena usina; essa usina fornecia, inclusive, energia elétrica gratuitamente para quem morava lá. Então era uma coisa interessante, porque nós não pagávamos luz. Tinha mais ou menos umas sete ou oito residências, alguns comércios e o restaurante onde eu fui trabalhar depois. Brincávamos lá também. Eu praticamente não tive infância, porque com sete anos já comecei a trabalhar, mas era gostoso. Todo dia ganhávamos presentes dos turistas. E era muito bom, porque financeiramente a gente era de uma renda inferior. Então, aproveitando essa questão da memória, um belo dia, por volta de 1969, chegaram quatro turistas jovens do Rio de Janeiro em um carro chamado Gordini — um carro que muita gente hoje nem sabe o que era. [00:08:39] [Pequena interrupção técnica. A equipe pede que a história seja retomada desde o início.] [00:09:28] ENTREVISTADOR: Nei, está rodando. Conta essa história dos turistas desde o começo, por favor. NEI: Perfeito. Um belo dia, nessa minha memória de criança, acho que por volta de 1969, chegaram quatro turistas jovens em um carro chamado Gordini, um carro que muita gente hoje não sabe o que era. Eles eram do Rio de Janeiro. Pediram para eu levá-los, e eu fui. Mostrei as Sete Quedas, contei toda a história, e eles ficaram encantados. Depois foram para o restaurante que tinha lá — naquela época eu ainda não trabalhava nesse restaurante —, almoçaram e, na hora de ir embora, eu não sei por qual razão, hoje não me lembro mais, eles tinham um cabrito, literalmente um cabritinho dentro do carro, e me deram de presente. Disseram: “Olha, nós não vamos levar”. Eu não sei por que estavam com aquele cabrito, mas me deram de presente. Eu fiquei feliz da vida, como criança. Levei para casa, cheguei para o meu pai e para a minha mãe, contei, e nós cuidamos do cabrito. [00:11:00] ENTREVISTADOR: Vamos falar mais um pouquinho. Qual era o seu lugar ou momento preferido nas Sete Quedas? NEI: Nas Sete Quedas nós ficávamos a postos onde tinha uma barragem, o canal. Logo abaixo do canal vinha um bosque, e nós ficávamos bem na ponta desse bosque, porque era uma disputa muito grande entre todos. Havia várias crianças e jovens adolescentes que trabalhavam levando turistas, e o fluxo era significativo, principalmente nos finais de semana. Então nós ficávamos a postos para pré-escolher. Naquele tempo, aparecia um carro como uma Veraneio, um Dodge Dart, um Galaxie; mais para frente vieram a TL e a Variant. Eram carros que, supostamente, eram de turistas mais afortunados. A gente prestava atenção nisso porque a gorjeta também era melhor. Nós não tínhamos uma tabela, não existia uma tabela; era tudo muito simples. A gente levava, fazia todo aquele trabalho de informação, de mostrar, de contar sobre os saltos, e na volta eles nos davam um cachê, que ficava a critério do turista. [00:12:29] ENTREVISTADOR: E como os sons das Sete Quedas acompanhavam a sua vida? O quanto eles eram importantes para você? NEI: Esses sons das Sete Quedas eram extremamente interessantes. Meu pai, por exemplo, plantava; nós tínhamos uma área ali mesmo onde plantávamos. Pelo som das Sete Quedas, naquela época, você sabia de que posição vinha a chuva, a tempestade. Enfim, vários fatores você conseguia perceber através do barulho das Sete Quedas. Era muito interessante. Na época, pela lua você também sabia o que fazer em termos de plantação. E outra coisa que nós poderíamos dizer era sobre o clima com as Sete Quedas. Nós tínhamos um inverno muito rigoroso em Guaíra, que não existe mais. Hoje nós temos dias de frio, mas não temos mais aquele inverno. No período das Sete Quedas, o inverno em Guaíra era rigoroso durante os três meses de inverno. [00:14:05] ENTREVISTADOR: E como era morar em um dos lugares mais bonitos do mundo? NEI: Era, volto a repetir, entusiasmante. A gente era criança e, apesar das dificuldades financeiras, todos nós que morávamos ali éramos muito felizes, alegres, porque sempre nos deparávamos com pessoas diferentes, conversando, e a gente acabava sendo um elo de ligação. Quando fui trabalhar no restaurante, ficou ainda mais entusiasmante, porque a gente atendia, contava histórias. Esse restaurante era especializado em peixe; não tínhamos outro cardápio, era tudo à base de peixe. Fazíamos vários pratos à base de peixe, todos capturados no Rio Paraná para atender os turistas. Era um fluxo de movimento muito grande. A gente estava sempre se deparando com novidades. Eu trabalhava de manhã no restaurante, almoçava, andava quatro quilômetros e meio até o Colégio Mendes Gonçalves para estudar, fazer o meu primário, voltava depois e trabalhava mais um período. Assim era. Eu fiz todo o meu primário e ainda um pedacinho do colegial indo e voltando dessa forma. Naquele tempo não tinha pavimentação, asfalto, sistema de transporte coletivo, nada. Você vinha a pé. [00:15:55] ENTREVISTADOR: Vou pular um pouquinho uma pergunta que estava mais para frente. Você falou dos peixes, da alimentação. Você foi premiado diversas vezes com o Pintado na Telha e com pratos de peixe. Me conta sobre esse prato, como você aprendeu, e depois a gente fala um pouco sobre como o descaso com o rio e com esses peixes prejudicou a culinária típica guairense. NEI: Perfeito. Vamos começar lá na base, quando a pesca era farta em Guaíra. Nesse restaurante em que eu trabalhei, e depois nas peixarias de Guaíra, havia muito peixe. Esse restaurante se chamava Restaurante do Salto e tinha peixaria também. Havia vários pescadores profissionais na época. Tem um fato curioso que é preciso contar historicamente. O seu Miguel, que era o proprietário do restaurante, recebia os pescadores. Eles perguntavam: “Seu Miguel, o senhor precisa de peixe hoje?”. Ele abria os freezers, e pela fartura de peixe dizia: “Bom, hoje você me traz só dourado e pintado, porque jaú, pacu e [nome de peixe pouco nítido] ainda tem bastante”. Para vocês terem uma ideia, isso é história que eu vivi, que acompanhei. Havia uma fartura muito grande de peixe. Depois, ainda continuou existindo uma quantidade razoável, mas, após o fechamento do lago, houve uma pesca predatória muito grande no início da formação do reservatório. E aí tivemos uma diminuição muito grande do pescado em Guaíra, principalmente dos chamados pescados nobres, como pintado e dourado. Foi um problema sério. Já não era mais aquela fartura, embora ainda houvesse uma quantidade significativa. Eu cresci, vim para o comércio de Guaíra e, na época em que participei do poder público, tive a ideia de criar o Pintado na Telha como prato típico de Guaíra. Inclusive, a lei é de minha autoria e foi sancionada pela gestão da época. Nós criamos o Pintado na Telha. Não era “peixe na telha”; era “Pintado na Telha”. Ocorre que, com o passar dos anos, esse peixe ficou bastante difícil de capturar no lago e no Rio Paraná, e esse prato acabou ficando um pouco esquecido. Mas ele ainda existe, ainda é servido em hotéis de Guaíra. Eu participei de vários concursos e tive a felicidade de, por várias vezes, ser campeão do Pintado na Telha. Depois vim para o comércio de eventos, onde também trabalhávamos com peixe. [00:19:17] ENTREVISTADOR: Vamos terminar só mais uma aqui e depois a gente dá uma pausa. Fala para mim sobre o turismo às vésperas do fim das Sete Quedas. NEI: O turismo no final das Sete Quedas foi uma loucura. Vamos usar essa expressão: foi uma loucura. Nessa época eu tinha um restaurante no Hotel Guarujá II. Era algo absurdo. Só para vocês terem uma ideia, a fila de ônibus para chegar às Sete Quedas vinha até a Igrejinha de Pedra; depois o pessoal ia a pé. Não tinha como colocar carro no pátio das Sete Quedas. No hotel, para se ter uma ideia, nós alugávamos até o escritório do diretor porque não tinha vaga. Nós tínhamos amizade com um hospital aqui de Guaíra, na época o Hospital Santa Rita. O médico era nosso amigo. Quando havia leito vago, chegaram a alugar leitos para turistas, porque não tinha mais acomodação. E isso num período em que Guaíra tinha vários hotéis, de categorias inferiores e superiores, restaurantes, churrascarias, enfim. Era tudo lotado. Eu atribuo o episódio da queda da ponte ao excesso de peso e à falta de cuidado e fiscalização, porque aquilo era uma loucura. Eram milhares de pessoas passando ao mesmo tempo por aquelas passarelas, por aquelas pontes. [00:21:08] [PAUSA TÉCNICA] [00:21:20] ENTREVISTADOR: Então, talvez um dos dias mais tristes que você tenha vivido ali nas Sete Quedas. Onde você estava quando soube do acidente na ponte? E quando você chegou lá, o que encontrou? NEI: Nesse fatídico acidente, eu estava exatamente no hotel onde tinha o restaurante. Como eu estava dizendo, havia muita gente visitando Guaíra. Eu tinha acabado de construir uma casa e a havia alugado para dois casais do interior de São Paulo, porque o hotel estava lotado. Eu os hospedei nessa casa. De manhã, eles foram tomar o café e seguiram para as Sete Quedas. Por volta das nove, nove e pouco da manhã, veio a triste notícia. Nesse momento, eu fui, juntamente com mais algumas pessoas, me deslocando rapidamente. Cheguei ao local do acidente em torno de quarenta a quarenta e cinco minutos depois. Ainda havia pessoas penduradas, gritos, pessoas ilhadas do outro lado e muita gente do lado que poderíamos chamar de continente. Foi uma coisa absurda. Todo mundo em pavor, desesperado, gritos, choro, e você vendo as pessoas. Muitos já tinham sido levados pela corredeira. O João Lima Moraes, o popular João Mandi, estava ali e teve um papel importante no auxílio ao resgate, de onde ele estava, ali nas pedras. Foi uma coisa terrível, terrível. [00:23:22] ENTREVISTADOR: E me conta como foi o dia seguinte ao acidente. As pessoas ligando, tentando entrar em contato com familiares, poucos orelhões, poucos telefones, hotéis... Como foi essa confusão? NEI: Naquele tempo só existiam fax e telefone fixo. Inclusive no hotel. No Hotel Guarujá II foi montada toda a estrutura de jornalismo do Brasil. Foi ali que vieram as televisões da época, O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo, pessoal de Londrina, enfim, jornais escritos, falados, televisionados, tudo. Ali foi a central. Só que demorava para você passar a matéria. Por exemplo, você mandava uma matéria de manhã para ser exibida só à noite. Ali foi toda a central de divulgação. Foi uma tragédia que tomou proporção mundial. Guaíra ficou estarrecida, ficou de luto. Começaram a chegar familiares, e havia familiares que não tinham contato, porque a comunicação era difícil. Na época, não se sabia ao certo, mas o número oficial de mortos foi 32. [00:24:47] ENTREVISTADOR: Você participou da homenagem final, quando os indigentes foram enterrados no cemitério? Você estava lá ou soube como foi esse momento? NEI: Exatamente nesse dia, não. Mas, na época, eu já tinha uma ligação forte com o comércio de Guaíra e conhecia o secretário responsável pela pasta. Fui até ele. Como nós não tínhamos aqui na cidade estrutura para fazer reconhecimento dos corpos, autópsia e tudo aquilo, eu pedi a ele para entrar no cemitério e ver. Foi um momento que me marcou muito, porque eu contei: havia 19 corpos, todos colocados de maneira rudimentar, esperando vir de fora a Polícia Científica para fazer a autópsia. Naquele momento havia 19 corpos ali. Posteriormente, a grande maioria foi levada, após a identificação, por seus familiares. E, se não me falha a memória, dois ou três foram enterrados como indigentes, porque não apareceu familiar, não apareceu ninguém. [00:26:08] ENTREVISTADOR: E como foi essa busca pelos corpos, que durou quase um mês? NEI: A busca foi extremamente difícil, pelo fato de ser um canal de grande volume d’água e de corredeira muito forte. Isso foi levando os corpos. Houve corpos encontrados a cem quilômetros daqui, rio abaixo. Muitos ficaram enroscados também nas grotas de pedra. Por isso, até hoje, não se tem literalmente a certeza de que foram só 32 mortos. Foi uma coisa muito triste. Houve corpos retirados da água vários dias depois, em um estado que dificultava até a identificação. [00:26:59] [AJUSTE TÉCNICO E NOVO CORTE DE CÂMERA] [00:27:17] ENTREVISTADOR: Vamos voltar ao acidente da ponte, último assunto. Toda essa tragédia aconteceu e alguém tentou colocar a culpa sobre uma pessoa, sobre [nome pouco nítido na gravação]. Você pode me contar como foi essa tentativa? NEI: Com relação a esse fato, que foi atribuído ao Pedimar Porã, que era indígena: ele não era uma pessoa muito antiga ali, mas eu o conheci, conversávamos pouco, como todos conversavam. Na minha opinião — e é só uma opinião pessoal — precisavam arrumar um bode expiatório para alguma coisa. Eu não acredito jamais que ele faria isso, até porque ele era zelador, cuidava dali, estava sempre, vamos dizer assim, vigilante dentro do pátio das Sete Quedas, de todo o complexo. Então eu atribuo isso à criação de um bode expiatório. Estávamos vivendo um momento em que não deram importância para ninguém para acabar com as Sete Quedas. Quando veio essa tragédia, precisavam atribuir a alguém. A formação do lago foi no mesmo ano. Então atribuíram isso a ele. Essa é a minha opinião. [00:29:01] ENTREVISTADOR: Você pode repetir só essa frase? “Eles criaram um bode expiatório.” NEI: Eles criaram um bode expiatório. [00:29:09] ENTREVISTADOR: Vamos fazer uma comparação que eu sei que você gosta de fazer: Sete Quedas e Cataratas do Iguaçu. NEI: Com relação a essa comparação, eu gostaria de fazer um adendo. A natureza foi perfeita. Ela criou duas belezas, eu diria, na mesma direção. O homem, dentro do seu processo de transformação, quis, na sua preponderância, fazer a maior usina do mundo e, para isso, teve que sacrificar uma dessas maravilhas da natureza. Eu conheci as Sete Quedas desde criança, vivi dentro delas. Tive também, ainda bem jovem, a experiência de conhecer as Cataratas do Iguaçu e depois estive lá outras vezes. Na minha visão, as Cataratas do Iguaçu eram bonitas — e são bonitas até hoje; é um dos locais mais visitados do mundo —, só que elas têm uma visão panorâmica praticamente única. Você chega pelo lado brasileiro — elas também podem ser visitadas pelo lado argentino — e tem aquela visão. As Sete Quedas, não. Nas Sete Quedas você cansava. Tinha que fazer aquela enorme caminhada de dois quilômetros e meio e, para cada lado que olhava, tinha uma cachoeira, tinha uma queda, tinha todo o esplendor da natureza ao longo daquele processo de caminhada. Então, para mim, as Sete Quedas eram extremamente superiores às Cataratas do Iguaçu. [00:31:04] ENTREVISTADOR: Vamos começar a falar um pouquinho da despedida. Como foi quando você soube que as Sete Quedas iam acabar? As pessoas acreditaram de começo? Como foi essa notícia? NEI: Eu quero voltar um pouquinho, bem no início. Quando se falou da construção da Usina de Itaipu, que formaria o lago e deixaria as Sete Quedas submersas, eu ainda era criança. Meu pai era operário lá dentro, fazia parte de um órgão do governo ligado ao que hoje vem a ser a nossa Copel. Ele era funcionário dessa empresa, chamada Minas e Energia. Sendo operário, meu pai acompanhou os engenheiros e técnicos, carregando aparelhos de topografia, quando começaram a fazer as demarcações. Eles iam em vários pontos, subindo desde Foz do Iguaçu até Guaíra. Colocavam uma marca metálica, de bronze, que indicava a graduação, a cota que a água atingiria. Eu lembro que, apesar de ser criança, ouvia os mais velhos comentarem que jamais o homem teria capacidade de acabar com uma beleza daquela. Que não teria. Bom, erramos. Guaíra talvez tenha pecado, o sistema pecou e, como nós vivíamos um sistema, vamos dizer assim, de exceção, não tinha para quem apelar. Nós esperamos o fatídico dia. Foram feitas as marcações da cota 220 e, por incrível que pareça, o lago chegou exatamente ali. Nessa altura eu já era adulto, já estava na vida pública e conseguimos constatar. Para nós foi um choque, um luto total. Guaíra, do dia para a noite, paralisou. Ficou totalmente enlutada. Vou dar um exemplo: eu tinha restaurante no hotel, onde servíamos 50, 60, 70, 100 refeições por dia, mais o café da manhã. A partir do outro dia, você não tinha mais nada. Foi fechando tudo. Os hotéis de Guaíra foram fechando, os restaurantes foram fechando. Para se ter uma ideia, juntamente com o diretor do hotel, começamos a doar parte das louças e objetos do hotel, porque não tinha mais porquê. Paralisou. Isso ficou durante vários anos. Foram anos de total ostracismo econômico em Guaíra, porque perdemos a nossa fonte. Foi aí que veio a grande promessa. Na época, engenheiros e técnicos das Centrais Elétricas do Sul do Brasil, a Eletrosul, diziam que aqui seria construído o Complexo de Ilha Grande, acompanhado de ferrovia, rodovia e hidrelétrica. Teríamos uma usina para fazer a contenção dos dejetos de Itaipu Binacional, teríamos ferrovia, rodovia e hidrelétrica. Diziam que Guaíra jamais iria se lembrar das Sete Quedas. De certa maneira, diante do quadro que estávamos vivendo, quase aceitamos e acreditamos nessa ideia. Só que tudo sucumbiu e nada aconteceu. Chegou em 1989, 1990, e simplesmente o governo da época disse: “Está cancelado”. Não se faria mais nada. [00:35:23] ENTREVISTADOR: E quando elas foram sendo inundadas? Foi muito rápido, mas, ao mesmo tempo, pouco a pouco dava para ver a água subindo. Qual era a sensação? NEI: Demorou vários dias, várias semanas. Era uma sensação terrível, principalmente para quem não acreditava que aquilo aconteceria e estava vendo acontecer. Muita gente de Guaíra foi lá, os mais antigos também. Eu tive a oportunidade de ir até quando a água já estava chegando a um determinado ponto. Você via que o canal em si, o canal-base, o que nós chamávamos popularmente de canal, já estava totalmente nivelado. As quedas começaram a diminuir. Começou ali pela queda da ponte, que era praticamente a primeira de cima para baixo. A água começou a subir, e você via que a queda já era bem menor. E não tinha para quem reclamar. Não tinha. O fato estava consumado. [00:36:44] ENTREVISTADOR: E como foi dormir sem o som das Sete Quedas? NEI: Volto a repetir: nós ficamos totalmente à deriva, ficamos de luto, sem saber o que fazer. Não querendo me vitimizar, mas eu, de empresário, fui trabalhar como empregado, de porteiro no hotel, porque não tinha mais o que fazer. Esse foi o meu caso, e muitos foram embora. Muitos empresários deixaram suas propriedades e foram para outras regiões. Teve gente que foi para Mato Grosso, Rondônia, Curitiba, enfim. Foram deixando Guaíra porque não havia alternativa. A própria imprensa chegou a dizer que nós tínhamos nos tornado uma cidade fantasma em determinado período. [00:37:39] ENTREVISTADOR: Me fala mais sobre essa “cidade fantasma”. Como era Guaíra? Como era essa sensação de que aqui tinha, de fato, virado uma cidade fantasma? NEI: A cidade fantasma vem já com a questão da não construção do Complexo de Ilha Grande. Nós havíamos perdido a maior fonte de renda, a maior indústria propulsora da economia local. Aí nos prometeram um grande polo com esse complexo. Tanto é que fizeram mil e poucas casas em Guaíra para acomodar as pessoas e empresas que viriam construir a usina, a ferrovia e a rodovia, fazendo a transposição do Rio Paraná para o Mato Grosso do Sul. E isso não aconteceu. Ali foi o desastre total, porque era gente abandonando, gente indo embora. Aquele grupo de pessoas que veio para Guaíra tinha dado certo fomento à economia guairense. Os hotéis já haviam retomado um pouco daquilo que era possível fazer. E, a partir do momento em que foi decretado o cancelamento da obra do Complexo de Ilha Grande, foi quando a grande imprensa passou a chamar Guaíra de cidade fantasma. [00:39:12] ENTREVISTADOR: Antes de a gente ir para outra pergunta, queria que você falasse sobre o que sente em relação aos últimos anos em Guaíra. Você sente alguma espécie de redescobrimento, de renascimento da cidade? Compara essa Guaíra “cidade fantasma” com a Guaíra de hoje e com a forma como ela tenta se projetar para o futuro. NEI: Eu diria que Guaíra, nos últimos 20, 25 anos, saiu desse luto que viveu, saiu desse ostracismo econômico pelo qual passou. Através de diálogo e de um novo olhar, por meio de todos os setores da sociedade organizada de Guaíra — ainda que de maneira incipiente na indústria, no comércio — começou a encontrar novos caminhos. Veio a questão do comércio com o país vizinho, o Paraguai, o comércio de importados, e gestões que começaram a ter uma visão de não apenas reclamar, mas buscar alternativas junto ao governo estadual e ao governo federal para colocar Guaíra como uma cidade importante. Porque é importante dizer: Guaíra é um dos grandes polos de passagem entre o Norte e o Sul do país. Quem sai do Sul para atingir o Norte do Brasil passa por Guaíra. Foi aí que o comércio começou a se redistribuir e aumentar, a parte hoteleira melhorou, a gastronomia começou também a ganhar uma dimensão melhor e, sem dúvida, a conclusão da ponte sobre o Rio Paraná, substituindo a travessia por balsa, incrementou bastante isso. Eu diria que Guaíra vive uma nova fase, uma fase boa, principalmente agora, buscando o turismo de pesca esportiva, o turismo de aventura. A própria cultura está se levantando, se redescobrindo e colocando projetos em prática. Tivemos também, ainda que de forma acanhada, uma boa recompensa com um percentual maior dos royalties por parte de Itaipu. [00:42:03] ENTREVISTADOR: Então essa vai ser a nossa última pergunta. Conta para mim desde o início: como foi a distribuição dos royalties? Ela foi justa? Foi pouco benéfica para Guaíra até os dias de hoje? NEI: Muito bem. Quando se formou o Lago de Itaipu Binacional, através de todo o seu corpo jurídico e técnico, estabeleceu-se que as indenizações seriam baseadas nos metros quadrados de área inundada e nas benfeitorias que havia em cada propriedade e em cada cidade. Acontece que a cidade de Guaíra está exatamente no último ponto do alagamento, no último extremo. Então, a área em metros quadrados inundada aqui foi a menor. Sem dúvida alguma, foi a menor. No entanto, inundou-se a maior fonte de renda da cidade e uma das maiores belezas do mundo. Isso não foi levado em consideração. Por outro lado, a própria política local, regional e nacional não se ateve, não teve compromisso com Guaíra para fazer um questionamento junto à Itaipu Binacional, no sentido de que isso já tivesse sido considerado no momento da indenização e dos aportes destinados à cidade. Como isso não aconteceu, Guaíra ficou com um dos menores percentuais de royalties, um dos menores valores mensais em dinheiro. Como era cotado em dólar, o nosso percentual em dólar foi um dos menores. Houve lugares em que cidades tiveram áreas maiores submersas e recebiam cinco, seis, dez vezes mais do que nós, por causa desse critério de metros quadrados de área inundada. Aí houve demandas através da política local, juntamente com o governo do Estado, deputados e senadores, no sentido de reverter isso. Numa primeira etapa, levou acho que uns 15 anos e não aconteceu nada. Falava-se, discutia-se, até que, depois de muitos anos de briga, saiu alguma coisa — usando essa expressão —, mas ainda era muito pouco. Por fim, houve um projeto de uma pessoa que jamais podemos esquecer, que teve um papel importante: o então deputado Osmar Serraglio. Ele teve um projeto muito importante e, juntamente com a última gestão do prefeito Eraldo, conseguiram conscientizar os senadores da República e boa parcela dos deputados federais de que havia uma grande injustiça com o município de Guaíra, e que não era possível continuarmos de mãos cruzadas sem fazer nada. Se não me engano, dos 81 senadores, 70 votaram favoravelmente à proposição para o município de Guaíra. Jamais nada vai compensar a perda das Sete Quedas, na minha opinião. Jamais. Mas, pelo menos, é um alívio para a nossa infraestrutura local, para podermos prestar um bom atendimento à comunidade de Guaíra com esse percentual de royalties. [00:45:57] ENTREVISTADOR: Que maravilha. [CORTE / AJUSTE TÉCNICO] ──────────────────────────────────────── SEGUNDA PARTE — MEMÓRIAS A PARTIR DE FOTOGRAFIAS E RECORTES ──────────────────────────────────────── [00:46:04] ENTREVISTADOR: Você pode relaxar um pouquinho mais com a caixinha. Se estiver desconfortável, pode colocar na sua perna. Fica tranquilo. Você vai abrir a caixinha e vão ter algumas memórias, algumas coisinhas aí. Pega uma por uma e vai comentando. Quando quiser comentar, comenta; quando quiser só olhar, pode só olhar. Pode abrir. [00:46:32] NEI: Legal. Essa foto aqui já é de quando estávamos no finalzinho. Eu fiz questão de ir lá, porque as Sete Quedas estavam para terminar. E hoje essa foto é uma lembrança que ninguém mais vai poder ver daquele jeito. [00:46:56] ENTREVISTADOR: Pode olhar para você e, quando quiser, mostrar para a câmera ali atrás. [00:47:02] NEI: Eu fiz um comentário na época. Aqui ficou bem característica a palavra “ADEUS”, como uma despedida. E a pessoa que escreveu esse “adeus” deixou dois pingos de tinta que, para mim, representam duas lágrimas. Eu fiz esse comentário na época e agora é interessante trazer isso à memória. [00:47:36] ENTREVISTADOR: Pode continuar olhando para você mesmo. Assim está ótimo. [00:47:47] NEI: Aqui já é uma cena que nos demonstra tristeza. Mostra a tristeza de saber que hoje não temos mais isso, não existe mais a possibilidade de estarmos lá, naquele lugar onde a gente esteve. E assim vão vindo as memórias com essas fotos. Da mesma forma aqui: era um pedaço das Sete Quedas em que eu fazia essa caminhada três, quatro vezes por dia, levando turistas. Hoje só vem a memória. Sem dúvida alguma, isso nos deixa emocionados. Aqui está o canal também. Não tem como não se emocionar de lembrar que a gente vivenciou isso. Era o nosso caminho de casa, era o nosso pátio de casa. Essa foto aqui já nos traz uma certa indignação. Eu acompanhei também toda a construção dessas torres, que eram torres de transmissão para atingir o Mato Grosso do Sul. Isso nos deixa uma certa indignação porque, em função da construção daquilo que se dizia necessário, que precisava ser feito para o desenvolvimento econômico, social e industrial do Brasil, nós tivemos que perder essa beleza. Aqui também é uma foto aérea que dá uma dimensão das Sete Quedas. Eu já vi vários quadros assim e presenciei aquilo. Nesta foto aérea, todo esse percurso eu fazia caminhando com os turistas, passo a passo, para chegar do início ao final. [00:50:18] NEI: E aqui está aquilo que comentamos anteriormente, a loucura que se tornou o final das Sete Quedas. Estou com uma foto que representa exatamente a ponte do fatídico acidente de 17 de janeiro de 1982. [00:50:49] ENTREVISTADOR: Dá só uma leve viradinha na foto para a câmera. NEI: Essa foto demonstra aquilo que eu falei sobre a loucura que foi o final. Acho que todo mundo queria conhecer as Sete Quedas ainda vivas. Quem já conhecia voltou para ver pela última vez. Era uma loucura. Aqui ainda temos a presença da antiga ponte do fatídico acidente que nós presenciamos, vivenciamos, sofremos. Aqui, mais um dos saltos das Sete Quedas que vêm à memória. A própria foto representa a neblina que se formava. Você tomava uma chuva ao chegar perto, porque a gente conseguia chegar muito próximo da queda. [00:51:58] NEI: E aqui eu tenho mais um saudosismo triste para lembrar. Essa foto representa uma das grandes vivências da minha infância. Um belo dia fui levar um casal de turistas. O marido era de origem japonesa. Eles chegaram à tarde, já no final da tarde, e eu disse: “Agora é impossível, porque não tem iluminação. Marcamos para amanhã cedo para visitar as Sete Quedas”. Eles estavam em lua de mel. Ele gostava muito de fotografia, estava com uma máquina profissional. Quando nós descemos para ele fotografar, em determinado momento ele entregou a máquina para a esposa e escorregou. Foi levado pelas águas. Eu, ainda criança, com oito ou nove anos de idade, presenciei as Sete Quedas engolindo aquele homem exatamente neste lugar da foto. Foi uma coisa que marcou muito a minha vida. Chamamos os guardas, chamamos as pessoas. Eu nem sei dizer se ele foi encontrado, porque ali era um turbilhão de água. Era algo terrível. [00:53:44] NEI: Aqui está o ângulo da ponte. Era uma ponte que balançava, e muita gente tinha mania de subir nela e balançar. Havia também muita gente que sentia medo ao atravessar. Vamos ver mais aqui. [00:54:21] NEI: Aqui, se não me falha a memória, estou vendo uma foto do lado paraguaio. Exatamente aqui nós tínhamos a confluência, o canal, o Grande Canal. Do outro lado havia uma visão menor, naturalmente, mas o país vizinho, o Paraguai, e a comunidade de Salto del Guairá conseguiam ter uma vista parcial das Sete Quedas. Aqui, outra bela visão de um salto. Era um mais lindo que o outro. Se formos falar, não tem como fazer diferenciação entre um e outro. Aqui, tudo indica que estava num período de cheia, porque está bastante avolumado. [00:55:24] NEI: E assim vamos passando pela sequência de fotos das Sete Quedas. Esse aqui era o chamado “Saltinho”. Havia essa ponte, que fazia a ligação com uma das maiores ilhas que compunham as Sete Quedas. Naturalmente, praticamente todo o percurso era feito por pontes e passarelas. Era uma ilha bem grande. Depois dela havia outra ponte. Para ir ao Salto 14, que era o último salto, ainda tínhamos mais duas pontes. Então esse aqui é o famoso Saltinho. Na parte de cima dessa ponte havia um ponto que nós chamávamos de remanso. Era uma parte em que muita gente tomava banho, fazia piquenique. [00:56:37] ENTREVISTADOR: Pode continuar. Quando quiser comentar, comenta; quando não quiser, pode só olhar. Dá só uma viradinha um pouquinho para cá. Isso, está ótimo. [00:56:49] NEI: Aqui é mais uma ponte. Era a penúltima ponte, que fazia a travessia entre a ilha que acabei de citar e o trecho final. Tinha mais uma ponte, um canal, e depois chegávamos ao Salto 14, o último salto do Complexo de Sete Quedas. Aqui também, mais uma vista da ponte. Aqui nós temos as pontes. [00:57:31] NEI: E aqui eu volto a frisar: esse é, sem dúvida alguma, o salto mais bonito. Era o mais volumoso, onde aconteceu aquela tragédia que citei. A gente conseguia chegar muito perto. Como não havia tanta sinalização nem fiscalização, os turistas aproveitavam ao máximo. Pela força da água, formava-se aquela cascata, aquela névoa de água em cima do pessoal. Então esse era o salto mais volumoso. [00:58:11] NEI: Aqui vamos ver. Esse é um recorte. [00:58:14] [PAUSA TÉCNICA PARA TROCA DE BATERIA E AJUSTE DA POSIÇÃO DO MATERIAL] [00:58:41] ENTREVISTADOR: Podemos seguir na ordem em que você estava. [00:58:46] NEI: Aqui estamos com um recorte de jornal, provavelmente da época, cujo texto diz: “Último dia de visitação de Sete Quedas: 40 mil pessoas formaram fila de quilômetros para atingir Sete Quedas”. Quer dizer, aquilo que nós já comentamos é fato: isso aconteceu. Lembrando que, nesse episódio, a ponte já tinha sido reconstruída. Por incrível que pareça, depois de toda a tragédia que aconteceu e já no período final das Sete Quedas, ainda reconstruíram a ponte e ela foi aproveitada por alguns meses. A tragédia foi em janeiro e o lago se formou, se não me falha a memória, entre setembro e outubro. Isso aqui condiz com a realidade daquela época. [00:59:45] NEI: Essa aqui é bem icônica. É também uma foto aérea. Ela pega todo o dorso do canal e as cachoeiras. É bem interessante. Aqui, mais uma vez, aparece aquilo que eu sempre falava e explicava aos turistas: o salto mais bonito, o salto mais imponente das Sete Quedas. Nesta foto ele está numa dimensão um pouco diferente, mais alongada. [01:00:38] NEI: Aqui, mais uma vez, nós temos a ponte que fazia a travessia entre a ilha e o penúltimo espaço para chegar até o Salto 14. Ali nós já tínhamos o canal, um canal mestre. Nós tivemos algumas frases de efeito na época, mas já não surtiam efeito prático. Não conseguiam mais reverter o que já estava estabelecido. [01:01:35] NEI: Aqui diz: “Destruir Sete Quedas é crime, diz prefeito”. Eu costumo dizer que tudo o que vou falar é opinião minha, mas tem uma concepção coletiva. Na época, boa parte da comunidade atribuiu muita culpa ao gestor do município. Mas, na minha opinião, o gestor da época não tinha culpa. Ele era empregado do patrão, tinha que cumprir o que vinha de cima. Talvez seja injusto atribuir a ele a culpa pelo fim. Eu acho que isso não condiz com a verdade, porque o sistema vinha de cima e dizia: “Nós vamos construir uma usina; para construir uma usina, precisamos sufocar as Sete Quedas”. Ele simplesmente cumpriu. Ficou 21 anos no poder como gestor do município, como empregado do governo federal. [01:02:46] NEI: E aqui a frase diz o seguinte: “Figueiredo: é uma pena”. Não vou ler o texto porque não há necessidade. Eu estava ali quando ele e sua comitiva saíram em um Galaxie. Ele deu uma passada muito rápida pelas Sete Quedas. Eu estava muito próximo, junto com outras pessoas, acenando para ele parar, para a gente perguntar, mas ele não parou. Ele simplesmente foi embora. Fez um contorno pelas Sete Quedas, acompanhado por segurança e várias viaturas atrás. Várias pessoas gritavam: “Pare! Pare! Queremos perguntar...”, mas ele não parou. E aqui está a frase: “É uma pena”. É muito pouco para aquilo tudo. [01:03:43] NEI: Aqui eu acredito que sejam autoridades. A imagem está um pouco ofuscada. ENTREVISTADOR: O próprio Figueiredo. NEI: Sim. Mas o relato que fiz é esse: quando ele estava dentro do carro, todo mundo pediu para ele parar e ele não parou. [01:04:12] NEI: E aqui é aquilo que eu disse na entrevista anterior: quando começou a se formar o lago, realmente só havia o que lamentar, sofrer e sentir todo esse episódio. Aqui nós já temos praticamente uma dimensão do lago. Provavelmente há uma numeração indicando onde ficavam partes geográficas das Sete Quedas. Essas fotos aqui eu vou passando, porque já retratam o complexo e nós já falamos bastante sobre as Sete Quedas. Aqui, da mesma forma, é mais uma dimensão de uma das quedas d’água. [01:06:06] NEI: E aqui, essa foto com essa imensidão humana e esse amontoado de ônibus, veículos, Kombis e vans retrata bem aquilo que eu falei há pouco. Foi uma verdadeira enxurrada humana, vamos dizer assim. Era muita gente, muita gente. A foto retrata pessoas descendo a pé para chegar às Sete Quedas, porque já não havia como entrar com os veículos. Foi realmente uma loucura. [01:06:56] NEI: Aqui já é uma foto que retrata o período com pavimentação asfáltica, já no final, nos últimos anos de visitação. Até então era estrada de chão. Essa torre de energia me traz uma lembrança. Ela ficava muito próxima da casa onde eu morei, uns quinhentos, seiscentos metros. A minha casa ficava aqui do lado direito. Essa torre está no continente; não está em uma ilha, porque algumas ficaram em ilhas. [01:07:51] NEI: E, para fecharmos, quero agradecer a todos por essa surpresa. A gente sente muito. Aqui está mais uma visão de uma das cachoeiras das Sete Quedas, compondo todo aquele complexo maravilhoso. Aquilo que jamais, jamais o homem poderia ter feito. Mas, infelizmente, não sei se podemos dizer que, pelo progresso, a gente tem que sacrificar. Talvez essa fosse a visão da época daqueles que detinham o poder. [01:08:25] ENTREVISTADOR: Maravilha. Corta, gente. [FIM DA ENTREVISTA]
ENTREVISTA #05
Dirce Bespalez
Professora e apaixonada pelas Sete Quedas; Dirce tema capacidade de soar como uma poesia oral, construindosuas frases como poetas constroem seus versos.

ENTREVISTA #06
Lygia Maria Jobim
Jornalista e Advogada, filha de José Jobim, mantém até hoje acesa a busca por justiça pelo assassinato do pai. Mora no Rio de Janeiro depois de ter morado em diversos países com o pai diplomata.

Transcrição da entrevista completa [00:00:00] EQUIPE: Preparação das câmeras A e B e início da gravação. [00:00:18] ENTREVISTADOR: Nei, vamos começar falando um pouquinho da sua infância. Como foi a sua infância nas Sete Quedas? NEI: A minha infância nas Sete Quedas foi, sem dúvida alguma, uma experiência maravilhosa, porque nós vivíamos em função das Sete Quedas desde garotos, desde crianças. Eu, meus irmãos, minhas irmãs, meu pai, nós vivíamos e tínhamos o porquê. Na verdade, Sete Quedas era a grande indústria sem chaminés que nós tínhamos em Guaíra. [00:00:59] ENTREVISTADOR: E como é que foi? Você começou a trabalhar lá muito cedo. Me conta um pouco desse trabalho, desde criancinha. NEI: Sim, eu comecei nas Sete Quedas muito cedo, em torno de sete anos de idade. Eu já comecei a lavar carros. Depois, chegando próximo dos nove até os onze anos, eu levava turistas nas Sete Quedas, até que fui convidado pelo único restaurante que tinha lá para ser garçom. Naquele tempo, eu já fui trabalhar como funcionário. Meu pai era operário da usina; tinha uma pequena usina hidrelétrica lá. Meu pai era operário, e eu e a minha irmã, mais velha que eu, vendíamos souvenirs, lembranças das Sete Quedas, tudo o que tinha como tema as Sete Quedas. Então nós vivíamos literalmente das Sete Quedas. [00:02:07] ENTREVISTADOR: E como é que eram elas, sentimentalmente? Como era estar naquele lugar? NEI: Todos os turistas que vinham e que a gente acompanhava — como os demais colegas que acompanhavam os turistas — tinham aquele impacto, uma emoção muito grande. Porque as Sete Quedas tinham um trajeto de dois quilômetros e meio, onde você passava por pontes, passarelas, ilhas, até chegar do início ao final. Então, a cada ângulo de visão era uma emoção, porque era uma cachoeira muito forte, muito emocionante. Aquela brisa, o barulho, o estrondo... Para nós que vivíamos ali, o dia a dia tinha essa mesma impressão, essa emoção de viver ali, porque era encantador para quem visitava as Sete Quedas e via toda aquela beleza natural que nós tínhamos. [00:03:15] ENTREVISTADOR: Faz de conta que eu sou um turista, vim de longe, acabei de chegar em Guaíra, não sei nada sobre as Sete Quedas e caí com você para você me guiar. O que você vai falar para mim? NEI: Primeiramente, a gente sempre se identificava, porque nós tivemos, ainda que de forma bastante rudimentar, algumas orientações de pessoas mais experientes, do pessoal ligado ao turismo. O seu Ernesto Mann era uma pessoa muito ligada ao turismo de Guaíra. Então nós nos apresentávamos e acompanhávamos o turista dizendo: “Olha, aqui, a primeira ponte era uma ponte de ferro”. Nós mostrávamos que, indo no sentido das Sete Quedas, do lado esquerdo do canal estava o país vizinho, o Paraguai. Acima estava o Mato Grosso do Sul. Nós caminhávamos, víamos a segunda ponte, que é aquela do fatídico acidente, falávamos das cachoeiras e assim por diante, até chegar ao que nós chamávamos, na época, de último salto, o Salto 14. [00:04:27] ENTREVISTADOR: E quando chegava no Salto 14, como é que você apresentava esse salto para as pessoas? NEI: Apresentava como o maior salto em quedas d’água. [00:04:39] [Interrupção técnica causada por ruído externo. A equipe interrompe e retoma a pergunta.] [00:05:39] ENTREVISTADOR: Vamos lá, então. Eu estou de frente para o Salto 14. Acabei de chegar em Guaíra. Você vai me apresentar ele? NEI: O Salto 14 era o maior em volume d’água, o maior em extensão, porque praticamente partia de um extremo a outro, chegando quase ao país vizinho, o Paraguai, já quase na divisa. E ele era intransponível a partir dali. Então ele era o último. Você não tinha como acessar mais lugar nenhum por ele. Era interessante: você tinha uma visão de frente, uma visão ampla, que pegava todo o ângulo. Depois fazia um contorno, uma pequena caminhada por dentro da mata, e conseguia pegar mais um canto dele. Então ele era o maior salto que compunha as Sete Quedas. [00:06:32] ENTREVISTADOR: E quando as pessoas chegavam nele, qual era a reação delas? NEI: De grande admiração, de impacto, porque era uma coisa fenomenal. Principalmente ele, porque era o que proporcionava o maior som, o maior barulho, pela sua extensão, pelo seu volume d’água. [00:06:55] ENTREVISTADOR: E qual é a primeira memória que você tem das Sete Quedas? NEI: A primeira memória... Como eu praticamente me criei lá dentro, é aquela memória de todo dia ser um fato novo, apesar de a gente ser criança. Você estava ali recebendo pessoas que vinham com a curiosidade de conhecer. E lá tinha uma pequena usina; essa usina fornecia, inclusive, energia elétrica gratuitamente para quem morava lá. Então era uma coisa interessante, porque nós não pagávamos luz. Tinha mais ou menos umas sete ou oito residências, alguns comércios e o restaurante onde eu fui trabalhar depois. Brincávamos lá também. Eu praticamente não tive infância, porque com sete anos já comecei a trabalhar, mas era gostoso. Todo dia ganhávamos presentes dos turistas. E era muito bom, porque financeiramente a gente era de uma renda inferior. Então, aproveitando essa questão da memória, um belo dia, por volta de 1969, chegaram quatro turistas jovens do Rio de Janeiro em um carro chamado Gordini — um carro que muita gente hoje nem sabe o que era. [00:08:39] [Pequena interrupção técnica. A equipe pede que a história seja retomada desde o início.] [00:09:28] ENTREVISTADOR: Nei, está rodando. Conta essa história dos turistas desde o começo, por favor. NEI: Perfeito. Um belo dia, nessa minha memória de criança, acho que por volta de 1969, chegaram quatro turistas jovens em um carro chamado Gordini, um carro que muita gente hoje não sabe o que era. Eles eram do Rio de Janeiro. Pediram para eu levá-los, e eu fui. Mostrei as Sete Quedas, contei toda a história, e eles ficaram encantados. Depois foram para o restaurante que tinha lá — naquela época eu ainda não trabalhava nesse restaurante —, almoçaram e, na hora de ir embora, eu não sei por qual razão, hoje não me lembro mais, eles tinham um cabrito, literalmente um cabritinho dentro do carro, e me deram de presente. Disseram: “Olha, nós não vamos levar”. Eu não sei por que estavam com aquele cabrito, mas me deram de presente. Eu fiquei feliz da vida, como criança. Levei para casa, cheguei para o meu pai e para a minha mãe, contei, e nós cuidamos do cabrito. [00:11:00] ENTREVISTADOR: Vamos falar mais um pouquinho. Qual era o seu lugar ou momento preferido nas Sete Quedas? NEI: Nas Sete Quedas nós ficávamos a postos onde tinha uma barragem, o canal. Logo abaixo do canal vinha um bosque, e nós ficávamos bem na ponta desse bosque, porque era uma disputa muito grande entre todos. Havia várias crianças e jovens adolescentes que trabalhavam levando turistas, e o fluxo era significativo, principalmente nos finais de semana. Então nós ficávamos a postos para pré-escolher. Naquele tempo, aparecia um carro como uma Veraneio, um Dodge Dart, um Galaxie; mais para frente vieram a TL e a Variant. Eram carros que, supostamente, eram de turistas mais afortunados. A gente prestava atenção nisso porque a gorjeta também era melhor. Nós não tínhamos uma tabela, não existia uma tabela; era tudo muito simples. A gente levava, fazia todo aquele trabalho de informação, de mostrar, de contar sobre os saltos, e na volta eles nos davam um cachê, que ficava a critério do turista. [00:12:29] ENTREVISTADOR: E como os sons das Sete Quedas acompanhavam a sua vida? O quanto eles eram importantes para você? NEI: Esses sons das Sete Quedas eram extremamente interessantes. Meu pai, por exemplo, plantava; nós tínhamos uma área ali mesmo onde plantávamos. Pelo som das Sete Quedas, naquela época, você sabia de que posição vinha a chuva, a tempestade. Enfim, vários fatores você conseguia perceber através do barulho das Sete Quedas. Era muito interessante. Na época, pela lua você também sabia o que fazer em termos de plantação. E outra coisa que nós poderíamos dizer era sobre o clima com as Sete Quedas. Nós tínhamos um inverno muito rigoroso em Guaíra, que não existe mais. Hoje nós temos dias de frio, mas não temos mais aquele inverno. No período das Sete Quedas, o inverno em Guaíra era rigoroso durante os três meses de inverno. [00:14:05] ENTREVISTADOR: E como era morar em um dos lugares mais bonitos do mundo? NEI: Era, volto a repetir, entusiasmante. A gente era criança e, apesar das dificuldades financeiras, todos nós que morávamos ali éramos muito felizes, alegres, porque sempre nos deparávamos com pessoas diferentes, conversando, e a gente acabava sendo um elo de ligação. Quando fui trabalhar no restaurante, ficou ainda mais entusiasmante, porque a gente atendia, contava histórias. Esse restaurante era especializado em peixe; não tínhamos outro cardápio, era tudo à base de peixe. Fazíamos vários pratos à base de peixe, todos capturados no Rio Paraná para atender os turistas. Era um fluxo de movimento muito grande. A gente estava sempre se deparando com novidades. Eu trabalhava de manhã no restaurante, almoçava, andava quatro quilômetros e meio até o Colégio Mendes Gonçalves para estudar, fazer o meu primário, voltava depois e trabalhava mais um período. Assim era. Eu fiz todo o meu primário e ainda um pedacinho do colegial indo e voltando dessa forma. Naquele tempo não tinha pavimentação, asfalto, sistema de transporte coletivo, nada. Você vinha a pé. [00:15:55] ENTREVISTADOR: Vou pular um pouquinho uma pergunta que estava mais para frente. Você falou dos peixes, da alimentação. Você foi premiado diversas vezes com o Pintado na Telha e com pratos de peixe. Me conta sobre esse prato, como você aprendeu, e depois a gente fala um pouco sobre como o descaso com o rio e com esses peixes prejudicou a culinária típica guairense. NEI: Perfeito. Vamos começar lá na base, quando a pesca era farta em Guaíra. Nesse restaurante em que eu trabalhei, e depois nas peixarias de Guaíra, havia muito peixe. Esse restaurante se chamava Restaurante do Salto e tinha peixaria também. Havia vários pescadores profissionais na época. Tem um fato curioso que é preciso contar historicamente. O seu Miguel, que era o proprietário do restaurante, recebia os pescadores. Eles perguntavam: “Seu Miguel, o senhor precisa de peixe hoje?”. Ele abria os freezers, e pela fartura de peixe dizia: “Bom, hoje você me traz só dourado e pintado, porque jaú, pacu e [nome de peixe pouco nítido] ainda tem bastante”. Para vocês terem uma ideia, isso é história que eu vivi, que acompanhei. Havia uma fartura muito grande de peixe. Depois, ainda continuou existindo uma quantidade razoável, mas, após o fechamento do lago, houve uma pesca predatória muito grande no início da formação do reservatório. E aí tivemos uma diminuição muito grande do pescado em Guaíra, principalmente dos chamados pescados nobres, como pintado e dourado. Foi um problema sério. Já não era mais aquela fartura, embora ainda houvesse uma quantidade significativa. Eu cresci, vim para o comércio de Guaíra e, na época em que participei do poder público, tive a ideia de criar o Pintado na Telha como prato típico de Guaíra. Inclusive, a lei é de minha autoria e foi sancionada pela gestão da época. Nós criamos o Pintado na Telha. Não era “peixe na telha”; era “Pintado na Telha”. Ocorre que, com o passar dos anos, esse peixe ficou bastante difícil de capturar no lago e no Rio Paraná, e esse prato acabou ficando um pouco esquecido. Mas ele ainda existe, ainda é servido em hotéis de Guaíra. Eu participei de vários concursos e tive a felicidade de, por várias vezes, ser campeão do Pintado na Telha. Depois vim para o comércio de eventos, onde também trabalhávamos com peixe. [00:19:17] ENTREVISTADOR: Vamos terminar só mais uma aqui e depois a gente dá uma pausa. Fala para mim sobre o turismo às vésperas do fim das Sete Quedas. NEI: O turismo no final das Sete Quedas foi uma loucura. Vamos usar essa expressão: foi uma loucura. Nessa época eu tinha um restaurante no Hotel Guarujá II. Era algo absurdo. Só para vocês terem uma ideia, a fila de ônibus para chegar às Sete Quedas vinha até a Igrejinha de Pedra; depois o pessoal ia a pé. Não tinha como colocar carro no pátio das Sete Quedas. No hotel, para se ter uma ideia, nós alugávamos até o escritório do diretor porque não tinha vaga. Nós tínhamos amizade com um hospital aqui de Guaíra, na época o Hospital Santa Rita. O médico era nosso amigo. Quando havia leito vago, chegaram a alugar leitos para turistas, porque não tinha mais acomodação. E isso num período em que Guaíra tinha vários hotéis, de categorias inferiores e superiores, restaurantes, churrascarias, enfim. Era tudo lotado. Eu atribuo o episódio da queda da ponte ao excesso de peso e à falta de cuidado e fiscalização, porque aquilo era uma loucura. Eram milhares de pessoas passando ao mesmo tempo por aquelas passarelas, por aquelas pontes. [00:21:08] [PAUSA TÉCNICA] [00:21:20] ENTREVISTADOR: Então, talvez um dos dias mais tristes que você tenha vivido ali nas Sete Quedas. Onde você estava quando soube do acidente na ponte? E quando você chegou lá, o que encontrou? NEI: Nesse fatídico acidente, eu estava exatamente no hotel onde tinha o restaurante. Como eu estava dizendo, havia muita gente visitando Guaíra. Eu tinha acabado de construir uma casa e a havia alugado para dois casais do interior de São Paulo, porque o hotel estava lotado. Eu os hospedei nessa casa. De manhã, eles foram tomar o café e seguiram para as Sete Quedas. Por volta das nove, nove e pouco da manhã, veio a triste notícia. Nesse momento, eu fui, juntamente com mais algumas pessoas, me deslocando rapidamente. Cheguei ao local do acidente em torno de quarenta a quarenta e cinco minutos depois. Ainda havia pessoas penduradas, gritos, pessoas ilhadas do outro lado e muita gente do lado que poderíamos chamar de continente. Foi uma coisa absurda. Todo mundo em pavor, desesperado, gritos, choro, e você vendo as pessoas. Muitos já tinham sido levados pela corredeira. O João Lima Moraes, o popular João Mandi, estava ali e teve um papel importante no auxílio ao resgate, de onde ele estava, ali nas pedras. Foi uma coisa terrível, terrível. [00:23:22] ENTREVISTADOR: E me conta como foi o dia seguinte ao acidente. As pessoas ligando, tentando entrar em contato com familiares, poucos orelhões, poucos telefones, hotéis... Como foi essa confusão? NEI: Naquele tempo só existiam fax e telefone fixo. Inclusive no hotel. No Hotel Guarujá II foi montada toda a estrutura de jornalismo do Brasil. Foi ali que vieram as televisões da época, O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo, pessoal de Londrina, enfim, jornais escritos, falados, televisionados, tudo. Ali foi a central. Só que demorava para você passar a matéria. Por exemplo, você mandava uma matéria de manhã para ser exibida só à noite. Ali foi toda a central de divulgação. Foi uma tragédia que tomou proporção mundial. Guaíra ficou estarrecida, ficou de luto. Começaram a chegar familiares, e havia familiares que não tinham contato, porque a comunicação era difícil. Na época, não se sabia ao certo, mas o número oficial de mortos foi 32. [00:24:47] ENTREVISTADOR: Você participou da homenagem final, quando os indigentes foram enterrados no cemitério? Você estava lá ou soube como foi esse momento? NEI: Exatamente nesse dia, não. Mas, na época, eu já tinha uma ligação forte com o comércio de Guaíra e conhecia o secretário responsável pela pasta. Fui até ele. Como nós não tínhamos aqui na cidade estrutura para fazer reconhecimento dos corpos, autópsia e tudo aquilo, eu pedi a ele para entrar no cemitério e ver. Foi um momento que me marcou muito, porque eu contei: havia 19 corpos, todos colocados de maneira rudimentar, esperando vir de fora a Polícia Científica para fazer a autópsia. Naquele momento havia 19 corpos ali. Posteriormente, a grande maioria foi levada, após a identificação, por seus familiares. E, se não me falha a memória, dois ou três foram enterrados como indigentes, porque não apareceu familiar, não apareceu ninguém. [00:26:08] ENTREVISTADOR: E como foi essa busca pelos corpos, que durou quase um mês? NEI: A busca foi extremamente difícil, pelo fato de ser um canal de grande volume d’água e de corredeira muito forte. Isso foi levando os corpos. Houve corpos encontrados a cem quilômetros daqui, rio abaixo. Muitos ficaram enroscados também nas grotas de pedra. Por isso, até hoje, não se tem literalmente a certeza de que foram só 32 mortos. Foi uma coisa muito triste. Houve corpos retirados da água vários dias depois, em um estado que dificultava até a identificação. [00:26:59] [AJUSTE TÉCNICO E NOVO CORTE DE CÂMERA] [00:27:17] ENTREVISTADOR: Vamos voltar ao acidente da ponte, último assunto. Toda essa tragédia aconteceu e alguém tentou colocar a culpa sobre uma pessoa, sobre [nome pouco nítido na gravação]. Você pode me contar como foi essa tentativa? NEI: Com relação a esse fato, que foi atribuído ao Pedimar Porã, que era indígena: ele não era uma pessoa muito antiga ali, mas eu o conheci, conversávamos pouco, como todos conversavam. Na minha opinião — e é só uma opinião pessoal — precisavam arrumar um bode expiatório para alguma coisa. Eu não acredito jamais que ele faria isso, até porque ele era zelador, cuidava dali, estava sempre, vamos dizer assim, vigilante dentro do pátio das Sete Quedas, de todo o complexo. Então eu atribuo isso à criação de um bode expiatório. Estávamos vivendo um momento em que não deram importância para ninguém para acabar com as Sete Quedas. Quando veio essa tragédia, precisavam atribuir a alguém. A formação do lago foi no mesmo ano. Então atribuíram isso a ele. Essa é a minha opinião. [00:29:01] ENTREVISTADOR: Você pode repetir só essa frase? “Eles criaram um bode expiatório.” NEI: Eles criaram um bode expiatório. [00:29:09] ENTREVISTADOR: Vamos fazer uma comparação que eu sei que você gosta de fazer: Sete Quedas e Cataratas do Iguaçu. NEI: Com relação a essa comparação, eu gostaria de fazer um adendo. A natureza foi perfeita. Ela criou duas belezas, eu diria, na mesma direção. O homem, dentro do seu processo de transformação, quis, na sua preponderância, fazer a maior usina do mundo e, para isso, teve que sacrificar uma dessas maravilhas da natureza. Eu conheci as Sete Quedas desde criança, vivi dentro delas. Tive também, ainda bem jovem, a experiência de conhecer as Cataratas do Iguaçu e depois estive lá outras vezes. Na minha visão, as Cataratas do Iguaçu eram bonitas — e são bonitas até hoje; é um dos locais mais visitados do mundo —, só que elas têm uma visão panorâmica praticamente única. Você chega pelo lado brasileiro — elas também podem ser visitadas pelo lado argentino — e tem aquela visão. As Sete Quedas, não. Nas Sete Quedas você cansava. Tinha que fazer aquela enorme caminhada de dois quilômetros e meio e, para cada lado que olhava, tinha uma cachoeira, tinha uma queda, tinha todo o esplendor da natureza ao longo daquele processo de caminhada. Então, para mim, as Sete Quedas eram extremamente superiores às Cataratas do Iguaçu. [00:31:04] ENTREVISTADOR: Vamos começar a falar um pouquinho da despedida. Como foi quando você soube que as Sete Quedas iam acabar? As pessoas acreditaram de começo? Como foi essa notícia? NEI: Eu quero voltar um pouquinho, bem no início. Quando se falou da construção da Usina de Itaipu, que formaria o lago e deixaria as Sete Quedas submersas, eu ainda era criança. Meu pai era operário lá dentro, fazia parte de um órgão do governo ligado ao que hoje vem a ser a nossa Copel. Ele era funcionário dessa empresa, chamada Minas e Energia. Sendo operário, meu pai acompanhou os engenheiros e técnicos, carregando aparelhos de topografia, quando começaram a fazer as demarcações. Eles iam em vários pontos, subindo desde Foz do Iguaçu até Guaíra. Colocavam uma marca metálica, de bronze, que indicava a graduação, a cota que a água atingiria. Eu lembro que, apesar de ser criança, ouvia os mais velhos comentarem que jamais o homem teria capacidade de acabar com uma beleza daquela. Que não teria. Bom, erramos. Guaíra talvez tenha pecado, o sistema pecou e, como nós vivíamos um sistema, vamos dizer assim, de exceção, não tinha para quem apelar. Nós esperamos o fatídico dia. Foram feitas as marcações da cota 220 e, por incrível que pareça, o lago chegou exatamente ali. Nessa altura eu já era adulto, já estava na vida pública e conseguimos constatar. Para nós foi um choque, um luto total. Guaíra, do dia para a noite, paralisou. Ficou totalmente enlutada. Vou dar um exemplo: eu tinha restaurante no hotel, onde servíamos 50, 60, 70, 100 refeições por dia, mais o café da manhã. A partir do outro dia, você não tinha mais nada. Foi fechando tudo. Os hotéis de Guaíra foram fechando, os restaurantes foram fechando. Para se ter uma ideia, juntamente com o diretor do hotel, começamos a doar parte das louças e objetos do hotel, porque não tinha mais porquê. Paralisou. Isso ficou durante vários anos. Foram anos de total ostracismo econômico em Guaíra, porque perdemos a nossa fonte. Foi aí que veio a grande promessa. Na época, engenheiros e técnicos das Centrais Elétricas do Sul do Brasil, a Eletrosul, diziam que aqui seria construído o Complexo de Ilha Grande, acompanhado de ferrovia, rodovia e hidrelétrica. Teríamos uma usina para fazer a contenção dos dejetos de Itaipu Binacional, teríamos ferrovia, rodovia e hidrelétrica. Diziam que Guaíra jamais iria se lembrar das Sete Quedas. De certa maneira, diante do quadro que estávamos vivendo, quase aceitamos e acreditamos nessa ideia. Só que tudo sucumbiu e nada aconteceu. Chegou em 1989, 1990, e simplesmente o governo da época disse: “Está cancelado”. Não se faria mais nada. [00:35:23] ENTREVISTADOR: E quando elas foram sendo inundadas? Foi muito rápido, mas, ao mesmo tempo, pouco a pouco dava para ver a água subindo. Qual era a sensação? NEI: Demorou vários dias, várias semanas. Era uma sensação terrível, principalmente para quem não acreditava que aquilo aconteceria e estava vendo acontecer. Muita gente de Guaíra foi lá, os mais antigos também. Eu tive a oportunidade de ir até quando a água já estava chegando a um determinado ponto. Você via que o canal em si, o canal-base, o que nós chamávamos popularmente de canal, já estava totalmente nivelado. As quedas começaram a diminuir. Começou ali pela queda da ponte, que era praticamente a primeira de cima para baixo. A água começou a subir, e você via que a queda já era bem menor. E não tinha para quem reclamar. Não tinha. O fato estava consumado. [00:36:44] ENTREVISTADOR: E como foi dormir sem o som das Sete Quedas? NEI: Volto a repetir: nós ficamos totalmente à deriva, ficamos de luto, sem saber o que fazer. Não querendo me vitimizar, mas eu, de empresário, fui trabalhar como empregado, de porteiro no hotel, porque não tinha mais o que fazer. Esse foi o meu caso, e muitos foram embora. Muitos empresários deixaram suas propriedades e foram para outras regiões. Teve gente que foi para Mato Grosso, Rondônia, Curitiba, enfim. Foram deixando Guaíra porque não havia alternativa. A própria imprensa chegou a dizer que nós tínhamos nos tornado uma cidade fantasma em determinado período. [00:37:39] ENTREVISTADOR: Me fala mais sobre essa “cidade fantasma”. Como era Guaíra? Como era essa sensação de que aqui tinha, de fato, virado uma cidade fantasma? NEI: A cidade fantasma vem já com a questão da não construção do Complexo de Ilha Grande. Nós havíamos perdido a maior fonte de renda, a maior indústria propulsora da economia local. Aí nos prometeram um grande polo com esse complexo. Tanto é que fizeram mil e poucas casas em Guaíra para acomodar as pessoas e empresas que viriam construir a usina, a ferrovia e a rodovia, fazendo a transposição do Rio Paraná para o Mato Grosso do Sul. E isso não aconteceu. Ali foi o desastre total, porque era gente abandonando, gente indo embora. Aquele grupo de pessoas que veio para Guaíra tinha dado certo fomento à economia guairense. Os hotéis já haviam retomado um pouco daquilo que era possível fazer. E, a partir do momento em que foi decretado o cancelamento da obra do Complexo de Ilha Grande, foi quando a grande imprensa passou a chamar Guaíra de cidade fantasma. [00:39:12] ENTREVISTADOR: Antes de a gente ir para outra pergunta, queria que você falasse sobre o que sente em relação aos últimos anos em Guaíra. Você sente alguma espécie de redescobrimento, de renascimento da cidade? Compara essa Guaíra “cidade fantasma” com a Guaíra de hoje e com a forma como ela tenta se projetar para o futuro. NEI: Eu diria que Guaíra, nos últimos 20, 25 anos, saiu desse luto que viveu, saiu desse ostracismo econômico pelo qual passou. Através de diálogo e de um novo olhar, por meio de todos os setores da sociedade organizada de Guaíra — ainda que de maneira incipiente na indústria, no comércio — começou a encontrar novos caminhos. Veio a questão do comércio com o país vizinho, o Paraguai, o comércio de importados, e gestões que começaram a ter uma visão de não apenas reclamar, mas buscar alternativas junto ao governo estadual e ao governo federal para colocar Guaíra como uma cidade importante. Porque é importante dizer: Guaíra é um dos grandes polos de passagem entre o Norte e o Sul do país. Quem sai do Sul para atingir o Norte do Brasil passa por Guaíra. Foi aí que o comércio começou a se redistribuir e aumentar, a parte hoteleira melhorou, a gastronomia começou também a ganhar uma dimensão melhor e, sem dúvida, a conclusão da ponte sobre o Rio Paraná, substituindo a travessia por balsa, incrementou bastante isso. Eu diria que Guaíra vive uma nova fase, uma fase boa, principalmente agora, buscando o turismo de pesca esportiva, o turismo de aventura. A própria cultura está se levantando, se redescobrindo e colocando projetos em prática. Tivemos também, ainda que de forma acanhada, uma boa recompensa com um percentual maior dos royalties por parte de Itaipu. [00:42:03] ENTREVISTADOR: Então essa vai ser a nossa última pergunta. Conta para mim desde o início: como foi a distribuição dos royalties? Ela foi justa? Foi pouco benéfica para Guaíra até os dias de hoje? NEI: Muito bem. Quando se formou o Lago de Itaipu Binacional, através de todo o seu corpo jurídico e técnico, estabeleceu-se que as indenizações seriam baseadas nos metros quadrados de área inundada e nas benfeitorias que havia em cada propriedade e em cada cidade. Acontece que a cidade de Guaíra está exatamente no último ponto do alagamento, no último extremo. Então, a área em metros quadrados inundada aqui foi a menor. Sem dúvida alguma, foi a menor. No entanto, inundou-se a maior fonte de renda da cidade e uma das maiores belezas do mundo. Isso não foi levado em consideração. Por outro lado, a própria política local, regional e nacional não se ateve, não teve compromisso com Guaíra para fazer um questionamento junto à Itaipu Binacional, no sentido de que isso já tivesse sido considerado no momento da indenização e dos aportes destinados à cidade. Como isso não aconteceu, Guaíra ficou com um dos menores percentuais de royalties, um dos menores valores mensais em dinheiro. Como era cotado em dólar, o nosso percentual em dólar foi um dos menores. Houve lugares em que cidades tiveram áreas maiores submersas e recebiam cinco, seis, dez vezes mais do que nós, por causa desse critério de metros quadrados de área inundada. Aí houve demandas através da política local, juntamente com o governo do Estado, deputados e senadores, no sentido de reverter isso. Numa primeira etapa, levou acho que uns 15 anos e não aconteceu nada. Falava-se, discutia-se, até que, depois de muitos anos de briga, saiu alguma coisa — usando essa expressão —, mas ainda era muito pouco. Por fim, houve um projeto de uma pessoa que jamais podemos esquecer, que teve um papel importante: o então deputado Osmar Serraglio. Ele teve um projeto muito importante e, juntamente com a última gestão do prefeito Eraldo, conseguiram conscientizar os senadores da República e boa parcela dos deputados federais de que havia uma grande injustiça com o município de Guaíra, e que não era possível continuarmos de mãos cruzadas sem fazer nada. Se não me engano, dos 81 senadores, 70 votaram favoravelmente à proposição para o município de Guaíra. Jamais nada vai compensar a perda das Sete Quedas, na minha opinião. Jamais. Mas, pelo menos, é um alívio para a nossa infraestrutura local, para podermos prestar um bom atendimento à comunidade de Guaíra com esse percentual de royalties. [00:45:57] ENTREVISTADOR: Que maravilha. [CORTE / AJUSTE TÉCNICO] ──────────────────────────────────────── SEGUNDA PARTE — MEMÓRIAS A PARTIR DE FOTOGRAFIAS E RECORTES ──────────────────────────────────────── [00:46:04] ENTREVISTADOR: Você pode relaxar um pouquinho mais com a caixinha. Se estiver desconfortável, pode colocar na sua perna. Fica tranquilo. Você vai abrir a caixinha e vão ter algumas memórias, algumas coisinhas aí. Pega uma por uma e vai comentando. Quando quiser comentar, comenta; quando quiser só olhar, pode só olhar. Pode abrir. [00:46:32] NEI: Legal. Essa foto aqui já é de quando estávamos no finalzinho. Eu fiz questão de ir lá, porque as Sete Quedas estavam para terminar. E hoje essa foto é uma lembrança que ninguém mais vai poder ver daquele jeito. [00:46:56] ENTREVISTADOR: Pode olhar para você e, quando quiser, mostrar para a câmera ali atrás. [00:47:02] NEI: Eu fiz um comentário na época. Aqui ficou bem característica a palavra “ADEUS”, como uma despedida. E a pessoa que escreveu esse “adeus” deixou dois pingos de tinta que, para mim, representam duas lágrimas. Eu fiz esse comentário na época e agora é interessante trazer isso à memória. [00:47:36] ENTREVISTADOR: Pode continuar olhando para você mesmo. Assim está ótimo. [00:47:47] NEI: Aqui já é uma cena que nos demonstra tristeza. Mostra a tristeza de saber que hoje não temos mais isso, não existe mais a possibilidade de estarmos lá, naquele lugar onde a gente esteve. E assim vão vindo as memórias com essas fotos. Da mesma forma aqui: era um pedaço das Sete Quedas em que eu fazia essa caminhada três, quatro vezes por dia, levando turistas. Hoje só vem a memória. Sem dúvida alguma, isso nos deixa emocionados. Aqui está o canal também. Não tem como não se emocionar de lembrar que a gente vivenciou isso. Era o nosso caminho de casa, era o nosso pátio de casa. Essa foto aqui já nos traz uma certa indignação. Eu acompanhei também toda a construção dessas torres, que eram torres de transmissão para atingir o Mato Grosso do Sul. Isso nos deixa uma certa indignação porque, em função da construção daquilo que se dizia necessário, que precisava ser feito para o desenvolvimento econômico, social e industrial do Brasil, nós tivemos que perder essa beleza. Aqui também é uma foto aérea que dá uma dimensão das Sete Quedas. Eu já vi vários quadros assim e presenciei aquilo. Nesta foto aérea, todo esse percurso eu fazia caminhando com os turistas, passo a passo, para chegar do início ao final. [00:50:18] NEI: E aqui está aquilo que comentamos anteriormente, a loucura que se tornou o final das Sete Quedas. Estou com uma foto que representa exatamente a ponte do fatídico acidente de 17 de janeiro de 1982. [00:50:49] ENTREVISTADOR: Dá só uma leve viradinha na foto para a câmera. NEI: Essa foto demonstra aquilo que eu falei sobre a loucura que foi o final. Acho que todo mundo queria conhecer as Sete Quedas ainda vivas. Quem já conhecia voltou para ver pela última vez. Era uma loucura. Aqui ainda temos a presença da antiga ponte do fatídico acidente que nós presenciamos, vivenciamos, sofremos. Aqui, mais um dos saltos das Sete Quedas que vêm à memória. A própria foto representa a neblina que se formava. Você tomava uma chuva ao chegar perto, porque a gente conseguia chegar muito próximo da queda. [00:51:58] NEI: E aqui eu tenho mais um saudosismo triste para lembrar. Essa foto representa uma das grandes vivências da minha infância. Um belo dia fui levar um casal de turistas. O marido era de origem japonesa. Eles chegaram à tarde, já no final da tarde, e eu disse: “Agora é impossível, porque não tem iluminação. Marcamos para amanhã cedo para visitar as Sete Quedas”. Eles estavam em lua de mel. Ele gostava muito de fotografia, estava com uma máquina profissional. Quando nós descemos para ele fotografar, em determinado momento ele entregou a máquina para a esposa e escorregou. Foi levado pelas águas. Eu, ainda criança, com oito ou nove anos de idade, presenciei as Sete Quedas engolindo aquele homem exatamente neste lugar da foto. Foi uma coisa que marcou muito a minha vida. Chamamos os guardas, chamamos as pessoas. Eu nem sei dizer se ele foi encontrado, porque ali era um turbilhão de água. Era algo terrível. [00:53:44] NEI: Aqui está o ângulo da ponte. Era uma ponte que balançava, e muita gente tinha mania de subir nela e balançar. Havia também muita gente que sentia medo ao atravessar. Vamos ver mais aqui. [00:54:21] NEI: Aqui, se não me falha a memória, estou vendo uma foto do lado paraguaio. Exatamente aqui nós tínhamos a confluência, o canal, o Grande Canal. Do outro lado havia uma visão menor, naturalmente, mas o país vizinho, o Paraguai, e a comunidade de Salto del Guairá conseguiam ter uma vista parcial das Sete Quedas. Aqui, outra bela visão de um salto. Era um mais lindo que o outro. Se formos falar, não tem como fazer diferenciação entre um e outro. Aqui, tudo indica que estava num período de cheia, porque está bastante avolumado. [00:55:24] NEI: E assim vamos passando pela sequência de fotos das Sete Quedas. Esse aqui era o chamado “Saltinho”. Havia essa ponte, que fazia a ligação com uma das maiores ilhas que compunham as Sete Quedas. Naturalmente, praticamente todo o percurso era feito por pontes e passarelas. Era uma ilha bem grande. Depois dela havia outra ponte. Para ir ao Salto 14, que era o último salto, ainda tínhamos mais duas pontes. Então esse aqui é o famoso Saltinho. Na parte de cima dessa ponte havia um ponto que nós chamávamos de remanso. Era uma parte em que muita gente tomava banho, fazia piquenique. [00:56:37] ENTREVISTADOR: Pode continuar. Quando quiser comentar, comenta; quando não quiser, pode só olhar. Dá só uma viradinha um pouquinho para cá. Isso, está ótimo. [00:56:49] NEI: Aqui é mais uma ponte. Era a penúltima ponte, que fazia a travessia entre a ilha que acabei de citar e o trecho final. Tinha mais uma ponte, um canal, e depois chegávamos ao Salto 14, o último salto do Complexo de Sete Quedas. Aqui também, mais uma vista da ponte. Aqui nós temos as pontes. [00:57:31] NEI: E aqui eu volto a frisar: esse é, sem dúvida alguma, o salto mais bonito. Era o mais volumoso, onde aconteceu aquela tragédia que citei. A gente conseguia chegar muito perto. Como não havia tanta sinalização nem fiscalização, os turistas aproveitavam ao máximo. Pela força da água, formava-se aquela cascata, aquela névoa de água em cima do pessoal. Então esse era o salto mais volumoso. [00:58:11] NEI: Aqui vamos ver. Esse é um recorte. [00:58:14] [PAUSA TÉCNICA PARA TROCA DE BATERIA E AJUSTE DA POSIÇÃO DO MATERIAL] [00:58:41] ENTREVISTADOR: Podemos seguir na ordem em que você estava. [00:58:46] NEI: Aqui estamos com um recorte de jornal, provavelmente da época, cujo texto diz: “Último dia de visitação de Sete Quedas: 40 mil pessoas formaram fila de quilômetros para atingir Sete Quedas”. Quer dizer, aquilo que nós já comentamos é fato: isso aconteceu. Lembrando que, nesse episódio, a ponte já tinha sido reconstruída. Por incrível que pareça, depois de toda a tragédia que aconteceu e já no período final das Sete Quedas, ainda reconstruíram a ponte e ela foi aproveitada por alguns meses. A tragédia foi em janeiro e o lago se formou, se não me falha a memória, entre setembro e outubro. Isso aqui condiz com a realidade daquela época. [00:59:45] NEI: Essa aqui é bem icônica. É também uma foto aérea. Ela pega todo o dorso do canal e as cachoeiras. É bem interessante. Aqui, mais uma vez, aparece aquilo que eu sempre falava e explicava aos turistas: o salto mais bonito, o salto mais imponente das Sete Quedas. Nesta foto ele está numa dimensão um pouco diferente, mais alongada. [01:00:38] NEI: Aqui, mais uma vez, nós temos a ponte que fazia a travessia entre a ilha e o penúltimo espaço para chegar até o Salto 14. Ali nós já tínhamos o canal, um canal mestre. Nós tivemos algumas frases de efeito na época, mas já não surtiam efeito prático. Não conseguiam mais reverter o que já estava estabelecido. [01:01:35] NEI: Aqui diz: “Destruir Sete Quedas é crime, diz prefeito”. Eu costumo dizer que tudo o que vou falar é opinião minha, mas tem uma concepção coletiva. Na época, boa parte da comunidade atribuiu muita culpa ao gestor do município. Mas, na minha opinião, o gestor da época não tinha culpa. Ele era empregado do patrão, tinha que cumprir o que vinha de cima. Talvez seja injusto atribuir a ele a culpa pelo fim. Eu acho que isso não condiz com a verdade, porque o sistema vinha de cima e dizia: “Nós vamos construir uma usina; para construir uma usina, precisamos sufocar as Sete Quedas”. Ele simplesmente cumpriu. Ficou 21 anos no poder como gestor do município, como empregado do governo federal. [01:02:46] NEI: E aqui a frase diz o seguinte: “Figueiredo: é uma pena”. Não vou ler o texto porque não há necessidade. Eu estava ali quando ele e sua comitiva saíram em um Galaxie. Ele deu uma passada muito rápida pelas Sete Quedas. Eu estava muito próximo, junto com outras pessoas, acenando para ele parar, para a gente perguntar, mas ele não parou. Ele simplesmente foi embora. Fez um contorno pelas Sete Quedas, acompanhado por segurança e várias viaturas atrás. Várias pessoas gritavam: “Pare! Pare! Queremos perguntar...”, mas ele não parou. E aqui está a frase: “É uma pena”. É muito pouco para aquilo tudo. [01:03:43] NEI: Aqui eu acredito que sejam autoridades. A imagem está um pouco ofuscada. ENTREVISTADOR: O próprio Figueiredo. NEI: Sim. Mas o relato que fiz é esse: quando ele estava dentro do carro, todo mundo pediu para ele parar e ele não parou. [01:04:12] NEI: E aqui é aquilo que eu disse na entrevista anterior: quando começou a se formar o lago, realmente só havia o que lamentar, sofrer e sentir todo esse episódio. Aqui nós já temos praticamente uma dimensão do lago. Provavelmente há uma numeração indicando onde ficavam partes geográficas das Sete Quedas. Essas fotos aqui eu vou passando, porque já retratam o complexo e nós já falamos bastante sobre as Sete Quedas. Aqui, da mesma forma, é mais uma dimensão de uma das quedas d’água. [01:06:06] NEI: E aqui, essa foto com essa imensidão humana e esse amontoado de ônibus, veículos, Kombis e vans retrata bem aquilo que eu falei há pouco. Foi uma verdadeira enxurrada humana, vamos dizer assim. Era muita gente, muita gente. A foto retrata pessoas descendo a pé para chegar às Sete Quedas, porque já não havia como entrar com os veículos. Foi realmente uma loucura. [01:06:56] NEI: Aqui já é uma foto que retrata o período com pavimentação asfáltica, já no final, nos últimos anos de visitação. Até então era estrada de chão. Essa torre de energia me traz uma lembrança. Ela ficava muito próxima da casa onde eu morei, uns quinhentos, seiscentos metros. A minha casa ficava aqui do lado direito. Essa torre está no continente; não está em uma ilha, porque algumas ficaram em ilhas. [01:07:51] NEI: E, para fecharmos, quero agradecer a todos por essa surpresa. A gente sente muito. Aqui está mais uma visão de uma das cachoeiras das Sete Quedas, compondo todo aquele complexo maravilhoso. Aquilo que jamais, jamais o homem poderia ter feito. Mas, infelizmente, não sei se podemos dizer que, pelo progresso, a gente tem que sacrificar. Talvez essa fosse a visão da época daqueles que detinham o poder. [01:08:25] ENTREVISTADOR: Maravilha. Corta, gente. [FIM DA ENTREVISTA]


Transcrição da entrevista completa [00:00:00] EQUIPE: Preparação das câmeras A e B e início da gravação. [00:00:18] ENTREVISTADOR: Nei, vamos começar falando um pouquinho da sua infância. Como foi a sua infância nas Sete Quedas? NEI: A minha infância nas Sete Quedas foi, sem dúvida alguma, uma experiência maravilhosa, porque nós vivíamos em função das Sete Quedas desde garotos, desde crianças. Eu, meus irmãos, minhas irmãs, meu pai, nós vivíamos e tínhamos o porquê. Na verdade, Sete Quedas era a grande indústria sem chaminés que nós tínhamos em Guaíra. [00:00:59] ENTREVISTADOR: E como é que foi? Você começou a trabalhar lá muito cedo. Me conta um pouco desse trabalho, desde criancinha. NEI: Sim, eu comecei nas Sete Quedas muito cedo, em torno de sete anos de idade. Eu já comecei a lavar carros. Depois, chegando próximo dos nove até os onze anos, eu levava turistas nas Sete Quedas, até que fui convidado pelo único restaurante que tinha lá para ser garçom. Naquele tempo, eu já fui trabalhar como funcionário. Meu pai era operário da usina; tinha uma pequena usina hidrelétrica lá. Meu pai era operário, e eu e a minha irmã, mais velha que eu, vendíamos souvenirs, lembranças das Sete Quedas, tudo o que tinha como tema as Sete Quedas. Então nós vivíamos literalmente das Sete Quedas. [00:02:07] ENTREVISTADOR: E como é que eram elas, sentimentalmente? Como era estar naquele lugar? NEI: Todos os turistas que vinham e que a gente acompanhava — como os demais colegas que acompanhavam os turistas — tinham aquele impacto, uma emoção muito grande. Porque as Sete Quedas tinham um trajeto de dois quilômetros e meio, onde você passava por pontes, passarelas, ilhas, até chegar do início ao final. Então, a cada ângulo de visão era uma emoção, porque era uma cachoeira muito forte, muito emocionante. Aquela brisa, o barulho, o estrondo... Para nós que vivíamos ali, o dia a dia tinha essa mesma impressão, essa emoção de viver ali, porque era encantador para quem visitava as Sete Quedas e via toda aquela beleza natural que nós tínhamos. [00:03:15] ENTREVISTADOR: Faz de conta que eu sou um turista, vim de longe, acabei de chegar em Guaíra, não sei nada sobre as Sete Quedas e caí com você para você me guiar. O que você vai falar para mim? NEI: Primeiramente, a gente sempre se identificava, porque nós tivemos, ainda que de forma bastante rudimentar, algumas orientações de pessoas mais experientes, do pessoal ligado ao turismo. O seu Ernesto Mann era uma pessoa muito ligada ao turismo de Guaíra. Então nós nos apresentávamos e acompanhávamos o turista dizendo: “Olha, aqui, a primeira ponte era uma ponte de ferro”. Nós mostrávamos que, indo no sentido das Sete Quedas, do lado esquerdo do canal estava o país vizinho, o Paraguai. Acima estava o Mato Grosso do Sul. Nós caminhávamos, víamos a segunda ponte, que é aquela do fatídico acidente, falávamos das cachoeiras e assim por diante, até chegar ao que nós chamávamos, na época, de último salto, o Salto 14. [00:04:27] ENTREVISTADOR: E quando chegava no Salto 14, como é que você apresentava esse salto para as pessoas? NEI: Apresentava como o maior salto em quedas d’água. [00:04:39] [Interrupção técnica causada por ruído externo. A equipe interrompe e retoma a pergunta.] [00:05:39] ENTREVISTADOR: Vamos lá, então. Eu estou de frente para o Salto 14. Acabei de chegar em Guaíra. Você vai me apresentar ele? NEI: O Salto 14 era o maior em volume d’água, o maior em extensão, porque praticamente partia de um extremo a outro, chegando quase ao país vizinho, o Paraguai, já quase na divisa. E ele era intransponível a partir dali. Então ele era o último. Você não tinha como acessar mais lugar nenhum por ele. Era interessante: você tinha uma visão de frente, uma visão ampla, que pegava todo o ângulo. Depois fazia um contorno, uma pequena caminhada por dentro da mata, e conseguia pegar mais um canto dele. Então ele era o maior salto que compunha as Sete Quedas. [00:06:32] ENTREVISTADOR: E quando as pessoas chegavam nele, qual era a reação delas? NEI: De grande admiração, de impacto, porque era uma coisa fenomenal. Principalmente ele, porque era o que proporcionava o maior som, o maior barulho, pela sua extensão, pelo seu volume d’água. [00:06:55] ENTREVISTADOR: E qual é a primeira memória que você tem das Sete Quedas? NEI: A primeira memória... Como eu praticamente me criei lá dentro, é aquela memória de todo dia ser um fato novo, apesar de a gente ser criança. Você estava ali recebendo pessoas que vinham com a curiosidade de conhecer. E lá tinha uma pequena usina; essa usina fornecia, inclusive, energia elétrica gratuitamente para quem morava lá. Então era uma coisa interessante, porque nós não pagávamos luz. Tinha mais ou menos umas sete ou oito residências, alguns comércios e o restaurante onde eu fui trabalhar depois. Brincávamos lá também. Eu praticamente não tive infância, porque com sete anos já comecei a trabalhar, mas era gostoso. Todo dia ganhávamos presentes dos turistas. E era muito bom, porque financeiramente a gente era de uma renda inferior. Então, aproveitando essa questão da memória, um belo dia, por volta de 1969, chegaram quatro turistas jovens do Rio de Janeiro em um carro chamado Gordini — um carro que muita gente hoje nem sabe o que era. [00:08:39] [Pequena interrupção técnica. A equipe pede que a história seja retomada desde o início.] [00:09:28] ENTREVISTADOR: Nei, está rodando. Conta essa história dos turistas desde o começo, por favor. NEI: Perfeito. Um belo dia, nessa minha memória de criança, acho que por volta de 1969, chegaram quatro turistas jovens em um carro chamado Gordini, um carro que muita gente hoje não sabe o que era. Eles eram do Rio de Janeiro. Pediram para eu levá-los, e eu fui. Mostrei as Sete Quedas, contei toda a história, e eles ficaram encantados. Depois foram para o restaurante que tinha lá — naquela época eu ainda não trabalhava nesse restaurante —, almoçaram e, na hora de ir embora, eu não sei por qual razão, hoje não me lembro mais, eles tinham um cabrito, literalmente um cabritinho dentro do carro, e me deram de presente. Disseram: “Olha, nós não vamos levar”. Eu não sei por que estavam com aquele cabrito, mas me deram de presente. Eu fiquei feliz da vida, como criança. Levei para casa, cheguei para o meu pai e para a minha mãe, contei, e nós cuidamos do cabrito. [00:11:00] ENTREVISTADOR: Vamos falar mais um pouquinho. Qual era o seu lugar ou momento preferido nas Sete Quedas? NEI: Nas Sete Quedas nós ficávamos a postos onde tinha uma barragem, o canal. Logo abaixo do canal vinha um bosque, e nós ficávamos bem na ponta desse bosque, porque era uma disputa muito grande entre todos. Havia várias crianças e jovens adolescentes que trabalhavam levando turistas, e o fluxo era significativo, principalmente nos finais de semana. Então nós ficávamos a postos para pré-escolher. Naquele tempo, aparecia um carro como uma Veraneio, um Dodge Dart, um Galaxie; mais para frente vieram a TL e a Variant. Eram carros que, supostamente, eram de turistas mais afortunados. A gente prestava atenção nisso porque a gorjeta também era melhor. Nós não tínhamos uma tabela, não existia uma tabela; era tudo muito simples. A gente levava, fazia todo aquele trabalho de informação, de mostrar, de contar sobre os saltos, e na volta eles nos davam um cachê, que ficava a critério do turista. [00:12:29] ENTREVISTADOR: E como os sons das Sete Quedas acompanhavam a sua vida? O quanto eles eram importantes para você? NEI: Esses sons das Sete Quedas eram extremamente interessantes. Meu pai, por exemplo, plantava; nós tínhamos uma área ali mesmo onde plantávamos. Pelo som das Sete Quedas, naquela época, você sabia de que posição vinha a chuva, a tempestade. Enfim, vários fatores você conseguia perceber através do barulho das Sete Quedas. Era muito interessante. Na época, pela lua você também sabia o que fazer em termos de plantação. E outra coisa que nós poderíamos dizer era sobre o clima com as Sete Quedas. Nós tínhamos um inverno muito rigoroso em Guaíra, que não existe mais. Hoje nós temos dias de frio, mas não temos mais aquele inverno. No período das Sete Quedas, o inverno em Guaíra era rigoroso durante os três meses de inverno. [00:14:05] ENTREVISTADOR: E como era morar em um dos lugares mais bonitos do mundo? NEI: Era, volto a repetir, entusiasmante. A gente era criança e, apesar das dificuldades financeiras, todos nós que morávamos ali éramos muito felizes, alegres, porque sempre nos deparávamos com pessoas diferentes, conversando, e a gente acabava sendo um elo de ligação. Quando fui trabalhar no restaurante, ficou ainda mais entusiasmante, porque a gente atendia, contava histórias. Esse restaurante era especializado em peixe; não tínhamos outro cardápio, era tudo à base de peixe. Fazíamos vários pratos à base de peixe, todos capturados no Rio Paraná para atender os turistas. Era um fluxo de movimento muito grande. A gente estava sempre se deparando com novidades. Eu trabalhava de manhã no restaurante, almoçava, andava quatro quilômetros e meio até o Colégio Mendes Gonçalves para estudar, fazer o meu primário, voltava depois e trabalhava mais um período. Assim era. Eu fiz todo o meu primário e ainda um pedacinho do colegial indo e voltando dessa forma. Naquele tempo não tinha pavimentação, asfalto, sistema de transporte coletivo, nada. Você vinha a pé. [00:15:55] ENTREVISTADOR: Vou pular um pouquinho uma pergunta que estava mais para frente. Você falou dos peixes, da alimentação. Você foi premiado diversas vezes com o Pintado na Telha e com pratos de peixe. Me conta sobre esse prato, como você aprendeu, e depois a gente fala um pouco sobre como o descaso com o rio e com esses peixes prejudicou a culinária típica guairense. NEI: Perfeito. Vamos começar lá na base, quando a pesca era farta em Guaíra. Nesse restaurante em que eu trabalhei, e depois nas peixarias de Guaíra, havia muito peixe. Esse restaurante se chamava Restaurante do Salto e tinha peixaria também. Havia vários pescadores profissionais na época. Tem um fato curioso que é preciso contar historicamente. O seu Miguel, que era o proprietário do restaurante, recebia os pescadores. Eles perguntavam: “Seu Miguel, o senhor precisa de peixe hoje?”. Ele abria os freezers, e pela fartura de peixe dizia: “Bom, hoje você me traz só dourado e pintado, porque jaú, pacu e [nome de peixe pouco nítido] ainda tem bastante”. Para vocês terem uma ideia, isso é história que eu vivi, que acompanhei. Havia uma fartura muito grande de peixe. Depois, ainda continuou existindo uma quantidade razoável, mas, após o fechamento do lago, houve uma pesca predatória muito grande no início da formação do reservatório. E aí tivemos uma diminuição muito grande do pescado em Guaíra, principalmente dos chamados pescados nobres, como pintado e dourado. Foi um problema sério. Já não era mais aquela fartura, embora ainda houvesse uma quantidade significativa. Eu cresci, vim para o comércio de Guaíra e, na época em que participei do poder público, tive a ideia de criar o Pintado na Telha como prato típico de Guaíra. Inclusive, a lei é de minha autoria e foi sancionada pela gestão da época. Nós criamos o Pintado na Telha. Não era “peixe na telha”; era “Pintado na Telha”. Ocorre que, com o passar dos anos, esse peixe ficou bastante difícil de capturar no lago e no Rio Paraná, e esse prato acabou ficando um pouco esquecido. Mas ele ainda existe, ainda é servido em hotéis de Guaíra. Eu participei de vários concursos e tive a felicidade de, por várias vezes, ser campeão do Pintado na Telha. Depois vim para o comércio de eventos, onde também trabalhávamos com peixe. [00:19:17] ENTREVISTADOR: Vamos terminar só mais uma aqui e depois a gente dá uma pausa. Fala para mim sobre o turismo às vésperas do fim das Sete Quedas. NEI: O turismo no final das Sete Quedas foi uma loucura. Vamos usar essa expressão: foi uma loucura. Nessa época eu tinha um restaurante no Hotel Guarujá II. Era algo absurdo. Só para vocês terem uma ideia, a fila de ônibus para chegar às Sete Quedas vinha até a Igrejinha de Pedra; depois o pessoal ia a pé. Não tinha como colocar carro no pátio das Sete Quedas. No hotel, para se ter uma ideia, nós alugávamos até o escritório do diretor porque não tinha vaga. Nós tínhamos amizade com um hospital aqui de Guaíra, na época o Hospital Santa Rita. O médico era nosso amigo. Quando havia leito vago, chegaram a alugar leitos para turistas, porque não tinha mais acomodação. E isso num período em que Guaíra tinha vários hotéis, de categorias inferiores e superiores, restaurantes, churrascarias, enfim. Era tudo lotado. Eu atribuo o episódio da queda da ponte ao excesso de peso e à falta de cuidado e fiscalização, porque aquilo era uma loucura. Eram milhares de pessoas passando ao mesmo tempo por aquelas passarelas, por aquelas pontes. [00:21:08] [PAUSA TÉCNICA] [00:21:20] ENTREVISTADOR: Então, talvez um dos dias mais tristes que você tenha vivido ali nas Sete Quedas. Onde você estava quando soube do acidente na ponte? E quando você chegou lá, o que encontrou? NEI: Nesse fatídico acidente, eu estava exatamente no hotel onde tinha o restaurante. Como eu estava dizendo, havia muita gente visitando Guaíra. Eu tinha acabado de construir uma casa e a havia alugado para dois casais do interior de São Paulo, porque o hotel estava lotado. Eu os hospedei nessa casa. De manhã, eles foram tomar o café e seguiram para as Sete Quedas. Por volta das nove, nove e pouco da manhã, veio a triste notícia. Nesse momento, eu fui, juntamente com mais algumas pessoas, me deslocando rapidamente. Cheguei ao local do acidente em torno de quarenta a quarenta e cinco minutos depois. Ainda havia pessoas penduradas, gritos, pessoas ilhadas do outro lado e muita gente do lado que poderíamos chamar de continente. Foi uma coisa absurda. Todo mundo em pavor, desesperado, gritos, choro, e você vendo as pessoas. Muitos já tinham sido levados pela corredeira. O João Lima Moraes, o popular João Mandi, estava ali e teve um papel importante no auxílio ao resgate, de onde ele estava, ali nas pedras. Foi uma coisa terrível, terrível. [00:23:22] ENTREVISTADOR: E me conta como foi o dia seguinte ao acidente. As pessoas ligando, tentando entrar em contato com familiares, poucos orelhões, poucos telefones, hotéis... Como foi essa confusão? NEI: Naquele tempo só existiam fax e telefone fixo. Inclusive no hotel. No Hotel Guarujá II foi montada toda a estrutura de jornalismo do Brasil. Foi ali que vieram as televisões da época, O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo, pessoal de Londrina, enfim, jornais escritos, falados, televisionados, tudo. Ali foi a central. Só que demorava para você passar a matéria. Por exemplo, você mandava uma matéria de manhã para ser exibida só à noite. Ali foi toda a central de divulgação. Foi uma tragédia que tomou proporção mundial. Guaíra ficou estarrecida, ficou de luto. Começaram a chegar familiares, e havia familiares que não tinham contato, porque a comunicação era difícil. Na época, não se sabia ao certo, mas o número oficial de mortos foi 32. [00:24:47] ENTREVISTADOR: Você participou da homenagem final, quando os indigentes foram enterrados no cemitério? Você estava lá ou soube como foi esse momento? NEI: Exatamente nesse dia, não. Mas, na época, eu já tinha uma ligação forte com o comércio de Guaíra e conhecia o secretário responsável pela pasta. Fui até ele. Como nós não tínhamos aqui na cidade estrutura para fazer reconhecimento dos corpos, autópsia e tudo aquilo, eu pedi a ele para entrar no cemitério e ver. Foi um momento que me marcou muito, porque eu contei: havia 19 corpos, todos colocados de maneira rudimentar, esperando vir de fora a Polícia Científica para fazer a autópsia. Naquele momento havia 19 corpos ali. Posteriormente, a grande maioria foi levada, após a identificação, por seus familiares. E, se não me falha a memória, dois ou três foram enterrados como indigentes, porque não apareceu familiar, não apareceu ninguém. [00:26:08] ENTREVISTADOR: E como foi essa busca pelos corpos, que durou quase um mês? NEI: A busca foi extremamente difícil, pelo fato de ser um canal de grande volume d’água e de corredeira muito forte. Isso foi levando os corpos. Houve corpos encontrados a cem quilômetros daqui, rio abaixo. Muitos ficaram enroscados também nas grotas de pedra. Por isso, até hoje, não se tem literalmente a certeza de que foram só 32 mortos. Foi uma coisa muito triste. Houve corpos retirados da água vários dias depois, em um estado que dificultava até a identificação. [00:26:59] [AJUSTE TÉCNICO E NOVO CORTE DE CÂMERA] [00:27:17] ENTREVISTADOR: Vamos voltar ao acidente da ponte, último assunto. Toda essa tragédia aconteceu e alguém tentou colocar a culpa sobre uma pessoa, sobre [nome pouco nítido na gravação]. Você pode me contar como foi essa tentativa? NEI: Com relação a esse fato, que foi atribuído ao Pedimar Porã, que era indígena: ele não era uma pessoa muito antiga ali, mas eu o conheci, conversávamos pouco, como todos conversavam. Na minha opinião — e é só uma opinião pessoal — precisavam arrumar um bode expiatório para alguma coisa. Eu não acredito jamais que ele faria isso, até porque ele era zelador, cuidava dali, estava sempre, vamos dizer assim, vigilante dentro do pátio das Sete Quedas, de todo o complexo. Então eu atribuo isso à criação de um bode expiatório. Estávamos vivendo um momento em que não deram importância para ninguém para acabar com as Sete Quedas. Quando veio essa tragédia, precisavam atribuir a alguém. A formação do lago foi no mesmo ano. Então atribuíram isso a ele. Essa é a minha opinião. [00:29:01] ENTREVISTADOR: Você pode repetir só essa frase? “Eles criaram um bode expiatório.” NEI: Eles criaram um bode expiatório. [00:29:09] ENTREVISTADOR: Vamos fazer uma comparação que eu sei que você gosta de fazer: Sete Quedas e Cataratas do Iguaçu. NEI: Com relação a essa comparação, eu gostaria de fazer um adendo. A natureza foi perfeita. Ela criou duas belezas, eu diria, na mesma direção. O homem, dentro do seu processo de transformação, quis, na sua preponderância, fazer a maior usina do mundo e, para isso, teve que sacrificar uma dessas maravilhas da natureza. Eu conheci as Sete Quedas desde criança, vivi dentro delas. Tive também, ainda bem jovem, a experiência de conhecer as Cataratas do Iguaçu e depois estive lá outras vezes. Na minha visão, as Cataratas do Iguaçu eram bonitas — e são bonitas até hoje; é um dos locais mais visitados do mundo —, só que elas têm uma visão panorâmica praticamente única. Você chega pelo lado brasileiro — elas também podem ser visitadas pelo lado argentino — e tem aquela visão. As Sete Quedas, não. Nas Sete Quedas você cansava. Tinha que fazer aquela enorme caminhada de dois quilômetros e meio e, para cada lado que olhava, tinha uma cachoeira, tinha uma queda, tinha todo o esplendor da natureza ao longo daquele processo de caminhada. Então, para mim, as Sete Quedas eram extremamente superiores às Cataratas do Iguaçu. [00:31:04] ENTREVISTADOR: Vamos começar a falar um pouquinho da despedida. Como foi quando você soube que as Sete Quedas iam acabar? As pessoas acreditaram de começo? Como foi essa notícia? NEI: Eu quero voltar um pouquinho, bem no início. Quando se falou da construção da Usina de Itaipu, que formaria o lago e deixaria as Sete Quedas submersas, eu ainda era criança. Meu pai era operário lá dentro, fazia parte de um órgão do governo ligado ao que hoje vem a ser a nossa Copel. Ele era funcionário dessa empresa, chamada Minas e Energia. Sendo operário, meu pai acompanhou os engenheiros e técnicos, carregando aparelhos de topografia, quando começaram a fazer as demarcações. Eles iam em vários pontos, subindo desde Foz do Iguaçu até Guaíra. Colocavam uma marca metálica, de bronze, que indicava a graduação, a cota que a água atingiria. Eu lembro que, apesar de ser criança, ouvia os mais velhos comentarem que jamais o homem teria capacidade de acabar com uma beleza daquela. Que não teria. Bom, erramos. Guaíra talvez tenha pecado, o sistema pecou e, como nós vivíamos um sistema, vamos dizer assim, de exceção, não tinha para quem apelar. Nós esperamos o fatídico dia. Foram feitas as marcações da cota 220 e, por incrível que pareça, o lago chegou exatamente ali. Nessa altura eu já era adulto, já estava na vida pública e conseguimos constatar. Para nós foi um choque, um luto total. Guaíra, do dia para a noite, paralisou. Ficou totalmente enlutada. Vou dar um exemplo: eu tinha restaurante no hotel, onde servíamos 50, 60, 70, 100 refeições por dia, mais o café da manhã. A partir do outro dia, você não tinha mais nada. Foi fechando tudo. Os hotéis de Guaíra foram fechando, os restaurantes foram fechando. Para se ter uma ideia, juntamente com o diretor do hotel, começamos a doar parte das louças e objetos do hotel, porque não tinha mais porquê. Paralisou. Isso ficou durante vários anos. Foram anos de total ostracismo econômico em Guaíra, porque perdemos a nossa fonte. Foi aí que veio a grande promessa. Na época, engenheiros e técnicos das Centrais Elétricas do Sul do Brasil, a Eletrosul, diziam que aqui seria construído o Complexo de Ilha Grande, acompanhado de ferrovia, rodovia e hidrelétrica. Teríamos uma usina para fazer a contenção dos dejetos de Itaipu Binacional, teríamos ferrovia, rodovia e hidrelétrica. Diziam que Guaíra jamais iria se lembrar das Sete Quedas. De certa maneira, diante do quadro que estávamos vivendo, quase aceitamos e acreditamos nessa ideia. Só que tudo sucumbiu e nada aconteceu. Chegou em 1989, 1990, e simplesmente o governo da época disse: “Está cancelado”. Não se faria mais nada. [00:35:23] ENTREVISTADOR: E quando elas foram sendo inundadas? Foi muito rápido, mas, ao mesmo tempo, pouco a pouco dava para ver a água subindo. Qual era a sensação? NEI: Demorou vários dias, várias semanas. Era uma sensação terrível, principalmente para quem não acreditava que aquilo aconteceria e estava vendo acontecer. Muita gente de Guaíra foi lá, os mais antigos também. Eu tive a oportunidade de ir até quando a água já estava chegando a um determinado ponto. Você via que o canal em si, o canal-base, o que nós chamávamos popularmente de canal, já estava totalmente nivelado. As quedas começaram a diminuir. Começou ali pela queda da ponte, que era praticamente a primeira de cima para baixo. A água começou a subir, e você via que a queda já era bem menor. E não tinha para quem reclamar. Não tinha. O fato estava consumado. [00:36:44] ENTREVISTADOR: E como foi dormir sem o som das Sete Quedas? NEI: Volto a repetir: nós ficamos totalmente à deriva, ficamos de luto, sem saber o que fazer. Não querendo me vitimizar, mas eu, de empresário, fui trabalhar como empregado, de porteiro no hotel, porque não tinha mais o que fazer. Esse foi o meu caso, e muitos foram embora. Muitos empresários deixaram suas propriedades e foram para outras regiões. Teve gente que foi para Mato Grosso, Rondônia, Curitiba, enfim. Foram deixando Guaíra porque não havia alternativa. A própria imprensa chegou a dizer que nós tínhamos nos tornado uma cidade fantasma em determinado período. [00:37:39] ENTREVISTADOR: Me fala mais sobre essa “cidade fantasma”. Como era Guaíra? Como era essa sensação de que aqui tinha, de fato, virado uma cidade fantasma? NEI: A cidade fantasma vem já com a questão da não construção do Complexo de Ilha Grande. Nós havíamos perdido a maior fonte de renda, a maior indústria propulsora da economia local. Aí nos prometeram um grande polo com esse complexo. Tanto é que fizeram mil e poucas casas em Guaíra para acomodar as pessoas e empresas que viriam construir a usina, a ferrovia e a rodovia, fazendo a transposição do Rio Paraná para o Mato Grosso do Sul. E isso não aconteceu. Ali foi o desastre total, porque era gente abandonando, gente indo embora. Aquele grupo de pessoas que veio para Guaíra tinha dado certo fomento à economia guairense. Os hotéis já haviam retomado um pouco daquilo que era possível fazer. E, a partir do momento em que foi decretado o cancelamento da obra do Complexo de Ilha Grande, foi quando a grande imprensa passou a chamar Guaíra de cidade fantasma. [00:39:12] ENTREVISTADOR: Antes de a gente ir para outra pergunta, queria que você falasse sobre o que sente em relação aos últimos anos em Guaíra. Você sente alguma espécie de redescobrimento, de renascimento da cidade? Compara essa Guaíra “cidade fantasma” com a Guaíra de hoje e com a forma como ela tenta se projetar para o futuro. NEI: Eu diria que Guaíra, nos últimos 20, 25 anos, saiu desse luto que viveu, saiu desse ostracismo econômico pelo qual passou. Através de diálogo e de um novo olhar, por meio de todos os setores da sociedade organizada de Guaíra — ainda que de maneira incipiente na indústria, no comércio — começou a encontrar novos caminhos. Veio a questão do comércio com o país vizinho, o Paraguai, o comércio de importados, e gestões que começaram a ter uma visão de não apenas reclamar, mas buscar alternativas junto ao governo estadual e ao governo federal para colocar Guaíra como uma cidade importante. Porque é importante dizer: Guaíra é um dos grandes polos de passagem entre o Norte e o Sul do país. Quem sai do Sul para atingir o Norte do Brasil passa por Guaíra. Foi aí que o comércio começou a se redistribuir e aumentar, a parte hoteleira melhorou, a gastronomia começou também a ganhar uma dimensão melhor e, sem dúvida, a conclusão da ponte sobre o Rio Paraná, substituindo a travessia por balsa, incrementou bastante isso. Eu diria que Guaíra vive uma nova fase, uma fase boa, principalmente agora, buscando o turismo de pesca esportiva, o turismo de aventura. A própria cultura está se levantando, se redescobrindo e colocando projetos em prática. Tivemos também, ainda que de forma acanhada, uma boa recompensa com um percentual maior dos royalties por parte de Itaipu. [00:42:03] ENTREVISTADOR: Então essa vai ser a nossa última pergunta. Conta para mim desde o início: como foi a distribuição dos royalties? Ela foi justa? Foi pouco benéfica para Guaíra até os dias de hoje? NEI: Muito bem. Quando se formou o Lago de Itaipu Binacional, através de todo o seu corpo jurídico e técnico, estabeleceu-se que as indenizações seriam baseadas nos metros quadrados de área inundada e nas benfeitorias que havia em cada propriedade e em cada cidade. Acontece que a cidade de Guaíra está exatamente no último ponto do alagamento, no último extremo. Então, a área em metros quadrados inundada aqui foi a menor. Sem dúvida alguma, foi a menor. No entanto, inundou-se a maior fonte de renda da cidade e uma das maiores belezas do mundo. Isso não foi levado em consideração. Por outro lado, a própria política local, regional e nacional não se ateve, não teve compromisso com Guaíra para fazer um questionamento junto à Itaipu Binacional, no sentido de que isso já tivesse sido considerado no momento da indenização e dos aportes destinados à cidade. Como isso não aconteceu, Guaíra ficou com um dos menores percentuais de royalties, um dos menores valores mensais em dinheiro. Como era cotado em dólar, o nosso percentual em dólar foi um dos menores. Houve lugares em que cidades tiveram áreas maiores submersas e recebiam cinco, seis, dez vezes mais do que nós, por causa desse critério de metros quadrados de área inundada. Aí houve demandas através da política local, juntamente com o governo do Estado, deputados e senadores, no sentido de reverter isso. Numa primeira etapa, levou acho que uns 15 anos e não aconteceu nada. Falava-se, discutia-se, até que, depois de muitos anos de briga, saiu alguma coisa — usando essa expressão —, mas ainda era muito pouco. Por fim, houve um projeto de uma pessoa que jamais podemos esquecer, que teve um papel importante: o então deputado Osmar Serraglio. Ele teve um projeto muito importante e, juntamente com a última gestão do prefeito Eraldo, conseguiram conscientizar os senadores da República e boa parcela dos deputados federais de que havia uma grande injustiça com o município de Guaíra, e que não era possível continuarmos de mãos cruzadas sem fazer nada. Se não me engano, dos 81 senadores, 70 votaram favoravelmente à proposição para o município de Guaíra. Jamais nada vai compensar a perda das Sete Quedas, na minha opinião. Jamais. Mas, pelo menos, é um alívio para a nossa infraestrutura local, para podermos prestar um bom atendimento à comunidade de Guaíra com esse percentual de royalties. [00:45:57] ENTREVISTADOR: Que maravilha. [CORTE / AJUSTE TÉCNICO] ──────────────────────────────────────── SEGUNDA PARTE — MEMÓRIAS A PARTIR DE FOTOGRAFIAS E RECORTES ──────────────────────────────────────── [00:46:04] ENTREVISTADOR: Você pode relaxar um pouquinho mais com a caixinha. Se estiver desconfortável, pode colocar na sua perna. Fica tranquilo. Você vai abrir a caixinha e vão ter algumas memórias, algumas coisinhas aí. Pega uma por uma e vai comentando. Quando quiser comentar, comenta; quando quiser só olhar, pode só olhar. Pode abrir. [00:46:32] NEI: Legal. Essa foto aqui já é de quando estávamos no finalzinho. Eu fiz questão de ir lá, porque as Sete Quedas estavam para terminar. E hoje essa foto é uma lembrança que ninguém mais vai poder ver daquele jeito. [00:46:56] ENTREVISTADOR: Pode olhar para você e, quando quiser, mostrar para a câmera ali atrás. [00:47:02] NEI: Eu fiz um comentário na época. Aqui ficou bem característica a palavra “ADEUS”, como uma despedida. E a pessoa que escreveu esse “adeus” deixou dois pingos de tinta que, para mim, representam duas lágrimas. Eu fiz esse comentário na época e agora é interessante trazer isso à memória. [00:47:36] ENTREVISTADOR: Pode continuar olhando para você mesmo. Assim está ótimo. [00:47:47] NEI: Aqui já é uma cena que nos demonstra tristeza. Mostra a tristeza de saber que hoje não temos mais isso, não existe mais a possibilidade de estarmos lá, naquele lugar onde a gente esteve. E assim vão vindo as memórias com essas fotos. Da mesma forma aqui: era um pedaço das Sete Quedas em que eu fazia essa caminhada três, quatro vezes por dia, levando turistas. Hoje só vem a memória. Sem dúvida alguma, isso nos deixa emocionados. Aqui está o canal também. Não tem como não se emocionar de lembrar que a gente vivenciou isso. Era o nosso caminho de casa, era o nosso pátio de casa. Essa foto aqui já nos traz uma certa indignação. Eu acompanhei também toda a construção dessas torres, que eram torres de transmissão para atingir o Mato Grosso do Sul. Isso nos deixa uma certa indignação porque, em função da construção daquilo que se dizia necessário, que precisava ser feito para o desenvolvimento econômico, social e industrial do Brasil, nós tivemos que perder essa beleza. Aqui também é uma foto aérea que dá uma dimensão das Sete Quedas. Eu já vi vários quadros assim e presenciei aquilo. Nesta foto aérea, todo esse percurso eu fazia caminhando com os turistas, passo a passo, para chegar do início ao final. [00:50:18] NEI: E aqui está aquilo que comentamos anteriormente, a loucura que se tornou o final das Sete Quedas. Estou com uma foto que representa exatamente a ponte do fatídico acidente de 17 de janeiro de 1982. [00:50:49] ENTREVISTADOR: Dá só uma leve viradinha na foto para a câmera. NEI: Essa foto demonstra aquilo que eu falei sobre a loucura que foi o final. Acho que todo mundo queria conhecer as Sete Quedas ainda vivas. Quem já conhecia voltou para ver pela última vez. Era uma loucura. Aqui ainda temos a presença da antiga ponte do fatídico acidente que nós presenciamos, vivenciamos, sofremos. Aqui, mais um dos saltos das Sete Quedas que vêm à memória. A própria foto representa a neblina que se formava. Você tomava uma chuva ao chegar perto, porque a gente conseguia chegar muito próximo da queda. [00:51:58] NEI: E aqui eu tenho mais um saudosismo triste para lembrar. Essa foto representa uma das grandes vivências da minha infância. Um belo dia fui levar um casal de turistas. O marido era de origem japonesa. Eles chegaram à tarde, já no final da tarde, e eu disse: “Agora é impossível, porque não tem iluminação. Marcamos para amanhã cedo para visitar as Sete Quedas”. Eles estavam em lua de mel. Ele gostava muito de fotografia, estava com uma máquina profissional. Quando nós descemos para ele fotografar, em determinado momento ele entregou a máquina para a esposa e escorregou. Foi levado pelas águas. Eu, ainda criança, com oito ou nove anos de idade, presenciei as Sete Quedas engolindo aquele homem exatamente neste lugar da foto. Foi uma coisa que marcou muito a minha vida. Chamamos os guardas, chamamos as pessoas. Eu nem sei dizer se ele foi encontrado, porque ali era um turbilhão de água. Era algo terrível. [00:53:44] NEI: Aqui está o ângulo da ponte. Era uma ponte que balançava, e muita gente tinha mania de subir nela e balançar. Havia também muita gente que sentia medo ao atravessar. Vamos ver mais aqui. [00:54:21] NEI: Aqui, se não me falha a memória, estou vendo uma foto do lado paraguaio. Exatamente aqui nós tínhamos a confluência, o canal, o Grande Canal. Do outro lado havia uma visão menor, naturalmente, mas o país vizinho, o Paraguai, e a comunidade de Salto del Guairá conseguiam ter uma vista parcial das Sete Quedas. Aqui, outra bela visão de um salto. Era um mais lindo que o outro. Se formos falar, não tem como fazer diferenciação entre um e outro. Aqui, tudo indica que estava num período de cheia, porque está bastante avolumado. [00:55:24] NEI: E assim vamos passando pela sequência de fotos das Sete Quedas. Esse aqui era o chamado “Saltinho”. Havia essa ponte, que fazia a ligação com uma das maiores ilhas que compunham as Sete Quedas. Naturalmente, praticamente todo o percurso era feito por pontes e passarelas. Era uma ilha bem grande. Depois dela havia outra ponte. Para ir ao Salto 14, que era o último salto, ainda tínhamos mais duas pontes. Então esse aqui é o famoso Saltinho. Na parte de cima dessa ponte havia um ponto que nós chamávamos de remanso. Era uma parte em que muita gente tomava banho, fazia piquenique. [00:56:37] ENTREVISTADOR: Pode continuar. Quando quiser comentar, comenta; quando não quiser, pode só olhar. Dá só uma viradinha um pouquinho para cá. Isso, está ótimo. [00:56:49] NEI: Aqui é mais uma ponte. Era a penúltima ponte, que fazia a travessia entre a ilha que acabei de citar e o trecho final. Tinha mais uma ponte, um canal, e depois chegávamos ao Salto 14, o último salto do Complexo de Sete Quedas. Aqui também, mais uma vista da ponte. Aqui nós temos as pontes. [00:57:31] NEI: E aqui eu volto a frisar: esse é, sem dúvida alguma, o salto mais bonito. Era o mais volumoso, onde aconteceu aquela tragédia que citei. A gente conseguia chegar muito perto. Como não havia tanta sinalização nem fiscalização, os turistas aproveitavam ao máximo. Pela força da água, formava-se aquela cascata, aquela névoa de água em cima do pessoal. Então esse era o salto mais volumoso. [00:58:11] NEI: Aqui vamos ver. Esse é um recorte. [00:58:14] [PAUSA TÉCNICA PARA TROCA DE BATERIA E AJUSTE DA POSIÇÃO DO MATERIAL] [00:58:41] ENTREVISTADOR: Podemos seguir na ordem em que você estava. [00:58:46] NEI: Aqui estamos com um recorte de jornal, provavelmente da época, cujo texto diz: “Último dia de visitação de Sete Quedas: 40 mil pessoas formaram fila de quilômetros para atingir Sete Quedas”. Quer dizer, aquilo que nós já comentamos é fato: isso aconteceu. Lembrando que, nesse episódio, a ponte já tinha sido reconstruída. Por incrível que pareça, depois de toda a tragédia que aconteceu e já no período final das Sete Quedas, ainda reconstruíram a ponte e ela foi aproveitada por alguns meses. A tragédia foi em janeiro e o lago se formou, se não me falha a memória, entre setembro e outubro. Isso aqui condiz com a realidade daquela época. [00:59:45] NEI: Essa aqui é bem icônica. É também uma foto aérea. Ela pega todo o dorso do canal e as cachoeiras. É bem interessante. Aqui, mais uma vez, aparece aquilo que eu sempre falava e explicava aos turistas: o salto mais bonito, o salto mais imponente das Sete Quedas. Nesta foto ele está numa dimensão um pouco diferente, mais alongada. [01:00:38] NEI: Aqui, mais uma vez, nós temos a ponte que fazia a travessia entre a ilha e o penúltimo espaço para chegar até o Salto 14. Ali nós já tínhamos o canal, um canal mestre. Nós tivemos algumas frases de efeito na época, mas já não surtiam efeito prático. Não conseguiam mais reverter o que já estava estabelecido. [01:01:35] NEI: Aqui diz: “Destruir Sete Quedas é crime, diz prefeito”. Eu costumo dizer que tudo o que vou falar é opinião minha, mas tem uma concepção coletiva. Na época, boa parte da comunidade atribuiu muita culpa ao gestor do município. Mas, na minha opinião, o gestor da época não tinha culpa. Ele era empregado do patrão, tinha que cumprir o que vinha de cima. Talvez seja injusto atribuir a ele a culpa pelo fim. Eu acho que isso não condiz com a verdade, porque o sistema vinha de cima e dizia: “Nós vamos construir uma usina; para construir uma usina, precisamos sufocar as Sete Quedas”. Ele simplesmente cumpriu. Ficou 21 anos no poder como gestor do município, como empregado do governo federal. [01:02:46] NEI: E aqui a frase diz o seguinte: “Figueiredo: é uma pena”. Não vou ler o texto porque não há necessidade. Eu estava ali quando ele e sua comitiva saíram em um Galaxie. Ele deu uma passada muito rápida pelas Sete Quedas. Eu estava muito próximo, junto com outras pessoas, acenando para ele parar, para a gente perguntar, mas ele não parou. Ele simplesmente foi embora. Fez um contorno pelas Sete Quedas, acompanhado por segurança e várias viaturas atrás. Várias pessoas gritavam: “Pare! Pare! Queremos perguntar...”, mas ele não parou. E aqui está a frase: “É uma pena”. É muito pouco para aquilo tudo. [01:03:43] NEI: Aqui eu acredito que sejam autoridades. A imagem está um pouco ofuscada. ENTREVISTADOR: O próprio Figueiredo. NEI: Sim. Mas o relato que fiz é esse: quando ele estava dentro do carro, todo mundo pediu para ele parar e ele não parou. [01:04:12] NEI: E aqui é aquilo que eu disse na entrevista anterior: quando começou a se formar o lago, realmente só havia o que lamentar, sofrer e sentir todo esse episódio. Aqui nós já temos praticamente uma dimensão do lago. Provavelmente há uma numeração indicando onde ficavam partes geográficas das Sete Quedas. Essas fotos aqui eu vou passando, porque já retratam o complexo e nós já falamos bastante sobre as Sete Quedas. Aqui, da mesma forma, é mais uma dimensão de uma das quedas d’água. [01:06:06] NEI: E aqui, essa foto com essa imensidão humana e esse amontoado de ônibus, veículos, Kombis e vans retrata bem aquilo que eu falei há pouco. Foi uma verdadeira enxurrada humana, vamos dizer assim. Era muita gente, muita gente. A foto retrata pessoas descendo a pé para chegar às Sete Quedas, porque já não havia como entrar com os veículos. Foi realmente uma loucura. [01:06:56] NEI: Aqui já é uma foto que retrata o período com pavimentação asfáltica, já no final, nos últimos anos de visitação. Até então era estrada de chão. Essa torre de energia me traz uma lembrança. Ela ficava muito próxima da casa onde eu morei, uns quinhentos, seiscentos metros. A minha casa ficava aqui do lado direito. Essa torre está no continente; não está em uma ilha, porque algumas ficaram em ilhas. [01:07:51] NEI: E, para fecharmos, quero agradecer a todos por essa surpresa. A gente sente muito. Aqui está mais uma visão de uma das cachoeiras das Sete Quedas, compondo todo aquele complexo maravilhoso. Aquilo que jamais, jamais o homem poderia ter feito. Mas, infelizmente, não sei se podemos dizer que, pelo progresso, a gente tem que sacrificar. Talvez essa fosse a visão da época daqueles que detinham o poder. [01:08:25] ENTREVISTADOR: Maravilha. Corta, gente. [FIM DA ENTREVISTA]
ENTREVISTA #07
Gabriel Barbosa
Professor e doutorando em História, nascido e criadoem Guaíra – um educador nato, versado e extremamentecuidadoso com as informações e os informados.

ENTREVISTA #08
Cristian Edgar Aguazo
Poeta e professor na cidade de Guaíra. Atuou em diversos projetos culturais, na prefeitura e no Jornal Ilha Grande. Guairense de sangue e de alma, conhece a história da região como poucos.

Transcrição da entrevista completa [00:00:00] EQUIPE: Preparação das câmeras A e B e início da gravação. [00:00:18] ENTREVISTADOR: Nei, vamos começar falando um pouquinho da sua infância. Como foi a sua infância nas Sete Quedas? NEI: A minha infância nas Sete Quedas foi, sem dúvida alguma, uma experiência maravilhosa, porque nós vivíamos em função das Sete Quedas desde garotos, desde crianças. Eu, meus irmãos, minhas irmãs, meu pai, nós vivíamos e tínhamos o porquê. Na verdade, Sete Quedas era a grande indústria sem chaminés que nós tínhamos em Guaíra. [00:00:59] ENTREVISTADOR: E como é que foi? Você começou a trabalhar lá muito cedo. Me conta um pouco desse trabalho, desde criancinha. NEI: Sim, eu comecei nas Sete Quedas muito cedo, em torno de sete anos de idade. Eu já comecei a lavar carros. Depois, chegando próximo dos nove até os onze anos, eu levava turistas nas Sete Quedas, até que fui convidado pelo único restaurante que tinha lá para ser garçom. Naquele tempo, eu já fui trabalhar como funcionário. Meu pai era operário da usina; tinha uma pequena usina hidrelétrica lá. Meu pai era operário, e eu e a minha irmã, mais velha que eu, vendíamos souvenirs, lembranças das Sete Quedas, tudo o que tinha como tema as Sete Quedas. Então nós vivíamos literalmente das Sete Quedas. [00:02:07] ENTREVISTADOR: E como é que eram elas, sentimentalmente? Como era estar naquele lugar? NEI: Todos os turistas que vinham e que a gente acompanhava — como os demais colegas que acompanhavam os turistas — tinham aquele impacto, uma emoção muito grande. Porque as Sete Quedas tinham um trajeto de dois quilômetros e meio, onde você passava por pontes, passarelas, ilhas, até chegar do início ao final. Então, a cada ângulo de visão era uma emoção, porque era uma cachoeira muito forte, muito emocionante. Aquela brisa, o barulho, o estrondo... Para nós que vivíamos ali, o dia a dia tinha essa mesma impressão, essa emoção de viver ali, porque era encantador para quem visitava as Sete Quedas e via toda aquela beleza natural que nós tínhamos. [00:03:15] ENTREVISTADOR: Faz de conta que eu sou um turista, vim de longe, acabei de chegar em Guaíra, não sei nada sobre as Sete Quedas e caí com você para você me guiar. O que você vai falar para mim? NEI: Primeiramente, a gente sempre se identificava, porque nós tivemos, ainda que de forma bastante rudimentar, algumas orientações de pessoas mais experientes, do pessoal ligado ao turismo. O seu Ernesto Mann era uma pessoa muito ligada ao turismo de Guaíra. Então nós nos apresentávamos e acompanhávamos o turista dizendo: “Olha, aqui, a primeira ponte era uma ponte de ferro”. Nós mostrávamos que, indo no sentido das Sete Quedas, do lado esquerdo do canal estava o país vizinho, o Paraguai. Acima estava o Mato Grosso do Sul. Nós caminhávamos, víamos a segunda ponte, que é aquela do fatídico acidente, falávamos das cachoeiras e assim por diante, até chegar ao que nós chamávamos, na época, de último salto, o Salto 14. [00:04:27] ENTREVISTADOR: E quando chegava no Salto 14, como é que você apresentava esse salto para as pessoas? NEI: Apresentava como o maior salto em quedas d’água. [00:04:39] [Interrupção técnica causada por ruído externo. A equipe interrompe e retoma a pergunta.] [00:05:39] ENTREVISTADOR: Vamos lá, então. Eu estou de frente para o Salto 14. Acabei de chegar em Guaíra. Você vai me apresentar ele? NEI: O Salto 14 era o maior em volume d’água, o maior em extensão, porque praticamente partia de um extremo a outro, chegando quase ao país vizinho, o Paraguai, já quase na divisa. E ele era intransponível a partir dali. Então ele era o último. Você não tinha como acessar mais lugar nenhum por ele. Era interessante: você tinha uma visão de frente, uma visão ampla, que pegava todo o ângulo. Depois fazia um contorno, uma pequena caminhada por dentro da mata, e conseguia pegar mais um canto dele. Então ele era o maior salto que compunha as Sete Quedas. [00:06:32] ENTREVISTADOR: E quando as pessoas chegavam nele, qual era a reação delas? NEI: De grande admiração, de impacto, porque era uma coisa fenomenal. Principalmente ele, porque era o que proporcionava o maior som, o maior barulho, pela sua extensão, pelo seu volume d’água. [00:06:55] ENTREVISTADOR: E qual é a primeira memória que você tem das Sete Quedas? NEI: A primeira memória... Como eu praticamente me criei lá dentro, é aquela memória de todo dia ser um fato novo, apesar de a gente ser criança. Você estava ali recebendo pessoas que vinham com a curiosidade de conhecer. E lá tinha uma pequena usina; essa usina fornecia, inclusive, energia elétrica gratuitamente para quem morava lá. Então era uma coisa interessante, porque nós não pagávamos luz. Tinha mais ou menos umas sete ou oito residências, alguns comércios e o restaurante onde eu fui trabalhar depois. Brincávamos lá também. Eu praticamente não tive infância, porque com sete anos já comecei a trabalhar, mas era gostoso. Todo dia ganhávamos presentes dos turistas. E era muito bom, porque financeiramente a gente era de uma renda inferior. Então, aproveitando essa questão da memória, um belo dia, por volta de 1969, chegaram quatro turistas jovens do Rio de Janeiro em um carro chamado Gordini — um carro que muita gente hoje nem sabe o que era. [00:08:39] [Pequena interrupção técnica. A equipe pede que a história seja retomada desde o início.] [00:09:28] ENTREVISTADOR: Nei, está rodando. Conta essa história dos turistas desde o começo, por favor. NEI: Perfeito. Um belo dia, nessa minha memória de criança, acho que por volta de 1969, chegaram quatro turistas jovens em um carro chamado Gordini, um carro que muita gente hoje não sabe o que era. Eles eram do Rio de Janeiro. Pediram para eu levá-los, e eu fui. Mostrei as Sete Quedas, contei toda a história, e eles ficaram encantados. Depois foram para o restaurante que tinha lá — naquela época eu ainda não trabalhava nesse restaurante —, almoçaram e, na hora de ir embora, eu não sei por qual razão, hoje não me lembro mais, eles tinham um cabrito, literalmente um cabritinho dentro do carro, e me deram de presente. Disseram: “Olha, nós não vamos levar”. Eu não sei por que estavam com aquele cabrito, mas me deram de presente. Eu fiquei feliz da vida, como criança. Levei para casa, cheguei para o meu pai e para a minha mãe, contei, e nós cuidamos do cabrito. [00:11:00] ENTREVISTADOR: Vamos falar mais um pouquinho. Qual era o seu lugar ou momento preferido nas Sete Quedas? NEI: Nas Sete Quedas nós ficávamos a postos onde tinha uma barragem, o canal. Logo abaixo do canal vinha um bosque, e nós ficávamos bem na ponta desse bosque, porque era uma disputa muito grande entre todos. Havia várias crianças e jovens adolescentes que trabalhavam levando turistas, e o fluxo era significativo, principalmente nos finais de semana. Então nós ficávamos a postos para pré-escolher. Naquele tempo, aparecia um carro como uma Veraneio, um Dodge Dart, um Galaxie; mais para frente vieram a TL e a Variant. Eram carros que, supostamente, eram de turistas mais afortunados. A gente prestava atenção nisso porque a gorjeta também era melhor. Nós não tínhamos uma tabela, não existia uma tabela; era tudo muito simples. A gente levava, fazia todo aquele trabalho de informação, de mostrar, de contar sobre os saltos, e na volta eles nos davam um cachê, que ficava a critério do turista. [00:12:29] ENTREVISTADOR: E como os sons das Sete Quedas acompanhavam a sua vida? O quanto eles eram importantes para você? NEI: Esses sons das Sete Quedas eram extremamente interessantes. Meu pai, por exemplo, plantava; nós tínhamos uma área ali mesmo onde plantávamos. Pelo som das Sete Quedas, naquela época, você sabia de que posição vinha a chuva, a tempestade. Enfim, vários fatores você conseguia perceber através do barulho das Sete Quedas. Era muito interessante. Na época, pela lua você também sabia o que fazer em termos de plantação. E outra coisa que nós poderíamos dizer era sobre o clima com as Sete Quedas. Nós tínhamos um inverno muito rigoroso em Guaíra, que não existe mais. Hoje nós temos dias de frio, mas não temos mais aquele inverno. No período das Sete Quedas, o inverno em Guaíra era rigoroso durante os três meses de inverno. [00:14:05] ENTREVISTADOR: E como era morar em um dos lugares mais bonitos do mundo? NEI: Era, volto a repetir, entusiasmante. A gente era criança e, apesar das dificuldades financeiras, todos nós que morávamos ali éramos muito felizes, alegres, porque sempre nos deparávamos com pessoas diferentes, conversando, e a gente acabava sendo um elo de ligação. Quando fui trabalhar no restaurante, ficou ainda mais entusiasmante, porque a gente atendia, contava histórias. Esse restaurante era especializado em peixe; não tínhamos outro cardápio, era tudo à base de peixe. Fazíamos vários pratos à base de peixe, todos capturados no Rio Paraná para atender os turistas. Era um fluxo de movimento muito grande. A gente estava sempre se deparando com novidades. Eu trabalhava de manhã no restaurante, almoçava, andava quatro quilômetros e meio até o Colégio Mendes Gonçalves para estudar, fazer o meu primário, voltava depois e trabalhava mais um período. Assim era. Eu fiz todo o meu primário e ainda um pedacinho do colegial indo e voltando dessa forma. Naquele tempo não tinha pavimentação, asfalto, sistema de transporte coletivo, nada. Você vinha a pé. [00:15:55] ENTREVISTADOR: Vou pular um pouquinho uma pergunta que estava mais para frente. Você falou dos peixes, da alimentação. Você foi premiado diversas vezes com o Pintado na Telha e com pratos de peixe. Me conta sobre esse prato, como você aprendeu, e depois a gente fala um pouco sobre como o descaso com o rio e com esses peixes prejudicou a culinária típica guairense. NEI: Perfeito. Vamos começar lá na base, quando a pesca era farta em Guaíra. Nesse restaurante em que eu trabalhei, e depois nas peixarias de Guaíra, havia muito peixe. Esse restaurante se chamava Restaurante do Salto e tinha peixaria também. Havia vários pescadores profissionais na época. Tem um fato curioso que é preciso contar historicamente. O seu Miguel, que era o proprietário do restaurante, recebia os pescadores. Eles perguntavam: “Seu Miguel, o senhor precisa de peixe hoje?”. Ele abria os freezers, e pela fartura de peixe dizia: “Bom, hoje você me traz só dourado e pintado, porque jaú, pacu e [nome de peixe pouco nítido] ainda tem bastante”. Para vocês terem uma ideia, isso é história que eu vivi, que acompanhei. Havia uma fartura muito grande de peixe. Depois, ainda continuou existindo uma quantidade razoável, mas, após o fechamento do lago, houve uma pesca predatória muito grande no início da formação do reservatório. E aí tivemos uma diminuição muito grande do pescado em Guaíra, principalmente dos chamados pescados nobres, como pintado e dourado. Foi um problema sério. Já não era mais aquela fartura, embora ainda houvesse uma quantidade significativa. Eu cresci, vim para o comércio de Guaíra e, na época em que participei do poder público, tive a ideia de criar o Pintado na Telha como prato típico de Guaíra. Inclusive, a lei é de minha autoria e foi sancionada pela gestão da época. Nós criamos o Pintado na Telha. Não era “peixe na telha”; era “Pintado na Telha”. Ocorre que, com o passar dos anos, esse peixe ficou bastante difícil de capturar no lago e no Rio Paraná, e esse prato acabou ficando um pouco esquecido. Mas ele ainda existe, ainda é servido em hotéis de Guaíra. Eu participei de vários concursos e tive a felicidade de, por várias vezes, ser campeão do Pintado na Telha. Depois vim para o comércio de eventos, onde também trabalhávamos com peixe. [00:19:17] ENTREVISTADOR: Vamos terminar só mais uma aqui e depois a gente dá uma pausa. Fala para mim sobre o turismo às vésperas do fim das Sete Quedas. NEI: O turismo no final das Sete Quedas foi uma loucura. Vamos usar essa expressão: foi uma loucura. Nessa época eu tinha um restaurante no Hotel Guarujá II. Era algo absurdo. Só para vocês terem uma ideia, a fila de ônibus para chegar às Sete Quedas vinha até a Igrejinha de Pedra; depois o pessoal ia a pé. Não tinha como colocar carro no pátio das Sete Quedas. No hotel, para se ter uma ideia, nós alugávamos até o escritório do diretor porque não tinha vaga. Nós tínhamos amizade com um hospital aqui de Guaíra, na época o Hospital Santa Rita. O médico era nosso amigo. Quando havia leito vago, chegaram a alugar leitos para turistas, porque não tinha mais acomodação. E isso num período em que Guaíra tinha vários hotéis, de categorias inferiores e superiores, restaurantes, churrascarias, enfim. Era tudo lotado. Eu atribuo o episódio da queda da ponte ao excesso de peso e à falta de cuidado e fiscalização, porque aquilo era uma loucura. Eram milhares de pessoas passando ao mesmo tempo por aquelas passarelas, por aquelas pontes. [00:21:08] [PAUSA TÉCNICA] [00:21:20] ENTREVISTADOR: Então, talvez um dos dias mais tristes que você tenha vivido ali nas Sete Quedas. Onde você estava quando soube do acidente na ponte? E quando você chegou lá, o que encontrou? NEI: Nesse fatídico acidente, eu estava exatamente no hotel onde tinha o restaurante. Como eu estava dizendo, havia muita gente visitando Guaíra. Eu tinha acabado de construir uma casa e a havia alugado para dois casais do interior de São Paulo, porque o hotel estava lotado. Eu os hospedei nessa casa. De manhã, eles foram tomar o café e seguiram para as Sete Quedas. Por volta das nove, nove e pouco da manhã, veio a triste notícia. Nesse momento, eu fui, juntamente com mais algumas pessoas, me deslocando rapidamente. Cheguei ao local do acidente em torno de quarenta a quarenta e cinco minutos depois. Ainda havia pessoas penduradas, gritos, pessoas ilhadas do outro lado e muita gente do lado que poderíamos chamar de continente. Foi uma coisa absurda. Todo mundo em pavor, desesperado, gritos, choro, e você vendo as pessoas. Muitos já tinham sido levados pela corredeira. O João Lima Moraes, o popular João Mandi, estava ali e teve um papel importante no auxílio ao resgate, de onde ele estava, ali nas pedras. Foi uma coisa terrível, terrível. [00:23:22] ENTREVISTADOR: E me conta como foi o dia seguinte ao acidente. As pessoas ligando, tentando entrar em contato com familiares, poucos orelhões, poucos telefones, hotéis... Como foi essa confusão? NEI: Naquele tempo só existiam fax e telefone fixo. Inclusive no hotel. No Hotel Guarujá II foi montada toda a estrutura de jornalismo do Brasil. Foi ali que vieram as televisões da época, O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo, pessoal de Londrina, enfim, jornais escritos, falados, televisionados, tudo. Ali foi a central. Só que demorava para você passar a matéria. Por exemplo, você mandava uma matéria de manhã para ser exibida só à noite. Ali foi toda a central de divulgação. Foi uma tragédia que tomou proporção mundial. Guaíra ficou estarrecida, ficou de luto. Começaram a chegar familiares, e havia familiares que não tinham contato, porque a comunicação era difícil. Na época, não se sabia ao certo, mas o número oficial de mortos foi 32. [00:24:47] ENTREVISTADOR: Você participou da homenagem final, quando os indigentes foram enterrados no cemitério? Você estava lá ou soube como foi esse momento? NEI: Exatamente nesse dia, não. Mas, na época, eu já tinha uma ligação forte com o comércio de Guaíra e conhecia o secretário responsável pela pasta. Fui até ele. Como nós não tínhamos aqui na cidade estrutura para fazer reconhecimento dos corpos, autópsia e tudo aquilo, eu pedi a ele para entrar no cemitério e ver. Foi um momento que me marcou muito, porque eu contei: havia 19 corpos, todos colocados de maneira rudimentar, esperando vir de fora a Polícia Científica para fazer a autópsia. Naquele momento havia 19 corpos ali. Posteriormente, a grande maioria foi levada, após a identificação, por seus familiares. E, se não me falha a memória, dois ou três foram enterrados como indigentes, porque não apareceu familiar, não apareceu ninguém. [00:26:08] ENTREVISTADOR: E como foi essa busca pelos corpos, que durou quase um mês? NEI: A busca foi extremamente difícil, pelo fato de ser um canal de grande volume d’água e de corredeira muito forte. Isso foi levando os corpos. Houve corpos encontrados a cem quilômetros daqui, rio abaixo. Muitos ficaram enroscados também nas grotas de pedra. Por isso, até hoje, não se tem literalmente a certeza de que foram só 32 mortos. Foi uma coisa muito triste. Houve corpos retirados da água vários dias depois, em um estado que dificultava até a identificação. [00:26:59] [AJUSTE TÉCNICO E NOVO CORTE DE CÂMERA] [00:27:17] ENTREVISTADOR: Vamos voltar ao acidente da ponte, último assunto. Toda essa tragédia aconteceu e alguém tentou colocar a culpa sobre uma pessoa, sobre [nome pouco nítido na gravação]. Você pode me contar como foi essa tentativa? NEI: Com relação a esse fato, que foi atribuído ao Pedimar Porã, que era indígena: ele não era uma pessoa muito antiga ali, mas eu o conheci, conversávamos pouco, como todos conversavam. Na minha opinião — e é só uma opinião pessoal — precisavam arrumar um bode expiatório para alguma coisa. Eu não acredito jamais que ele faria isso, até porque ele era zelador, cuidava dali, estava sempre, vamos dizer assim, vigilante dentro do pátio das Sete Quedas, de todo o complexo. Então eu atribuo isso à criação de um bode expiatório. Estávamos vivendo um momento em que não deram importância para ninguém para acabar com as Sete Quedas. Quando veio essa tragédia, precisavam atribuir a alguém. A formação do lago foi no mesmo ano. Então atribuíram isso a ele. Essa é a minha opinião. [00:29:01] ENTREVISTADOR: Você pode repetir só essa frase? “Eles criaram um bode expiatório.” NEI: Eles criaram um bode expiatório. [00:29:09] ENTREVISTADOR: Vamos fazer uma comparação que eu sei que você gosta de fazer: Sete Quedas e Cataratas do Iguaçu. NEI: Com relação a essa comparação, eu gostaria de fazer um adendo. A natureza foi perfeita. Ela criou duas belezas, eu diria, na mesma direção. O homem, dentro do seu processo de transformação, quis, na sua preponderância, fazer a maior usina do mundo e, para isso, teve que sacrificar uma dessas maravilhas da natureza. Eu conheci as Sete Quedas desde criança, vivi dentro delas. Tive também, ainda bem jovem, a experiência de conhecer as Cataratas do Iguaçu e depois estive lá outras vezes. Na minha visão, as Cataratas do Iguaçu eram bonitas — e são bonitas até hoje; é um dos locais mais visitados do mundo —, só que elas têm uma visão panorâmica praticamente única. Você chega pelo lado brasileiro — elas também podem ser visitadas pelo lado argentino — e tem aquela visão. As Sete Quedas, não. Nas Sete Quedas você cansava. Tinha que fazer aquela enorme caminhada de dois quilômetros e meio e, para cada lado que olhava, tinha uma cachoeira, tinha uma queda, tinha todo o esplendor da natureza ao longo daquele processo de caminhada. Então, para mim, as Sete Quedas eram extremamente superiores às Cataratas do Iguaçu. [00:31:04] ENTREVISTADOR: Vamos começar a falar um pouquinho da despedida. Como foi quando você soube que as Sete Quedas iam acabar? As pessoas acreditaram de começo? Como foi essa notícia? NEI: Eu quero voltar um pouquinho, bem no início. Quando se falou da construção da Usina de Itaipu, que formaria o lago e deixaria as Sete Quedas submersas, eu ainda era criança. Meu pai era operário lá dentro, fazia parte de um órgão do governo ligado ao que hoje vem a ser a nossa Copel. Ele era funcionário dessa empresa, chamada Minas e Energia. Sendo operário, meu pai acompanhou os engenheiros e técnicos, carregando aparelhos de topografia, quando começaram a fazer as demarcações. Eles iam em vários pontos, subindo desde Foz do Iguaçu até Guaíra. Colocavam uma marca metálica, de bronze, que indicava a graduação, a cota que a água atingiria. Eu lembro que, apesar de ser criança, ouvia os mais velhos comentarem que jamais o homem teria capacidade de acabar com uma beleza daquela. Que não teria. Bom, erramos. Guaíra talvez tenha pecado, o sistema pecou e, como nós vivíamos um sistema, vamos dizer assim, de exceção, não tinha para quem apelar. Nós esperamos o fatídico dia. Foram feitas as marcações da cota 220 e, por incrível que pareça, o lago chegou exatamente ali. Nessa altura eu já era adulto, já estava na vida pública e conseguimos constatar. Para nós foi um choque, um luto total. Guaíra, do dia para a noite, paralisou. Ficou totalmente enlutada. Vou dar um exemplo: eu tinha restaurante no hotel, onde servíamos 50, 60, 70, 100 refeições por dia, mais o café da manhã. A partir do outro dia, você não tinha mais nada. Foi fechando tudo. Os hotéis de Guaíra foram fechando, os restaurantes foram fechando. Para se ter uma ideia, juntamente com o diretor do hotel, começamos a doar parte das louças e objetos do hotel, porque não tinha mais porquê. Paralisou. Isso ficou durante vários anos. Foram anos de total ostracismo econômico em Guaíra, porque perdemos a nossa fonte. Foi aí que veio a grande promessa. Na época, engenheiros e técnicos das Centrais Elétricas do Sul do Brasil, a Eletrosul, diziam que aqui seria construído o Complexo de Ilha Grande, acompanhado de ferrovia, rodovia e hidrelétrica. Teríamos uma usina para fazer a contenção dos dejetos de Itaipu Binacional, teríamos ferrovia, rodovia e hidrelétrica. Diziam que Guaíra jamais iria se lembrar das Sete Quedas. De certa maneira, diante do quadro que estávamos vivendo, quase aceitamos e acreditamos nessa ideia. Só que tudo sucumbiu e nada aconteceu. Chegou em 1989, 1990, e simplesmente o governo da época disse: “Está cancelado”. Não se faria mais nada. [00:35:23] ENTREVISTADOR: E quando elas foram sendo inundadas? Foi muito rápido, mas, ao mesmo tempo, pouco a pouco dava para ver a água subindo. Qual era a sensação? NEI: Demorou vários dias, várias semanas. Era uma sensação terrível, principalmente para quem não acreditava que aquilo aconteceria e estava vendo acontecer. Muita gente de Guaíra foi lá, os mais antigos também. Eu tive a oportunidade de ir até quando a água já estava chegando a um determinado ponto. Você via que o canal em si, o canal-base, o que nós chamávamos popularmente de canal, já estava totalmente nivelado. As quedas começaram a diminuir. Começou ali pela queda da ponte, que era praticamente a primeira de cima para baixo. A água começou a subir, e você via que a queda já era bem menor. E não tinha para quem reclamar. Não tinha. O fato estava consumado. [00:36:44] ENTREVISTADOR: E como foi dormir sem o som das Sete Quedas? NEI: Volto a repetir: nós ficamos totalmente à deriva, ficamos de luto, sem saber o que fazer. Não querendo me vitimizar, mas eu, de empresário, fui trabalhar como empregado, de porteiro no hotel, porque não tinha mais o que fazer. Esse foi o meu caso, e muitos foram embora. Muitos empresários deixaram suas propriedades e foram para outras regiões. Teve gente que foi para Mato Grosso, Rondônia, Curitiba, enfim. Foram deixando Guaíra porque não havia alternativa. A própria imprensa chegou a dizer que nós tínhamos nos tornado uma cidade fantasma em determinado período. [00:37:39] ENTREVISTADOR: Me fala mais sobre essa “cidade fantasma”. Como era Guaíra? Como era essa sensação de que aqui tinha, de fato, virado uma cidade fantasma? NEI: A cidade fantasma vem já com a questão da não construção do Complexo de Ilha Grande. Nós havíamos perdido a maior fonte de renda, a maior indústria propulsora da economia local. Aí nos prometeram um grande polo com esse complexo. Tanto é que fizeram mil e poucas casas em Guaíra para acomodar as pessoas e empresas que viriam construir a usina, a ferrovia e a rodovia, fazendo a transposição do Rio Paraná para o Mato Grosso do Sul. E isso não aconteceu. Ali foi o desastre total, porque era gente abandonando, gente indo embora. Aquele grupo de pessoas que veio para Guaíra tinha dado certo fomento à economia guairense. Os hotéis já haviam retomado um pouco daquilo que era possível fazer. E, a partir do momento em que foi decretado o cancelamento da obra do Complexo de Ilha Grande, foi quando a grande imprensa passou a chamar Guaíra de cidade fantasma. [00:39:12] ENTREVISTADOR: Antes de a gente ir para outra pergunta, queria que você falasse sobre o que sente em relação aos últimos anos em Guaíra. Você sente alguma espécie de redescobrimento, de renascimento da cidade? Compara essa Guaíra “cidade fantasma” com a Guaíra de hoje e com a forma como ela tenta se projetar para o futuro. NEI: Eu diria que Guaíra, nos últimos 20, 25 anos, saiu desse luto que viveu, saiu desse ostracismo econômico pelo qual passou. Através de diálogo e de um novo olhar, por meio de todos os setores da sociedade organizada de Guaíra — ainda que de maneira incipiente na indústria, no comércio — começou a encontrar novos caminhos. Veio a questão do comércio com o país vizinho, o Paraguai, o comércio de importados, e gestões que começaram a ter uma visão de não apenas reclamar, mas buscar alternativas junto ao governo estadual e ao governo federal para colocar Guaíra como uma cidade importante. Porque é importante dizer: Guaíra é um dos grandes polos de passagem entre o Norte e o Sul do país. Quem sai do Sul para atingir o Norte do Brasil passa por Guaíra. Foi aí que o comércio começou a se redistribuir e aumentar, a parte hoteleira melhorou, a gastronomia começou também a ganhar uma dimensão melhor e, sem dúvida, a conclusão da ponte sobre o Rio Paraná, substituindo a travessia por balsa, incrementou bastante isso. Eu diria que Guaíra vive uma nova fase, uma fase boa, principalmente agora, buscando o turismo de pesca esportiva, o turismo de aventura. A própria cultura está se levantando, se redescobrindo e colocando projetos em prática. Tivemos também, ainda que de forma acanhada, uma boa recompensa com um percentual maior dos royalties por parte de Itaipu. [00:42:03] ENTREVISTADOR: Então essa vai ser a nossa última pergunta. Conta para mim desde o início: como foi a distribuição dos royalties? Ela foi justa? Foi pouco benéfica para Guaíra até os dias de hoje? NEI: Muito bem. Quando se formou o Lago de Itaipu Binacional, através de todo o seu corpo jurídico e técnico, estabeleceu-se que as indenizações seriam baseadas nos metros quadrados de área inundada e nas benfeitorias que havia em cada propriedade e em cada cidade. Acontece que a cidade de Guaíra está exatamente no último ponto do alagamento, no último extremo. Então, a área em metros quadrados inundada aqui foi a menor. Sem dúvida alguma, foi a menor. No entanto, inundou-se a maior fonte de renda da cidade e uma das maiores belezas do mundo. Isso não foi levado em consideração. Por outro lado, a própria política local, regional e nacional não se ateve, não teve compromisso com Guaíra para fazer um questionamento junto à Itaipu Binacional, no sentido de que isso já tivesse sido considerado no momento da indenização e dos aportes destinados à cidade. Como isso não aconteceu, Guaíra ficou com um dos menores percentuais de royalties, um dos menores valores mensais em dinheiro. Como era cotado em dólar, o nosso percentual em dólar foi um dos menores. Houve lugares em que cidades tiveram áreas maiores submersas e recebiam cinco, seis, dez vezes mais do que nós, por causa desse critério de metros quadrados de área inundada. Aí houve demandas através da política local, juntamente com o governo do Estado, deputados e senadores, no sentido de reverter isso. Numa primeira etapa, levou acho que uns 15 anos e não aconteceu nada. Falava-se, discutia-se, até que, depois de muitos anos de briga, saiu alguma coisa — usando essa expressão —, mas ainda era muito pouco. Por fim, houve um projeto de uma pessoa que jamais podemos esquecer, que teve um papel importante: o então deputado Osmar Serraglio. Ele teve um projeto muito importante e, juntamente com a última gestão do prefeito Eraldo, conseguiram conscientizar os senadores da República e boa parcela dos deputados federais de que havia uma grande injustiça com o município de Guaíra, e que não era possível continuarmos de mãos cruzadas sem fazer nada. Se não me engano, dos 81 senadores, 70 votaram favoravelmente à proposição para o município de Guaíra. Jamais nada vai compensar a perda das Sete Quedas, na minha opinião. Jamais. Mas, pelo menos, é um alívio para a nossa infraestrutura local, para podermos prestar um bom atendimento à comunidade de Guaíra com esse percentual de royalties. [00:45:57] ENTREVISTADOR: Que maravilha. [CORTE / AJUSTE TÉCNICO] ──────────────────────────────────────── SEGUNDA PARTE — MEMÓRIAS A PARTIR DE FOTOGRAFIAS E RECORTES ──────────────────────────────────────── [00:46:04] ENTREVISTADOR: Você pode relaxar um pouquinho mais com a caixinha. Se estiver desconfortável, pode colocar na sua perna. Fica tranquilo. Você vai abrir a caixinha e vão ter algumas memórias, algumas coisinhas aí. Pega uma por uma e vai comentando. Quando quiser comentar, comenta; quando quiser só olhar, pode só olhar. Pode abrir. [00:46:32] NEI: Legal. Essa foto aqui já é de quando estávamos no finalzinho. Eu fiz questão de ir lá, porque as Sete Quedas estavam para terminar. E hoje essa foto é uma lembrança que ninguém mais vai poder ver daquele jeito. [00:46:56] ENTREVISTADOR: Pode olhar para você e, quando quiser, mostrar para a câmera ali atrás. [00:47:02] NEI: Eu fiz um comentário na época. Aqui ficou bem característica a palavra “ADEUS”, como uma despedida. E a pessoa que escreveu esse “adeus” deixou dois pingos de tinta que, para mim, representam duas lágrimas. Eu fiz esse comentário na época e agora é interessante trazer isso à memória. [00:47:36] ENTREVISTADOR: Pode continuar olhando para você mesmo. Assim está ótimo. [00:47:47] NEI: Aqui já é uma cena que nos demonstra tristeza. Mostra a tristeza de saber que hoje não temos mais isso, não existe mais a possibilidade de estarmos lá, naquele lugar onde a gente esteve. E assim vão vindo as memórias com essas fotos. Da mesma forma aqui: era um pedaço das Sete Quedas em que eu fazia essa caminhada três, quatro vezes por dia, levando turistas. Hoje só vem a memória. Sem dúvida alguma, isso nos deixa emocionados. Aqui está o canal também. Não tem como não se emocionar de lembrar que a gente vivenciou isso. Era o nosso caminho de casa, era o nosso pátio de casa. Essa foto aqui já nos traz uma certa indignação. Eu acompanhei também toda a construção dessas torres, que eram torres de transmissão para atingir o Mato Grosso do Sul. Isso nos deixa uma certa indignação porque, em função da construção daquilo que se dizia necessário, que precisava ser feito para o desenvolvimento econômico, social e industrial do Brasil, nós tivemos que perder essa beleza. Aqui também é uma foto aérea que dá uma dimensão das Sete Quedas. Eu já vi vários quadros assim e presenciei aquilo. Nesta foto aérea, todo esse percurso eu fazia caminhando com os turistas, passo a passo, para chegar do início ao final. [00:50:18] NEI: E aqui está aquilo que comentamos anteriormente, a loucura que se tornou o final das Sete Quedas. Estou com uma foto que representa exatamente a ponte do fatídico acidente de 17 de janeiro de 1982. [00:50:49] ENTREVISTADOR: Dá só uma leve viradinha na foto para a câmera. NEI: Essa foto demonstra aquilo que eu falei sobre a loucura que foi o final. Acho que todo mundo queria conhecer as Sete Quedas ainda vivas. Quem já conhecia voltou para ver pela última vez. Era uma loucura. Aqui ainda temos a presença da antiga ponte do fatídico acidente que nós presenciamos, vivenciamos, sofremos. Aqui, mais um dos saltos das Sete Quedas que vêm à memória. A própria foto representa a neblina que se formava. Você tomava uma chuva ao chegar perto, porque a gente conseguia chegar muito próximo da queda. [00:51:58] NEI: E aqui eu tenho mais um saudosismo triste para lembrar. Essa foto representa uma das grandes vivências da minha infância. Um belo dia fui levar um casal de turistas. O marido era de origem japonesa. Eles chegaram à tarde, já no final da tarde, e eu disse: “Agora é impossível, porque não tem iluminação. Marcamos para amanhã cedo para visitar as Sete Quedas”. Eles estavam em lua de mel. Ele gostava muito de fotografia, estava com uma máquina profissional. Quando nós descemos para ele fotografar, em determinado momento ele entregou a máquina para a esposa e escorregou. Foi levado pelas águas. Eu, ainda criança, com oito ou nove anos de idade, presenciei as Sete Quedas engolindo aquele homem exatamente neste lugar da foto. Foi uma coisa que marcou muito a minha vida. Chamamos os guardas, chamamos as pessoas. Eu nem sei dizer se ele foi encontrado, porque ali era um turbilhão de água. Era algo terrível. [00:53:44] NEI: Aqui está o ângulo da ponte. Era uma ponte que balançava, e muita gente tinha mania de subir nela e balançar. Havia também muita gente que sentia medo ao atravessar. Vamos ver mais aqui. [00:54:21] NEI: Aqui, se não me falha a memória, estou vendo uma foto do lado paraguaio. Exatamente aqui nós tínhamos a confluência, o canal, o Grande Canal. Do outro lado havia uma visão menor, naturalmente, mas o país vizinho, o Paraguai, e a comunidade de Salto del Guairá conseguiam ter uma vista parcial das Sete Quedas. Aqui, outra bela visão de um salto. Era um mais lindo que o outro. Se formos falar, não tem como fazer diferenciação entre um e outro. Aqui, tudo indica que estava num período de cheia, porque está bastante avolumado. [00:55:24] NEI: E assim vamos passando pela sequência de fotos das Sete Quedas. Esse aqui era o chamado “Saltinho”. Havia essa ponte, que fazia a ligação com uma das maiores ilhas que compunham as Sete Quedas. Naturalmente, praticamente todo o percurso era feito por pontes e passarelas. Era uma ilha bem grande. Depois dela havia outra ponte. Para ir ao Salto 14, que era o último salto, ainda tínhamos mais duas pontes. Então esse aqui é o famoso Saltinho. Na parte de cima dessa ponte havia um ponto que nós chamávamos de remanso. Era uma parte em que muita gente tomava banho, fazia piquenique. [00:56:37] ENTREVISTADOR: Pode continuar. Quando quiser comentar, comenta; quando não quiser, pode só olhar. Dá só uma viradinha um pouquinho para cá. Isso, está ótimo. [00:56:49] NEI: Aqui é mais uma ponte. Era a penúltima ponte, que fazia a travessia entre a ilha que acabei de citar e o trecho final. Tinha mais uma ponte, um canal, e depois chegávamos ao Salto 14, o último salto do Complexo de Sete Quedas. Aqui também, mais uma vista da ponte. Aqui nós temos as pontes. [00:57:31] NEI: E aqui eu volto a frisar: esse é, sem dúvida alguma, o salto mais bonito. Era o mais volumoso, onde aconteceu aquela tragédia que citei. A gente conseguia chegar muito perto. Como não havia tanta sinalização nem fiscalização, os turistas aproveitavam ao máximo. Pela força da água, formava-se aquela cascata, aquela névoa de água em cima do pessoal. Então esse era o salto mais volumoso. [00:58:11] NEI: Aqui vamos ver. Esse é um recorte. [00:58:14] [PAUSA TÉCNICA PARA TROCA DE BATERIA E AJUSTE DA POSIÇÃO DO MATERIAL] [00:58:41] ENTREVISTADOR: Podemos seguir na ordem em que você estava. [00:58:46] NEI: Aqui estamos com um recorte de jornal, provavelmente da época, cujo texto diz: “Último dia de visitação de Sete Quedas: 40 mil pessoas formaram fila de quilômetros para atingir Sete Quedas”. Quer dizer, aquilo que nós já comentamos é fato: isso aconteceu. Lembrando que, nesse episódio, a ponte já tinha sido reconstruída. Por incrível que pareça, depois de toda a tragédia que aconteceu e já no período final das Sete Quedas, ainda reconstruíram a ponte e ela foi aproveitada por alguns meses. A tragédia foi em janeiro e o lago se formou, se não me falha a memória, entre setembro e outubro. Isso aqui condiz com a realidade daquela época. [00:59:45] NEI: Essa aqui é bem icônica. É também uma foto aérea. Ela pega todo o dorso do canal e as cachoeiras. É bem interessante. Aqui, mais uma vez, aparece aquilo que eu sempre falava e explicava aos turistas: o salto mais bonito, o salto mais imponente das Sete Quedas. Nesta foto ele está numa dimensão um pouco diferente, mais alongada. [01:00:38] NEI: Aqui, mais uma vez, nós temos a ponte que fazia a travessia entre a ilha e o penúltimo espaço para chegar até o Salto 14. Ali nós já tínhamos o canal, um canal mestre. Nós tivemos algumas frases de efeito na época, mas já não surtiam efeito prático. Não conseguiam mais reverter o que já estava estabelecido. [01:01:35] NEI: Aqui diz: “Destruir Sete Quedas é crime, diz prefeito”. Eu costumo dizer que tudo o que vou falar é opinião minha, mas tem uma concepção coletiva. Na época, boa parte da comunidade atribuiu muita culpa ao gestor do município. Mas, na minha opinião, o gestor da época não tinha culpa. Ele era empregado do patrão, tinha que cumprir o que vinha de cima. Talvez seja injusto atribuir a ele a culpa pelo fim. Eu acho que isso não condiz com a verdade, porque o sistema vinha de cima e dizia: “Nós vamos construir uma usina; para construir uma usina, precisamos sufocar as Sete Quedas”. Ele simplesmente cumpriu. Ficou 21 anos no poder como gestor do município, como empregado do governo federal. [01:02:46] NEI: E aqui a frase diz o seguinte: “Figueiredo: é uma pena”. Não vou ler o texto porque não há necessidade. Eu estava ali quando ele e sua comitiva saíram em um Galaxie. Ele deu uma passada muito rápida pelas Sete Quedas. Eu estava muito próximo, junto com outras pessoas, acenando para ele parar, para a gente perguntar, mas ele não parou. Ele simplesmente foi embora. Fez um contorno pelas Sete Quedas, acompanhado por segurança e várias viaturas atrás. Várias pessoas gritavam: “Pare! Pare! Queremos perguntar...”, mas ele não parou. E aqui está a frase: “É uma pena”. É muito pouco para aquilo tudo. [01:03:43] NEI: Aqui eu acredito que sejam autoridades. A imagem está um pouco ofuscada. ENTREVISTADOR: O próprio Figueiredo. NEI: Sim. Mas o relato que fiz é esse: quando ele estava dentro do carro, todo mundo pediu para ele parar e ele não parou. [01:04:12] NEI: E aqui é aquilo que eu disse na entrevista anterior: quando começou a se formar o lago, realmente só havia o que lamentar, sofrer e sentir todo esse episódio. Aqui nós já temos praticamente uma dimensão do lago. Provavelmente há uma numeração indicando onde ficavam partes geográficas das Sete Quedas. Essas fotos aqui eu vou passando, porque já retratam o complexo e nós já falamos bastante sobre as Sete Quedas. Aqui, da mesma forma, é mais uma dimensão de uma das quedas d’água. [01:06:06] NEI: E aqui, essa foto com essa imensidão humana e esse amontoado de ônibus, veículos, Kombis e vans retrata bem aquilo que eu falei há pouco. Foi uma verdadeira enxurrada humana, vamos dizer assim. Era muita gente, muita gente. A foto retrata pessoas descendo a pé para chegar às Sete Quedas, porque já não havia como entrar com os veículos. Foi realmente uma loucura. [01:06:56] NEI: Aqui já é uma foto que retrata o período com pavimentação asfáltica, já no final, nos últimos anos de visitação. Até então era estrada de chão. Essa torre de energia me traz uma lembrança. Ela ficava muito próxima da casa onde eu morei, uns quinhentos, seiscentos metros. A minha casa ficava aqui do lado direito. Essa torre está no continente; não está em uma ilha, porque algumas ficaram em ilhas. [01:07:51] NEI: E, para fecharmos, quero agradecer a todos por essa surpresa. A gente sente muito. Aqui está mais uma visão de uma das cachoeiras das Sete Quedas, compondo todo aquele complexo maravilhoso. Aquilo que jamais, jamais o homem poderia ter feito. Mas, infelizmente, não sei se podemos dizer que, pelo progresso, a gente tem que sacrificar. Talvez essa fosse a visão da época daqueles que detinham o poder. [01:08:25] ENTREVISTADOR: Maravilha. Corta, gente. [FIM DA ENTREVISTA]


Transcrição da entrevista completa [00:00:00] EQUIPE: Preparação das câmeras A e B e início da gravação. [00:00:18] ENTREVISTADOR: Nei, vamos começar falando um pouquinho da sua infância. Como foi a sua infância nas Sete Quedas? NEI: A minha infância nas Sete Quedas foi, sem dúvida alguma, uma experiência maravilhosa, porque nós vivíamos em função das Sete Quedas desde garotos, desde crianças. Eu, meus irmãos, minhas irmãs, meu pai, nós vivíamos e tínhamos o porquê. Na verdade, Sete Quedas era a grande indústria sem chaminés que nós tínhamos em Guaíra. [00:00:59] ENTREVISTADOR: E como é que foi? Você começou a trabalhar lá muito cedo. Me conta um pouco desse trabalho, desde criancinha. NEI: Sim, eu comecei nas Sete Quedas muito cedo, em torno de sete anos de idade. Eu já comecei a lavar carros. Depois, chegando próximo dos nove até os onze anos, eu levava turistas nas Sete Quedas, até que fui convidado pelo único restaurante que tinha lá para ser garçom. Naquele tempo, eu já fui trabalhar como funcionário. Meu pai era operário da usina; tinha uma pequena usina hidrelétrica lá. Meu pai era operário, e eu e a minha irmã, mais velha que eu, vendíamos souvenirs, lembranças das Sete Quedas, tudo o que tinha como tema as Sete Quedas. Então nós vivíamos literalmente das Sete Quedas. [00:02:07] ENTREVISTADOR: E como é que eram elas, sentimentalmente? Como era estar naquele lugar? NEI: Todos os turistas que vinham e que a gente acompanhava — como os demais colegas que acompanhavam os turistas — tinham aquele impacto, uma emoção muito grande. Porque as Sete Quedas tinham um trajeto de dois quilômetros e meio, onde você passava por pontes, passarelas, ilhas, até chegar do início ao final. Então, a cada ângulo de visão era uma emoção, porque era uma cachoeira muito forte, muito emocionante. Aquela brisa, o barulho, o estrondo... Para nós que vivíamos ali, o dia a dia tinha essa mesma impressão, essa emoção de viver ali, porque era encantador para quem visitava as Sete Quedas e via toda aquela beleza natural que nós tínhamos. [00:03:15] ENTREVISTADOR: Faz de conta que eu sou um turista, vim de longe, acabei de chegar em Guaíra, não sei nada sobre as Sete Quedas e caí com você para você me guiar. O que você vai falar para mim? NEI: Primeiramente, a gente sempre se identificava, porque nós tivemos, ainda que de forma bastante rudimentar, algumas orientações de pessoas mais experientes, do pessoal ligado ao turismo. O seu Ernesto Mann era uma pessoa muito ligada ao turismo de Guaíra. Então nós nos apresentávamos e acompanhávamos o turista dizendo: “Olha, aqui, a primeira ponte era uma ponte de ferro”. Nós mostrávamos que, indo no sentido das Sete Quedas, do lado esquerdo do canal estava o país vizinho, o Paraguai. Acima estava o Mato Grosso do Sul. Nós caminhávamos, víamos a segunda ponte, que é aquela do fatídico acidente, falávamos das cachoeiras e assim por diante, até chegar ao que nós chamávamos, na época, de último salto, o Salto 14. [00:04:27] ENTREVISTADOR: E quando chegava no Salto 14, como é que você apresentava esse salto para as pessoas? NEI: Apresentava como o maior salto em quedas d’água. [00:04:39] [Interrupção técnica causada por ruído externo. A equipe interrompe e retoma a pergunta.] [00:05:39] ENTREVISTADOR: Vamos lá, então. Eu estou de frente para o Salto 14. Acabei de chegar em Guaíra. Você vai me apresentar ele? NEI: O Salto 14 era o maior em volume d’água, o maior em extensão, porque praticamente partia de um extremo a outro, chegando quase ao país vizinho, o Paraguai, já quase na divisa. E ele era intransponível a partir dali. Então ele era o último. Você não tinha como acessar mais lugar nenhum por ele. Era interessante: você tinha uma visão de frente, uma visão ampla, que pegava todo o ângulo. Depois fazia um contorno, uma pequena caminhada por dentro da mata, e conseguia pegar mais um canto dele. Então ele era o maior salto que compunha as Sete Quedas. [00:06:32] ENTREVISTADOR: E quando as pessoas chegavam nele, qual era a reação delas? NEI: De grande admiração, de impacto, porque era uma coisa fenomenal. Principalmente ele, porque era o que proporcionava o maior som, o maior barulho, pela sua extensão, pelo seu volume d’água. [00:06:55] ENTREVISTADOR: E qual é a primeira memória que você tem das Sete Quedas? NEI: A primeira memória... Como eu praticamente me criei lá dentro, é aquela memória de todo dia ser um fato novo, apesar de a gente ser criança. Você estava ali recebendo pessoas que vinham com a curiosidade de conhecer. E lá tinha uma pequena usina; essa usina fornecia, inclusive, energia elétrica gratuitamente para quem morava lá. Então era uma coisa interessante, porque nós não pagávamos luz. Tinha mais ou menos umas sete ou oito residências, alguns comércios e o restaurante onde eu fui trabalhar depois. Brincávamos lá também. Eu praticamente não tive infância, porque com sete anos já comecei a trabalhar, mas era gostoso. Todo dia ganhávamos presentes dos turistas. E era muito bom, porque financeiramente a gente era de uma renda inferior. Então, aproveitando essa questão da memória, um belo dia, por volta de 1969, chegaram quatro turistas jovens do Rio de Janeiro em um carro chamado Gordini — um carro que muita gente hoje nem sabe o que era. [00:08:39] [Pequena interrupção técnica. A equipe pede que a história seja retomada desde o início.] [00:09:28] ENTREVISTADOR: Nei, está rodando. Conta essa história dos turistas desde o começo, por favor. NEI: Perfeito. Um belo dia, nessa minha memória de criança, acho que por volta de 1969, chegaram quatro turistas jovens em um carro chamado Gordini, um carro que muita gente hoje não sabe o que era. Eles eram do Rio de Janeiro. Pediram para eu levá-los, e eu fui. Mostrei as Sete Quedas, contei toda a história, e eles ficaram encantados. Depois foram para o restaurante que tinha lá — naquela época eu ainda não trabalhava nesse restaurante —, almoçaram e, na hora de ir embora, eu não sei por qual razão, hoje não me lembro mais, eles tinham um cabrito, literalmente um cabritinho dentro do carro, e me deram de presente. Disseram: “Olha, nós não vamos levar”. Eu não sei por que estavam com aquele cabrito, mas me deram de presente. Eu fiquei feliz da vida, como criança. Levei para casa, cheguei para o meu pai e para a minha mãe, contei, e nós cuidamos do cabrito. [00:11:00] ENTREVISTADOR: Vamos falar mais um pouquinho. Qual era o seu lugar ou momento preferido nas Sete Quedas? NEI: Nas Sete Quedas nós ficávamos a postos onde tinha uma barragem, o canal. Logo abaixo do canal vinha um bosque, e nós ficávamos bem na ponta desse bosque, porque era uma disputa muito grande entre todos. Havia várias crianças e jovens adolescentes que trabalhavam levando turistas, e o fluxo era significativo, principalmente nos finais de semana. Então nós ficávamos a postos para pré-escolher. Naquele tempo, aparecia um carro como uma Veraneio, um Dodge Dart, um Galaxie; mais para frente vieram a TL e a Variant. Eram carros que, supostamente, eram de turistas mais afortunados. A gente prestava atenção nisso porque a gorjeta também era melhor. Nós não tínhamos uma tabela, não existia uma tabela; era tudo muito simples. A gente levava, fazia todo aquele trabalho de informação, de mostrar, de contar sobre os saltos, e na volta eles nos davam um cachê, que ficava a critério do turista. [00:12:29] ENTREVISTADOR: E como os sons das Sete Quedas acompanhavam a sua vida? O quanto eles eram importantes para você? NEI: Esses sons das Sete Quedas eram extremamente interessantes. Meu pai, por exemplo, plantava; nós tínhamos uma área ali mesmo onde plantávamos. Pelo som das Sete Quedas, naquela época, você sabia de que posição vinha a chuva, a tempestade. Enfim, vários fatores você conseguia perceber através do barulho das Sete Quedas. Era muito interessante. Na época, pela lua você também sabia o que fazer em termos de plantação. E outra coisa que nós poderíamos dizer era sobre o clima com as Sete Quedas. Nós tínhamos um inverno muito rigoroso em Guaíra, que não existe mais. Hoje nós temos dias de frio, mas não temos mais aquele inverno. No período das Sete Quedas, o inverno em Guaíra era rigoroso durante os três meses de inverno. [00:14:05] ENTREVISTADOR: E como era morar em um dos lugares mais bonitos do mundo? NEI: Era, volto a repetir, entusiasmante. A gente era criança e, apesar das dificuldades financeiras, todos nós que morávamos ali éramos muito felizes, alegres, porque sempre nos deparávamos com pessoas diferentes, conversando, e a gente acabava sendo um elo de ligação. Quando fui trabalhar no restaurante, ficou ainda mais entusiasmante, porque a gente atendia, contava histórias. Esse restaurante era especializado em peixe; não tínhamos outro cardápio, era tudo à base de peixe. Fazíamos vários pratos à base de peixe, todos capturados no Rio Paraná para atender os turistas. Era um fluxo de movimento muito grande. A gente estava sempre se deparando com novidades. Eu trabalhava de manhã no restaurante, almoçava, andava quatro quilômetros e meio até o Colégio Mendes Gonçalves para estudar, fazer o meu primário, voltava depois e trabalhava mais um período. Assim era. Eu fiz todo o meu primário e ainda um pedacinho do colegial indo e voltando dessa forma. Naquele tempo não tinha pavimentação, asfalto, sistema de transporte coletivo, nada. Você vinha a pé. [00:15:55] ENTREVISTADOR: Vou pular um pouquinho uma pergunta que estava mais para frente. Você falou dos peixes, da alimentação. Você foi premiado diversas vezes com o Pintado na Telha e com pratos de peixe. Me conta sobre esse prato, como você aprendeu, e depois a gente fala um pouco sobre como o descaso com o rio e com esses peixes prejudicou a culinária típica guairense. NEI: Perfeito. Vamos começar lá na base, quando a pesca era farta em Guaíra. Nesse restaurante em que eu trabalhei, e depois nas peixarias de Guaíra, havia muito peixe. Esse restaurante se chamava Restaurante do Salto e tinha peixaria também. Havia vários pescadores profissionais na época. Tem um fato curioso que é preciso contar historicamente. O seu Miguel, que era o proprietário do restaurante, recebia os pescadores. Eles perguntavam: “Seu Miguel, o senhor precisa de peixe hoje?”. Ele abria os freezers, e pela fartura de peixe dizia: “Bom, hoje você me traz só dourado e pintado, porque jaú, pacu e [nome de peixe pouco nítido] ainda tem bastante”. Para vocês terem uma ideia, isso é história que eu vivi, que acompanhei. Havia uma fartura muito grande de peixe. Depois, ainda continuou existindo uma quantidade razoável, mas, após o fechamento do lago, houve uma pesca predatória muito grande no início da formação do reservatório. E aí tivemos uma diminuição muito grande do pescado em Guaíra, principalmente dos chamados pescados nobres, como pintado e dourado. Foi um problema sério. Já não era mais aquela fartura, embora ainda houvesse uma quantidade significativa. Eu cresci, vim para o comércio de Guaíra e, na época em que participei do poder público, tive a ideia de criar o Pintado na Telha como prato típico de Guaíra. Inclusive, a lei é de minha autoria e foi sancionada pela gestão da época. Nós criamos o Pintado na Telha. Não era “peixe na telha”; era “Pintado na Telha”. Ocorre que, com o passar dos anos, esse peixe ficou bastante difícil de capturar no lago e no Rio Paraná, e esse prato acabou ficando um pouco esquecido. Mas ele ainda existe, ainda é servido em hotéis de Guaíra. Eu participei de vários concursos e tive a felicidade de, por várias vezes, ser campeão do Pintado na Telha. Depois vim para o comércio de eventos, onde também trabalhávamos com peixe. [00:19:17] ENTREVISTADOR: Vamos terminar só mais uma aqui e depois a gente dá uma pausa. Fala para mim sobre o turismo às vésperas do fim das Sete Quedas. NEI: O turismo no final das Sete Quedas foi uma loucura. Vamos usar essa expressão: foi uma loucura. Nessa época eu tinha um restaurante no Hotel Guarujá II. Era algo absurdo. Só para vocês terem uma ideia, a fila de ônibus para chegar às Sete Quedas vinha até a Igrejinha de Pedra; depois o pessoal ia a pé. Não tinha como colocar carro no pátio das Sete Quedas. No hotel, para se ter uma ideia, nós alugávamos até o escritório do diretor porque não tinha vaga. Nós tínhamos amizade com um hospital aqui de Guaíra, na época o Hospital Santa Rita. O médico era nosso amigo. Quando havia leito vago, chegaram a alugar leitos para turistas, porque não tinha mais acomodação. E isso num período em que Guaíra tinha vários hotéis, de categorias inferiores e superiores, restaurantes, churrascarias, enfim. Era tudo lotado. Eu atribuo o episódio da queda da ponte ao excesso de peso e à falta de cuidado e fiscalização, porque aquilo era uma loucura. Eram milhares de pessoas passando ao mesmo tempo por aquelas passarelas, por aquelas pontes. [00:21:08] [PAUSA TÉCNICA] [00:21:20] ENTREVISTADOR: Então, talvez um dos dias mais tristes que você tenha vivido ali nas Sete Quedas. Onde você estava quando soube do acidente na ponte? E quando você chegou lá, o que encontrou? NEI: Nesse fatídico acidente, eu estava exatamente no hotel onde tinha o restaurante. Como eu estava dizendo, havia muita gente visitando Guaíra. Eu tinha acabado de construir uma casa e a havia alugado para dois casais do interior de São Paulo, porque o hotel estava lotado. Eu os hospedei nessa casa. De manhã, eles foram tomar o café e seguiram para as Sete Quedas. Por volta das nove, nove e pouco da manhã, veio a triste notícia. Nesse momento, eu fui, juntamente com mais algumas pessoas, me deslocando rapidamente. Cheguei ao local do acidente em torno de quarenta a quarenta e cinco minutos depois. Ainda havia pessoas penduradas, gritos, pessoas ilhadas do outro lado e muita gente do lado que poderíamos chamar de continente. Foi uma coisa absurda. Todo mundo em pavor, desesperado, gritos, choro, e você vendo as pessoas. Muitos já tinham sido levados pela corredeira. O João Lima Moraes, o popular João Mandi, estava ali e teve um papel importante no auxílio ao resgate, de onde ele estava, ali nas pedras. Foi uma coisa terrível, terrível. [00:23:22] ENTREVISTADOR: E me conta como foi o dia seguinte ao acidente. As pessoas ligando, tentando entrar em contato com familiares, poucos orelhões, poucos telefones, hotéis... Como foi essa confusão? NEI: Naquele tempo só existiam fax e telefone fixo. Inclusive no hotel. No Hotel Guarujá II foi montada toda a estrutura de jornalismo do Brasil. Foi ali que vieram as televisões da época, O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo, pessoal de Londrina, enfim, jornais escritos, falados, televisionados, tudo. Ali foi a central. Só que demorava para você passar a matéria. Por exemplo, você mandava uma matéria de manhã para ser exibida só à noite. Ali foi toda a central de divulgação. Foi uma tragédia que tomou proporção mundial. Guaíra ficou estarrecida, ficou de luto. Começaram a chegar familiares, e havia familiares que não tinham contato, porque a comunicação era difícil. Na época, não se sabia ao certo, mas o número oficial de mortos foi 32. [00:24:47] ENTREVISTADOR: Você participou da homenagem final, quando os indigentes foram enterrados no cemitério? Você estava lá ou soube como foi esse momento? NEI: Exatamente nesse dia, não. Mas, na época, eu já tinha uma ligação forte com o comércio de Guaíra e conhecia o secretário responsável pela pasta. Fui até ele. Como nós não tínhamos aqui na cidade estrutura para fazer reconhecimento dos corpos, autópsia e tudo aquilo, eu pedi a ele para entrar no cemitério e ver. Foi um momento que me marcou muito, porque eu contei: havia 19 corpos, todos colocados de maneira rudimentar, esperando vir de fora a Polícia Científica para fazer a autópsia. Naquele momento havia 19 corpos ali. Posteriormente, a grande maioria foi levada, após a identificação, por seus familiares. E, se não me falha a memória, dois ou três foram enterrados como indigentes, porque não apareceu familiar, não apareceu ninguém. [00:26:08] ENTREVISTADOR: E como foi essa busca pelos corpos, que durou quase um mês? NEI: A busca foi extremamente difícil, pelo fato de ser um canal de grande volume d’água e de corredeira muito forte. Isso foi levando os corpos. Houve corpos encontrados a cem quilômetros daqui, rio abaixo. Muitos ficaram enroscados também nas grotas de pedra. Por isso, até hoje, não se tem literalmente a certeza de que foram só 32 mortos. Foi uma coisa muito triste. Houve corpos retirados da água vários dias depois, em um estado que dificultava até a identificação. [00:26:59] [AJUSTE TÉCNICO E NOVO CORTE DE CÂMERA] [00:27:17] ENTREVISTADOR: Vamos voltar ao acidente da ponte, último assunto. Toda essa tragédia aconteceu e alguém tentou colocar a culpa sobre uma pessoa, sobre [nome pouco nítido na gravação]. Você pode me contar como foi essa tentativa? NEI: Com relação a esse fato, que foi atribuído ao Pedimar Porã, que era indígena: ele não era uma pessoa muito antiga ali, mas eu o conheci, conversávamos pouco, como todos conversavam. Na minha opinião — e é só uma opinião pessoal — precisavam arrumar um bode expiatório para alguma coisa. Eu não acredito jamais que ele faria isso, até porque ele era zelador, cuidava dali, estava sempre, vamos dizer assim, vigilante dentro do pátio das Sete Quedas, de todo o complexo. Então eu atribuo isso à criação de um bode expiatório. Estávamos vivendo um momento em que não deram importância para ninguém para acabar com as Sete Quedas. Quando veio essa tragédia, precisavam atribuir a alguém. A formação do lago foi no mesmo ano. Então atribuíram isso a ele. Essa é a minha opinião. [00:29:01] ENTREVISTADOR: Você pode repetir só essa frase? “Eles criaram um bode expiatório.” NEI: Eles criaram um bode expiatório. [00:29:09] ENTREVISTADOR: Vamos fazer uma comparação que eu sei que você gosta de fazer: Sete Quedas e Cataratas do Iguaçu. NEI: Com relação a essa comparação, eu gostaria de fazer um adendo. A natureza foi perfeita. Ela criou duas belezas, eu diria, na mesma direção. O homem, dentro do seu processo de transformação, quis, na sua preponderância, fazer a maior usina do mundo e, para isso, teve que sacrificar uma dessas maravilhas da natureza. Eu conheci as Sete Quedas desde criança, vivi dentro delas. Tive também, ainda bem jovem, a experiência de conhecer as Cataratas do Iguaçu e depois estive lá outras vezes. Na minha visão, as Cataratas do Iguaçu eram bonitas — e são bonitas até hoje; é um dos locais mais visitados do mundo —, só que elas têm uma visão panorâmica praticamente única. Você chega pelo lado brasileiro — elas também podem ser visitadas pelo lado argentino — e tem aquela visão. As Sete Quedas, não. Nas Sete Quedas você cansava. Tinha que fazer aquela enorme caminhada de dois quilômetros e meio e, para cada lado que olhava, tinha uma cachoeira, tinha uma queda, tinha todo o esplendor da natureza ao longo daquele processo de caminhada. Então, para mim, as Sete Quedas eram extremamente superiores às Cataratas do Iguaçu. [00:31:04] ENTREVISTADOR: Vamos começar a falar um pouquinho da despedida. Como foi quando você soube que as Sete Quedas iam acabar? As pessoas acreditaram de começo? Como foi essa notícia? NEI: Eu quero voltar um pouquinho, bem no início. Quando se falou da construção da Usina de Itaipu, que formaria o lago e deixaria as Sete Quedas submersas, eu ainda era criança. Meu pai era operário lá dentro, fazia parte de um órgão do governo ligado ao que hoje vem a ser a nossa Copel. Ele era funcionário dessa empresa, chamada Minas e Energia. Sendo operário, meu pai acompanhou os engenheiros e técnicos, carregando aparelhos de topografia, quando começaram a fazer as demarcações. Eles iam em vários pontos, subindo desde Foz do Iguaçu até Guaíra. Colocavam uma marca metálica, de bronze, que indicava a graduação, a cota que a água atingiria. Eu lembro que, apesar de ser criança, ouvia os mais velhos comentarem que jamais o homem teria capacidade de acabar com uma beleza daquela. Que não teria. Bom, erramos. Guaíra talvez tenha pecado, o sistema pecou e, como nós vivíamos um sistema, vamos dizer assim, de exceção, não tinha para quem apelar. Nós esperamos o fatídico dia. Foram feitas as marcações da cota 220 e, por incrível que pareça, o lago chegou exatamente ali. Nessa altura eu já era adulto, já estava na vida pública e conseguimos constatar. Para nós foi um choque, um luto total. Guaíra, do dia para a noite, paralisou. Ficou totalmente enlutada. Vou dar um exemplo: eu tinha restaurante no hotel, onde servíamos 50, 60, 70, 100 refeições por dia, mais o café da manhã. A partir do outro dia, você não tinha mais nada. Foi fechando tudo. Os hotéis de Guaíra foram fechando, os restaurantes foram fechando. Para se ter uma ideia, juntamente com o diretor do hotel, começamos a doar parte das louças e objetos do hotel, porque não tinha mais porquê. Paralisou. Isso ficou durante vários anos. Foram anos de total ostracismo econômico em Guaíra, porque perdemos a nossa fonte. Foi aí que veio a grande promessa. Na época, engenheiros e técnicos das Centrais Elétricas do Sul do Brasil, a Eletrosul, diziam que aqui seria construído o Complexo de Ilha Grande, acompanhado de ferrovia, rodovia e hidrelétrica. Teríamos uma usina para fazer a contenção dos dejetos de Itaipu Binacional, teríamos ferrovia, rodovia e hidrelétrica. Diziam que Guaíra jamais iria se lembrar das Sete Quedas. De certa maneira, diante do quadro que estávamos vivendo, quase aceitamos e acreditamos nessa ideia. Só que tudo sucumbiu e nada aconteceu. Chegou em 1989, 1990, e simplesmente o governo da época disse: “Está cancelado”. Não se faria mais nada. [00:35:23] ENTREVISTADOR: E quando elas foram sendo inundadas? Foi muito rápido, mas, ao mesmo tempo, pouco a pouco dava para ver a água subindo. Qual era a sensação? NEI: Demorou vários dias, várias semanas. Era uma sensação terrível, principalmente para quem não acreditava que aquilo aconteceria e estava vendo acontecer. Muita gente de Guaíra foi lá, os mais antigos também. Eu tive a oportunidade de ir até quando a água já estava chegando a um determinado ponto. Você via que o canal em si, o canal-base, o que nós chamávamos popularmente de canal, já estava totalmente nivelado. As quedas começaram a diminuir. Começou ali pela queda da ponte, que era praticamente a primeira de cima para baixo. A água começou a subir, e você via que a queda já era bem menor. E não tinha para quem reclamar. Não tinha. O fato estava consumado. [00:36:44] ENTREVISTADOR: E como foi dormir sem o som das Sete Quedas? NEI: Volto a repetir: nós ficamos totalmente à deriva, ficamos de luto, sem saber o que fazer. Não querendo me vitimizar, mas eu, de empresário, fui trabalhar como empregado, de porteiro no hotel, porque não tinha mais o que fazer. Esse foi o meu caso, e muitos foram embora. Muitos empresários deixaram suas propriedades e foram para outras regiões. Teve gente que foi para Mato Grosso, Rondônia, Curitiba, enfim. Foram deixando Guaíra porque não havia alternativa. A própria imprensa chegou a dizer que nós tínhamos nos tornado uma cidade fantasma em determinado período. [00:37:39] ENTREVISTADOR: Me fala mais sobre essa “cidade fantasma”. Como era Guaíra? Como era essa sensação de que aqui tinha, de fato, virado uma cidade fantasma? NEI: A cidade fantasma vem já com a questão da não construção do Complexo de Ilha Grande. Nós havíamos perdido a maior fonte de renda, a maior indústria propulsora da economia local. Aí nos prometeram um grande polo com esse complexo. Tanto é que fizeram mil e poucas casas em Guaíra para acomodar as pessoas e empresas que viriam construir a usina, a ferrovia e a rodovia, fazendo a transposição do Rio Paraná para o Mato Grosso do Sul. E isso não aconteceu. Ali foi o desastre total, porque era gente abandonando, gente indo embora. Aquele grupo de pessoas que veio para Guaíra tinha dado certo fomento à economia guairense. Os hotéis já haviam retomado um pouco daquilo que era possível fazer. E, a partir do momento em que foi decretado o cancelamento da obra do Complexo de Ilha Grande, foi quando a grande imprensa passou a chamar Guaíra de cidade fantasma. [00:39:12] ENTREVISTADOR: Antes de a gente ir para outra pergunta, queria que você falasse sobre o que sente em relação aos últimos anos em Guaíra. Você sente alguma espécie de redescobrimento, de renascimento da cidade? Compara essa Guaíra “cidade fantasma” com a Guaíra de hoje e com a forma como ela tenta se projetar para o futuro. NEI: Eu diria que Guaíra, nos últimos 20, 25 anos, saiu desse luto que viveu, saiu desse ostracismo econômico pelo qual passou. Através de diálogo e de um novo olhar, por meio de todos os setores da sociedade organizada de Guaíra — ainda que de maneira incipiente na indústria, no comércio — começou a encontrar novos caminhos. Veio a questão do comércio com o país vizinho, o Paraguai, o comércio de importados, e gestões que começaram a ter uma visão de não apenas reclamar, mas buscar alternativas junto ao governo estadual e ao governo federal para colocar Guaíra como uma cidade importante. Porque é importante dizer: Guaíra é um dos grandes polos de passagem entre o Norte e o Sul do país. Quem sai do Sul para atingir o Norte do Brasil passa por Guaíra. Foi aí que o comércio começou a se redistribuir e aumentar, a parte hoteleira melhorou, a gastronomia começou também a ganhar uma dimensão melhor e, sem dúvida, a conclusão da ponte sobre o Rio Paraná, substituindo a travessia por balsa, incrementou bastante isso. Eu diria que Guaíra vive uma nova fase, uma fase boa, principalmente agora, buscando o turismo de pesca esportiva, o turismo de aventura. A própria cultura está se levantando, se redescobrindo e colocando projetos em prática. Tivemos também, ainda que de forma acanhada, uma boa recompensa com um percentual maior dos royalties por parte de Itaipu. [00:42:03] ENTREVISTADOR: Então essa vai ser a nossa última pergunta. Conta para mim desde o início: como foi a distribuição dos royalties? Ela foi justa? Foi pouco benéfica para Guaíra até os dias de hoje? NEI: Muito bem. Quando se formou o Lago de Itaipu Binacional, através de todo o seu corpo jurídico e técnico, estabeleceu-se que as indenizações seriam baseadas nos metros quadrados de área inundada e nas benfeitorias que havia em cada propriedade e em cada cidade. Acontece que a cidade de Guaíra está exatamente no último ponto do alagamento, no último extremo. Então, a área em metros quadrados inundada aqui foi a menor. Sem dúvida alguma, foi a menor. No entanto, inundou-se a maior fonte de renda da cidade e uma das maiores belezas do mundo. Isso não foi levado em consideração. Por outro lado, a própria política local, regional e nacional não se ateve, não teve compromisso com Guaíra para fazer um questionamento junto à Itaipu Binacional, no sentido de que isso já tivesse sido considerado no momento da indenização e dos aportes destinados à cidade. Como isso não aconteceu, Guaíra ficou com um dos menores percentuais de royalties, um dos menores valores mensais em dinheiro. Como era cotado em dólar, o nosso percentual em dólar foi um dos menores. Houve lugares em que cidades tiveram áreas maiores submersas e recebiam cinco, seis, dez vezes mais do que nós, por causa desse critério de metros quadrados de área inundada. Aí houve demandas através da política local, juntamente com o governo do Estado, deputados e senadores, no sentido de reverter isso. Numa primeira etapa, levou acho que uns 15 anos e não aconteceu nada. Falava-se, discutia-se, até que, depois de muitos anos de briga, saiu alguma coisa — usando essa expressão —, mas ainda era muito pouco. Por fim, houve um projeto de uma pessoa que jamais podemos esquecer, que teve um papel importante: o então deputado Osmar Serraglio. Ele teve um projeto muito importante e, juntamente com a última gestão do prefeito Eraldo, conseguiram conscientizar os senadores da República e boa parcela dos deputados federais de que havia uma grande injustiça com o município de Guaíra, e que não era possível continuarmos de mãos cruzadas sem fazer nada. Se não me engano, dos 81 senadores, 70 votaram favoravelmente à proposição para o município de Guaíra. Jamais nada vai compensar a perda das Sete Quedas, na minha opinião. Jamais. Mas, pelo menos, é um alívio para a nossa infraestrutura local, para podermos prestar um bom atendimento à comunidade de Guaíra com esse percentual de royalties. [00:45:57] ENTREVISTADOR: Que maravilha. [CORTE / AJUSTE TÉCNICO] ──────────────────────────────────────── SEGUNDA PARTE — MEMÓRIAS A PARTIR DE FOTOGRAFIAS E RECORTES ──────────────────────────────────────── [00:46:04] ENTREVISTADOR: Você pode relaxar um pouquinho mais com a caixinha. Se estiver desconfortável, pode colocar na sua perna. Fica tranquilo. Você vai abrir a caixinha e vão ter algumas memórias, algumas coisinhas aí. Pega uma por uma e vai comentando. Quando quiser comentar, comenta; quando quiser só olhar, pode só olhar. Pode abrir. [00:46:32] NEI: Legal. Essa foto aqui já é de quando estávamos no finalzinho. Eu fiz questão de ir lá, porque as Sete Quedas estavam para terminar. E hoje essa foto é uma lembrança que ninguém mais vai poder ver daquele jeito. [00:46:56] ENTREVISTADOR: Pode olhar para você e, quando quiser, mostrar para a câmera ali atrás. [00:47:02] NEI: Eu fiz um comentário na época. Aqui ficou bem característica a palavra “ADEUS”, como uma despedida. E a pessoa que escreveu esse “adeus” deixou dois pingos de tinta que, para mim, representam duas lágrimas. Eu fiz esse comentário na época e agora é interessante trazer isso à memória. [00:47:36] ENTREVISTADOR: Pode continuar olhando para você mesmo. Assim está ótimo. [00:47:47] NEI: Aqui já é uma cena que nos demonstra tristeza. Mostra a tristeza de saber que hoje não temos mais isso, não existe mais a possibilidade de estarmos lá, naquele lugar onde a gente esteve. E assim vão vindo as memórias com essas fotos. Da mesma forma aqui: era um pedaço das Sete Quedas em que eu fazia essa caminhada três, quatro vezes por dia, levando turistas. Hoje só vem a memória. Sem dúvida alguma, isso nos deixa emocionados. Aqui está o canal também. Não tem como não se emocionar de lembrar que a gente vivenciou isso. Era o nosso caminho de casa, era o nosso pátio de casa. Essa foto aqui já nos traz uma certa indignação. Eu acompanhei também toda a construção dessas torres, que eram torres de transmissão para atingir o Mato Grosso do Sul. Isso nos deixa uma certa indignação porque, em função da construção daquilo que se dizia necessário, que precisava ser feito para o desenvolvimento econômico, social e industrial do Brasil, nós tivemos que perder essa beleza. Aqui também é uma foto aérea que dá uma dimensão das Sete Quedas. Eu já vi vários quadros assim e presenciei aquilo. Nesta foto aérea, todo esse percurso eu fazia caminhando com os turistas, passo a passo, para chegar do início ao final. [00:50:18] NEI: E aqui está aquilo que comentamos anteriormente, a loucura que se tornou o final das Sete Quedas. Estou com uma foto que representa exatamente a ponte do fatídico acidente de 17 de janeiro de 1982. [00:50:49] ENTREVISTADOR: Dá só uma leve viradinha na foto para a câmera. NEI: Essa foto demonstra aquilo que eu falei sobre a loucura que foi o final. Acho que todo mundo queria conhecer as Sete Quedas ainda vivas. Quem já conhecia voltou para ver pela última vez. Era uma loucura. Aqui ainda temos a presença da antiga ponte do fatídico acidente que nós presenciamos, vivenciamos, sofremos. Aqui, mais um dos saltos das Sete Quedas que vêm à memória. A própria foto representa a neblina que se formava. Você tomava uma chuva ao chegar perto, porque a gente conseguia chegar muito próximo da queda. [00:51:58] NEI: E aqui eu tenho mais um saudosismo triste para lembrar. Essa foto representa uma das grandes vivências da minha infância. Um belo dia fui levar um casal de turistas. O marido era de origem japonesa. Eles chegaram à tarde, já no final da tarde, e eu disse: “Agora é impossível, porque não tem iluminação. Marcamos para amanhã cedo para visitar as Sete Quedas”. Eles estavam em lua de mel. Ele gostava muito de fotografia, estava com uma máquina profissional. Quando nós descemos para ele fotografar, em determinado momento ele entregou a máquina para a esposa e escorregou. Foi levado pelas águas. Eu, ainda criança, com oito ou nove anos de idade, presenciei as Sete Quedas engolindo aquele homem exatamente neste lugar da foto. Foi uma coisa que marcou muito a minha vida. Chamamos os guardas, chamamos as pessoas. Eu nem sei dizer se ele foi encontrado, porque ali era um turbilhão de água. Era algo terrível. [00:53:44] NEI: Aqui está o ângulo da ponte. Era uma ponte que balançava, e muita gente tinha mania de subir nela e balançar. Havia também muita gente que sentia medo ao atravessar. Vamos ver mais aqui. [00:54:21] NEI: Aqui, se não me falha a memória, estou vendo uma foto do lado paraguaio. Exatamente aqui nós tínhamos a confluência, o canal, o Grande Canal. Do outro lado havia uma visão menor, naturalmente, mas o país vizinho, o Paraguai, e a comunidade de Salto del Guairá conseguiam ter uma vista parcial das Sete Quedas. Aqui, outra bela visão de um salto. Era um mais lindo que o outro. Se formos falar, não tem como fazer diferenciação entre um e outro. Aqui, tudo indica que estava num período de cheia, porque está bastante avolumado. [00:55:24] NEI: E assim vamos passando pela sequência de fotos das Sete Quedas. Esse aqui era o chamado “Saltinho”. Havia essa ponte, que fazia a ligação com uma das maiores ilhas que compunham as Sete Quedas. Naturalmente, praticamente todo o percurso era feito por pontes e passarelas. Era uma ilha bem grande. Depois dela havia outra ponte. Para ir ao Salto 14, que era o último salto, ainda tínhamos mais duas pontes. Então esse aqui é o famoso Saltinho. Na parte de cima dessa ponte havia um ponto que nós chamávamos de remanso. Era uma parte em que muita gente tomava banho, fazia piquenique. [00:56:37] ENTREVISTADOR: Pode continuar. Quando quiser comentar, comenta; quando não quiser, pode só olhar. Dá só uma viradinha um pouquinho para cá. Isso, está ótimo. [00:56:49] NEI: Aqui é mais uma ponte. Era a penúltima ponte, que fazia a travessia entre a ilha que acabei de citar e o trecho final. Tinha mais uma ponte, um canal, e depois chegávamos ao Salto 14, o último salto do Complexo de Sete Quedas. Aqui também, mais uma vista da ponte. Aqui nós temos as pontes. [00:57:31] NEI: E aqui eu volto a frisar: esse é, sem dúvida alguma, o salto mais bonito. Era o mais volumoso, onde aconteceu aquela tragédia que citei. A gente conseguia chegar muito perto. Como não havia tanta sinalização nem fiscalização, os turistas aproveitavam ao máximo. Pela força da água, formava-se aquela cascata, aquela névoa de água em cima do pessoal. Então esse era o salto mais volumoso. [00:58:11] NEI: Aqui vamos ver. Esse é um recorte. [00:58:14] [PAUSA TÉCNICA PARA TROCA DE BATERIA E AJUSTE DA POSIÇÃO DO MATERIAL] [00:58:41] ENTREVISTADOR: Podemos seguir na ordem em que você estava. [00:58:46] NEI: Aqui estamos com um recorte de jornal, provavelmente da época, cujo texto diz: “Último dia de visitação de Sete Quedas: 40 mil pessoas formaram fila de quilômetros para atingir Sete Quedas”. Quer dizer, aquilo que nós já comentamos é fato: isso aconteceu. Lembrando que, nesse episódio, a ponte já tinha sido reconstruída. Por incrível que pareça, depois de toda a tragédia que aconteceu e já no período final das Sete Quedas, ainda reconstruíram a ponte e ela foi aproveitada por alguns meses. A tragédia foi em janeiro e o lago se formou, se não me falha a memória, entre setembro e outubro. Isso aqui condiz com a realidade daquela época. [00:59:45] NEI: Essa aqui é bem icônica. É também uma foto aérea. Ela pega todo o dorso do canal e as cachoeiras. É bem interessante. Aqui, mais uma vez, aparece aquilo que eu sempre falava e explicava aos turistas: o salto mais bonito, o salto mais imponente das Sete Quedas. Nesta foto ele está numa dimensão um pouco diferente, mais alongada. [01:00:38] NEI: Aqui, mais uma vez, nós temos a ponte que fazia a travessia entre a ilha e o penúltimo espaço para chegar até o Salto 14. Ali nós já tínhamos o canal, um canal mestre. Nós tivemos algumas frases de efeito na época, mas já não surtiam efeito prático. Não conseguiam mais reverter o que já estava estabelecido. [01:01:35] NEI: Aqui diz: “Destruir Sete Quedas é crime, diz prefeito”. Eu costumo dizer que tudo o que vou falar é opinião minha, mas tem uma concepção coletiva. Na época, boa parte da comunidade atribuiu muita culpa ao gestor do município. Mas, na minha opinião, o gestor da época não tinha culpa. Ele era empregado do patrão, tinha que cumprir o que vinha de cima. Talvez seja injusto atribuir a ele a culpa pelo fim. Eu acho que isso não condiz com a verdade, porque o sistema vinha de cima e dizia: “Nós vamos construir uma usina; para construir uma usina, precisamos sufocar as Sete Quedas”. Ele simplesmente cumpriu. Ficou 21 anos no poder como gestor do município, como empregado do governo federal. [01:02:46] NEI: E aqui a frase diz o seguinte: “Figueiredo: é uma pena”. Não vou ler o texto porque não há necessidade. Eu estava ali quando ele e sua comitiva saíram em um Galaxie. Ele deu uma passada muito rápida pelas Sete Quedas. Eu estava muito próximo, junto com outras pessoas, acenando para ele parar, para a gente perguntar, mas ele não parou. Ele simplesmente foi embora. Fez um contorno pelas Sete Quedas, acompanhado por segurança e várias viaturas atrás. Várias pessoas gritavam: “Pare! Pare! Queremos perguntar...”, mas ele não parou. E aqui está a frase: “É uma pena”. É muito pouco para aquilo tudo. [01:03:43] NEI: Aqui eu acredito que sejam autoridades. A imagem está um pouco ofuscada. ENTREVISTADOR: O próprio Figueiredo. NEI: Sim. Mas o relato que fiz é esse: quando ele estava dentro do carro, todo mundo pediu para ele parar e ele não parou. [01:04:12] NEI: E aqui é aquilo que eu disse na entrevista anterior: quando começou a se formar o lago, realmente só havia o que lamentar, sofrer e sentir todo esse episódio. Aqui nós já temos praticamente uma dimensão do lago. Provavelmente há uma numeração indicando onde ficavam partes geográficas das Sete Quedas. Essas fotos aqui eu vou passando, porque já retratam o complexo e nós já falamos bastante sobre as Sete Quedas. Aqui, da mesma forma, é mais uma dimensão de uma das quedas d’água. [01:06:06] NEI: E aqui, essa foto com essa imensidão humana e esse amontoado de ônibus, veículos, Kombis e vans retrata bem aquilo que eu falei há pouco. Foi uma verdadeira enxurrada humana, vamos dizer assim. Era muita gente, muita gente. A foto retrata pessoas descendo a pé para chegar às Sete Quedas, porque já não havia como entrar com os veículos. Foi realmente uma loucura. [01:06:56] NEI: Aqui já é uma foto que retrata o período com pavimentação asfáltica, já no final, nos últimos anos de visitação. Até então era estrada de chão. Essa torre de energia me traz uma lembrança. Ela ficava muito próxima da casa onde eu morei, uns quinhentos, seiscentos metros. A minha casa ficava aqui do lado direito. Essa torre está no continente; não está em uma ilha, porque algumas ficaram em ilhas. [01:07:51] NEI: E, para fecharmos, quero agradecer a todos por essa surpresa. A gente sente muito. Aqui está mais uma visão de uma das cachoeiras das Sete Quedas, compondo todo aquele complexo maravilhoso. Aquilo que jamais, jamais o homem poderia ter feito. Mas, infelizmente, não sei se podemos dizer que, pelo progresso, a gente tem que sacrificar. Talvez essa fosse a visão da época daqueles que detinham o poder. [01:08:25] ENTREVISTADOR: Maravilha. Corta, gente. [FIM DA ENTREVISTA]

ENTREVISTA #09
Sônia Bridi
É uma das principais jornalistas do Brasil, trabalhandohá mais de duas décadas no Fantástico. Sua família moraem Guaíra há quatro décadas, mas ela não chegou a fixarmoradia na cidade porque estava indo para a faculdade.
ENTREVISTA #10
Tito Rojas
Nascido em Salto del Guayra, Tito viu o afogamento dasSete Quedas pelo lado paraguaio. Permaneceu em Salto, diferente de muitos outros empresários e, com isso, construiu uma das grandes lojas da região, a Queen Anne.


Transcrição da entrevista completa [00:00:00] EQUIPE: Preparação das câmeras A e B e início da gravação. [00:00:18] ENTREVISTADOR: Nei, vamos começar falando um pouquinho da sua infância. Como foi a sua infância nas Sete Quedas? NEI: A minha infância nas Sete Quedas foi, sem dúvida alguma, uma experiência maravilhosa, porque nós vivíamos em função das Sete Quedas desde garotos, desde crianças. Eu, meus irmãos, minhas irmãs, meu pai, nós vivíamos e tínhamos o porquê. Na verdade, Sete Quedas era a grande indústria sem chaminés que nós tínhamos em Guaíra. [00:00:59] ENTREVISTADOR: E como é que foi? Você começou a trabalhar lá muito cedo. Me conta um pouco desse trabalho, desde criancinha. NEI: Sim, eu comecei nas Sete Quedas muito cedo, em torno de sete anos de idade. Eu já comecei a lavar carros. Depois, chegando próximo dos nove até os onze anos, eu levava turistas nas Sete Quedas, até que fui convidado pelo único restaurante que tinha lá para ser garçom. Naquele tempo, eu já fui trabalhar como funcionário. Meu pai era operário da usina; tinha uma pequena usina hidrelétrica lá. Meu pai era operário, e eu e a minha irmã, mais velha que eu, vendíamos souvenirs, lembranças das Sete Quedas, tudo o que tinha como tema as Sete Quedas. Então nós vivíamos literalmente das Sete Quedas. [00:02:07] ENTREVISTADOR: E como é que eram elas, sentimentalmente? Como era estar naquele lugar? NEI: Todos os turistas que vinham e que a gente acompanhava — como os demais colegas que acompanhavam os turistas — tinham aquele impacto, uma emoção muito grande. Porque as Sete Quedas tinham um trajeto de dois quilômetros e meio, onde você passava por pontes, passarelas, ilhas, até chegar do início ao final. Então, a cada ângulo de visão era uma emoção, porque era uma cachoeira muito forte, muito emocionante. Aquela brisa, o barulho, o estrondo... Para nós que vivíamos ali, o dia a dia tinha essa mesma impressão, essa emoção de viver ali, porque era encantador para quem visitava as Sete Quedas e via toda aquela beleza natural que nós tínhamos. [00:03:15] ENTREVISTADOR: Faz de conta que eu sou um turista, vim de longe, acabei de chegar em Guaíra, não sei nada sobre as Sete Quedas e caí com você para você me guiar. O que você vai falar para mim? NEI: Primeiramente, a gente sempre se identificava, porque nós tivemos, ainda que de forma bastante rudimentar, algumas orientações de pessoas mais experientes, do pessoal ligado ao turismo. O seu Ernesto Mann era uma pessoa muito ligada ao turismo de Guaíra. Então nós nos apresentávamos e acompanhávamos o turista dizendo: “Olha, aqui, a primeira ponte era uma ponte de ferro”. Nós mostrávamos que, indo no sentido das Sete Quedas, do lado esquerdo do canal estava o país vizinho, o Paraguai. Acima estava o Mato Grosso do Sul. Nós caminhávamos, víamos a segunda ponte, que é aquela do fatídico acidente, falávamos das cachoeiras e assim por diante, até chegar ao que nós chamávamos, na época, de último salto, o Salto 14. [00:04:27] ENTREVISTADOR: E quando chegava no Salto 14, como é que você apresentava esse salto para as pessoas? NEI: Apresentava como o maior salto em quedas d’água. [00:04:39] [Interrupção técnica causada por ruído externo. A equipe interrompe e retoma a pergunta.] [00:05:39] ENTREVISTADOR: Vamos lá, então. Eu estou de frente para o Salto 14. Acabei de chegar em Guaíra. Você vai me apresentar ele? NEI: O Salto 14 era o maior em volume d’água, o maior em extensão, porque praticamente partia de um extremo a outro, chegando quase ao país vizinho, o Paraguai, já quase na divisa. E ele era intransponível a partir dali. Então ele era o último. Você não tinha como acessar mais lugar nenhum por ele. Era interessante: você tinha uma visão de frente, uma visão ampla, que pegava todo o ângulo. Depois fazia um contorno, uma pequena caminhada por dentro da mata, e conseguia pegar mais um canto dele. Então ele era o maior salto que compunha as Sete Quedas. [00:06:32] ENTREVISTADOR: E quando as pessoas chegavam nele, qual era a reação delas? NEI: De grande admiração, de impacto, porque era uma coisa fenomenal. Principalmente ele, porque era o que proporcionava o maior som, o maior barulho, pela sua extensão, pelo seu volume d’água. [00:06:55] ENTREVISTADOR: E qual é a primeira memória que você tem das Sete Quedas? NEI: A primeira memória... Como eu praticamente me criei lá dentro, é aquela memória de todo dia ser um fato novo, apesar de a gente ser criança. Você estava ali recebendo pessoas que vinham com a curiosidade de conhecer. E lá tinha uma pequena usina; essa usina fornecia, inclusive, energia elétrica gratuitamente para quem morava lá. Então era uma coisa interessante, porque nós não pagávamos luz. Tinha mais ou menos umas sete ou oito residências, alguns comércios e o restaurante onde eu fui trabalhar depois. Brincávamos lá também. Eu praticamente não tive infância, porque com sete anos já comecei a trabalhar, mas era gostoso. Todo dia ganhávamos presentes dos turistas. E era muito bom, porque financeiramente a gente era de uma renda inferior. Então, aproveitando essa questão da memória, um belo dia, por volta de 1969, chegaram quatro turistas jovens do Rio de Janeiro em um carro chamado Gordini — um carro que muita gente hoje nem sabe o que era. [00:08:39] [Pequena interrupção técnica. A equipe pede que a história seja retomada desde o início.] [00:09:28] ENTREVISTADOR: Nei, está rodando. Conta essa história dos turistas desde o começo, por favor. NEI: Perfeito. Um belo dia, nessa minha memória de criança, acho que por volta de 1969, chegaram quatro turistas jovens em um carro chamado Gordini, um carro que muita gente hoje não sabe o que era. Eles eram do Rio de Janeiro. Pediram para eu levá-los, e eu fui. Mostrei as Sete Quedas, contei toda a história, e eles ficaram encantados. Depois foram para o restaurante que tinha lá — naquela época eu ainda não trabalhava nesse restaurante —, almoçaram e, na hora de ir embora, eu não sei por qual razão, hoje não me lembro mais, eles tinham um cabrito, literalmente um cabritinho dentro do carro, e me deram de presente. Disseram: “Olha, nós não vamos levar”. Eu não sei por que estavam com aquele cabrito, mas me deram de presente. Eu fiquei feliz da vida, como criança. Levei para casa, cheguei para o meu pai e para a minha mãe, contei, e nós cuidamos do cabrito. [00:11:00] ENTREVISTADOR: Vamos falar mais um pouquinho. Qual era o seu lugar ou momento preferido nas Sete Quedas? NEI: Nas Sete Quedas nós ficávamos a postos onde tinha uma barragem, o canal. Logo abaixo do canal vinha um bosque, e nós ficávamos bem na ponta desse bosque, porque era uma disputa muito grande entre todos. Havia várias crianças e jovens adolescentes que trabalhavam levando turistas, e o fluxo era significativo, principalmente nos finais de semana. Então nós ficávamos a postos para pré-escolher. Naquele tempo, aparecia um carro como uma Veraneio, um Dodge Dart, um Galaxie; mais para frente vieram a TL e a Variant. Eram carros que, supostamente, eram de turistas mais afortunados. A gente prestava atenção nisso porque a gorjeta também era melhor. Nós não tínhamos uma tabela, não existia uma tabela; era tudo muito simples. A gente levava, fazia todo aquele trabalho de informação, de mostrar, de contar sobre os saltos, e na volta eles nos davam um cachê, que ficava a critério do turista. [00:12:29] ENTREVISTADOR: E como os sons das Sete Quedas acompanhavam a sua vida? O quanto eles eram importantes para você? NEI: Esses sons das Sete Quedas eram extremamente interessantes. Meu pai, por exemplo, plantava; nós tínhamos uma área ali mesmo onde plantávamos. Pelo som das Sete Quedas, naquela época, você sabia de que posição vinha a chuva, a tempestade. Enfim, vários fatores você conseguia perceber através do barulho das Sete Quedas. Era muito interessante. Na época, pela lua você também sabia o que fazer em termos de plantação. E outra coisa que nós poderíamos dizer era sobre o clima com as Sete Quedas. Nós tínhamos um inverno muito rigoroso em Guaíra, que não existe mais. Hoje nós temos dias de frio, mas não temos mais aquele inverno. No período das Sete Quedas, o inverno em Guaíra era rigoroso durante os três meses de inverno. [00:14:05] ENTREVISTADOR: E como era morar em um dos lugares mais bonitos do mundo? NEI: Era, volto a repetir, entusiasmante. A gente era criança e, apesar das dificuldades financeiras, todos nós que morávamos ali éramos muito felizes, alegres, porque sempre nos deparávamos com pessoas diferentes, conversando, e a gente acabava sendo um elo de ligação. Quando fui trabalhar no restaurante, ficou ainda mais entusiasmante, porque a gente atendia, contava histórias. Esse restaurante era especializado em peixe; não tínhamos outro cardápio, era tudo à base de peixe. Fazíamos vários pratos à base de peixe, todos capturados no Rio Paraná para atender os turistas. Era um fluxo de movimento muito grande. A gente estava sempre se deparando com novidades. Eu trabalhava de manhã no restaurante, almoçava, andava quatro quilômetros e meio até o Colégio Mendes Gonçalves para estudar, fazer o meu primário, voltava depois e trabalhava mais um período. Assim era. Eu fiz todo o meu primário e ainda um pedacinho do colegial indo e voltando dessa forma. Naquele tempo não tinha pavimentação, asfalto, sistema de transporte coletivo, nada. Você vinha a pé. [00:15:55] ENTREVISTADOR: Vou pular um pouquinho uma pergunta que estava mais para frente. Você falou dos peixes, da alimentação. Você foi premiado diversas vezes com o Pintado na Telha e com pratos de peixe. Me conta sobre esse prato, como você aprendeu, e depois a gente fala um pouco sobre como o descaso com o rio e com esses peixes prejudicou a culinária típica guairense. NEI: Perfeito. Vamos começar lá na base, quando a pesca era farta em Guaíra. Nesse restaurante em que eu trabalhei, e depois nas peixarias de Guaíra, havia muito peixe. Esse restaurante se chamava Restaurante do Salto e tinha peixaria também. Havia vários pescadores profissionais na época. Tem um fato curioso que é preciso contar historicamente. O seu Miguel, que era o proprietário do restaurante, recebia os pescadores. Eles perguntavam: “Seu Miguel, o senhor precisa de peixe hoje?”. Ele abria os freezers, e pela fartura de peixe dizia: “Bom, hoje você me traz só dourado e pintado, porque jaú, pacu e [nome de peixe pouco nítido] ainda tem bastante”. Para vocês terem uma ideia, isso é história que eu vivi, que acompanhei. Havia uma fartura muito grande de peixe. Depois, ainda continuou existindo uma quantidade razoável, mas, após o fechamento do lago, houve uma pesca predatória muito grande no início da formação do reservatório. E aí tivemos uma diminuição muito grande do pescado em Guaíra, principalmente dos chamados pescados nobres, como pintado e dourado. Foi um problema sério. Já não era mais aquela fartura, embora ainda houvesse uma quantidade significativa. Eu cresci, vim para o comércio de Guaíra e, na época em que participei do poder público, tive a ideia de criar o Pintado na Telha como prato típico de Guaíra. Inclusive, a lei é de minha autoria e foi sancionada pela gestão da época. Nós criamos o Pintado na Telha. Não era “peixe na telha”; era “Pintado na Telha”. Ocorre que, com o passar dos anos, esse peixe ficou bastante difícil de capturar no lago e no Rio Paraná, e esse prato acabou ficando um pouco esquecido. Mas ele ainda existe, ainda é servido em hotéis de Guaíra. Eu participei de vários concursos e tive a felicidade de, por várias vezes, ser campeão do Pintado na Telha. Depois vim para o comércio de eventos, onde também trabalhávamos com peixe. [00:19:17] ENTREVISTADOR: Vamos terminar só mais uma aqui e depois a gente dá uma pausa. Fala para mim sobre o turismo às vésperas do fim das Sete Quedas. NEI: O turismo no final das Sete Quedas foi uma loucura. Vamos usar essa expressão: foi uma loucura. Nessa época eu tinha um restaurante no Hotel Guarujá II. Era algo absurdo. Só para vocês terem uma ideia, a fila de ônibus para chegar às Sete Quedas vinha até a Igrejinha de Pedra; depois o pessoal ia a pé. Não tinha como colocar carro no pátio das Sete Quedas. No hotel, para se ter uma ideia, nós alugávamos até o escritório do diretor porque não tinha vaga. Nós tínhamos amizade com um hospital aqui de Guaíra, na época o Hospital Santa Rita. O médico era nosso amigo. Quando havia leito vago, chegaram a alugar leitos para turistas, porque não tinha mais acomodação. E isso num período em que Guaíra tinha vários hotéis, de categorias inferiores e superiores, restaurantes, churrascarias, enfim. Era tudo lotado. Eu atribuo o episódio da queda da ponte ao excesso de peso e à falta de cuidado e fiscalização, porque aquilo era uma loucura. Eram milhares de pessoas passando ao mesmo tempo por aquelas passarelas, por aquelas pontes. [00:21:08] [PAUSA TÉCNICA] [00:21:20] ENTREVISTADOR: Então, talvez um dos dias mais tristes que você tenha vivido ali nas Sete Quedas. Onde você estava quando soube do acidente na ponte? E quando você chegou lá, o que encontrou? NEI: Nesse fatídico acidente, eu estava exatamente no hotel onde tinha o restaurante. Como eu estava dizendo, havia muita gente visitando Guaíra. Eu tinha acabado de construir uma casa e a havia alugado para dois casais do interior de São Paulo, porque o hotel estava lotado. Eu os hospedei nessa casa. De manhã, eles foram tomar o café e seguiram para as Sete Quedas. Por volta das nove, nove e pouco da manhã, veio a triste notícia. Nesse momento, eu fui, juntamente com mais algumas pessoas, me deslocando rapidamente. Cheguei ao local do acidente em torno de quarenta a quarenta e cinco minutos depois. Ainda havia pessoas penduradas, gritos, pessoas ilhadas do outro lado e muita gente do lado que poderíamos chamar de continente. Foi uma coisa absurda. Todo mundo em pavor, desesperado, gritos, choro, e você vendo as pessoas. Muitos já tinham sido levados pela corredeira. O João Lima Moraes, o popular João Mandi, estava ali e teve um papel importante no auxílio ao resgate, de onde ele estava, ali nas pedras. Foi uma coisa terrível, terrível. [00:23:22] ENTREVISTADOR: E me conta como foi o dia seguinte ao acidente. As pessoas ligando, tentando entrar em contato com familiares, poucos orelhões, poucos telefones, hotéis... Como foi essa confusão? NEI: Naquele tempo só existiam fax e telefone fixo. Inclusive no hotel. No Hotel Guarujá II foi montada toda a estrutura de jornalismo do Brasil. Foi ali que vieram as televisões da época, O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo, pessoal de Londrina, enfim, jornais escritos, falados, televisionados, tudo. Ali foi a central. Só que demorava para você passar a matéria. Por exemplo, você mandava uma matéria de manhã para ser exibida só à noite. Ali foi toda a central de divulgação. Foi uma tragédia que tomou proporção mundial. Guaíra ficou estarrecida, ficou de luto. Começaram a chegar familiares, e havia familiares que não tinham contato, porque a comunicação era difícil. Na época, não se sabia ao certo, mas o número oficial de mortos foi 32. [00:24:47] ENTREVISTADOR: Você participou da homenagem final, quando os indigentes foram enterrados no cemitério? Você estava lá ou soube como foi esse momento? NEI: Exatamente nesse dia, não. Mas, na época, eu já tinha uma ligação forte com o comércio de Guaíra e conhecia o secretário responsável pela pasta. Fui até ele. Como nós não tínhamos aqui na cidade estrutura para fazer reconhecimento dos corpos, autópsia e tudo aquilo, eu pedi a ele para entrar no cemitério e ver. Foi um momento que me marcou muito, porque eu contei: havia 19 corpos, todos colocados de maneira rudimentar, esperando vir de fora a Polícia Científica para fazer a autópsia. Naquele momento havia 19 corpos ali. Posteriormente, a grande maioria foi levada, após a identificação, por seus familiares. E, se não me falha a memória, dois ou três foram enterrados como indigentes, porque não apareceu familiar, não apareceu ninguém. [00:26:08] ENTREVISTADOR: E como foi essa busca pelos corpos, que durou quase um mês? NEI: A busca foi extremamente difícil, pelo fato de ser um canal de grande volume d’água e de corredeira muito forte. Isso foi levando os corpos. Houve corpos encontrados a cem quilômetros daqui, rio abaixo. Muitos ficaram enroscados também nas grotas de pedra. Por isso, até hoje, não se tem literalmente a certeza de que foram só 32 mortos. Foi uma coisa muito triste. Houve corpos retirados da água vários dias depois, em um estado que dificultava até a identificação. [00:26:59] [AJUSTE TÉCNICO E NOVO CORTE DE CÂMERA] [00:27:17] ENTREVISTADOR: Vamos voltar ao acidente da ponte, último assunto. Toda essa tragédia aconteceu e alguém tentou colocar a culpa sobre uma pessoa, sobre [nome pouco nítido na gravação]. Você pode me contar como foi essa tentativa? NEI: Com relação a esse fato, que foi atribuído ao Pedimar Porã, que era indígena: ele não era uma pessoa muito antiga ali, mas eu o conheci, conversávamos pouco, como todos conversavam. Na minha opinião — e é só uma opinião pessoal — precisavam arrumar um bode expiatório para alguma coisa. Eu não acredito jamais que ele faria isso, até porque ele era zelador, cuidava dali, estava sempre, vamos dizer assim, vigilante dentro do pátio das Sete Quedas, de todo o complexo. Então eu atribuo isso à criação de um bode expiatório. Estávamos vivendo um momento em que não deram importância para ninguém para acabar com as Sete Quedas. Quando veio essa tragédia, precisavam atribuir a alguém. A formação do lago foi no mesmo ano. Então atribuíram isso a ele. Essa é a minha opinião. [00:29:01] ENTREVISTADOR: Você pode repetir só essa frase? “Eles criaram um bode expiatório.” NEI: Eles criaram um bode expiatório. [00:29:09] ENTREVISTADOR: Vamos fazer uma comparação que eu sei que você gosta de fazer: Sete Quedas e Cataratas do Iguaçu. NEI: Com relação a essa comparação, eu gostaria de fazer um adendo. A natureza foi perfeita. Ela criou duas belezas, eu diria, na mesma direção. O homem, dentro do seu processo de transformação, quis, na sua preponderância, fazer a maior usina do mundo e, para isso, teve que sacrificar uma dessas maravilhas da natureza. Eu conheci as Sete Quedas desde criança, vivi dentro delas. Tive também, ainda bem jovem, a experiência de conhecer as Cataratas do Iguaçu e depois estive lá outras vezes. Na minha visão, as Cataratas do Iguaçu eram bonitas — e são bonitas até hoje; é um dos locais mais visitados do mundo —, só que elas têm uma visão panorâmica praticamente única. Você chega pelo lado brasileiro — elas também podem ser visitadas pelo lado argentino — e tem aquela visão. As Sete Quedas, não. Nas Sete Quedas você cansava. Tinha que fazer aquela enorme caminhada de dois quilômetros e meio e, para cada lado que olhava, tinha uma cachoeira, tinha uma queda, tinha todo o esplendor da natureza ao longo daquele processo de caminhada. Então, para mim, as Sete Quedas eram extremamente superiores às Cataratas do Iguaçu. [00:31:04] ENTREVISTADOR: Vamos começar a falar um pouquinho da despedida. Como foi quando você soube que as Sete Quedas iam acabar? As pessoas acreditaram de começo? Como foi essa notícia? NEI: Eu quero voltar um pouquinho, bem no início. Quando se falou da construção da Usina de Itaipu, que formaria o lago e deixaria as Sete Quedas submersas, eu ainda era criança. Meu pai era operário lá dentro, fazia parte de um órgão do governo ligado ao que hoje vem a ser a nossa Copel. Ele era funcionário dessa empresa, chamada Minas e Energia. Sendo operário, meu pai acompanhou os engenheiros e técnicos, carregando aparelhos de topografia, quando começaram a fazer as demarcações. Eles iam em vários pontos, subindo desde Foz do Iguaçu até Guaíra. Colocavam uma marca metálica, de bronze, que indicava a graduação, a cota que a água atingiria. Eu lembro que, apesar de ser criança, ouvia os mais velhos comentarem que jamais o homem teria capacidade de acabar com uma beleza daquela. Que não teria. Bom, erramos. Guaíra talvez tenha pecado, o sistema pecou e, como nós vivíamos um sistema, vamos dizer assim, de exceção, não tinha para quem apelar. Nós esperamos o fatídico dia. Foram feitas as marcações da cota 220 e, por incrível que pareça, o lago chegou exatamente ali. Nessa altura eu já era adulto, já estava na vida pública e conseguimos constatar. Para nós foi um choque, um luto total. Guaíra, do dia para a noite, paralisou. Ficou totalmente enlutada. Vou dar um exemplo: eu tinha restaurante no hotel, onde servíamos 50, 60, 70, 100 refeições por dia, mais o café da manhã. A partir do outro dia, você não tinha mais nada. Foi fechando tudo. Os hotéis de Guaíra foram fechando, os restaurantes foram fechando. Para se ter uma ideia, juntamente com o diretor do hotel, começamos a doar parte das louças e objetos do hotel, porque não tinha mais porquê. Paralisou. Isso ficou durante vários anos. Foram anos de total ostracismo econômico em Guaíra, porque perdemos a nossa fonte. Foi aí que veio a grande promessa. Na época, engenheiros e técnicos das Centrais Elétricas do Sul do Brasil, a Eletrosul, diziam que aqui seria construído o Complexo de Ilha Grande, acompanhado de ferrovia, rodovia e hidrelétrica. Teríamos uma usina para fazer a contenção dos dejetos de Itaipu Binacional, teríamos ferrovia, rodovia e hidrelétrica. Diziam que Guaíra jamais iria se lembrar das Sete Quedas. De certa maneira, diante do quadro que estávamos vivendo, quase aceitamos e acreditamos nessa ideia. Só que tudo sucumbiu e nada aconteceu. Chegou em 1989, 1990, e simplesmente o governo da época disse: “Está cancelado”. Não se faria mais nada. [00:35:23] ENTREVISTADOR: E quando elas foram sendo inundadas? Foi muito rápido, mas, ao mesmo tempo, pouco a pouco dava para ver a água subindo. Qual era a sensação? NEI: Demorou vários dias, várias semanas. Era uma sensação terrível, principalmente para quem não acreditava que aquilo aconteceria e estava vendo acontecer. Muita gente de Guaíra foi lá, os mais antigos também. Eu tive a oportunidade de ir até quando a água já estava chegando a um determinado ponto. Você via que o canal em si, o canal-base, o que nós chamávamos popularmente de canal, já estava totalmente nivelado. As quedas começaram a diminuir. Começou ali pela queda da ponte, que era praticamente a primeira de cima para baixo. A água começou a subir, e você via que a queda já era bem menor. E não tinha para quem reclamar. Não tinha. O fato estava consumado. [00:36:44] ENTREVISTADOR: E como foi dormir sem o som das Sete Quedas? NEI: Volto a repetir: nós ficamos totalmente à deriva, ficamos de luto, sem saber o que fazer. Não querendo me vitimizar, mas eu, de empresário, fui trabalhar como empregado, de porteiro no hotel, porque não tinha mais o que fazer. Esse foi o meu caso, e muitos foram embora. Muitos empresários deixaram suas propriedades e foram para outras regiões. Teve gente que foi para Mato Grosso, Rondônia, Curitiba, enfim. Foram deixando Guaíra porque não havia alternativa. A própria imprensa chegou a dizer que nós tínhamos nos tornado uma cidade fantasma em determinado período. [00:37:39] ENTREVISTADOR: Me fala mais sobre essa “cidade fantasma”. Como era Guaíra? Como era essa sensação de que aqui tinha, de fato, virado uma cidade fantasma? NEI: A cidade fantasma vem já com a questão da não construção do Complexo de Ilha Grande. Nós havíamos perdido a maior fonte de renda, a maior indústria propulsora da economia local. Aí nos prometeram um grande polo com esse complexo. Tanto é que fizeram mil e poucas casas em Guaíra para acomodar as pessoas e empresas que viriam construir a usina, a ferrovia e a rodovia, fazendo a transposição do Rio Paraná para o Mato Grosso do Sul. E isso não aconteceu. Ali foi o desastre total, porque era gente abandonando, gente indo embora. Aquele grupo de pessoas que veio para Guaíra tinha dado certo fomento à economia guairense. Os hotéis já haviam retomado um pouco daquilo que era possível fazer. E, a partir do momento em que foi decretado o cancelamento da obra do Complexo de Ilha Grande, foi quando a grande imprensa passou a chamar Guaíra de cidade fantasma. [00:39:12] ENTREVISTADOR: Antes de a gente ir para outra pergunta, queria que você falasse sobre o que sente em relação aos últimos anos em Guaíra. Você sente alguma espécie de redescobrimento, de renascimento da cidade? Compara essa Guaíra “cidade fantasma” com a Guaíra de hoje e com a forma como ela tenta se projetar para o futuro. NEI: Eu diria que Guaíra, nos últimos 20, 25 anos, saiu desse luto que viveu, saiu desse ostracismo econômico pelo qual passou. Através de diálogo e de um novo olhar, por meio de todos os setores da sociedade organizada de Guaíra — ainda que de maneira incipiente na indústria, no comércio — começou a encontrar novos caminhos. Veio a questão do comércio com o país vizinho, o Paraguai, o comércio de importados, e gestões que começaram a ter uma visão de não apenas reclamar, mas buscar alternativas junto ao governo estadual e ao governo federal para colocar Guaíra como uma cidade importante. Porque é importante dizer: Guaíra é um dos grandes polos de passagem entre o Norte e o Sul do país. Quem sai do Sul para atingir o Norte do Brasil passa por Guaíra. Foi aí que o comércio começou a se redistribuir e aumentar, a parte hoteleira melhorou, a gastronomia começou também a ganhar uma dimensão melhor e, sem dúvida, a conclusão da ponte sobre o Rio Paraná, substituindo a travessia por balsa, incrementou bastante isso. Eu diria que Guaíra vive uma nova fase, uma fase boa, principalmente agora, buscando o turismo de pesca esportiva, o turismo de aventura. A própria cultura está se levantando, se redescobrindo e colocando projetos em prática. Tivemos também, ainda que de forma acanhada, uma boa recompensa com um percentual maior dos royalties por parte de Itaipu. [00:42:03] ENTREVISTADOR: Então essa vai ser a nossa última pergunta. Conta para mim desde o início: como foi a distribuição dos royalties? Ela foi justa? Foi pouco benéfica para Guaíra até os dias de hoje? NEI: Muito bem. Quando se formou o Lago de Itaipu Binacional, através de todo o seu corpo jurídico e técnico, estabeleceu-se que as indenizações seriam baseadas nos metros quadrados de área inundada e nas benfeitorias que havia em cada propriedade e em cada cidade. Acontece que a cidade de Guaíra está exatamente no último ponto do alagamento, no último extremo. Então, a área em metros quadrados inundada aqui foi a menor. Sem dúvida alguma, foi a menor. No entanto, inundou-se a maior fonte de renda da cidade e uma das maiores belezas do mundo. Isso não foi levado em consideração. Por outro lado, a própria política local, regional e nacional não se ateve, não teve compromisso com Guaíra para fazer um questionamento junto à Itaipu Binacional, no sentido de que isso já tivesse sido considerado no momento da indenização e dos aportes destinados à cidade. Como isso não aconteceu, Guaíra ficou com um dos menores percentuais de royalties, um dos menores valores mensais em dinheiro. Como era cotado em dólar, o nosso percentual em dólar foi um dos menores. Houve lugares em que cidades tiveram áreas maiores submersas e recebiam cinco, seis, dez vezes mais do que nós, por causa desse critério de metros quadrados de área inundada. Aí houve demandas através da política local, juntamente com o governo do Estado, deputados e senadores, no sentido de reverter isso. Numa primeira etapa, levou acho que uns 15 anos e não aconteceu nada. Falava-se, discutia-se, até que, depois de muitos anos de briga, saiu alguma coisa — usando essa expressão —, mas ainda era muito pouco. Por fim, houve um projeto de uma pessoa que jamais podemos esquecer, que teve um papel importante: o então deputado Osmar Serraglio. Ele teve um projeto muito importante e, juntamente com a última gestão do prefeito Eraldo, conseguiram conscientizar os senadores da República e boa parcela dos deputados federais de que havia uma grande injustiça com o município de Guaíra, e que não era possível continuarmos de mãos cruzadas sem fazer nada. Se não me engano, dos 81 senadores, 70 votaram favoravelmente à proposição para o município de Guaíra. Jamais nada vai compensar a perda das Sete Quedas, na minha opinião. Jamais. Mas, pelo menos, é um alívio para a nossa infraestrutura local, para podermos prestar um bom atendimento à comunidade de Guaíra com esse percentual de royalties. [00:45:57] ENTREVISTADOR: Que maravilha. [CORTE / AJUSTE TÉCNICO] ──────────────────────────────────────── SEGUNDA PARTE — MEMÓRIAS A PARTIR DE FOTOGRAFIAS E RECORTES ──────────────────────────────────────── [00:46:04] ENTREVISTADOR: Você pode relaxar um pouquinho mais com a caixinha. Se estiver desconfortável, pode colocar na sua perna. Fica tranquilo. Você vai abrir a caixinha e vão ter algumas memórias, algumas coisinhas aí. Pega uma por uma e vai comentando. Quando quiser comentar, comenta; quando quiser só olhar, pode só olhar. Pode abrir. [00:46:32] NEI: Legal. Essa foto aqui já é de quando estávamos no finalzinho. Eu fiz questão de ir lá, porque as Sete Quedas estavam para terminar. E hoje essa foto é uma lembrança que ninguém mais vai poder ver daquele jeito. [00:46:56] ENTREVISTADOR: Pode olhar para você e, quando quiser, mostrar para a câmera ali atrás. [00:47:02] NEI: Eu fiz um comentário na época. Aqui ficou bem característica a palavra “ADEUS”, como uma despedida. E a pessoa que escreveu esse “adeus” deixou dois pingos de tinta que, para mim, representam duas lágrimas. Eu fiz esse comentário na época e agora é interessante trazer isso à memória. [00:47:36] ENTREVISTADOR: Pode continuar olhando para você mesmo. Assim está ótimo. [00:47:47] NEI: Aqui já é uma cena que nos demonstra tristeza. Mostra a tristeza de saber que hoje não temos mais isso, não existe mais a possibilidade de estarmos lá, naquele lugar onde a gente esteve. E assim vão vindo as memórias com essas fotos. Da mesma forma aqui: era um pedaço das Sete Quedas em que eu fazia essa caminhada três, quatro vezes por dia, levando turistas. Hoje só vem a memória. Sem dúvida alguma, isso nos deixa emocionados. Aqui está o canal também. Não tem como não se emocionar de lembrar que a gente vivenciou isso. Era o nosso caminho de casa, era o nosso pátio de casa. Essa foto aqui já nos traz uma certa indignação. Eu acompanhei também toda a construção dessas torres, que eram torres de transmissão para atingir o Mato Grosso do Sul. Isso nos deixa uma certa indignação porque, em função da construção daquilo que se dizia necessário, que precisava ser feito para o desenvolvimento econômico, social e industrial do Brasil, nós tivemos que perder essa beleza. Aqui também é uma foto aérea que dá uma dimensão das Sete Quedas. Eu já vi vários quadros assim e presenciei aquilo. Nesta foto aérea, todo esse percurso eu fazia caminhando com os turistas, passo a passo, para chegar do início ao final. [00:50:18] NEI: E aqui está aquilo que comentamos anteriormente, a loucura que se tornou o final das Sete Quedas. Estou com uma foto que representa exatamente a ponte do fatídico acidente de 17 de janeiro de 1982. [00:50:49] ENTREVISTADOR: Dá só uma leve viradinha na foto para a câmera. NEI: Essa foto demonstra aquilo que eu falei sobre a loucura que foi o final. Acho que todo mundo queria conhecer as Sete Quedas ainda vivas. Quem já conhecia voltou para ver pela última vez. Era uma loucura. Aqui ainda temos a presença da antiga ponte do fatídico acidente que nós presenciamos, vivenciamos, sofremos. Aqui, mais um dos saltos das Sete Quedas que vêm à memória. A própria foto representa a neblina que se formava. Você tomava uma chuva ao chegar perto, porque a gente conseguia chegar muito próximo da queda. [00:51:58] NEI: E aqui eu tenho mais um saudosismo triste para lembrar. Essa foto representa uma das grandes vivências da minha infância. Um belo dia fui levar um casal de turistas. O marido era de origem japonesa. Eles chegaram à tarde, já no final da tarde, e eu disse: “Agora é impossível, porque não tem iluminação. Marcamos para amanhã cedo para visitar as Sete Quedas”. Eles estavam em lua de mel. Ele gostava muito de fotografia, estava com uma máquina profissional. Quando nós descemos para ele fotografar, em determinado momento ele entregou a máquina para a esposa e escorregou. Foi levado pelas águas. Eu, ainda criança, com oito ou nove anos de idade, presenciei as Sete Quedas engolindo aquele homem exatamente neste lugar da foto. Foi uma coisa que marcou muito a minha vida. Chamamos os guardas, chamamos as pessoas. Eu nem sei dizer se ele foi encontrado, porque ali era um turbilhão de água. Era algo terrível. [00:53:44] NEI: Aqui está o ângulo da ponte. Era uma ponte que balançava, e muita gente tinha mania de subir nela e balançar. Havia também muita gente que sentia medo ao atravessar. Vamos ver mais aqui. [00:54:21] NEI: Aqui, se não me falha a memória, estou vendo uma foto do lado paraguaio. Exatamente aqui nós tínhamos a confluência, o canal, o Grande Canal. Do outro lado havia uma visão menor, naturalmente, mas o país vizinho, o Paraguai, e a comunidade de Salto del Guairá conseguiam ter uma vista parcial das Sete Quedas. Aqui, outra bela visão de um salto. Era um mais lindo que o outro. Se formos falar, não tem como fazer diferenciação entre um e outro. Aqui, tudo indica que estava num período de cheia, porque está bastante avolumado. [00:55:24] NEI: E assim vamos passando pela sequência de fotos das Sete Quedas. Esse aqui era o chamado “Saltinho”. Havia essa ponte, que fazia a ligação com uma das maiores ilhas que compunham as Sete Quedas. Naturalmente, praticamente todo o percurso era feito por pontes e passarelas. Era uma ilha bem grande. Depois dela havia outra ponte. Para ir ao Salto 14, que era o último salto, ainda tínhamos mais duas pontes. Então esse aqui é o famoso Saltinho. Na parte de cima dessa ponte havia um ponto que nós chamávamos de remanso. Era uma parte em que muita gente tomava banho, fazia piquenique. [00:56:37] ENTREVISTADOR: Pode continuar. Quando quiser comentar, comenta; quando não quiser, pode só olhar. Dá só uma viradinha um pouquinho para cá. Isso, está ótimo. [00:56:49] NEI: Aqui é mais uma ponte. Era a penúltima ponte, que fazia a travessia entre a ilha que acabei de citar e o trecho final. Tinha mais uma ponte, um canal, e depois chegávamos ao Salto 14, o último salto do Complexo de Sete Quedas. Aqui também, mais uma vista da ponte. Aqui nós temos as pontes. [00:57:31] NEI: E aqui eu volto a frisar: esse é, sem dúvida alguma, o salto mais bonito. Era o mais volumoso, onde aconteceu aquela tragédia que citei. A gente conseguia chegar muito perto. Como não havia tanta sinalização nem fiscalização, os turistas aproveitavam ao máximo. Pela força da água, formava-se aquela cascata, aquela névoa de água em cima do pessoal. Então esse era o salto mais volumoso. [00:58:11] NEI: Aqui vamos ver. Esse é um recorte. [00:58:14] [PAUSA TÉCNICA PARA TROCA DE BATERIA E AJUSTE DA POSIÇÃO DO MATERIAL] [00:58:41] ENTREVISTADOR: Podemos seguir na ordem em que você estava. [00:58:46] NEI: Aqui estamos com um recorte de jornal, provavelmente da época, cujo texto diz: “Último dia de visitação de Sete Quedas: 40 mil pessoas formaram fila de quilômetros para atingir Sete Quedas”. Quer dizer, aquilo que nós já comentamos é fato: isso aconteceu. Lembrando que, nesse episódio, a ponte já tinha sido reconstruída. Por incrível que pareça, depois de toda a tragédia que aconteceu e já no período final das Sete Quedas, ainda reconstruíram a ponte e ela foi aproveitada por alguns meses. A tragédia foi em janeiro e o lago se formou, se não me falha a memória, entre setembro e outubro. Isso aqui condiz com a realidade daquela época. [00:59:45] NEI: Essa aqui é bem icônica. É também uma foto aérea. Ela pega todo o dorso do canal e as cachoeiras. É bem interessante. Aqui, mais uma vez, aparece aquilo que eu sempre falava e explicava aos turistas: o salto mais bonito, o salto mais imponente das Sete Quedas. Nesta foto ele está numa dimensão um pouco diferente, mais alongada. [01:00:38] NEI: Aqui, mais uma vez, nós temos a ponte que fazia a travessia entre a ilha e o penúltimo espaço para chegar até o Salto 14. Ali nós já tínhamos o canal, um canal mestre. Nós tivemos algumas frases de efeito na época, mas já não surtiam efeito prático. Não conseguiam mais reverter o que já estava estabelecido. [01:01:35] NEI: Aqui diz: “Destruir Sete Quedas é crime, diz prefeito”. Eu costumo dizer que tudo o que vou falar é opinião minha, mas tem uma concepção coletiva. Na época, boa parte da comunidade atribuiu muita culpa ao gestor do município. Mas, na minha opinião, o gestor da época não tinha culpa. Ele era empregado do patrão, tinha que cumprir o que vinha de cima. Talvez seja injusto atribuir a ele a culpa pelo fim. Eu acho que isso não condiz com a verdade, porque o sistema vinha de cima e dizia: “Nós vamos construir uma usina; para construir uma usina, precisamos sufocar as Sete Quedas”. Ele simplesmente cumpriu. Ficou 21 anos no poder como gestor do município, como empregado do governo federal. [01:02:46] NEI: E aqui a frase diz o seguinte: “Figueiredo: é uma pena”. Não vou ler o texto porque não há necessidade. Eu estava ali quando ele e sua comitiva saíram em um Galaxie. Ele deu uma passada muito rápida pelas Sete Quedas. Eu estava muito próximo, junto com outras pessoas, acenando para ele parar, para a gente perguntar, mas ele não parou. Ele simplesmente foi embora. Fez um contorno pelas Sete Quedas, acompanhado por segurança e várias viaturas atrás. Várias pessoas gritavam: “Pare! Pare! Queremos perguntar...”, mas ele não parou. E aqui está a frase: “É uma pena”. É muito pouco para aquilo tudo. [01:03:43] NEI: Aqui eu acredito que sejam autoridades. A imagem está um pouco ofuscada. ENTREVISTADOR: O próprio Figueiredo. NEI: Sim. Mas o relato que fiz é esse: quando ele estava dentro do carro, todo mundo pediu para ele parar e ele não parou. [01:04:12] NEI: E aqui é aquilo que eu disse na entrevista anterior: quando começou a se formar o lago, realmente só havia o que lamentar, sofrer e sentir todo esse episódio. Aqui nós já temos praticamente uma dimensão do lago. Provavelmente há uma numeração indicando onde ficavam partes geográficas das Sete Quedas. Essas fotos aqui eu vou passando, porque já retratam o complexo e nós já falamos bastante sobre as Sete Quedas. Aqui, da mesma forma, é mais uma dimensão de uma das quedas d’água. [01:06:06] NEI: E aqui, essa foto com essa imensidão humana e esse amontoado de ônibus, veículos, Kombis e vans retrata bem aquilo que eu falei há pouco. Foi uma verdadeira enxurrada humana, vamos dizer assim. Era muita gente, muita gente. A foto retrata pessoas descendo a pé para chegar às Sete Quedas, porque já não havia como entrar com os veículos. Foi realmente uma loucura. [01:06:56] NEI: Aqui já é uma foto que retrata o período com pavimentação asfáltica, já no final, nos últimos anos de visitação. Até então era estrada de chão. Essa torre de energia me traz uma lembrança. Ela ficava muito próxima da casa onde eu morei, uns quinhentos, seiscentos metros. A minha casa ficava aqui do lado direito. Essa torre está no continente; não está em uma ilha, porque algumas ficaram em ilhas. [01:07:51] NEI: E, para fecharmos, quero agradecer a todos por essa surpresa. A gente sente muito. Aqui está mais uma visão de uma das cachoeiras das Sete Quedas, compondo todo aquele complexo maravilhoso. Aquilo que jamais, jamais o homem poderia ter feito. Mas, infelizmente, não sei se podemos dizer que, pelo progresso, a gente tem que sacrificar. Talvez essa fosse a visão da época daqueles que detinham o poder. [01:08:25] ENTREVISTADOR: Maravilha. Corta, gente. [FIM DA ENTREVISTA]

Transcrição da entrevista completa [00:00:00] EQUIPE: Preparação das câmeras A e B e início da gravação. [00:00:18] ENTREVISTADOR: Nei, vamos começar falando um pouquinho da sua infância. Como foi a sua infância nas Sete Quedas? NEI: A minha infância nas Sete Quedas foi, sem dúvida alguma, uma experiência maravilhosa, porque nós vivíamos em função das Sete Quedas desde garotos, desde crianças. Eu, meus irmãos, minhas irmãs, meu pai, nós vivíamos e tínhamos o porquê. Na verdade, Sete Quedas era a grande indústria sem chaminés que nós tínhamos em Guaíra. [00:00:59] ENTREVISTADOR: E como é que foi? Você começou a trabalhar lá muito cedo. Me conta um pouco desse trabalho, desde criancinha. NEI: Sim, eu comecei nas Sete Quedas muito cedo, em torno de sete anos de idade. Eu já comecei a lavar carros. Depois, chegando próximo dos nove até os onze anos, eu levava turistas nas Sete Quedas, até que fui convidado pelo único restaurante que tinha lá para ser garçom. Naquele tempo, eu já fui trabalhar como funcionário. Meu pai era operário da usina; tinha uma pequena usina hidrelétrica lá. Meu pai era operário, e eu e a minha irmã, mais velha que eu, vendíamos souvenirs, lembranças das Sete Quedas, tudo o que tinha como tema as Sete Quedas. Então nós vivíamos literalmente das Sete Quedas. [00:02:07] ENTREVISTADOR: E como é que eram elas, sentimentalmente? Como era estar naquele lugar? NEI: Todos os turistas que vinham e que a gente acompanhava — como os demais colegas que acompanhavam os turistas — tinham aquele impacto, uma emoção muito grande. Porque as Sete Quedas tinham um trajeto de dois quilômetros e meio, onde você passava por pontes, passarelas, ilhas, até chegar do início ao final. Então, a cada ângulo de visão era uma emoção, porque era uma cachoeira muito forte, muito emocionante. Aquela brisa, o barulho, o estrondo... Para nós que vivíamos ali, o dia a dia tinha essa mesma impressão, essa emoção de viver ali, porque era encantador para quem visitava as Sete Quedas e via toda aquela beleza natural que nós tínhamos. [00:03:15] ENTREVISTADOR: Faz de conta que eu sou um turista, vim de longe, acabei de chegar em Guaíra, não sei nada sobre as Sete Quedas e caí com você para você me guiar. O que você vai falar para mim? NEI: Primeiramente, a gente sempre se identificava, porque nós tivemos, ainda que de forma bastante rudimentar, algumas orientações de pessoas mais experientes, do pessoal ligado ao turismo. O seu Ernesto Mann era uma pessoa muito ligada ao turismo de Guaíra. Então nós nos apresentávamos e acompanhávamos o turista dizendo: “Olha, aqui, a primeira ponte era uma ponte de ferro”. Nós mostrávamos que, indo no sentido das Sete Quedas, do lado esquerdo do canal estava o país vizinho, o Paraguai. Acima estava o Mato Grosso do Sul. Nós caminhávamos, víamos a segunda ponte, que é aquela do fatídico acidente, falávamos das cachoeiras e assim por diante, até chegar ao que nós chamávamos, na época, de último salto, o Salto 14. [00:04:27] ENTREVISTADOR: E quando chegava no Salto 14, como é que você apresentava esse salto para as pessoas? NEI: Apresentava como o maior salto em quedas d’água. [00:04:39] [Interrupção técnica causada por ruído externo. A equipe interrompe e retoma a pergunta.] [00:05:39] ENTREVISTADOR: Vamos lá, então. Eu estou de frente para o Salto 14. Acabei de chegar em Guaíra. Você vai me apresentar ele? NEI: O Salto 14 era o maior em volume d’água, o maior em extensão, porque praticamente partia de um extremo a outro, chegando quase ao país vizinho, o Paraguai, já quase na divisa. E ele era intransponível a partir dali. Então ele era o último. Você não tinha como acessar mais lugar nenhum por ele. Era interessante: você tinha uma visão de frente, uma visão ampla, que pegava todo o ângulo. Depois fazia um contorno, uma pequena caminhada por dentro da mata, e conseguia pegar mais um canto dele. Então ele era o maior salto que compunha as Sete Quedas. [00:06:32] ENTREVISTADOR: E quando as pessoas chegavam nele, qual era a reação delas? NEI: De grande admiração, de impacto, porque era uma coisa fenomenal. Principalmente ele, porque era o que proporcionava o maior som, o maior barulho, pela sua extensão, pelo seu volume d’água. [00:06:55] ENTREVISTADOR: E qual é a primeira memória que você tem das Sete Quedas? NEI: A primeira memória... Como eu praticamente me criei lá dentro, é aquela memória de todo dia ser um fato novo, apesar de a gente ser criança. Você estava ali recebendo pessoas que vinham com a curiosidade de conhecer. E lá tinha uma pequena usina; essa usina fornecia, inclusive, energia elétrica gratuitamente para quem morava lá. Então era uma coisa interessante, porque nós não pagávamos luz. Tinha mais ou menos umas sete ou oito residências, alguns comércios e o restaurante onde eu fui trabalhar depois. Brincávamos lá também. Eu praticamente não tive infância, porque com sete anos já comecei a trabalhar, mas era gostoso. Todo dia ganhávamos presentes dos turistas. E era muito bom, porque financeiramente a gente era de uma renda inferior. Então, aproveitando essa questão da memória, um belo dia, por volta de 1969, chegaram quatro turistas jovens do Rio de Janeiro em um carro chamado Gordini — um carro que muita gente hoje nem sabe o que era. [00:08:39] [Pequena interrupção técnica. A equipe pede que a história seja retomada desde o início.] [00:09:28] ENTREVISTADOR: Nei, está rodando. Conta essa história dos turistas desde o começo, por favor. NEI: Perfeito. Um belo dia, nessa minha memória de criança, acho que por volta de 1969, chegaram quatro turistas jovens em um carro chamado Gordini, um carro que muita gente hoje não sabe o que era. Eles eram do Rio de Janeiro. Pediram para eu levá-los, e eu fui. Mostrei as Sete Quedas, contei toda a história, e eles ficaram encantados. Depois foram para o restaurante que tinha lá — naquela época eu ainda não trabalhava nesse restaurante —, almoçaram e, na hora de ir embora, eu não sei por qual razão, hoje não me lembro mais, eles tinham um cabrito, literalmente um cabritinho dentro do carro, e me deram de presente. Disseram: “Olha, nós não vamos levar”. Eu não sei por que estavam com aquele cabrito, mas me deram de presente. Eu fiquei feliz da vida, como criança. Levei para casa, cheguei para o meu pai e para a minha mãe, contei, e nós cuidamos do cabrito. [00:11:00] ENTREVISTADOR: Vamos falar mais um pouquinho. Qual era o seu lugar ou momento preferido nas Sete Quedas? NEI: Nas Sete Quedas nós ficávamos a postos onde tinha uma barragem, o canal. Logo abaixo do canal vinha um bosque, e nós ficávamos bem na ponta desse bosque, porque era uma disputa muito grande entre todos. Havia várias crianças e jovens adolescentes que trabalhavam levando turistas, e o fluxo era significativo, principalmente nos finais de semana. Então nós ficávamos a postos para pré-escolher. Naquele tempo, aparecia um carro como uma Veraneio, um Dodge Dart, um Galaxie; mais para frente vieram a TL e a Variant. Eram carros que, supostamente, eram de turistas mais afortunados. A gente prestava atenção nisso porque a gorjeta também era melhor. Nós não tínhamos uma tabela, não existia uma tabela; era tudo muito simples. A gente levava, fazia todo aquele trabalho de informação, de mostrar, de contar sobre os saltos, e na volta eles nos davam um cachê, que ficava a critério do turista. [00:12:29] ENTREVISTADOR: E como os sons das Sete Quedas acompanhavam a sua vida? O quanto eles eram importantes para você? NEI: Esses sons das Sete Quedas eram extremamente interessantes. Meu pai, por exemplo, plantava; nós tínhamos uma área ali mesmo onde plantávamos. Pelo som das Sete Quedas, naquela época, você sabia de que posição vinha a chuva, a tempestade. Enfim, vários fatores você conseguia perceber através do barulho das Sete Quedas. Era muito interessante. Na época, pela lua você também sabia o que fazer em termos de plantação. E outra coisa que nós poderíamos dizer era sobre o clima com as Sete Quedas. Nós tínhamos um inverno muito rigoroso em Guaíra, que não existe mais. Hoje nós temos dias de frio, mas não temos mais aquele inverno. No período das Sete Quedas, o inverno em Guaíra era rigoroso durante os três meses de inverno. [00:14:05] ENTREVISTADOR: E como era morar em um dos lugares mais bonitos do mundo? NEI: Era, volto a repetir, entusiasmante. A gente era criança e, apesar das dificuldades financeiras, todos nós que morávamos ali éramos muito felizes, alegres, porque sempre nos deparávamos com pessoas diferentes, conversando, e a gente acabava sendo um elo de ligação. Quando fui trabalhar no restaurante, ficou ainda mais entusiasmante, porque a gente atendia, contava histórias. Esse restaurante era especializado em peixe; não tínhamos outro cardápio, era tudo à base de peixe. Fazíamos vários pratos à base de peixe, todos capturados no Rio Paraná para atender os turistas. Era um fluxo de movimento muito grande. A gente estava sempre se deparando com novidades. Eu trabalhava de manhã no restaurante, almoçava, andava quatro quilômetros e meio até o Colégio Mendes Gonçalves para estudar, fazer o meu primário, voltava depois e trabalhava mais um período. Assim era. Eu fiz todo o meu primário e ainda um pedacinho do colegial indo e voltando dessa forma. Naquele tempo não tinha pavimentação, asfalto, sistema de transporte coletivo, nada. Você vinha a pé. [00:15:55] ENTREVISTADOR: Vou pular um pouquinho uma pergunta que estava mais para frente. Você falou dos peixes, da alimentação. Você foi premiado diversas vezes com o Pintado na Telha e com pratos de peixe. Me conta sobre esse prato, como você aprendeu, e depois a gente fala um pouco sobre como o descaso com o rio e com esses peixes prejudicou a culinária típica guairense. NEI: Perfeito. Vamos começar lá na base, quando a pesca era farta em Guaíra. Nesse restaurante em que eu trabalhei, e depois nas peixarias de Guaíra, havia muito peixe. Esse restaurante se chamava Restaurante do Salto e tinha peixaria também. Havia vários pescadores profissionais na época. Tem um fato curioso que é preciso contar historicamente. O seu Miguel, que era o proprietário do restaurante, recebia os pescadores. Eles perguntavam: “Seu Miguel, o senhor precisa de peixe hoje?”. Ele abria os freezers, e pela fartura de peixe dizia: “Bom, hoje você me traz só dourado e pintado, porque jaú, pacu e [nome de peixe pouco nítido] ainda tem bastante”. Para vocês terem uma ideia, isso é história que eu vivi, que acompanhei. Havia uma fartura muito grande de peixe. Depois, ainda continuou existindo uma quantidade razoável, mas, após o fechamento do lago, houve uma pesca predatória muito grande no início da formação do reservatório. E aí tivemos uma diminuição muito grande do pescado em Guaíra, principalmente dos chamados pescados nobres, como pintado e dourado. Foi um problema sério. Já não era mais aquela fartura, embora ainda houvesse uma quantidade significativa. Eu cresci, vim para o comércio de Guaíra e, na época em que participei do poder público, tive a ideia de criar o Pintado na Telha como prato típico de Guaíra. Inclusive, a lei é de minha autoria e foi sancionada pela gestão da época. Nós criamos o Pintado na Telha. Não era “peixe na telha”; era “Pintado na Telha”. Ocorre que, com o passar dos anos, esse peixe ficou bastante difícil de capturar no lago e no Rio Paraná, e esse prato acabou ficando um pouco esquecido. Mas ele ainda existe, ainda é servido em hotéis de Guaíra. Eu participei de vários concursos e tive a felicidade de, por várias vezes, ser campeão do Pintado na Telha. Depois vim para o comércio de eventos, onde também trabalhávamos com peixe. [00:19:17] ENTREVISTADOR: Vamos terminar só mais uma aqui e depois a gente dá uma pausa. Fala para mim sobre o turismo às vésperas do fim das Sete Quedas. NEI: O turismo no final das Sete Quedas foi uma loucura. Vamos usar essa expressão: foi uma loucura. Nessa época eu tinha um restaurante no Hotel Guarujá II. Era algo absurdo. Só para vocês terem uma ideia, a fila de ônibus para chegar às Sete Quedas vinha até a Igrejinha de Pedra; depois o pessoal ia a pé. Não tinha como colocar carro no pátio das Sete Quedas. No hotel, para se ter uma ideia, nós alugávamos até o escritório do diretor porque não tinha vaga. Nós tínhamos amizade com um hospital aqui de Guaíra, na época o Hospital Santa Rita. O médico era nosso amigo. Quando havia leito vago, chegaram a alugar leitos para turistas, porque não tinha mais acomodação. E isso num período em que Guaíra tinha vários hotéis, de categorias inferiores e superiores, restaurantes, churrascarias, enfim. Era tudo lotado. Eu atribuo o episódio da queda da ponte ao excesso de peso e à falta de cuidado e fiscalização, porque aquilo era uma loucura. Eram milhares de pessoas passando ao mesmo tempo por aquelas passarelas, por aquelas pontes. [00:21:08] [PAUSA TÉCNICA] [00:21:20] ENTREVISTADOR: Então, talvez um dos dias mais tristes que você tenha vivido ali nas Sete Quedas. Onde você estava quando soube do acidente na ponte? E quando você chegou lá, o que encontrou? NEI: Nesse fatídico acidente, eu estava exatamente no hotel onde tinha o restaurante. Como eu estava dizendo, havia muita gente visitando Guaíra. Eu tinha acabado de construir uma casa e a havia alugado para dois casais do interior de São Paulo, porque o hotel estava lotado. Eu os hospedei nessa casa. De manhã, eles foram tomar o café e seguiram para as Sete Quedas. Por volta das nove, nove e pouco da manhã, veio a triste notícia. Nesse momento, eu fui, juntamente com mais algumas pessoas, me deslocando rapidamente. Cheguei ao local do acidente em torno de quarenta a quarenta e cinco minutos depois. Ainda havia pessoas penduradas, gritos, pessoas ilhadas do outro lado e muita gente do lado que poderíamos chamar de continente. Foi uma coisa absurda. Todo mundo em pavor, desesperado, gritos, choro, e você vendo as pessoas. Muitos já tinham sido levados pela corredeira. O João Lima Moraes, o popular João Mandi, estava ali e teve um papel importante no auxílio ao resgate, de onde ele estava, ali nas pedras. Foi uma coisa terrível, terrível. [00:23:22] ENTREVISTADOR: E me conta como foi o dia seguinte ao acidente. As pessoas ligando, tentando entrar em contato com familiares, poucos orelhões, poucos telefones, hotéis... Como foi essa confusão? NEI: Naquele tempo só existiam fax e telefone fixo. Inclusive no hotel. No Hotel Guarujá II foi montada toda a estrutura de jornalismo do Brasil. Foi ali que vieram as televisões da época, O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo, pessoal de Londrina, enfim, jornais escritos, falados, televisionados, tudo. Ali foi a central. Só que demorava para você passar a matéria. Por exemplo, você mandava uma matéria de manhã para ser exibida só à noite. Ali foi toda a central de divulgação. Foi uma tragédia que tomou proporção mundial. Guaíra ficou estarrecida, ficou de luto. Começaram a chegar familiares, e havia familiares que não tinham contato, porque a comunicação era difícil. Na época, não se sabia ao certo, mas o número oficial de mortos foi 32. [00:24:47] ENTREVISTADOR: Você participou da homenagem final, quando os indigentes foram enterrados no cemitério? Você estava lá ou soube como foi esse momento? NEI: Exatamente nesse dia, não. Mas, na época, eu já tinha uma ligação forte com o comércio de Guaíra e conhecia o secretário responsável pela pasta. Fui até ele. Como nós não tínhamos aqui na cidade estrutura para fazer reconhecimento dos corpos, autópsia e tudo aquilo, eu pedi a ele para entrar no cemitério e ver. Foi um momento que me marcou muito, porque eu contei: havia 19 corpos, todos colocados de maneira rudimentar, esperando vir de fora a Polícia Científica para fazer a autópsia. Naquele momento havia 19 corpos ali. Posteriormente, a grande maioria foi levada, após a identificação, por seus familiares. E, se não me falha a memória, dois ou três foram enterrados como indigentes, porque não apareceu familiar, não apareceu ninguém. [00:26:08] ENTREVISTADOR: E como foi essa busca pelos corpos, que durou quase um mês? NEI: A busca foi extremamente difícil, pelo fato de ser um canal de grande volume d’água e de corredeira muito forte. Isso foi levando os corpos. Houve corpos encontrados a cem quilômetros daqui, rio abaixo. Muitos ficaram enroscados também nas grotas de pedra. Por isso, até hoje, não se tem literalmente a certeza de que foram só 32 mortos. Foi uma coisa muito triste. Houve corpos retirados da água vários dias depois, em um estado que dificultava até a identificação. [00:26:59] [AJUSTE TÉCNICO E NOVO CORTE DE CÂMERA] [00:27:17] ENTREVISTADOR: Vamos voltar ao acidente da ponte, último assunto. Toda essa tragédia aconteceu e alguém tentou colocar a culpa sobre uma pessoa, sobre [nome pouco nítido na gravação]. Você pode me contar como foi essa tentativa? NEI: Com relação a esse fato, que foi atribuído ao Pedimar Porã, que era indígena: ele não era uma pessoa muito antiga ali, mas eu o conheci, conversávamos pouco, como todos conversavam. Na minha opinião — e é só uma opinião pessoal — precisavam arrumar um bode expiatório para alguma coisa. Eu não acredito jamais que ele faria isso, até porque ele era zelador, cuidava dali, estava sempre, vamos dizer assim, vigilante dentro do pátio das Sete Quedas, de todo o complexo. Então eu atribuo isso à criação de um bode expiatório. Estávamos vivendo um momento em que não deram importância para ninguém para acabar com as Sete Quedas. Quando veio essa tragédia, precisavam atribuir a alguém. A formação do lago foi no mesmo ano. Então atribuíram isso a ele. Essa é a minha opinião. [00:29:01] ENTREVISTADOR: Você pode repetir só essa frase? “Eles criaram um bode expiatório.” NEI: Eles criaram um bode expiatório. [00:29:09] ENTREVISTADOR: Vamos fazer uma comparação que eu sei que você gosta de fazer: Sete Quedas e Cataratas do Iguaçu. NEI: Com relação a essa comparação, eu gostaria de fazer um adendo. A natureza foi perfeita. Ela criou duas belezas, eu diria, na mesma direção. O homem, dentro do seu processo de transformação, quis, na sua preponderância, fazer a maior usina do mundo e, para isso, teve que sacrificar uma dessas maravilhas da natureza. Eu conheci as Sete Quedas desde criança, vivi dentro delas. Tive também, ainda bem jovem, a experiência de conhecer as Cataratas do Iguaçu e depois estive lá outras vezes. Na minha visão, as Cataratas do Iguaçu eram bonitas — e são bonitas até hoje; é um dos locais mais visitados do mundo —, só que elas têm uma visão panorâmica praticamente única. Você chega pelo lado brasileiro — elas também podem ser visitadas pelo lado argentino — e tem aquela visão. As Sete Quedas, não. Nas Sete Quedas você cansava. Tinha que fazer aquela enorme caminhada de dois quilômetros e meio e, para cada lado que olhava, tinha uma cachoeira, tinha uma queda, tinha todo o esplendor da natureza ao longo daquele processo de caminhada. Então, para mim, as Sete Quedas eram extremamente superiores às Cataratas do Iguaçu. [00:31:04] ENTREVISTADOR: Vamos começar a falar um pouquinho da despedida. Como foi quando você soube que as Sete Quedas iam acabar? As pessoas acreditaram de começo? Como foi essa notícia? NEI: Eu quero voltar um pouquinho, bem no início. Quando se falou da construção da Usina de Itaipu, que formaria o lago e deixaria as Sete Quedas submersas, eu ainda era criança. Meu pai era operário lá dentro, fazia parte de um órgão do governo ligado ao que hoje vem a ser a nossa Copel. Ele era funcionário dessa empresa, chamada Minas e Energia. Sendo operário, meu pai acompanhou os engenheiros e técnicos, carregando aparelhos de topografia, quando começaram a fazer as demarcações. Eles iam em vários pontos, subindo desde Foz do Iguaçu até Guaíra. Colocavam uma marca metálica, de bronze, que indicava a graduação, a cota que a água atingiria. Eu lembro que, apesar de ser criança, ouvia os mais velhos comentarem que jamais o homem teria capacidade de acabar com uma beleza daquela. Que não teria. Bom, erramos. Guaíra talvez tenha pecado, o sistema pecou e, como nós vivíamos um sistema, vamos dizer assim, de exceção, não tinha para quem apelar. Nós esperamos o fatídico dia. Foram feitas as marcações da cota 220 e, por incrível que pareça, o lago chegou exatamente ali. Nessa altura eu já era adulto, já estava na vida pública e conseguimos constatar. Para nós foi um choque, um luto total. Guaíra, do dia para a noite, paralisou. Ficou totalmente enlutada. Vou dar um exemplo: eu tinha restaurante no hotel, onde servíamos 50, 60, 70, 100 refeições por dia, mais o café da manhã. A partir do outro dia, você não tinha mais nada. Foi fechando tudo. Os hotéis de Guaíra foram fechando, os restaurantes foram fechando. Para se ter uma ideia, juntamente com o diretor do hotel, começamos a doar parte das louças e objetos do hotel, porque não tinha mais porquê. Paralisou. Isso ficou durante vários anos. Foram anos de total ostracismo econômico em Guaíra, porque perdemos a nossa fonte. Foi aí que veio a grande promessa. Na época, engenheiros e técnicos das Centrais Elétricas do Sul do Brasil, a Eletrosul, diziam que aqui seria construído o Complexo de Ilha Grande, acompanhado de ferrovia, rodovia e hidrelétrica. Teríamos uma usina para fazer a contenção dos dejetos de Itaipu Binacional, teríamos ferrovia, rodovia e hidrelétrica. Diziam que Guaíra jamais iria se lembrar das Sete Quedas. De certa maneira, diante do quadro que estávamos vivendo, quase aceitamos e acreditamos nessa ideia. Só que tudo sucumbiu e nada aconteceu. Chegou em 1989, 1990, e simplesmente o governo da época disse: “Está cancelado”. Não se faria mais nada. [00:35:23] ENTREVISTADOR: E quando elas foram sendo inundadas? Foi muito rápido, mas, ao mesmo tempo, pouco a pouco dava para ver a água subindo. Qual era a sensação? NEI: Demorou vários dias, várias semanas. Era uma sensação terrível, principalmente para quem não acreditava que aquilo aconteceria e estava vendo acontecer. Muita gente de Guaíra foi lá, os mais antigos também. Eu tive a oportunidade de ir até quando a água já estava chegando a um determinado ponto. Você via que o canal em si, o canal-base, o que nós chamávamos popularmente de canal, já estava totalmente nivelado. As quedas começaram a diminuir. Começou ali pela queda da ponte, que era praticamente a primeira de cima para baixo. A água começou a subir, e você via que a queda já era bem menor. E não tinha para quem reclamar. Não tinha. O fato estava consumado. [00:36:44] ENTREVISTADOR: E como foi dormir sem o som das Sete Quedas? NEI: Volto a repetir: nós ficamos totalmente à deriva, ficamos de luto, sem saber o que fazer. Não querendo me vitimizar, mas eu, de empresário, fui trabalhar como empregado, de porteiro no hotel, porque não tinha mais o que fazer. Esse foi o meu caso, e muitos foram embora. Muitos empresários deixaram suas propriedades e foram para outras regiões. Teve gente que foi para Mato Grosso, Rondônia, Curitiba, enfim. Foram deixando Guaíra porque não havia alternativa. A própria imprensa chegou a dizer que nós tínhamos nos tornado uma cidade fantasma em determinado período. [00:37:39] ENTREVISTADOR: Me fala mais sobre essa “cidade fantasma”. Como era Guaíra? Como era essa sensação de que aqui tinha, de fato, virado uma cidade fantasma? NEI: A cidade fantasma vem já com a questão da não construção do Complexo de Ilha Grande. Nós havíamos perdido a maior fonte de renda, a maior indústria propulsora da economia local. Aí nos prometeram um grande polo com esse complexo. Tanto é que fizeram mil e poucas casas em Guaíra para acomodar as pessoas e empresas que viriam construir a usina, a ferrovia e a rodovia, fazendo a transposição do Rio Paraná para o Mato Grosso do Sul. E isso não aconteceu. Ali foi o desastre total, porque era gente abandonando, gente indo embora. Aquele grupo de pessoas que veio para Guaíra tinha dado certo fomento à economia guairense. Os hotéis já haviam retomado um pouco daquilo que era possível fazer. E, a partir do momento em que foi decretado o cancelamento da obra do Complexo de Ilha Grande, foi quando a grande imprensa passou a chamar Guaíra de cidade fantasma. [00:39:12] ENTREVISTADOR: Antes de a gente ir para outra pergunta, queria que você falasse sobre o que sente em relação aos últimos anos em Guaíra. Você sente alguma espécie de redescobrimento, de renascimento da cidade? Compara essa Guaíra “cidade fantasma” com a Guaíra de hoje e com a forma como ela tenta se projetar para o futuro. NEI: Eu diria que Guaíra, nos últimos 20, 25 anos, saiu desse luto que viveu, saiu desse ostracismo econômico pelo qual passou. Através de diálogo e de um novo olhar, por meio de todos os setores da sociedade organizada de Guaíra — ainda que de maneira incipiente na indústria, no comércio — começou a encontrar novos caminhos. Veio a questão do comércio com o país vizinho, o Paraguai, o comércio de importados, e gestões que começaram a ter uma visão de não apenas reclamar, mas buscar alternativas junto ao governo estadual e ao governo federal para colocar Guaíra como uma cidade importante. Porque é importante dizer: Guaíra é um dos grandes polos de passagem entre o Norte e o Sul do país. Quem sai do Sul para atingir o Norte do Brasil passa por Guaíra. Foi aí que o comércio começou a se redistribuir e aumentar, a parte hoteleira melhorou, a gastronomia começou também a ganhar uma dimensão melhor e, sem dúvida, a conclusão da ponte sobre o Rio Paraná, substituindo a travessia por balsa, incrementou bastante isso. Eu diria que Guaíra vive uma nova fase, uma fase boa, principalmente agora, buscando o turismo de pesca esportiva, o turismo de aventura. A própria cultura está se levantando, se redescobrindo e colocando projetos em prática. Tivemos também, ainda que de forma acanhada, uma boa recompensa com um percentual maior dos royalties por parte de Itaipu. [00:42:03] ENTREVISTADOR: Então essa vai ser a nossa última pergunta. Conta para mim desde o início: como foi a distribuição dos royalties? Ela foi justa? Foi pouco benéfica para Guaíra até os dias de hoje? NEI: Muito bem. Quando se formou o Lago de Itaipu Binacional, através de todo o seu corpo jurídico e técnico, estabeleceu-se que as indenizações seriam baseadas nos metros quadrados de área inundada e nas benfeitorias que havia em cada propriedade e em cada cidade. Acontece que a cidade de Guaíra está exatamente no último ponto do alagamento, no último extremo. Então, a área em metros quadrados inundada aqui foi a menor. Sem dúvida alguma, foi a menor. No entanto, inundou-se a maior fonte de renda da cidade e uma das maiores belezas do mundo. Isso não foi levado em consideração. Por outro lado, a própria política local, regional e nacional não se ateve, não teve compromisso com Guaíra para fazer um questionamento junto à Itaipu Binacional, no sentido de que isso já tivesse sido considerado no momento da indenização e dos aportes destinados à cidade. Como isso não aconteceu, Guaíra ficou com um dos menores percentuais de royalties, um dos menores valores mensais em dinheiro. Como era cotado em dólar, o nosso percentual em dólar foi um dos menores. Houve lugares em que cidades tiveram áreas maiores submersas e recebiam cinco, seis, dez vezes mais do que nós, por causa desse critério de metros quadrados de área inundada. Aí houve demandas através da política local, juntamente com o governo do Estado, deputados e senadores, no sentido de reverter isso. Numa primeira etapa, levou acho que uns 15 anos e não aconteceu nada. Falava-se, discutia-se, até que, depois de muitos anos de briga, saiu alguma coisa — usando essa expressão —, mas ainda era muito pouco. Por fim, houve um projeto de uma pessoa que jamais podemos esquecer, que teve um papel importante: o então deputado Osmar Serraglio. Ele teve um projeto muito importante e, juntamente com a última gestão do prefeito Eraldo, conseguiram conscientizar os senadores da República e boa parcela dos deputados federais de que havia uma grande injustiça com o município de Guaíra, e que não era possível continuarmos de mãos cruzadas sem fazer nada. Se não me engano, dos 81 senadores, 70 votaram favoravelmente à proposição para o município de Guaíra. Jamais nada vai compensar a perda das Sete Quedas, na minha opinião. Jamais. Mas, pelo menos, é um alívio para a nossa infraestrutura local, para podermos prestar um bom atendimento à comunidade de Guaíra com esse percentual de royalties. [00:45:57] ENTREVISTADOR: Que maravilha. [CORTE / AJUSTE TÉCNICO] ──────────────────────────────────────── SEGUNDA PARTE — MEMÓRIAS A PARTIR DE FOTOGRAFIAS E RECORTES ──────────────────────────────────────── [00:46:04] ENTREVISTADOR: Você pode relaxar um pouquinho mais com a caixinha. Se estiver desconfortável, pode colocar na sua perna. Fica tranquilo. Você vai abrir a caixinha e vão ter algumas memórias, algumas coisinhas aí. Pega uma por uma e vai comentando. Quando quiser comentar, comenta; quando quiser só olhar, pode só olhar. Pode abrir. [00:46:32] NEI: Legal. Essa foto aqui já é de quando estávamos no finalzinho. Eu fiz questão de ir lá, porque as Sete Quedas estavam para terminar. E hoje essa foto é uma lembrança que ninguém mais vai poder ver daquele jeito. [00:46:56] ENTREVISTADOR: Pode olhar para você e, quando quiser, mostrar para a câmera ali atrás. [00:47:02] NEI: Eu fiz um comentário na época. Aqui ficou bem característica a palavra “ADEUS”, como uma despedida. E a pessoa que escreveu esse “adeus” deixou dois pingos de tinta que, para mim, representam duas lágrimas. Eu fiz esse comentário na época e agora é interessante trazer isso à memória. [00:47:36] ENTREVISTADOR: Pode continuar olhando para você mesmo. Assim está ótimo. [00:47:47] NEI: Aqui já é uma cena que nos demonstra tristeza. Mostra a tristeza de saber que hoje não temos mais isso, não existe mais a possibilidade de estarmos lá, naquele lugar onde a gente esteve. E assim vão vindo as memórias com essas fotos. Da mesma forma aqui: era um pedaço das Sete Quedas em que eu fazia essa caminhada três, quatro vezes por dia, levando turistas. Hoje só vem a memória. Sem dúvida alguma, isso nos deixa emocionados. Aqui está o canal também. Não tem como não se emocionar de lembrar que a gente vivenciou isso. Era o nosso caminho de casa, era o nosso pátio de casa. Essa foto aqui já nos traz uma certa indignação. Eu acompanhei também toda a construção dessas torres, que eram torres de transmissão para atingir o Mato Grosso do Sul. Isso nos deixa uma certa indignação porque, em função da construção daquilo que se dizia necessário, que precisava ser feito para o desenvolvimento econômico, social e industrial do Brasil, nós tivemos que perder essa beleza. Aqui também é uma foto aérea que dá uma dimensão das Sete Quedas. Eu já vi vários quadros assim e presenciei aquilo. Nesta foto aérea, todo esse percurso eu fazia caminhando com os turistas, passo a passo, para chegar do início ao final. [00:50:18] NEI: E aqui está aquilo que comentamos anteriormente, a loucura que se tornou o final das Sete Quedas. Estou com uma foto que representa exatamente a ponte do fatídico acidente de 17 de janeiro de 1982. [00:50:49] ENTREVISTADOR: Dá só uma leve viradinha na foto para a câmera. NEI: Essa foto demonstra aquilo que eu falei sobre a loucura que foi o final. Acho que todo mundo queria conhecer as Sete Quedas ainda vivas. Quem já conhecia voltou para ver pela última vez. Era uma loucura. Aqui ainda temos a presença da antiga ponte do fatídico acidente que nós presenciamos, vivenciamos, sofremos. Aqui, mais um dos saltos das Sete Quedas que vêm à memória. A própria foto representa a neblina que se formava. Você tomava uma chuva ao chegar perto, porque a gente conseguia chegar muito próximo da queda. [00:51:58] NEI: E aqui eu tenho mais um saudosismo triste para lembrar. Essa foto representa uma das grandes vivências da minha infância. Um belo dia fui levar um casal de turistas. O marido era de origem japonesa. Eles chegaram à tarde, já no final da tarde, e eu disse: “Agora é impossível, porque não tem iluminação. Marcamos para amanhã cedo para visitar as Sete Quedas”. Eles estavam em lua de mel. Ele gostava muito de fotografia, estava com uma máquina profissional. Quando nós descemos para ele fotografar, em determinado momento ele entregou a máquina para a esposa e escorregou. Foi levado pelas águas. Eu, ainda criança, com oito ou nove anos de idade, presenciei as Sete Quedas engolindo aquele homem exatamente neste lugar da foto. Foi uma coisa que marcou muito a minha vida. Chamamos os guardas, chamamos as pessoas. Eu nem sei dizer se ele foi encontrado, porque ali era um turbilhão de água. Era algo terrível. [00:53:44] NEI: Aqui está o ângulo da ponte. Era uma ponte que balançava, e muita gente tinha mania de subir nela e balançar. Havia também muita gente que sentia medo ao atravessar. Vamos ver mais aqui. [00:54:21] NEI: Aqui, se não me falha a memória, estou vendo uma foto do lado paraguaio. Exatamente aqui nós tínhamos a confluência, o canal, o Grande Canal. Do outro lado havia uma visão menor, naturalmente, mas o país vizinho, o Paraguai, e a comunidade de Salto del Guairá conseguiam ter uma vista parcial das Sete Quedas. Aqui, outra bela visão de um salto. Era um mais lindo que o outro. Se formos falar, não tem como fazer diferenciação entre um e outro. Aqui, tudo indica que estava num período de cheia, porque está bastante avolumado. [00:55:24] NEI: E assim vamos passando pela sequência de fotos das Sete Quedas. Esse aqui era o chamado “Saltinho”. Havia essa ponte, que fazia a ligação com uma das maiores ilhas que compunham as Sete Quedas. Naturalmente, praticamente todo o percurso era feito por pontes e passarelas. Era uma ilha bem grande. Depois dela havia outra ponte. Para ir ao Salto 14, que era o último salto, ainda tínhamos mais duas pontes. Então esse aqui é o famoso Saltinho. Na parte de cima dessa ponte havia um ponto que nós chamávamos de remanso. Era uma parte em que muita gente tomava banho, fazia piquenique. [00:56:37] ENTREVISTADOR: Pode continuar. Quando quiser comentar, comenta; quando não quiser, pode só olhar. Dá só uma viradinha um pouquinho para cá. Isso, está ótimo. [00:56:49] NEI: Aqui é mais uma ponte. Era a penúltima ponte, que fazia a travessia entre a ilha que acabei de citar e o trecho final. Tinha mais uma ponte, um canal, e depois chegávamos ao Salto 14, o último salto do Complexo de Sete Quedas. Aqui também, mais uma vista da ponte. Aqui nós temos as pontes. [00:57:31] NEI: E aqui eu volto a frisar: esse é, sem dúvida alguma, o salto mais bonito. Era o mais volumoso, onde aconteceu aquela tragédia que citei. A gente conseguia chegar muito perto. Como não havia tanta sinalização nem fiscalização, os turistas aproveitavam ao máximo. Pela força da água, formava-se aquela cascata, aquela névoa de água em cima do pessoal. Então esse era o salto mais volumoso. [00:58:11] NEI: Aqui vamos ver. Esse é um recorte. [00:58:14] [PAUSA TÉCNICA PARA TROCA DE BATERIA E AJUSTE DA POSIÇÃO DO MATERIAL] [00:58:41] ENTREVISTADOR: Podemos seguir na ordem em que você estava. [00:58:46] NEI: Aqui estamos com um recorte de jornal, provavelmente da época, cujo texto diz: “Último dia de visitação de Sete Quedas: 40 mil pessoas formaram fila de quilômetros para atingir Sete Quedas”. Quer dizer, aquilo que nós já comentamos é fato: isso aconteceu. Lembrando que, nesse episódio, a ponte já tinha sido reconstruída. Por incrível que pareça, depois de toda a tragédia que aconteceu e já no período final das Sete Quedas, ainda reconstruíram a ponte e ela foi aproveitada por alguns meses. A tragédia foi em janeiro e o lago se formou, se não me falha a memória, entre setembro e outubro. Isso aqui condiz com a realidade daquela época. [00:59:45] NEI: Essa aqui é bem icônica. É também uma foto aérea. Ela pega todo o dorso do canal e as cachoeiras. É bem interessante. Aqui, mais uma vez, aparece aquilo que eu sempre falava e explicava aos turistas: o salto mais bonito, o salto mais imponente das Sete Quedas. Nesta foto ele está numa dimensão um pouco diferente, mais alongada. [01:00:38] NEI: Aqui, mais uma vez, nós temos a ponte que fazia a travessia entre a ilha e o penúltimo espaço para chegar até o Salto 14. Ali nós já tínhamos o canal, um canal mestre. Nós tivemos algumas frases de efeito na época, mas já não surtiam efeito prático. Não conseguiam mais reverter o que já estava estabelecido. [01:01:35] NEI: Aqui diz: “Destruir Sete Quedas é crime, diz prefeito”. Eu costumo dizer que tudo o que vou falar é opinião minha, mas tem uma concepção coletiva. Na época, boa parte da comunidade atribuiu muita culpa ao gestor do município. Mas, na minha opinião, o gestor da época não tinha culpa. Ele era empregado do patrão, tinha que cumprir o que vinha de cima. Talvez seja injusto atribuir a ele a culpa pelo fim. Eu acho que isso não condiz com a verdade, porque o sistema vinha de cima e dizia: “Nós vamos construir uma usina; para construir uma usina, precisamos sufocar as Sete Quedas”. Ele simplesmente cumpriu. Ficou 21 anos no poder como gestor do município, como empregado do governo federal. [01:02:46] NEI: E aqui a frase diz o seguinte: “Figueiredo: é uma pena”. Não vou ler o texto porque não há necessidade. Eu estava ali quando ele e sua comitiva saíram em um Galaxie. Ele deu uma passada muito rápida pelas Sete Quedas. Eu estava muito próximo, junto com outras pessoas, acenando para ele parar, para a gente perguntar, mas ele não parou. Ele simplesmente foi embora. Fez um contorno pelas Sete Quedas, acompanhado por segurança e várias viaturas atrás. Várias pessoas gritavam: “Pare! Pare! Queremos perguntar...”, mas ele não parou. E aqui está a frase: “É uma pena”. É muito pouco para aquilo tudo. [01:03:43] NEI: Aqui eu acredito que sejam autoridades. A imagem está um pouco ofuscada. ENTREVISTADOR: O próprio Figueiredo. NEI: Sim. Mas o relato que fiz é esse: quando ele estava dentro do carro, todo mundo pediu para ele parar e ele não parou. [01:04:12] NEI: E aqui é aquilo que eu disse na entrevista anterior: quando começou a se formar o lago, realmente só havia o que lamentar, sofrer e sentir todo esse episódio. Aqui nós já temos praticamente uma dimensão do lago. Provavelmente há uma numeração indicando onde ficavam partes geográficas das Sete Quedas. Essas fotos aqui eu vou passando, porque já retratam o complexo e nós já falamos bastante sobre as Sete Quedas. Aqui, da mesma forma, é mais uma dimensão de uma das quedas d’água. [01:06:06] NEI: E aqui, essa foto com essa imensidão humana e esse amontoado de ônibus, veículos, Kombis e vans retrata bem aquilo que eu falei há pouco. Foi uma verdadeira enxurrada humana, vamos dizer assim. Era muita gente, muita gente. A foto retrata pessoas descendo a pé para chegar às Sete Quedas, porque já não havia como entrar com os veículos. Foi realmente uma loucura. [01:06:56] NEI: Aqui já é uma foto que retrata o período com pavimentação asfáltica, já no final, nos últimos anos de visitação. Até então era estrada de chão. Essa torre de energia me traz uma lembrança. Ela ficava muito próxima da casa onde eu morei, uns quinhentos, seiscentos metros. A minha casa ficava aqui do lado direito. Essa torre está no continente; não está em uma ilha, porque algumas ficaram em ilhas. [01:07:51] NEI: E, para fecharmos, quero agradecer a todos por essa surpresa. A gente sente muito. Aqui está mais uma visão de uma das cachoeiras das Sete Quedas, compondo todo aquele complexo maravilhoso. Aquilo que jamais, jamais o homem poderia ter feito. Mas, infelizmente, não sei se podemos dizer que, pelo progresso, a gente tem que sacrificar. Talvez essa fosse a visão da época daqueles que detinham o poder. [01:08:25] ENTREVISTADOR: Maravilha. Corta, gente. [FIM DA ENTREVISTA]

ENTREVISTA #11
Paulínia
É uma das principais vozes guaranis na região de Guaíra e Terra Roxa; Tem uma enorme capacidade de expressão, mesmo em Português – assim como Dirce, suas falas, muitas vezes, parecem poemas.
ENTREVISTA #12
Celso Japoty Alves
É uma das lideranças guaranis ascendentes do Oeste do Paraná. Celso é oriundo do território indígena Ocoy Jacutingá, que foi criado após a forma ção do Lago de Itaipu e a inundação de diversos outros territórios guaranis.

Transcrição da entrevista completa [00:00:00] EQUIPE: Preparação das câmeras A e B e início da gravação. [00:00:18] ENTREVISTADOR: Nei, vamos começar falando um pouquinho da sua infância. Como foi a sua infância nas Sete Quedas? NEI: A minha infância nas Sete Quedas foi, sem dúvida alguma, uma experiência maravilhosa, porque nós vivíamos em função das Sete Quedas desde garotos, desde crianças. Eu, meus irmãos, minhas irmãs, meu pai, nós vivíamos e tínhamos o porquê. Na verdade, Sete Quedas era a grande indústria sem chaminés que nós tínhamos em Guaíra. [00:00:59] ENTREVISTADOR: E como é que foi? Você começou a trabalhar lá muito cedo. Me conta um pouco desse trabalho, desde criancinha. NEI: Sim, eu comecei nas Sete Quedas muito cedo, em torno de sete anos de idade. Eu já comecei a lavar carros. Depois, chegando próximo dos nove até os onze anos, eu levava turistas nas Sete Quedas, até que fui convidado pelo único restaurante que tinha lá para ser garçom. Naquele tempo, eu já fui trabalhar como funcionário. Meu pai era operário da usina; tinha uma pequena usina hidrelétrica lá. Meu pai era operário, e eu e a minha irmã, mais velha que eu, vendíamos souvenirs, lembranças das Sete Quedas, tudo o que tinha como tema as Sete Quedas. Então nós vivíamos literalmente das Sete Quedas. [00:02:07] ENTREVISTADOR: E como é que eram elas, sentimentalmente? Como era estar naquele lugar? NEI: Todos os turistas que vinham e que a gente acompanhava — como os demais colegas que acompanhavam os turistas — tinham aquele impacto, uma emoção muito grande. Porque as Sete Quedas tinham um trajeto de dois quilômetros e meio, onde você passava por pontes, passarelas, ilhas, até chegar do início ao final. Então, a cada ângulo de visão era uma emoção, porque era uma cachoeira muito forte, muito emocionante. Aquela brisa, o barulho, o estrondo... Para nós que vivíamos ali, o dia a dia tinha essa mesma impressão, essa emoção de viver ali, porque era encantador para quem visitava as Sete Quedas e via toda aquela beleza natural que nós tínhamos. [00:03:15] ENTREVISTADOR: Faz de conta que eu sou um turista, vim de longe, acabei de chegar em Guaíra, não sei nada sobre as Sete Quedas e caí com você para você me guiar. O que você vai falar para mim? NEI: Primeiramente, a gente sempre se identificava, porque nós tivemos, ainda que de forma bastante rudimentar, algumas orientações de pessoas mais experientes, do pessoal ligado ao turismo. O seu Ernesto Mann era uma pessoa muito ligada ao turismo de Guaíra. Então nós nos apresentávamos e acompanhávamos o turista dizendo: “Olha, aqui, a primeira ponte era uma ponte de ferro”. Nós mostrávamos que, indo no sentido das Sete Quedas, do lado esquerdo do canal estava o país vizinho, o Paraguai. Acima estava o Mato Grosso do Sul. Nós caminhávamos, víamos a segunda ponte, que é aquela do fatídico acidente, falávamos das cachoeiras e assim por diante, até chegar ao que nós chamávamos, na época, de último salto, o Salto 14. [00:04:27] ENTREVISTADOR: E quando chegava no Salto 14, como é que você apresentava esse salto para as pessoas? NEI: Apresentava como o maior salto em quedas d’água. [00:04:39] [Interrupção técnica causada por ruído externo. A equipe interrompe e retoma a pergunta.] [00:05:39] ENTREVISTADOR: Vamos lá, então. Eu estou de frente para o Salto 14. Acabei de chegar em Guaíra. Você vai me apresentar ele? NEI: O Salto 14 era o maior em volume d’água, o maior em extensão, porque praticamente partia de um extremo a outro, chegando quase ao país vizinho, o Paraguai, já quase na divisa. E ele era intransponível a partir dali. Então ele era o último. Você não tinha como acessar mais lugar nenhum por ele. Era interessante: você tinha uma visão de frente, uma visão ampla, que pegava todo o ângulo. Depois fazia um contorno, uma pequena caminhada por dentro da mata, e conseguia pegar mais um canto dele. Então ele era o maior salto que compunha as Sete Quedas. [00:06:32] ENTREVISTADOR: E quando as pessoas chegavam nele, qual era a reação delas? NEI: De grande admiração, de impacto, porque era uma coisa fenomenal. Principalmente ele, porque era o que proporcionava o maior som, o maior barulho, pela sua extensão, pelo seu volume d’água. [00:06:55] ENTREVISTADOR: E qual é a primeira memória que você tem das Sete Quedas? NEI: A primeira memória... Como eu praticamente me criei lá dentro, é aquela memória de todo dia ser um fato novo, apesar de a gente ser criança. Você estava ali recebendo pessoas que vinham com a curiosidade de conhecer. E lá tinha uma pequena usina; essa usina fornecia, inclusive, energia elétrica gratuitamente para quem morava lá. Então era uma coisa interessante, porque nós não pagávamos luz. Tinha mais ou menos umas sete ou oito residências, alguns comércios e o restaurante onde eu fui trabalhar depois. Brincávamos lá também. Eu praticamente não tive infância, porque com sete anos já comecei a trabalhar, mas era gostoso. Todo dia ganhávamos presentes dos turistas. E era muito bom, porque financeiramente a gente era de uma renda inferior. Então, aproveitando essa questão da memória, um belo dia, por volta de 1969, chegaram quatro turistas jovens do Rio de Janeiro em um carro chamado Gordini — um carro que muita gente hoje nem sabe o que era. [00:08:39] [Pequena interrupção técnica. A equipe pede que a história seja retomada desde o início.] [00:09:28] ENTREVISTADOR: Nei, está rodando. Conta essa história dos turistas desde o começo, por favor. NEI: Perfeito. Um belo dia, nessa minha memória de criança, acho que por volta de 1969, chegaram quatro turistas jovens em um carro chamado Gordini, um carro que muita gente hoje não sabe o que era. Eles eram do Rio de Janeiro. Pediram para eu levá-los, e eu fui. Mostrei as Sete Quedas, contei toda a história, e eles ficaram encantados. Depois foram para o restaurante que tinha lá — naquela época eu ainda não trabalhava nesse restaurante —, almoçaram e, na hora de ir embora, eu não sei por qual razão, hoje não me lembro mais, eles tinham um cabrito, literalmente um cabritinho dentro do carro, e me deram de presente. Disseram: “Olha, nós não vamos levar”. Eu não sei por que estavam com aquele cabrito, mas me deram de presente. Eu fiquei feliz da vida, como criança. Levei para casa, cheguei para o meu pai e para a minha mãe, contei, e nós cuidamos do cabrito. [00:11:00] ENTREVISTADOR: Vamos falar mais um pouquinho. Qual era o seu lugar ou momento preferido nas Sete Quedas? NEI: Nas Sete Quedas nós ficávamos a postos onde tinha uma barragem, o canal. Logo abaixo do canal vinha um bosque, e nós ficávamos bem na ponta desse bosque, porque era uma disputa muito grande entre todos. Havia várias crianças e jovens adolescentes que trabalhavam levando turistas, e o fluxo era significativo, principalmente nos finais de semana. Então nós ficávamos a postos para pré-escolher. Naquele tempo, aparecia um carro como uma Veraneio, um Dodge Dart, um Galaxie; mais para frente vieram a TL e a Variant. Eram carros que, supostamente, eram de turistas mais afortunados. A gente prestava atenção nisso porque a gorjeta também era melhor. Nós não tínhamos uma tabela, não existia uma tabela; era tudo muito simples. A gente levava, fazia todo aquele trabalho de informação, de mostrar, de contar sobre os saltos, e na volta eles nos davam um cachê, que ficava a critério do turista. [00:12:29] ENTREVISTADOR: E como os sons das Sete Quedas acompanhavam a sua vida? O quanto eles eram importantes para você? NEI: Esses sons das Sete Quedas eram extremamente interessantes. Meu pai, por exemplo, plantava; nós tínhamos uma área ali mesmo onde plantávamos. Pelo som das Sete Quedas, naquela época, você sabia de que posição vinha a chuva, a tempestade. Enfim, vários fatores você conseguia perceber através do barulho das Sete Quedas. Era muito interessante. Na época, pela lua você também sabia o que fazer em termos de plantação. E outra coisa que nós poderíamos dizer era sobre o clima com as Sete Quedas. Nós tínhamos um inverno muito rigoroso em Guaíra, que não existe mais. Hoje nós temos dias de frio, mas não temos mais aquele inverno. No período das Sete Quedas, o inverno em Guaíra era rigoroso durante os três meses de inverno. [00:14:05] ENTREVISTADOR: E como era morar em um dos lugares mais bonitos do mundo? NEI: Era, volto a repetir, entusiasmante. A gente era criança e, apesar das dificuldades financeiras, todos nós que morávamos ali éramos muito felizes, alegres, porque sempre nos deparávamos com pessoas diferentes, conversando, e a gente acabava sendo um elo de ligação. Quando fui trabalhar no restaurante, ficou ainda mais entusiasmante, porque a gente atendia, contava histórias. Esse restaurante era especializado em peixe; não tínhamos outro cardápio, era tudo à base de peixe. Fazíamos vários pratos à base de peixe, todos capturados no Rio Paraná para atender os turistas. Era um fluxo de movimento muito grande. A gente estava sempre se deparando com novidades. Eu trabalhava de manhã no restaurante, almoçava, andava quatro quilômetros e meio até o Colégio Mendes Gonçalves para estudar, fazer o meu primário, voltava depois e trabalhava mais um período. Assim era. Eu fiz todo o meu primário e ainda um pedacinho do colegial indo e voltando dessa forma. Naquele tempo não tinha pavimentação, asfalto, sistema de transporte coletivo, nada. Você vinha a pé. [00:15:55] ENTREVISTADOR: Vou pular um pouquinho uma pergunta que estava mais para frente. Você falou dos peixes, da alimentação. Você foi premiado diversas vezes com o Pintado na Telha e com pratos de peixe. Me conta sobre esse prato, como você aprendeu, e depois a gente fala um pouco sobre como o descaso com o rio e com esses peixes prejudicou a culinária típica guairense. NEI: Perfeito. Vamos começar lá na base, quando a pesca era farta em Guaíra. Nesse restaurante em que eu trabalhei, e depois nas peixarias de Guaíra, havia muito peixe. Esse restaurante se chamava Restaurante do Salto e tinha peixaria também. Havia vários pescadores profissionais na época. Tem um fato curioso que é preciso contar historicamente. O seu Miguel, que era o proprietário do restaurante, recebia os pescadores. Eles perguntavam: “Seu Miguel, o senhor precisa de peixe hoje?”. Ele abria os freezers, e pela fartura de peixe dizia: “Bom, hoje você me traz só dourado e pintado, porque jaú, pacu e [nome de peixe pouco nítido] ainda tem bastante”. Para vocês terem uma ideia, isso é história que eu vivi, que acompanhei. Havia uma fartura muito grande de peixe. Depois, ainda continuou existindo uma quantidade razoável, mas, após o fechamento do lago, houve uma pesca predatória muito grande no início da formação do reservatório. E aí tivemos uma diminuição muito grande do pescado em Guaíra, principalmente dos chamados pescados nobres, como pintado e dourado. Foi um problema sério. Já não era mais aquela fartura, embora ainda houvesse uma quantidade significativa. Eu cresci, vim para o comércio de Guaíra e, na época em que participei do poder público, tive a ideia de criar o Pintado na Telha como prato típico de Guaíra. Inclusive, a lei é de minha autoria e foi sancionada pela gestão da época. Nós criamos o Pintado na Telha. Não era “peixe na telha”; era “Pintado na Telha”. Ocorre que, com o passar dos anos, esse peixe ficou bastante difícil de capturar no lago e no Rio Paraná, e esse prato acabou ficando um pouco esquecido. Mas ele ainda existe, ainda é servido em hotéis de Guaíra. Eu participei de vários concursos e tive a felicidade de, por várias vezes, ser campeão do Pintado na Telha. Depois vim para o comércio de eventos, onde também trabalhávamos com peixe. [00:19:17] ENTREVISTADOR: Vamos terminar só mais uma aqui e depois a gente dá uma pausa. Fala para mim sobre o turismo às vésperas do fim das Sete Quedas. NEI: O turismo no final das Sete Quedas foi uma loucura. Vamos usar essa expressão: foi uma loucura. Nessa época eu tinha um restaurante no Hotel Guarujá II. Era algo absurdo. Só para vocês terem uma ideia, a fila de ônibus para chegar às Sete Quedas vinha até a Igrejinha de Pedra; depois o pessoal ia a pé. Não tinha como colocar carro no pátio das Sete Quedas. No hotel, para se ter uma ideia, nós alugávamos até o escritório do diretor porque não tinha vaga. Nós tínhamos amizade com um hospital aqui de Guaíra, na época o Hospital Santa Rita. O médico era nosso amigo. Quando havia leito vago, chegaram a alugar leitos para turistas, porque não tinha mais acomodação. E isso num período em que Guaíra tinha vários hotéis, de categorias inferiores e superiores, restaurantes, churrascarias, enfim. Era tudo lotado. Eu atribuo o episódio da queda da ponte ao excesso de peso e à falta de cuidado e fiscalização, porque aquilo era uma loucura. Eram milhares de pessoas passando ao mesmo tempo por aquelas passarelas, por aquelas pontes. [00:21:08] [PAUSA TÉCNICA] [00:21:20] ENTREVISTADOR: Então, talvez um dos dias mais tristes que você tenha vivido ali nas Sete Quedas. Onde você estava quando soube do acidente na ponte? E quando você chegou lá, o que encontrou? NEI: Nesse fatídico acidente, eu estava exatamente no hotel onde tinha o restaurante. Como eu estava dizendo, havia muita gente visitando Guaíra. Eu tinha acabado de construir uma casa e a havia alugado para dois casais do interior de São Paulo, porque o hotel estava lotado. Eu os hospedei nessa casa. De manhã, eles foram tomar o café e seguiram para as Sete Quedas. Por volta das nove, nove e pouco da manhã, veio a triste notícia. Nesse momento, eu fui, juntamente com mais algumas pessoas, me deslocando rapidamente. Cheguei ao local do acidente em torno de quarenta a quarenta e cinco minutos depois. Ainda havia pessoas penduradas, gritos, pessoas ilhadas do outro lado e muita gente do lado que poderíamos chamar de continente. Foi uma coisa absurda. Todo mundo em pavor, desesperado, gritos, choro, e você vendo as pessoas. Muitos já tinham sido levados pela corredeira. O João Lima Moraes, o popular João Mandi, estava ali e teve um papel importante no auxílio ao resgate, de onde ele estava, ali nas pedras. Foi uma coisa terrível, terrível. [00:23:22] ENTREVISTADOR: E me conta como foi o dia seguinte ao acidente. As pessoas ligando, tentando entrar em contato com familiares, poucos orelhões, poucos telefones, hotéis... Como foi essa confusão? NEI: Naquele tempo só existiam fax e telefone fixo. Inclusive no hotel. No Hotel Guarujá II foi montada toda a estrutura de jornalismo do Brasil. Foi ali que vieram as televisões da época, O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo, pessoal de Londrina, enfim, jornais escritos, falados, televisionados, tudo. Ali foi a central. Só que demorava para você passar a matéria. Por exemplo, você mandava uma matéria de manhã para ser exibida só à noite. Ali foi toda a central de divulgação. Foi uma tragédia que tomou proporção mundial. Guaíra ficou estarrecida, ficou de luto. Começaram a chegar familiares, e havia familiares que não tinham contato, porque a comunicação era difícil. Na época, não se sabia ao certo, mas o número oficial de mortos foi 32. [00:24:47] ENTREVISTADOR: Você participou da homenagem final, quando os indigentes foram enterrados no cemitério? Você estava lá ou soube como foi esse momento? NEI: Exatamente nesse dia, não. Mas, na época, eu já tinha uma ligação forte com o comércio de Guaíra e conhecia o secretário responsável pela pasta. Fui até ele. Como nós não tínhamos aqui na cidade estrutura para fazer reconhecimento dos corpos, autópsia e tudo aquilo, eu pedi a ele para entrar no cemitério e ver. Foi um momento que me marcou muito, porque eu contei: havia 19 corpos, todos colocados de maneira rudimentar, esperando vir de fora a Polícia Científica para fazer a autópsia. Naquele momento havia 19 corpos ali. Posteriormente, a grande maioria foi levada, após a identificação, por seus familiares. E, se não me falha a memória, dois ou três foram enterrados como indigentes, porque não apareceu familiar, não apareceu ninguém. [00:26:08] ENTREVISTADOR: E como foi essa busca pelos corpos, que durou quase um mês? NEI: A busca foi extremamente difícil, pelo fato de ser um canal de grande volume d’água e de corredeira muito forte. Isso foi levando os corpos. Houve corpos encontrados a cem quilômetros daqui, rio abaixo. Muitos ficaram enroscados também nas grotas de pedra. Por isso, até hoje, não se tem literalmente a certeza de que foram só 32 mortos. Foi uma coisa muito triste. Houve corpos retirados da água vários dias depois, em um estado que dificultava até a identificação. [00:26:59] [AJUSTE TÉCNICO E NOVO CORTE DE CÂMERA] [00:27:17] ENTREVISTADOR: Vamos voltar ao acidente da ponte, último assunto. Toda essa tragédia aconteceu e alguém tentou colocar a culpa sobre uma pessoa, sobre [nome pouco nítido na gravação]. Você pode me contar como foi essa tentativa? NEI: Com relação a esse fato, que foi atribuído ao Pedimar Porã, que era indígena: ele não era uma pessoa muito antiga ali, mas eu o conheci, conversávamos pouco, como todos conversavam. Na minha opinião — e é só uma opinião pessoal — precisavam arrumar um bode expiatório para alguma coisa. Eu não acredito jamais que ele faria isso, até porque ele era zelador, cuidava dali, estava sempre, vamos dizer assim, vigilante dentro do pátio das Sete Quedas, de todo o complexo. Então eu atribuo isso à criação de um bode expiatório. Estávamos vivendo um momento em que não deram importância para ninguém para acabar com as Sete Quedas. Quando veio essa tragédia, precisavam atribuir a alguém. A formação do lago foi no mesmo ano. Então atribuíram isso a ele. Essa é a minha opinião. [00:29:01] ENTREVISTADOR: Você pode repetir só essa frase? “Eles criaram um bode expiatório.” NEI: Eles criaram um bode expiatório. [00:29:09] ENTREVISTADOR: Vamos fazer uma comparação que eu sei que você gosta de fazer: Sete Quedas e Cataratas do Iguaçu. NEI: Com relação a essa comparação, eu gostaria de fazer um adendo. A natureza foi perfeita. Ela criou duas belezas, eu diria, na mesma direção. O homem, dentro do seu processo de transformação, quis, na sua preponderância, fazer a maior usina do mundo e, para isso, teve que sacrificar uma dessas maravilhas da natureza. Eu conheci as Sete Quedas desde criança, vivi dentro delas. Tive também, ainda bem jovem, a experiência de conhecer as Cataratas do Iguaçu e depois estive lá outras vezes. Na minha visão, as Cataratas do Iguaçu eram bonitas — e são bonitas até hoje; é um dos locais mais visitados do mundo —, só que elas têm uma visão panorâmica praticamente única. Você chega pelo lado brasileiro — elas também podem ser visitadas pelo lado argentino — e tem aquela visão. As Sete Quedas, não. Nas Sete Quedas você cansava. Tinha que fazer aquela enorme caminhada de dois quilômetros e meio e, para cada lado que olhava, tinha uma cachoeira, tinha uma queda, tinha todo o esplendor da natureza ao longo daquele processo de caminhada. Então, para mim, as Sete Quedas eram extremamente superiores às Cataratas do Iguaçu. [00:31:04] ENTREVISTADOR: Vamos começar a falar um pouquinho da despedida. Como foi quando você soube que as Sete Quedas iam acabar? As pessoas acreditaram de começo? Como foi essa notícia? NEI: Eu quero voltar um pouquinho, bem no início. Quando se falou da construção da Usina de Itaipu, que formaria o lago e deixaria as Sete Quedas submersas, eu ainda era criança. Meu pai era operário lá dentro, fazia parte de um órgão do governo ligado ao que hoje vem a ser a nossa Copel. Ele era funcionário dessa empresa, chamada Minas e Energia. Sendo operário, meu pai acompanhou os engenheiros e técnicos, carregando aparelhos de topografia, quando começaram a fazer as demarcações. Eles iam em vários pontos, subindo desde Foz do Iguaçu até Guaíra. Colocavam uma marca metálica, de bronze, que indicava a graduação, a cota que a água atingiria. Eu lembro que, apesar de ser criança, ouvia os mais velhos comentarem que jamais o homem teria capacidade de acabar com uma beleza daquela. Que não teria. Bom, erramos. Guaíra talvez tenha pecado, o sistema pecou e, como nós vivíamos um sistema, vamos dizer assim, de exceção, não tinha para quem apelar. Nós esperamos o fatídico dia. Foram feitas as marcações da cota 220 e, por incrível que pareça, o lago chegou exatamente ali. Nessa altura eu já era adulto, já estava na vida pública e conseguimos constatar. Para nós foi um choque, um luto total. Guaíra, do dia para a noite, paralisou. Ficou totalmente enlutada. Vou dar um exemplo: eu tinha restaurante no hotel, onde servíamos 50, 60, 70, 100 refeições por dia, mais o café da manhã. A partir do outro dia, você não tinha mais nada. Foi fechando tudo. Os hotéis de Guaíra foram fechando, os restaurantes foram fechando. Para se ter uma ideia, juntamente com o diretor do hotel, começamos a doar parte das louças e objetos do hotel, porque não tinha mais porquê. Paralisou. Isso ficou durante vários anos. Foram anos de total ostracismo econômico em Guaíra, porque perdemos a nossa fonte. Foi aí que veio a grande promessa. Na época, engenheiros e técnicos das Centrais Elétricas do Sul do Brasil, a Eletrosul, diziam que aqui seria construído o Complexo de Ilha Grande, acompanhado de ferrovia, rodovia e hidrelétrica. Teríamos uma usina para fazer a contenção dos dejetos de Itaipu Binacional, teríamos ferrovia, rodovia e hidrelétrica. Diziam que Guaíra jamais iria se lembrar das Sete Quedas. De certa maneira, diante do quadro que estávamos vivendo, quase aceitamos e acreditamos nessa ideia. Só que tudo sucumbiu e nada aconteceu. Chegou em 1989, 1990, e simplesmente o governo da época disse: “Está cancelado”. Não se faria mais nada. [00:35:23] ENTREVISTADOR: E quando elas foram sendo inundadas? Foi muito rápido, mas, ao mesmo tempo, pouco a pouco dava para ver a água subindo. Qual era a sensação? NEI: Demorou vários dias, várias semanas. Era uma sensação terrível, principalmente para quem não acreditava que aquilo aconteceria e estava vendo acontecer. Muita gente de Guaíra foi lá, os mais antigos também. Eu tive a oportunidade de ir até quando a água já estava chegando a um determinado ponto. Você via que o canal em si, o canal-base, o que nós chamávamos popularmente de canal, já estava totalmente nivelado. As quedas começaram a diminuir. Começou ali pela queda da ponte, que era praticamente a primeira de cima para baixo. A água começou a subir, e você via que a queda já era bem menor. E não tinha para quem reclamar. Não tinha. O fato estava consumado. [00:36:44] ENTREVISTADOR: E como foi dormir sem o som das Sete Quedas? NEI: Volto a repetir: nós ficamos totalmente à deriva, ficamos de luto, sem saber o que fazer. Não querendo me vitimizar, mas eu, de empresário, fui trabalhar como empregado, de porteiro no hotel, porque não tinha mais o que fazer. Esse foi o meu caso, e muitos foram embora. Muitos empresários deixaram suas propriedades e foram para outras regiões. Teve gente que foi para Mato Grosso, Rondônia, Curitiba, enfim. Foram deixando Guaíra porque não havia alternativa. A própria imprensa chegou a dizer que nós tínhamos nos tornado uma cidade fantasma em determinado período. [00:37:39] ENTREVISTADOR: Me fala mais sobre essa “cidade fantasma”. Como era Guaíra? Como era essa sensação de que aqui tinha, de fato, virado uma cidade fantasma? NEI: A cidade fantasma vem já com a questão da não construção do Complexo de Ilha Grande. Nós havíamos perdido a maior fonte de renda, a maior indústria propulsora da economia local. Aí nos prometeram um grande polo com esse complexo. Tanto é que fizeram mil e poucas casas em Guaíra para acomodar as pessoas e empresas que viriam construir a usina, a ferrovia e a rodovia, fazendo a transposição do Rio Paraná para o Mato Grosso do Sul. E isso não aconteceu. Ali foi o desastre total, porque era gente abandonando, gente indo embora. Aquele grupo de pessoas que veio para Guaíra tinha dado certo fomento à economia guairense. Os hotéis já haviam retomado um pouco daquilo que era possível fazer. E, a partir do momento em que foi decretado o cancelamento da obra do Complexo de Ilha Grande, foi quando a grande imprensa passou a chamar Guaíra de cidade fantasma. [00:39:12] ENTREVISTADOR: Antes de a gente ir para outra pergunta, queria que você falasse sobre o que sente em relação aos últimos anos em Guaíra. Você sente alguma espécie de redescobrimento, de renascimento da cidade? Compara essa Guaíra “cidade fantasma” com a Guaíra de hoje e com a forma como ela tenta se projetar para o futuro. NEI: Eu diria que Guaíra, nos últimos 20, 25 anos, saiu desse luto que viveu, saiu desse ostracismo econômico pelo qual passou. Através de diálogo e de um novo olhar, por meio de todos os setores da sociedade organizada de Guaíra — ainda que de maneira incipiente na indústria, no comércio — começou a encontrar novos caminhos. Veio a questão do comércio com o país vizinho, o Paraguai, o comércio de importados, e gestões que começaram a ter uma visão de não apenas reclamar, mas buscar alternativas junto ao governo estadual e ao governo federal para colocar Guaíra como uma cidade importante. Porque é importante dizer: Guaíra é um dos grandes polos de passagem entre o Norte e o Sul do país. Quem sai do Sul para atingir o Norte do Brasil passa por Guaíra. Foi aí que o comércio começou a se redistribuir e aumentar, a parte hoteleira melhorou, a gastronomia começou também a ganhar uma dimensão melhor e, sem dúvida, a conclusão da ponte sobre o Rio Paraná, substituindo a travessia por balsa, incrementou bastante isso. Eu diria que Guaíra vive uma nova fase, uma fase boa, principalmente agora, buscando o turismo de pesca esportiva, o turismo de aventura. A própria cultura está se levantando, se redescobrindo e colocando projetos em prática. Tivemos também, ainda que de forma acanhada, uma boa recompensa com um percentual maior dos royalties por parte de Itaipu. [00:42:03] ENTREVISTADOR: Então essa vai ser a nossa última pergunta. Conta para mim desde o início: como foi a distribuição dos royalties? Ela foi justa? Foi pouco benéfica para Guaíra até os dias de hoje? NEI: Muito bem. Quando se formou o Lago de Itaipu Binacional, através de todo o seu corpo jurídico e técnico, estabeleceu-se que as indenizações seriam baseadas nos metros quadrados de área inundada e nas benfeitorias que havia em cada propriedade e em cada cidade. Acontece que a cidade de Guaíra está exatamente no último ponto do alagamento, no último extremo. Então, a área em metros quadrados inundada aqui foi a menor. Sem dúvida alguma, foi a menor. No entanto, inundou-se a maior fonte de renda da cidade e uma das maiores belezas do mundo. Isso não foi levado em consideração. Por outro lado, a própria política local, regional e nacional não se ateve, não teve compromisso com Guaíra para fazer um questionamento junto à Itaipu Binacional, no sentido de que isso já tivesse sido considerado no momento da indenização e dos aportes destinados à cidade. Como isso não aconteceu, Guaíra ficou com um dos menores percentuais de royalties, um dos menores valores mensais em dinheiro. Como era cotado em dólar, o nosso percentual em dólar foi um dos menores. Houve lugares em que cidades tiveram áreas maiores submersas e recebiam cinco, seis, dez vezes mais do que nós, por causa desse critério de metros quadrados de área inundada. Aí houve demandas através da política local, juntamente com o governo do Estado, deputados e senadores, no sentido de reverter isso. Numa primeira etapa, levou acho que uns 15 anos e não aconteceu nada. Falava-se, discutia-se, até que, depois de muitos anos de briga, saiu alguma coisa — usando essa expressão —, mas ainda era muito pouco. Por fim, houve um projeto de uma pessoa que jamais podemos esquecer, que teve um papel importante: o então deputado Osmar Serraglio. Ele teve um projeto muito importante e, juntamente com a última gestão do prefeito Eraldo, conseguiram conscientizar os senadores da República e boa parcela dos deputados federais de que havia uma grande injustiça com o município de Guaíra, e que não era possível continuarmos de mãos cruzadas sem fazer nada. Se não me engano, dos 81 senadores, 70 votaram favoravelmente à proposição para o município de Guaíra. Jamais nada vai compensar a perda das Sete Quedas, na minha opinião. Jamais. Mas, pelo menos, é um alívio para a nossa infraestrutura local, para podermos prestar um bom atendimento à comunidade de Guaíra com esse percentual de royalties. [00:45:57] ENTREVISTADOR: Que maravilha. [CORTE / AJUSTE TÉCNICO] ──────────────────────────────────────── SEGUNDA PARTE — MEMÓRIAS A PARTIR DE FOTOGRAFIAS E RECORTES ──────────────────────────────────────── [00:46:04] ENTREVISTADOR: Você pode relaxar um pouquinho mais com a caixinha. Se estiver desconfortável, pode colocar na sua perna. Fica tranquilo. Você vai abrir a caixinha e vão ter algumas memórias, algumas coisinhas aí. Pega uma por uma e vai comentando. Quando quiser comentar, comenta; quando quiser só olhar, pode só olhar. Pode abrir. [00:46:32] NEI: Legal. Essa foto aqui já é de quando estávamos no finalzinho. Eu fiz questão de ir lá, porque as Sete Quedas estavam para terminar. E hoje essa foto é uma lembrança que ninguém mais vai poder ver daquele jeito. [00:46:56] ENTREVISTADOR: Pode olhar para você e, quando quiser, mostrar para a câmera ali atrás. [00:47:02] NEI: Eu fiz um comentário na época. Aqui ficou bem característica a palavra “ADEUS”, como uma despedida. E a pessoa que escreveu esse “adeus” deixou dois pingos de tinta que, para mim, representam duas lágrimas. Eu fiz esse comentário na época e agora é interessante trazer isso à memória. [00:47:36] ENTREVISTADOR: Pode continuar olhando para você mesmo. Assim está ótimo. [00:47:47] NEI: Aqui já é uma cena que nos demonstra tristeza. Mostra a tristeza de saber que hoje não temos mais isso, não existe mais a possibilidade de estarmos lá, naquele lugar onde a gente esteve. E assim vão vindo as memórias com essas fotos. Da mesma forma aqui: era um pedaço das Sete Quedas em que eu fazia essa caminhada três, quatro vezes por dia, levando turistas. Hoje só vem a memória. Sem dúvida alguma, isso nos deixa emocionados. Aqui está o canal também. Não tem como não se emocionar de lembrar que a gente vivenciou isso. Era o nosso caminho de casa, era o nosso pátio de casa. Essa foto aqui já nos traz uma certa indignação. Eu acompanhei também toda a construção dessas torres, que eram torres de transmissão para atingir o Mato Grosso do Sul. Isso nos deixa uma certa indignação porque, em função da construção daquilo que se dizia necessário, que precisava ser feito para o desenvolvimento econômico, social e industrial do Brasil, nós tivemos que perder essa beleza. Aqui também é uma foto aérea que dá uma dimensão das Sete Quedas. Eu já vi vários quadros assim e presenciei aquilo. Nesta foto aérea, todo esse percurso eu fazia caminhando com os turistas, passo a passo, para chegar do início ao final. [00:50:18] NEI: E aqui está aquilo que comentamos anteriormente, a loucura que se tornou o final das Sete Quedas. Estou com uma foto que representa exatamente a ponte do fatídico acidente de 17 de janeiro de 1982. [00:50:49] ENTREVISTADOR: Dá só uma leve viradinha na foto para a câmera. NEI: Essa foto demonstra aquilo que eu falei sobre a loucura que foi o final. Acho que todo mundo queria conhecer as Sete Quedas ainda vivas. Quem já conhecia voltou para ver pela última vez. Era uma loucura. Aqui ainda temos a presença da antiga ponte do fatídico acidente que nós presenciamos, vivenciamos, sofremos. Aqui, mais um dos saltos das Sete Quedas que vêm à memória. A própria foto representa a neblina que se formava. Você tomava uma chuva ao chegar perto, porque a gente conseguia chegar muito próximo da queda. [00:51:58] NEI: E aqui eu tenho mais um saudosismo triste para lembrar. Essa foto representa uma das grandes vivências da minha infância. Um belo dia fui levar um casal de turistas. O marido era de origem japonesa. Eles chegaram à tarde, já no final da tarde, e eu disse: “Agora é impossível, porque não tem iluminação. Marcamos para amanhã cedo para visitar as Sete Quedas”. Eles estavam em lua de mel. Ele gostava muito de fotografia, estava com uma máquina profissional. Quando nós descemos para ele fotografar, em determinado momento ele entregou a máquina para a esposa e escorregou. Foi levado pelas águas. Eu, ainda criança, com oito ou nove anos de idade, presenciei as Sete Quedas engolindo aquele homem exatamente neste lugar da foto. Foi uma coisa que marcou muito a minha vida. Chamamos os guardas, chamamos as pessoas. Eu nem sei dizer se ele foi encontrado, porque ali era um turbilhão de água. Era algo terrível. [00:53:44] NEI: Aqui está o ângulo da ponte. Era uma ponte que balançava, e muita gente tinha mania de subir nela e balançar. Havia também muita gente que sentia medo ao atravessar. Vamos ver mais aqui. [00:54:21] NEI: Aqui, se não me falha a memória, estou vendo uma foto do lado paraguaio. Exatamente aqui nós tínhamos a confluência, o canal, o Grande Canal. Do outro lado havia uma visão menor, naturalmente, mas o país vizinho, o Paraguai, e a comunidade de Salto del Guairá conseguiam ter uma vista parcial das Sete Quedas. Aqui, outra bela visão de um salto. Era um mais lindo que o outro. Se formos falar, não tem como fazer diferenciação entre um e outro. Aqui, tudo indica que estava num período de cheia, porque está bastante avolumado. [00:55:24] NEI: E assim vamos passando pela sequência de fotos das Sete Quedas. Esse aqui era o chamado “Saltinho”. Havia essa ponte, que fazia a ligação com uma das maiores ilhas que compunham as Sete Quedas. Naturalmente, praticamente todo o percurso era feito por pontes e passarelas. Era uma ilha bem grande. Depois dela havia outra ponte. Para ir ao Salto 14, que era o último salto, ainda tínhamos mais duas pontes. Então esse aqui é o famoso Saltinho. Na parte de cima dessa ponte havia um ponto que nós chamávamos de remanso. Era uma parte em que muita gente tomava banho, fazia piquenique. [00:56:37] ENTREVISTADOR: Pode continuar. Quando quiser comentar, comenta; quando não quiser, pode só olhar. Dá só uma viradinha um pouquinho para cá. Isso, está ótimo. [00:56:49] NEI: Aqui é mais uma ponte. Era a penúltima ponte, que fazia a travessia entre a ilha que acabei de citar e o trecho final. Tinha mais uma ponte, um canal, e depois chegávamos ao Salto 14, o último salto do Complexo de Sete Quedas. Aqui também, mais uma vista da ponte. Aqui nós temos as pontes. [00:57:31] NEI: E aqui eu volto a frisar: esse é, sem dúvida alguma, o salto mais bonito. Era o mais volumoso, onde aconteceu aquela tragédia que citei. A gente conseguia chegar muito perto. Como não havia tanta sinalização nem fiscalização, os turistas aproveitavam ao máximo. Pela força da água, formava-se aquela cascata, aquela névoa de água em cima do pessoal. Então esse era o salto mais volumoso. [00:58:11] NEI: Aqui vamos ver. Esse é um recorte. [00:58:14] [PAUSA TÉCNICA PARA TROCA DE BATERIA E AJUSTE DA POSIÇÃO DO MATERIAL] [00:58:41] ENTREVISTADOR: Podemos seguir na ordem em que você estava. [00:58:46] NEI: Aqui estamos com um recorte de jornal, provavelmente da época, cujo texto diz: “Último dia de visitação de Sete Quedas: 40 mil pessoas formaram fila de quilômetros para atingir Sete Quedas”. Quer dizer, aquilo que nós já comentamos é fato: isso aconteceu. Lembrando que, nesse episódio, a ponte já tinha sido reconstruída. Por incrível que pareça, depois de toda a tragédia que aconteceu e já no período final das Sete Quedas, ainda reconstruíram a ponte e ela foi aproveitada por alguns meses. A tragédia foi em janeiro e o lago se formou, se não me falha a memória, entre setembro e outubro. Isso aqui condiz com a realidade daquela época. [00:59:45] NEI: Essa aqui é bem icônica. É também uma foto aérea. Ela pega todo o dorso do canal e as cachoeiras. É bem interessante. Aqui, mais uma vez, aparece aquilo que eu sempre falava e explicava aos turistas: o salto mais bonito, o salto mais imponente das Sete Quedas. Nesta foto ele está numa dimensão um pouco diferente, mais alongada. [01:00:38] NEI: Aqui, mais uma vez, nós temos a ponte que fazia a travessia entre a ilha e o penúltimo espaço para chegar até o Salto 14. Ali nós já tínhamos o canal, um canal mestre. Nós tivemos algumas frases de efeito na época, mas já não surtiam efeito prático. Não conseguiam mais reverter o que já estava estabelecido. [01:01:35] NEI: Aqui diz: “Destruir Sete Quedas é crime, diz prefeito”. Eu costumo dizer que tudo o que vou falar é opinião minha, mas tem uma concepção coletiva. Na época, boa parte da comunidade atribuiu muita culpa ao gestor do município. Mas, na minha opinião, o gestor da época não tinha culpa. Ele era empregado do patrão, tinha que cumprir o que vinha de cima. Talvez seja injusto atribuir a ele a culpa pelo fim. Eu acho que isso não condiz com a verdade, porque o sistema vinha de cima e dizia: “Nós vamos construir uma usina; para construir uma usina, precisamos sufocar as Sete Quedas”. Ele simplesmente cumpriu. Ficou 21 anos no poder como gestor do município, como empregado do governo federal. [01:02:46] NEI: E aqui a frase diz o seguinte: “Figueiredo: é uma pena”. Não vou ler o texto porque não há necessidade. Eu estava ali quando ele e sua comitiva saíram em um Galaxie. Ele deu uma passada muito rápida pelas Sete Quedas. Eu estava muito próximo, junto com outras pessoas, acenando para ele parar, para a gente perguntar, mas ele não parou. Ele simplesmente foi embora. Fez um contorno pelas Sete Quedas, acompanhado por segurança e várias viaturas atrás. Várias pessoas gritavam: “Pare! Pare! Queremos perguntar...”, mas ele não parou. E aqui está a frase: “É uma pena”. É muito pouco para aquilo tudo. [01:03:43] NEI: Aqui eu acredito que sejam autoridades. A imagem está um pouco ofuscada. ENTREVISTADOR: O próprio Figueiredo. NEI: Sim. Mas o relato que fiz é esse: quando ele estava dentro do carro, todo mundo pediu para ele parar e ele não parou. [01:04:12] NEI: E aqui é aquilo que eu disse na entrevista anterior: quando começou a se formar o lago, realmente só havia o que lamentar, sofrer e sentir todo esse episódio. Aqui nós já temos praticamente uma dimensão do lago. Provavelmente há uma numeração indicando onde ficavam partes geográficas das Sete Quedas. Essas fotos aqui eu vou passando, porque já retratam o complexo e nós já falamos bastante sobre as Sete Quedas. Aqui, da mesma forma, é mais uma dimensão de uma das quedas d’água. [01:06:06] NEI: E aqui, essa foto com essa imensidão humana e esse amontoado de ônibus, veículos, Kombis e vans retrata bem aquilo que eu falei há pouco. Foi uma verdadeira enxurrada humana, vamos dizer assim. Era muita gente, muita gente. A foto retrata pessoas descendo a pé para chegar às Sete Quedas, porque já não havia como entrar com os veículos. Foi realmente uma loucura. [01:06:56] NEI: Aqui já é uma foto que retrata o período com pavimentação asfáltica, já no final, nos últimos anos de visitação. Até então era estrada de chão. Essa torre de energia me traz uma lembrança. Ela ficava muito próxima da casa onde eu morei, uns quinhentos, seiscentos metros. A minha casa ficava aqui do lado direito. Essa torre está no continente; não está em uma ilha, porque algumas ficaram em ilhas. [01:07:51] NEI: E, para fecharmos, quero agradecer a todos por essa surpresa. A gente sente muito. Aqui está mais uma visão de uma das cachoeiras das Sete Quedas, compondo todo aquele complexo maravilhoso. Aquilo que jamais, jamais o homem poderia ter feito. Mas, infelizmente, não sei se podemos dizer que, pelo progresso, a gente tem que sacrificar. Talvez essa fosse a visão da época daqueles que detinham o poder. [01:08:25] ENTREVISTADOR: Maravilha. Corta, gente. [FIM DA ENTREVISTA]


Transcrição da entrevista completa [00:00:00] EQUIPE: Preparação das câmeras A e B e início da gravação. [00:00:18] ENTREVISTADOR: Nei, vamos começar falando um pouquinho da sua infância. Como foi a sua infância nas Sete Quedas? NEI: A minha infância nas Sete Quedas foi, sem dúvida alguma, uma experiência maravilhosa, porque nós vivíamos em função das Sete Quedas desde garotos, desde crianças. Eu, meus irmãos, minhas irmãs, meu pai, nós vivíamos e tínhamos o porquê. Na verdade, Sete Quedas era a grande indústria sem chaminés que nós tínhamos em Guaíra. [00:00:59] ENTREVISTADOR: E como é que foi? Você começou a trabalhar lá muito cedo. Me conta um pouco desse trabalho, desde criancinha. NEI: Sim, eu comecei nas Sete Quedas muito cedo, em torno de sete anos de idade. Eu já comecei a lavar carros. Depois, chegando próximo dos nove até os onze anos, eu levava turistas nas Sete Quedas, até que fui convidado pelo único restaurante que tinha lá para ser garçom. Naquele tempo, eu já fui trabalhar como funcionário. Meu pai era operário da usina; tinha uma pequena usina hidrelétrica lá. Meu pai era operário, e eu e a minha irmã, mais velha que eu, vendíamos souvenirs, lembranças das Sete Quedas, tudo o que tinha como tema as Sete Quedas. Então nós vivíamos literalmente das Sete Quedas. [00:02:07] ENTREVISTADOR: E como é que eram elas, sentimentalmente? Como era estar naquele lugar? NEI: Todos os turistas que vinham e que a gente acompanhava — como os demais colegas que acompanhavam os turistas — tinham aquele impacto, uma emoção muito grande. Porque as Sete Quedas tinham um trajeto de dois quilômetros e meio, onde você passava por pontes, passarelas, ilhas, até chegar do início ao final. Então, a cada ângulo de visão era uma emoção, porque era uma cachoeira muito forte, muito emocionante. Aquela brisa, o barulho, o estrondo... Para nós que vivíamos ali, o dia a dia tinha essa mesma impressão, essa emoção de viver ali, porque era encantador para quem visitava as Sete Quedas e via toda aquela beleza natural que nós tínhamos. [00:03:15] ENTREVISTADOR: Faz de conta que eu sou um turista, vim de longe, acabei de chegar em Guaíra, não sei nada sobre as Sete Quedas e caí com você para você me guiar. O que você vai falar para mim? NEI: Primeiramente, a gente sempre se identificava, porque nós tivemos, ainda que de forma bastante rudimentar, algumas orientações de pessoas mais experientes, do pessoal ligado ao turismo. O seu Ernesto Mann era uma pessoa muito ligada ao turismo de Guaíra. Então nós nos apresentávamos e acompanhávamos o turista dizendo: “Olha, aqui, a primeira ponte era uma ponte de ferro”. Nós mostrávamos que, indo no sentido das Sete Quedas, do lado esquerdo do canal estava o país vizinho, o Paraguai. Acima estava o Mato Grosso do Sul. Nós caminhávamos, víamos a segunda ponte, que é aquela do fatídico acidente, falávamos das cachoeiras e assim por diante, até chegar ao que nós chamávamos, na época, de último salto, o Salto 14. [00:04:27] ENTREVISTADOR: E quando chegava no Salto 14, como é que você apresentava esse salto para as pessoas? NEI: Apresentava como o maior salto em quedas d’água. [00:04:39] [Interrupção técnica causada por ruído externo. A equipe interrompe e retoma a pergunta.] [00:05:39] ENTREVISTADOR: Vamos lá, então. Eu estou de frente para o Salto 14. Acabei de chegar em Guaíra. Você vai me apresentar ele? NEI: O Salto 14 era o maior em volume d’água, o maior em extensão, porque praticamente partia de um extremo a outro, chegando quase ao país vizinho, o Paraguai, já quase na divisa. E ele era intransponível a partir dali. Então ele era o último. Você não tinha como acessar mais lugar nenhum por ele. Era interessante: você tinha uma visão de frente, uma visão ampla, que pegava todo o ângulo. Depois fazia um contorno, uma pequena caminhada por dentro da mata, e conseguia pegar mais um canto dele. Então ele era o maior salto que compunha as Sete Quedas. [00:06:32] ENTREVISTADOR: E quando as pessoas chegavam nele, qual era a reação delas? NEI: De grande admiração, de impacto, porque era uma coisa fenomenal. Principalmente ele, porque era o que proporcionava o maior som, o maior barulho, pela sua extensão, pelo seu volume d’água. [00:06:55] ENTREVISTADOR: E qual é a primeira memória que você tem das Sete Quedas? NEI: A primeira memória... Como eu praticamente me criei lá dentro, é aquela memória de todo dia ser um fato novo, apesar de a gente ser criança. Você estava ali recebendo pessoas que vinham com a curiosidade de conhecer. E lá tinha uma pequena usina; essa usina fornecia, inclusive, energia elétrica gratuitamente para quem morava lá. Então era uma coisa interessante, porque nós não pagávamos luz. Tinha mais ou menos umas sete ou oito residências, alguns comércios e o restaurante onde eu fui trabalhar depois. Brincávamos lá também. Eu praticamente não tive infância, porque com sete anos já comecei a trabalhar, mas era gostoso. Todo dia ganhávamos presentes dos turistas. E era muito bom, porque financeiramente a gente era de uma renda inferior. Então, aproveitando essa questão da memória, um belo dia, por volta de 1969, chegaram quatro turistas jovens do Rio de Janeiro em um carro chamado Gordini — um carro que muita gente hoje nem sabe o que era. [00:08:39] [Pequena interrupção técnica. A equipe pede que a história seja retomada desde o início.] [00:09:28] ENTREVISTADOR: Nei, está rodando. Conta essa história dos turistas desde o começo, por favor. NEI: Perfeito. Um belo dia, nessa minha memória de criança, acho que por volta de 1969, chegaram quatro turistas jovens em um carro chamado Gordini, um carro que muita gente hoje não sabe o que era. Eles eram do Rio de Janeiro. Pediram para eu levá-los, e eu fui. Mostrei as Sete Quedas, contei toda a história, e eles ficaram encantados. Depois foram para o restaurante que tinha lá — naquela época eu ainda não trabalhava nesse restaurante —, almoçaram e, na hora de ir embora, eu não sei por qual razão, hoje não me lembro mais, eles tinham um cabrito, literalmente um cabritinho dentro do carro, e me deram de presente. Disseram: “Olha, nós não vamos levar”. Eu não sei por que estavam com aquele cabrito, mas me deram de presente. Eu fiquei feliz da vida, como criança. Levei para casa, cheguei para o meu pai e para a minha mãe, contei, e nós cuidamos do cabrito. [00:11:00] ENTREVISTADOR: Vamos falar mais um pouquinho. Qual era o seu lugar ou momento preferido nas Sete Quedas? NEI: Nas Sete Quedas nós ficávamos a postos onde tinha uma barragem, o canal. Logo abaixo do canal vinha um bosque, e nós ficávamos bem na ponta desse bosque, porque era uma disputa muito grande entre todos. Havia várias crianças e jovens adolescentes que trabalhavam levando turistas, e o fluxo era significativo, principalmente nos finais de semana. Então nós ficávamos a postos para pré-escolher. Naquele tempo, aparecia um carro como uma Veraneio, um Dodge Dart, um Galaxie; mais para frente vieram a TL e a Variant. Eram carros que, supostamente, eram de turistas mais afortunados. A gente prestava atenção nisso porque a gorjeta também era melhor. Nós não tínhamos uma tabela, não existia uma tabela; era tudo muito simples. A gente levava, fazia todo aquele trabalho de informação, de mostrar, de contar sobre os saltos, e na volta eles nos davam um cachê, que ficava a critério do turista. [00:12:29] ENTREVISTADOR: E como os sons das Sete Quedas acompanhavam a sua vida? O quanto eles eram importantes para você? NEI: Esses sons das Sete Quedas eram extremamente interessantes. Meu pai, por exemplo, plantava; nós tínhamos uma área ali mesmo onde plantávamos. Pelo som das Sete Quedas, naquela época, você sabia de que posição vinha a chuva, a tempestade. Enfim, vários fatores você conseguia perceber através do barulho das Sete Quedas. Era muito interessante. Na época, pela lua você também sabia o que fazer em termos de plantação. E outra coisa que nós poderíamos dizer era sobre o clima com as Sete Quedas. Nós tínhamos um inverno muito rigoroso em Guaíra, que não existe mais. Hoje nós temos dias de frio, mas não temos mais aquele inverno. No período das Sete Quedas, o inverno em Guaíra era rigoroso durante os três meses de inverno. [00:14:05] ENTREVISTADOR: E como era morar em um dos lugares mais bonitos do mundo? NEI: Era, volto a repetir, entusiasmante. A gente era criança e, apesar das dificuldades financeiras, todos nós que morávamos ali éramos muito felizes, alegres, porque sempre nos deparávamos com pessoas diferentes, conversando, e a gente acabava sendo um elo de ligação. Quando fui trabalhar no restaurante, ficou ainda mais entusiasmante, porque a gente atendia, contava histórias. Esse restaurante era especializado em peixe; não tínhamos outro cardápio, era tudo à base de peixe. Fazíamos vários pratos à base de peixe, todos capturados no Rio Paraná para atender os turistas. Era um fluxo de movimento muito grande. A gente estava sempre se deparando com novidades. Eu trabalhava de manhã no restaurante, almoçava, andava quatro quilômetros e meio até o Colégio Mendes Gonçalves para estudar, fazer o meu primário, voltava depois e trabalhava mais um período. Assim era. Eu fiz todo o meu primário e ainda um pedacinho do colegial indo e voltando dessa forma. Naquele tempo não tinha pavimentação, asfalto, sistema de transporte coletivo, nada. Você vinha a pé. [00:15:55] ENTREVISTADOR: Vou pular um pouquinho uma pergunta que estava mais para frente. Você falou dos peixes, da alimentação. Você foi premiado diversas vezes com o Pintado na Telha e com pratos de peixe. Me conta sobre esse prato, como você aprendeu, e depois a gente fala um pouco sobre como o descaso com o rio e com esses peixes prejudicou a culinária típica guairense. NEI: Perfeito. Vamos começar lá na base, quando a pesca era farta em Guaíra. Nesse restaurante em que eu trabalhei, e depois nas peixarias de Guaíra, havia muito peixe. Esse restaurante se chamava Restaurante do Salto e tinha peixaria também. Havia vários pescadores profissionais na época. Tem um fato curioso que é preciso contar historicamente. O seu Miguel, que era o proprietário do restaurante, recebia os pescadores. Eles perguntavam: “Seu Miguel, o senhor precisa de peixe hoje?”. Ele abria os freezers, e pela fartura de peixe dizia: “Bom, hoje você me traz só dourado e pintado, porque jaú, pacu e [nome de peixe pouco nítido] ainda tem bastante”. Para vocês terem uma ideia, isso é história que eu vivi, que acompanhei. Havia uma fartura muito grande de peixe. Depois, ainda continuou existindo uma quantidade razoável, mas, após o fechamento do lago, houve uma pesca predatória muito grande no início da formação do reservatório. E aí tivemos uma diminuição muito grande do pescado em Guaíra, principalmente dos chamados pescados nobres, como pintado e dourado. Foi um problema sério. Já não era mais aquela fartura, embora ainda houvesse uma quantidade significativa. Eu cresci, vim para o comércio de Guaíra e, na época em que participei do poder público, tive a ideia de criar o Pintado na Telha como prato típico de Guaíra. Inclusive, a lei é de minha autoria e foi sancionada pela gestão da época. Nós criamos o Pintado na Telha. Não era “peixe na telha”; era “Pintado na Telha”. Ocorre que, com o passar dos anos, esse peixe ficou bastante difícil de capturar no lago e no Rio Paraná, e esse prato acabou ficando um pouco esquecido. Mas ele ainda existe, ainda é servido em hotéis de Guaíra. Eu participei de vários concursos e tive a felicidade de, por várias vezes, ser campeão do Pintado na Telha. Depois vim para o comércio de eventos, onde também trabalhávamos com peixe. [00:19:17] ENTREVISTADOR: Vamos terminar só mais uma aqui e depois a gente dá uma pausa. Fala para mim sobre o turismo às vésperas do fim das Sete Quedas. NEI: O turismo no final das Sete Quedas foi uma loucura. Vamos usar essa expressão: foi uma loucura. Nessa época eu tinha um restaurante no Hotel Guarujá II. Era algo absurdo. Só para vocês terem uma ideia, a fila de ônibus para chegar às Sete Quedas vinha até a Igrejinha de Pedra; depois o pessoal ia a pé. Não tinha como colocar carro no pátio das Sete Quedas. No hotel, para se ter uma ideia, nós alugávamos até o escritório do diretor porque não tinha vaga. Nós tínhamos amizade com um hospital aqui de Guaíra, na época o Hospital Santa Rita. O médico era nosso amigo. Quando havia leito vago, chegaram a alugar leitos para turistas, porque não tinha mais acomodação. E isso num período em que Guaíra tinha vários hotéis, de categorias inferiores e superiores, restaurantes, churrascarias, enfim. Era tudo lotado. Eu atribuo o episódio da queda da ponte ao excesso de peso e à falta de cuidado e fiscalização, porque aquilo era uma loucura. Eram milhares de pessoas passando ao mesmo tempo por aquelas passarelas, por aquelas pontes. [00:21:08] [PAUSA TÉCNICA] [00:21:20] ENTREVISTADOR: Então, talvez um dos dias mais tristes que você tenha vivido ali nas Sete Quedas. Onde você estava quando soube do acidente na ponte? E quando você chegou lá, o que encontrou? NEI: Nesse fatídico acidente, eu estava exatamente no hotel onde tinha o restaurante. Como eu estava dizendo, havia muita gente visitando Guaíra. Eu tinha acabado de construir uma casa e a havia alugado para dois casais do interior de São Paulo, porque o hotel estava lotado. Eu os hospedei nessa casa. De manhã, eles foram tomar o café e seguiram para as Sete Quedas. Por volta das nove, nove e pouco da manhã, veio a triste notícia. Nesse momento, eu fui, juntamente com mais algumas pessoas, me deslocando rapidamente. Cheguei ao local do acidente em torno de quarenta a quarenta e cinco minutos depois. Ainda havia pessoas penduradas, gritos, pessoas ilhadas do outro lado e muita gente do lado que poderíamos chamar de continente. Foi uma coisa absurda. Todo mundo em pavor, desesperado, gritos, choro, e você vendo as pessoas. Muitos já tinham sido levados pela corredeira. O João Lima Moraes, o popular João Mandi, estava ali e teve um papel importante no auxílio ao resgate, de onde ele estava, ali nas pedras. Foi uma coisa terrível, terrível. [00:23:22] ENTREVISTADOR: E me conta como foi o dia seguinte ao acidente. As pessoas ligando, tentando entrar em contato com familiares, poucos orelhões, poucos telefones, hotéis... Como foi essa confusão? NEI: Naquele tempo só existiam fax e telefone fixo. Inclusive no hotel. No Hotel Guarujá II foi montada toda a estrutura de jornalismo do Brasil. Foi ali que vieram as televisões da época, O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo, pessoal de Londrina, enfim, jornais escritos, falados, televisionados, tudo. Ali foi a central. Só que demorava para você passar a matéria. Por exemplo, você mandava uma matéria de manhã para ser exibida só à noite. Ali foi toda a central de divulgação. Foi uma tragédia que tomou proporção mundial. Guaíra ficou estarrecida, ficou de luto. Começaram a chegar familiares, e havia familiares que não tinham contato, porque a comunicação era difícil. Na época, não se sabia ao certo, mas o número oficial de mortos foi 32. [00:24:47] ENTREVISTADOR: Você participou da homenagem final, quando os indigentes foram enterrados no cemitério? Você estava lá ou soube como foi esse momento? NEI: Exatamente nesse dia, não. Mas, na época, eu já tinha uma ligação forte com o comércio de Guaíra e conhecia o secretário responsável pela pasta. Fui até ele. Como nós não tínhamos aqui na cidade estrutura para fazer reconhecimento dos corpos, autópsia e tudo aquilo, eu pedi a ele para entrar no cemitério e ver. Foi um momento que me marcou muito, porque eu contei: havia 19 corpos, todos colocados de maneira rudimentar, esperando vir de fora a Polícia Científica para fazer a autópsia. Naquele momento havia 19 corpos ali. Posteriormente, a grande maioria foi levada, após a identificação, por seus familiares. E, se não me falha a memória, dois ou três foram enterrados como indigentes, porque não apareceu familiar, não apareceu ninguém. [00:26:08] ENTREVISTADOR: E como foi essa busca pelos corpos, que durou quase um mês? NEI: A busca foi extremamente difícil, pelo fato de ser um canal de grande volume d’água e de corredeira muito forte. Isso foi levando os corpos. Houve corpos encontrados a cem quilômetros daqui, rio abaixo. Muitos ficaram enroscados também nas grotas de pedra. Por isso, até hoje, não se tem literalmente a certeza de que foram só 32 mortos. Foi uma coisa muito triste. Houve corpos retirados da água vários dias depois, em um estado que dificultava até a identificação. [00:26:59] [AJUSTE TÉCNICO E NOVO CORTE DE CÂMERA] [00:27:17] ENTREVISTADOR: Vamos voltar ao acidente da ponte, último assunto. Toda essa tragédia aconteceu e alguém tentou colocar a culpa sobre uma pessoa, sobre [nome pouco nítido na gravação]. Você pode me contar como foi essa tentativa? NEI: Com relação a esse fato, que foi atribuído ao Pedimar Porã, que era indígena: ele não era uma pessoa muito antiga ali, mas eu o conheci, conversávamos pouco, como todos conversavam. Na minha opinião — e é só uma opinião pessoal — precisavam arrumar um bode expiatório para alguma coisa. Eu não acredito jamais que ele faria isso, até porque ele era zelador, cuidava dali, estava sempre, vamos dizer assim, vigilante dentro do pátio das Sete Quedas, de todo o complexo. Então eu atribuo isso à criação de um bode expiatório. Estávamos vivendo um momento em que não deram importância para ninguém para acabar com as Sete Quedas. Quando veio essa tragédia, precisavam atribuir a alguém. A formação do lago foi no mesmo ano. Então atribuíram isso a ele. Essa é a minha opinião. [00:29:01] ENTREVISTADOR: Você pode repetir só essa frase? “Eles criaram um bode expiatório.” NEI: Eles criaram um bode expiatório. [00:29:09] ENTREVISTADOR: Vamos fazer uma comparação que eu sei que você gosta de fazer: Sete Quedas e Cataratas do Iguaçu. NEI: Com relação a essa comparação, eu gostaria de fazer um adendo. A natureza foi perfeita. Ela criou duas belezas, eu diria, na mesma direção. O homem, dentro do seu processo de transformação, quis, na sua preponderância, fazer a maior usina do mundo e, para isso, teve que sacrificar uma dessas maravilhas da natureza. Eu conheci as Sete Quedas desde criança, vivi dentro delas. Tive também, ainda bem jovem, a experiência de conhecer as Cataratas do Iguaçu e depois estive lá outras vezes. Na minha visão, as Cataratas do Iguaçu eram bonitas — e são bonitas até hoje; é um dos locais mais visitados do mundo —, só que elas têm uma visão panorâmica praticamente única. Você chega pelo lado brasileiro — elas também podem ser visitadas pelo lado argentino — e tem aquela visão. As Sete Quedas, não. Nas Sete Quedas você cansava. Tinha que fazer aquela enorme caminhada de dois quilômetros e meio e, para cada lado que olhava, tinha uma cachoeira, tinha uma queda, tinha todo o esplendor da natureza ao longo daquele processo de caminhada. Então, para mim, as Sete Quedas eram extremamente superiores às Cataratas do Iguaçu. [00:31:04] ENTREVISTADOR: Vamos começar a falar um pouquinho da despedida. Como foi quando você soube que as Sete Quedas iam acabar? As pessoas acreditaram de começo? Como foi essa notícia? NEI: Eu quero voltar um pouquinho, bem no início. Quando se falou da construção da Usina de Itaipu, que formaria o lago e deixaria as Sete Quedas submersas, eu ainda era criança. Meu pai era operário lá dentro, fazia parte de um órgão do governo ligado ao que hoje vem a ser a nossa Copel. Ele era funcionário dessa empresa, chamada Minas e Energia. Sendo operário, meu pai acompanhou os engenheiros e técnicos, carregando aparelhos de topografia, quando começaram a fazer as demarcações. Eles iam em vários pontos, subindo desde Foz do Iguaçu até Guaíra. Colocavam uma marca metálica, de bronze, que indicava a graduação, a cota que a água atingiria. Eu lembro que, apesar de ser criança, ouvia os mais velhos comentarem que jamais o homem teria capacidade de acabar com uma beleza daquela. Que não teria. Bom, erramos. Guaíra talvez tenha pecado, o sistema pecou e, como nós vivíamos um sistema, vamos dizer assim, de exceção, não tinha para quem apelar. Nós esperamos o fatídico dia. Foram feitas as marcações da cota 220 e, por incrível que pareça, o lago chegou exatamente ali. Nessa altura eu já era adulto, já estava na vida pública e conseguimos constatar. Para nós foi um choque, um luto total. Guaíra, do dia para a noite, paralisou. Ficou totalmente enlutada. Vou dar um exemplo: eu tinha restaurante no hotel, onde servíamos 50, 60, 70, 100 refeições por dia, mais o café da manhã. A partir do outro dia, você não tinha mais nada. Foi fechando tudo. Os hotéis de Guaíra foram fechando, os restaurantes foram fechando. Para se ter uma ideia, juntamente com o diretor do hotel, começamos a doar parte das louças e objetos do hotel, porque não tinha mais porquê. Paralisou. Isso ficou durante vários anos. Foram anos de total ostracismo econômico em Guaíra, porque perdemos a nossa fonte. Foi aí que veio a grande promessa. Na época, engenheiros e técnicos das Centrais Elétricas do Sul do Brasil, a Eletrosul, diziam que aqui seria construído o Complexo de Ilha Grande, acompanhado de ferrovia, rodovia e hidrelétrica. Teríamos uma usina para fazer a contenção dos dejetos de Itaipu Binacional, teríamos ferrovia, rodovia e hidrelétrica. Diziam que Guaíra jamais iria se lembrar das Sete Quedas. De certa maneira, diante do quadro que estávamos vivendo, quase aceitamos e acreditamos nessa ideia. Só que tudo sucumbiu e nada aconteceu. Chegou em 1989, 1990, e simplesmente o governo da época disse: “Está cancelado”. Não se faria mais nada. [00:35:23] ENTREVISTADOR: E quando elas foram sendo inundadas? Foi muito rápido, mas, ao mesmo tempo, pouco a pouco dava para ver a água subindo. Qual era a sensação? NEI: Demorou vários dias, várias semanas. Era uma sensação terrível, principalmente para quem não acreditava que aquilo aconteceria e estava vendo acontecer. Muita gente de Guaíra foi lá, os mais antigos também. Eu tive a oportunidade de ir até quando a água já estava chegando a um determinado ponto. Você via que o canal em si, o canal-base, o que nós chamávamos popularmente de canal, já estava totalmente nivelado. As quedas começaram a diminuir. Começou ali pela queda da ponte, que era praticamente a primeira de cima para baixo. A água começou a subir, e você via que a queda já era bem menor. E não tinha para quem reclamar. Não tinha. O fato estava consumado. [00:36:44] ENTREVISTADOR: E como foi dormir sem o som das Sete Quedas? NEI: Volto a repetir: nós ficamos totalmente à deriva, ficamos de luto, sem saber o que fazer. Não querendo me vitimizar, mas eu, de empresário, fui trabalhar como empregado, de porteiro no hotel, porque não tinha mais o que fazer. Esse foi o meu caso, e muitos foram embora. Muitos empresários deixaram suas propriedades e foram para outras regiões. Teve gente que foi para Mato Grosso, Rondônia, Curitiba, enfim. Foram deixando Guaíra porque não havia alternativa. A própria imprensa chegou a dizer que nós tínhamos nos tornado uma cidade fantasma em determinado período. [00:37:39] ENTREVISTADOR: Me fala mais sobre essa “cidade fantasma”. Como era Guaíra? Como era essa sensação de que aqui tinha, de fato, virado uma cidade fantasma? NEI: A cidade fantasma vem já com a questão da não construção do Complexo de Ilha Grande. Nós havíamos perdido a maior fonte de renda, a maior indústria propulsora da economia local. Aí nos prometeram um grande polo com esse complexo. Tanto é que fizeram mil e poucas casas em Guaíra para acomodar as pessoas e empresas que viriam construir a usina, a ferrovia e a rodovia, fazendo a transposição do Rio Paraná para o Mato Grosso do Sul. E isso não aconteceu. Ali foi o desastre total, porque era gente abandonando, gente indo embora. Aquele grupo de pessoas que veio para Guaíra tinha dado certo fomento à economia guairense. Os hotéis já haviam retomado um pouco daquilo que era possível fazer. E, a partir do momento em que foi decretado o cancelamento da obra do Complexo de Ilha Grande, foi quando a grande imprensa passou a chamar Guaíra de cidade fantasma. [00:39:12] ENTREVISTADOR: Antes de a gente ir para outra pergunta, queria que você falasse sobre o que sente em relação aos últimos anos em Guaíra. Você sente alguma espécie de redescobrimento, de renascimento da cidade? Compara essa Guaíra “cidade fantasma” com a Guaíra de hoje e com a forma como ela tenta se projetar para o futuro. NEI: Eu diria que Guaíra, nos últimos 20, 25 anos, saiu desse luto que viveu, saiu desse ostracismo econômico pelo qual passou. Através de diálogo e de um novo olhar, por meio de todos os setores da sociedade organizada de Guaíra — ainda que de maneira incipiente na indústria, no comércio — começou a encontrar novos caminhos. Veio a questão do comércio com o país vizinho, o Paraguai, o comércio de importados, e gestões que começaram a ter uma visão de não apenas reclamar, mas buscar alternativas junto ao governo estadual e ao governo federal para colocar Guaíra como uma cidade importante. Porque é importante dizer: Guaíra é um dos grandes polos de passagem entre o Norte e o Sul do país. Quem sai do Sul para atingir o Norte do Brasil passa por Guaíra. Foi aí que o comércio começou a se redistribuir e aumentar, a parte hoteleira melhorou, a gastronomia começou também a ganhar uma dimensão melhor e, sem dúvida, a conclusão da ponte sobre o Rio Paraná, substituindo a travessia por balsa, incrementou bastante isso. Eu diria que Guaíra vive uma nova fase, uma fase boa, principalmente agora, buscando o turismo de pesca esportiva, o turismo de aventura. A própria cultura está se levantando, se redescobrindo e colocando projetos em prática. Tivemos também, ainda que de forma acanhada, uma boa recompensa com um percentual maior dos royalties por parte de Itaipu. [00:42:03] ENTREVISTADOR: Então essa vai ser a nossa última pergunta. Conta para mim desde o início: como foi a distribuição dos royalties? Ela foi justa? Foi pouco benéfica para Guaíra até os dias de hoje? NEI: Muito bem. Quando se formou o Lago de Itaipu Binacional, através de todo o seu corpo jurídico e técnico, estabeleceu-se que as indenizações seriam baseadas nos metros quadrados de área inundada e nas benfeitorias que havia em cada propriedade e em cada cidade. Acontece que a cidade de Guaíra está exatamente no último ponto do alagamento, no último extremo. Então, a área em metros quadrados inundada aqui foi a menor. Sem dúvida alguma, foi a menor. No entanto, inundou-se a maior fonte de renda da cidade e uma das maiores belezas do mundo. Isso não foi levado em consideração. Por outro lado, a própria política local, regional e nacional não se ateve, não teve compromisso com Guaíra para fazer um questionamento junto à Itaipu Binacional, no sentido de que isso já tivesse sido considerado no momento da indenização e dos aportes destinados à cidade. Como isso não aconteceu, Guaíra ficou com um dos menores percentuais de royalties, um dos menores valores mensais em dinheiro. Como era cotado em dólar, o nosso percentual em dólar foi um dos menores. Houve lugares em que cidades tiveram áreas maiores submersas e recebiam cinco, seis, dez vezes mais do que nós, por causa desse critério de metros quadrados de área inundada. Aí houve demandas através da política local, juntamente com o governo do Estado, deputados e senadores, no sentido de reverter isso. Numa primeira etapa, levou acho que uns 15 anos e não aconteceu nada. Falava-se, discutia-se, até que, depois de muitos anos de briga, saiu alguma coisa — usando essa expressão —, mas ainda era muito pouco. Por fim, houve um projeto de uma pessoa que jamais podemos esquecer, que teve um papel importante: o então deputado Osmar Serraglio. Ele teve um projeto muito importante e, juntamente com a última gestão do prefeito Eraldo, conseguiram conscientizar os senadores da República e boa parcela dos deputados federais de que havia uma grande injustiça com o município de Guaíra, e que não era possível continuarmos de mãos cruzadas sem fazer nada. Se não me engano, dos 81 senadores, 70 votaram favoravelmente à proposição para o município de Guaíra. Jamais nada vai compensar a perda das Sete Quedas, na minha opinião. Jamais. Mas, pelo menos, é um alívio para a nossa infraestrutura local, para podermos prestar um bom atendimento à comunidade de Guaíra com esse percentual de royalties. [00:45:57] ENTREVISTADOR: Que maravilha. [CORTE / AJUSTE TÉCNICO] ──────────────────────────────────────── SEGUNDA PARTE — MEMÓRIAS A PARTIR DE FOTOGRAFIAS E RECORTES ──────────────────────────────────────── [00:46:04] ENTREVISTADOR: Você pode relaxar um pouquinho mais com a caixinha. Se estiver desconfortável, pode colocar na sua perna. Fica tranquilo. Você vai abrir a caixinha e vão ter algumas memórias, algumas coisinhas aí. Pega uma por uma e vai comentando. Quando quiser comentar, comenta; quando quiser só olhar, pode só olhar. Pode abrir. [00:46:32] NEI: Legal. Essa foto aqui já é de quando estávamos no finalzinho. Eu fiz questão de ir lá, porque as Sete Quedas estavam para terminar. E hoje essa foto é uma lembrança que ninguém mais vai poder ver daquele jeito. [00:46:56] ENTREVISTADOR: Pode olhar para você e, quando quiser, mostrar para a câmera ali atrás. [00:47:02] NEI: Eu fiz um comentário na época. Aqui ficou bem característica a palavra “ADEUS”, como uma despedida. E a pessoa que escreveu esse “adeus” deixou dois pingos de tinta que, para mim, representam duas lágrimas. Eu fiz esse comentário na época e agora é interessante trazer isso à memória. [00:47:36] ENTREVISTADOR: Pode continuar olhando para você mesmo. Assim está ótimo. [00:47:47] NEI: Aqui já é uma cena que nos demonstra tristeza. Mostra a tristeza de saber que hoje não temos mais isso, não existe mais a possibilidade de estarmos lá, naquele lugar onde a gente esteve. E assim vão vindo as memórias com essas fotos. Da mesma forma aqui: era um pedaço das Sete Quedas em que eu fazia essa caminhada três, quatro vezes por dia, levando turistas. Hoje só vem a memória. Sem dúvida alguma, isso nos deixa emocionados. Aqui está o canal também. Não tem como não se emocionar de lembrar que a gente vivenciou isso. Era o nosso caminho de casa, era o nosso pátio de casa. Essa foto aqui já nos traz uma certa indignação. Eu acompanhei também toda a construção dessas torres, que eram torres de transmissão para atingir o Mato Grosso do Sul. Isso nos deixa uma certa indignação porque, em função da construção daquilo que se dizia necessário, que precisava ser feito para o desenvolvimento econômico, social e industrial do Brasil, nós tivemos que perder essa beleza. Aqui também é uma foto aérea que dá uma dimensão das Sete Quedas. Eu já vi vários quadros assim e presenciei aquilo. Nesta foto aérea, todo esse percurso eu fazia caminhando com os turistas, passo a passo, para chegar do início ao final. [00:50:18] NEI: E aqui está aquilo que comentamos anteriormente, a loucura que se tornou o final das Sete Quedas. Estou com uma foto que representa exatamente a ponte do fatídico acidente de 17 de janeiro de 1982. [00:50:49] ENTREVISTADOR: Dá só uma leve viradinha na foto para a câmera. NEI: Essa foto demonstra aquilo que eu falei sobre a loucura que foi o final. Acho que todo mundo queria conhecer as Sete Quedas ainda vivas. Quem já conhecia voltou para ver pela última vez. Era uma loucura. Aqui ainda temos a presença da antiga ponte do fatídico acidente que nós presenciamos, vivenciamos, sofremos. Aqui, mais um dos saltos das Sete Quedas que vêm à memória. A própria foto representa a neblina que se formava. Você tomava uma chuva ao chegar perto, porque a gente conseguia chegar muito próximo da queda. [00:51:58] NEI: E aqui eu tenho mais um saudosismo triste para lembrar. Essa foto representa uma das grandes vivências da minha infância. Um belo dia fui levar um casal de turistas. O marido era de origem japonesa. Eles chegaram à tarde, já no final da tarde, e eu disse: “Agora é impossível, porque não tem iluminação. Marcamos para amanhã cedo para visitar as Sete Quedas”. Eles estavam em lua de mel. Ele gostava muito de fotografia, estava com uma máquina profissional. Quando nós descemos para ele fotografar, em determinado momento ele entregou a máquina para a esposa e escorregou. Foi levado pelas águas. Eu, ainda criança, com oito ou nove anos de idade, presenciei as Sete Quedas engolindo aquele homem exatamente neste lugar da foto. Foi uma coisa que marcou muito a minha vida. Chamamos os guardas, chamamos as pessoas. Eu nem sei dizer se ele foi encontrado, porque ali era um turbilhão de água. Era algo terrível. [00:53:44] NEI: Aqui está o ângulo da ponte. Era uma ponte que balançava, e muita gente tinha mania de subir nela e balançar. Havia também muita gente que sentia medo ao atravessar. Vamos ver mais aqui. [00:54:21] NEI: Aqui, se não me falha a memória, estou vendo uma foto do lado paraguaio. Exatamente aqui nós tínhamos a confluência, o canal, o Grande Canal. Do outro lado havia uma visão menor, naturalmente, mas o país vizinho, o Paraguai, e a comunidade de Salto del Guairá conseguiam ter uma vista parcial das Sete Quedas. Aqui, outra bela visão de um salto. Era um mais lindo que o outro. Se formos falar, não tem como fazer diferenciação entre um e outro. Aqui, tudo indica que estava num período de cheia, porque está bastante avolumado. [00:55:24] NEI: E assim vamos passando pela sequência de fotos das Sete Quedas. Esse aqui era o chamado “Saltinho”. Havia essa ponte, que fazia a ligação com uma das maiores ilhas que compunham as Sete Quedas. Naturalmente, praticamente todo o percurso era feito por pontes e passarelas. Era uma ilha bem grande. Depois dela havia outra ponte. Para ir ao Salto 14, que era o último salto, ainda tínhamos mais duas pontes. Então esse aqui é o famoso Saltinho. Na parte de cima dessa ponte havia um ponto que nós chamávamos de remanso. Era uma parte em que muita gente tomava banho, fazia piquenique. [00:56:37] ENTREVISTADOR: Pode continuar. Quando quiser comentar, comenta; quando não quiser, pode só olhar. Dá só uma viradinha um pouquinho para cá. Isso, está ótimo. [00:56:49] NEI: Aqui é mais uma ponte. Era a penúltima ponte, que fazia a travessia entre a ilha que acabei de citar e o trecho final. Tinha mais uma ponte, um canal, e depois chegávamos ao Salto 14, o último salto do Complexo de Sete Quedas. Aqui também, mais uma vista da ponte. Aqui nós temos as pontes. [00:57:31] NEI: E aqui eu volto a frisar: esse é, sem dúvida alguma, o salto mais bonito. Era o mais volumoso, onde aconteceu aquela tragédia que citei. A gente conseguia chegar muito perto. Como não havia tanta sinalização nem fiscalização, os turistas aproveitavam ao máximo. Pela força da água, formava-se aquela cascata, aquela névoa de água em cima do pessoal. Então esse era o salto mais volumoso. [00:58:11] NEI: Aqui vamos ver. Esse é um recorte. [00:58:14] [PAUSA TÉCNICA PARA TROCA DE BATERIA E AJUSTE DA POSIÇÃO DO MATERIAL] [00:58:41] ENTREVISTADOR: Podemos seguir na ordem em que você estava. [00:58:46] NEI: Aqui estamos com um recorte de jornal, provavelmente da época, cujo texto diz: “Último dia de visitação de Sete Quedas: 40 mil pessoas formaram fila de quilômetros para atingir Sete Quedas”. Quer dizer, aquilo que nós já comentamos é fato: isso aconteceu. Lembrando que, nesse episódio, a ponte já tinha sido reconstruída. Por incrível que pareça, depois de toda a tragédia que aconteceu e já no período final das Sete Quedas, ainda reconstruíram a ponte e ela foi aproveitada por alguns meses. A tragédia foi em janeiro e o lago se formou, se não me falha a memória, entre setembro e outubro. Isso aqui condiz com a realidade daquela época. [00:59:45] NEI: Essa aqui é bem icônica. É também uma foto aérea. Ela pega todo o dorso do canal e as cachoeiras. É bem interessante. Aqui, mais uma vez, aparece aquilo que eu sempre falava e explicava aos turistas: o salto mais bonito, o salto mais imponente das Sete Quedas. Nesta foto ele está numa dimensão um pouco diferente, mais alongada. [01:00:38] NEI: Aqui, mais uma vez, nós temos a ponte que fazia a travessia entre a ilha e o penúltimo espaço para chegar até o Salto 14. Ali nós já tínhamos o canal, um canal mestre. Nós tivemos algumas frases de efeito na época, mas já não surtiam efeito prático. Não conseguiam mais reverter o que já estava estabelecido. [01:01:35] NEI: Aqui diz: “Destruir Sete Quedas é crime, diz prefeito”. Eu costumo dizer que tudo o que vou falar é opinião minha, mas tem uma concepção coletiva. Na época, boa parte da comunidade atribuiu muita culpa ao gestor do município. Mas, na minha opinião, o gestor da época não tinha culpa. Ele era empregado do patrão, tinha que cumprir o que vinha de cima. Talvez seja injusto atribuir a ele a culpa pelo fim. Eu acho que isso não condiz com a verdade, porque o sistema vinha de cima e dizia: “Nós vamos construir uma usina; para construir uma usina, precisamos sufocar as Sete Quedas”. Ele simplesmente cumpriu. Ficou 21 anos no poder como gestor do município, como empregado do governo federal. [01:02:46] NEI: E aqui a frase diz o seguinte: “Figueiredo: é uma pena”. Não vou ler o texto porque não há necessidade. Eu estava ali quando ele e sua comitiva saíram em um Galaxie. Ele deu uma passada muito rápida pelas Sete Quedas. Eu estava muito próximo, junto com outras pessoas, acenando para ele parar, para a gente perguntar, mas ele não parou. Ele simplesmente foi embora. Fez um contorno pelas Sete Quedas, acompanhado por segurança e várias viaturas atrás. Várias pessoas gritavam: “Pare! Pare! Queremos perguntar...”, mas ele não parou. E aqui está a frase: “É uma pena”. É muito pouco para aquilo tudo. [01:03:43] NEI: Aqui eu acredito que sejam autoridades. A imagem está um pouco ofuscada. ENTREVISTADOR: O próprio Figueiredo. NEI: Sim. Mas o relato que fiz é esse: quando ele estava dentro do carro, todo mundo pediu para ele parar e ele não parou. [01:04:12] NEI: E aqui é aquilo que eu disse na entrevista anterior: quando começou a se formar o lago, realmente só havia o que lamentar, sofrer e sentir todo esse episódio. Aqui nós já temos praticamente uma dimensão do lago. Provavelmente há uma numeração indicando onde ficavam partes geográficas das Sete Quedas. Essas fotos aqui eu vou passando, porque já retratam o complexo e nós já falamos bastante sobre as Sete Quedas. Aqui, da mesma forma, é mais uma dimensão de uma das quedas d’água. [01:06:06] NEI: E aqui, essa foto com essa imensidão humana e esse amontoado de ônibus, veículos, Kombis e vans retrata bem aquilo que eu falei há pouco. Foi uma verdadeira enxurrada humana, vamos dizer assim. Era muita gente, muita gente. A foto retrata pessoas descendo a pé para chegar às Sete Quedas, porque já não havia como entrar com os veículos. Foi realmente uma loucura. [01:06:56] NEI: Aqui já é uma foto que retrata o período com pavimentação asfáltica, já no final, nos últimos anos de visitação. Até então era estrada de chão. Essa torre de energia me traz uma lembrança. Ela ficava muito próxima da casa onde eu morei, uns quinhentos, seiscentos metros. A minha casa ficava aqui do lado direito. Essa torre está no continente; não está em uma ilha, porque algumas ficaram em ilhas. [01:07:51] NEI: E, para fecharmos, quero agradecer a todos por essa surpresa. A gente sente muito. Aqui está mais uma visão de uma das cachoeiras das Sete Quedas, compondo todo aquele complexo maravilhoso. Aquilo que jamais, jamais o homem poderia ter feito. Mas, infelizmente, não sei se podemos dizer que, pelo progresso, a gente tem que sacrificar. Talvez essa fosse a visão da época daqueles que detinham o poder. [01:08:25] ENTREVISTADOR: Maravilha. Corta, gente. [FIM DA ENTREVISTA]
ENTREVISTA #13
Frei Pacífico
Pacífico é um ex-frei, ambientalista por conta própria e um artista plástico único, talentosíssimo e incopiável. Aos noventa anos, permanece lúcido, ativo e contagiante. Reflorestou uma ilha inteira, marcou diversas gerações e tem seu nome perpetuado na história de Guaíra.

ENTREVISTA #14
Vilma Rios
Liderança guarani na região da Guaíra, Vilma tem comosua principal preocupação o futuro dos jovens guaranis.Atua diariamente para construir uma perspectiva diferente daquela enfrentada por ela para as próximas gerações.


Transcrição da entrevista completa [00:00:00] EQUIPE: Preparação das câmeras A e B e início da gravação. [00:00:18] ENTREVISTADOR: Nei, vamos começar falando um pouquinho da sua infância. Como foi a sua infância nas Sete Quedas? NEI: A minha infância nas Sete Quedas foi, sem dúvida alguma, uma experiência maravilhosa, porque nós vivíamos em função das Sete Quedas desde garotos, desde crianças. Eu, meus irmãos, minhas irmãs, meu pai, nós vivíamos e tínhamos o porquê. Na verdade, Sete Quedas era a grande indústria sem chaminés que nós tínhamos em Guaíra. [00:00:59] ENTREVISTADOR: E como é que foi? Você começou a trabalhar lá muito cedo. Me conta um pouco desse trabalho, desde criancinha. NEI: Sim, eu comecei nas Sete Quedas muito cedo, em torno de sete anos de idade. Eu já comecei a lavar carros. Depois, chegando próximo dos nove até os onze anos, eu levava turistas nas Sete Quedas, até que fui convidado pelo único restaurante que tinha lá para ser garçom. Naquele tempo, eu já fui trabalhar como funcionário. Meu pai era operário da usina; tinha uma pequena usina hidrelétrica lá. Meu pai era operário, e eu e a minha irmã, mais velha que eu, vendíamos souvenirs, lembranças das Sete Quedas, tudo o que tinha como tema as Sete Quedas. Então nós vivíamos literalmente das Sete Quedas. [00:02:07] ENTREVISTADOR: E como é que eram elas, sentimentalmente? Como era estar naquele lugar? NEI: Todos os turistas que vinham e que a gente acompanhava — como os demais colegas que acompanhavam os turistas — tinham aquele impacto, uma emoção muito grande. Porque as Sete Quedas tinham um trajeto de dois quilômetros e meio, onde você passava por pontes, passarelas, ilhas, até chegar do início ao final. Então, a cada ângulo de visão era uma emoção, porque era uma cachoeira muito forte, muito emocionante. Aquela brisa, o barulho, o estrondo... Para nós que vivíamos ali, o dia a dia tinha essa mesma impressão, essa emoção de viver ali, porque era encantador para quem visitava as Sete Quedas e via toda aquela beleza natural que nós tínhamos. [00:03:15] ENTREVISTADOR: Faz de conta que eu sou um turista, vim de longe, acabei de chegar em Guaíra, não sei nada sobre as Sete Quedas e caí com você para você me guiar. O que você vai falar para mim? NEI: Primeiramente, a gente sempre se identificava, porque nós tivemos, ainda que de forma bastante rudimentar, algumas orientações de pessoas mais experientes, do pessoal ligado ao turismo. O seu Ernesto Mann era uma pessoa muito ligada ao turismo de Guaíra. Então nós nos apresentávamos e acompanhávamos o turista dizendo: “Olha, aqui, a primeira ponte era uma ponte de ferro”. Nós mostrávamos que, indo no sentido das Sete Quedas, do lado esquerdo do canal estava o país vizinho, o Paraguai. Acima estava o Mato Grosso do Sul. Nós caminhávamos, víamos a segunda ponte, que é aquela do fatídico acidente, falávamos das cachoeiras e assim por diante, até chegar ao que nós chamávamos, na época, de último salto, o Salto 14. [00:04:27] ENTREVISTADOR: E quando chegava no Salto 14, como é que você apresentava esse salto para as pessoas? NEI: Apresentava como o maior salto em quedas d’água. [00:04:39] [Interrupção técnica causada por ruído externo. A equipe interrompe e retoma a pergunta.] [00:05:39] ENTREVISTADOR: Vamos lá, então. Eu estou de frente para o Salto 14. Acabei de chegar em Guaíra. Você vai me apresentar ele? NEI: O Salto 14 era o maior em volume d’água, o maior em extensão, porque praticamente partia de um extremo a outro, chegando quase ao país vizinho, o Paraguai, já quase na divisa. E ele era intransponível a partir dali. Então ele era o último. Você não tinha como acessar mais lugar nenhum por ele. Era interessante: você tinha uma visão de frente, uma visão ampla, que pegava todo o ângulo. Depois fazia um contorno, uma pequena caminhada por dentro da mata, e conseguia pegar mais um canto dele. Então ele era o maior salto que compunha as Sete Quedas. [00:06:32] ENTREVISTADOR: E quando as pessoas chegavam nele, qual era a reação delas? NEI: De grande admiração, de impacto, porque era uma coisa fenomenal. Principalmente ele, porque era o que proporcionava o maior som, o maior barulho, pela sua extensão, pelo seu volume d’água. [00:06:55] ENTREVISTADOR: E qual é a primeira memória que você tem das Sete Quedas? NEI: A primeira memória... Como eu praticamente me criei lá dentro, é aquela memória de todo dia ser um fato novo, apesar de a gente ser criança. Você estava ali recebendo pessoas que vinham com a curiosidade de conhecer. E lá tinha uma pequena usina; essa usina fornecia, inclusive, energia elétrica gratuitamente para quem morava lá. Então era uma coisa interessante, porque nós não pagávamos luz. Tinha mais ou menos umas sete ou oito residências, alguns comércios e o restaurante onde eu fui trabalhar depois. Brincávamos lá também. Eu praticamente não tive infância, porque com sete anos já comecei a trabalhar, mas era gostoso. Todo dia ganhávamos presentes dos turistas. E era muito bom, porque financeiramente a gente era de uma renda inferior. Então, aproveitando essa questão da memória, um belo dia, por volta de 1969, chegaram quatro turistas jovens do Rio de Janeiro em um carro chamado Gordini — um carro que muita gente hoje nem sabe o que era. [00:08:39] [Pequena interrupção técnica. A equipe pede que a história seja retomada desde o início.] [00:09:28] ENTREVISTADOR: Nei, está rodando. Conta essa história dos turistas desde o começo, por favor. NEI: Perfeito. Um belo dia, nessa minha memória de criança, acho que por volta de 1969, chegaram quatro turistas jovens em um carro chamado Gordini, um carro que muita gente hoje não sabe o que era. Eles eram do Rio de Janeiro. Pediram para eu levá-los, e eu fui. Mostrei as Sete Quedas, contei toda a história, e eles ficaram encantados. Depois foram para o restaurante que tinha lá — naquela época eu ainda não trabalhava nesse restaurante —, almoçaram e, na hora de ir embora, eu não sei por qual razão, hoje não me lembro mais, eles tinham um cabrito, literalmente um cabritinho dentro do carro, e me deram de presente. Disseram: “Olha, nós não vamos levar”. Eu não sei por que estavam com aquele cabrito, mas me deram de presente. Eu fiquei feliz da vida, como criança. Levei para casa, cheguei para o meu pai e para a minha mãe, contei, e nós cuidamos do cabrito. [00:11:00] ENTREVISTADOR: Vamos falar mais um pouquinho. Qual era o seu lugar ou momento preferido nas Sete Quedas? NEI: Nas Sete Quedas nós ficávamos a postos onde tinha uma barragem, o canal. Logo abaixo do canal vinha um bosque, e nós ficávamos bem na ponta desse bosque, porque era uma disputa muito grande entre todos. Havia várias crianças e jovens adolescentes que trabalhavam levando turistas, e o fluxo era significativo, principalmente nos finais de semana. Então nós ficávamos a postos para pré-escolher. Naquele tempo, aparecia um carro como uma Veraneio, um Dodge Dart, um Galaxie; mais para frente vieram a TL e a Variant. Eram carros que, supostamente, eram de turistas mais afortunados. A gente prestava atenção nisso porque a gorjeta também era melhor. Nós não tínhamos uma tabela, não existia uma tabela; era tudo muito simples. A gente levava, fazia todo aquele trabalho de informação, de mostrar, de contar sobre os saltos, e na volta eles nos davam um cachê, que ficava a critério do turista. [00:12:29] ENTREVISTADOR: E como os sons das Sete Quedas acompanhavam a sua vida? O quanto eles eram importantes para você? NEI: Esses sons das Sete Quedas eram extremamente interessantes. Meu pai, por exemplo, plantava; nós tínhamos uma área ali mesmo onde plantávamos. Pelo som das Sete Quedas, naquela época, você sabia de que posição vinha a chuva, a tempestade. Enfim, vários fatores você conseguia perceber através do barulho das Sete Quedas. Era muito interessante. Na época, pela lua você também sabia o que fazer em termos de plantação. E outra coisa que nós poderíamos dizer era sobre o clima com as Sete Quedas. Nós tínhamos um inverno muito rigoroso em Guaíra, que não existe mais. Hoje nós temos dias de frio, mas não temos mais aquele inverno. No período das Sete Quedas, o inverno em Guaíra era rigoroso durante os três meses de inverno. [00:14:05] ENTREVISTADOR: E como era morar em um dos lugares mais bonitos do mundo? NEI: Era, volto a repetir, entusiasmante. A gente era criança e, apesar das dificuldades financeiras, todos nós que morávamos ali éramos muito felizes, alegres, porque sempre nos deparávamos com pessoas diferentes, conversando, e a gente acabava sendo um elo de ligação. Quando fui trabalhar no restaurante, ficou ainda mais entusiasmante, porque a gente atendia, contava histórias. Esse restaurante era especializado em peixe; não tínhamos outro cardápio, era tudo à base de peixe. Fazíamos vários pratos à base de peixe, todos capturados no Rio Paraná para atender os turistas. Era um fluxo de movimento muito grande. A gente estava sempre se deparando com novidades. Eu trabalhava de manhã no restaurante, almoçava, andava quatro quilômetros e meio até o Colégio Mendes Gonçalves para estudar, fazer o meu primário, voltava depois e trabalhava mais um período. Assim era. Eu fiz todo o meu primário e ainda um pedacinho do colegial indo e voltando dessa forma. Naquele tempo não tinha pavimentação, asfalto, sistema de transporte coletivo, nada. Você vinha a pé. [00:15:55] ENTREVISTADOR: Vou pular um pouquinho uma pergunta que estava mais para frente. Você falou dos peixes, da alimentação. Você foi premiado diversas vezes com o Pintado na Telha e com pratos de peixe. Me conta sobre esse prato, como você aprendeu, e depois a gente fala um pouco sobre como o descaso com o rio e com esses peixes prejudicou a culinária típica guairense. NEI: Perfeito. Vamos começar lá na base, quando a pesca era farta em Guaíra. Nesse restaurante em que eu trabalhei, e depois nas peixarias de Guaíra, havia muito peixe. Esse restaurante se chamava Restaurante do Salto e tinha peixaria também. Havia vários pescadores profissionais na época. Tem um fato curioso que é preciso contar historicamente. O seu Miguel, que era o proprietário do restaurante, recebia os pescadores. Eles perguntavam: “Seu Miguel, o senhor precisa de peixe hoje?”. Ele abria os freezers, e pela fartura de peixe dizia: “Bom, hoje você me traz só dourado e pintado, porque jaú, pacu e [nome de peixe pouco nítido] ainda tem bastante”. Para vocês terem uma ideia, isso é história que eu vivi, que acompanhei. Havia uma fartura muito grande de peixe. Depois, ainda continuou existindo uma quantidade razoável, mas, após o fechamento do lago, houve uma pesca predatória muito grande no início da formação do reservatório. E aí tivemos uma diminuição muito grande do pescado em Guaíra, principalmente dos chamados pescados nobres, como pintado e dourado. Foi um problema sério. Já não era mais aquela fartura, embora ainda houvesse uma quantidade significativa. Eu cresci, vim para o comércio de Guaíra e, na época em que participei do poder público, tive a ideia de criar o Pintado na Telha como prato típico de Guaíra. Inclusive, a lei é de minha autoria e foi sancionada pela gestão da época. Nós criamos o Pintado na Telha. Não era “peixe na telha”; era “Pintado na Telha”. Ocorre que, com o passar dos anos, esse peixe ficou bastante difícil de capturar no lago e no Rio Paraná, e esse prato acabou ficando um pouco esquecido. Mas ele ainda existe, ainda é servido em hotéis de Guaíra. Eu participei de vários concursos e tive a felicidade de, por várias vezes, ser campeão do Pintado na Telha. Depois vim para o comércio de eventos, onde também trabalhávamos com peixe. [00:19:17] ENTREVISTADOR: Vamos terminar só mais uma aqui e depois a gente dá uma pausa. Fala para mim sobre o turismo às vésperas do fim das Sete Quedas. NEI: O turismo no final das Sete Quedas foi uma loucura. Vamos usar essa expressão: foi uma loucura. Nessa época eu tinha um restaurante no Hotel Guarujá II. Era algo absurdo. Só para vocês terem uma ideia, a fila de ônibus para chegar às Sete Quedas vinha até a Igrejinha de Pedra; depois o pessoal ia a pé. Não tinha como colocar carro no pátio das Sete Quedas. No hotel, para se ter uma ideia, nós alugávamos até o escritório do diretor porque não tinha vaga. Nós tínhamos amizade com um hospital aqui de Guaíra, na época o Hospital Santa Rita. O médico era nosso amigo. Quando havia leito vago, chegaram a alugar leitos para turistas, porque não tinha mais acomodação. E isso num período em que Guaíra tinha vários hotéis, de categorias inferiores e superiores, restaurantes, churrascarias, enfim. Era tudo lotado. Eu atribuo o episódio da queda da ponte ao excesso de peso e à falta de cuidado e fiscalização, porque aquilo era uma loucura. Eram milhares de pessoas passando ao mesmo tempo por aquelas passarelas, por aquelas pontes. [00:21:08] [PAUSA TÉCNICA] [00:21:20] ENTREVISTADOR: Então, talvez um dos dias mais tristes que você tenha vivido ali nas Sete Quedas. Onde você estava quando soube do acidente na ponte? E quando você chegou lá, o que encontrou? NEI: Nesse fatídico acidente, eu estava exatamente no hotel onde tinha o restaurante. Como eu estava dizendo, havia muita gente visitando Guaíra. Eu tinha acabado de construir uma casa e a havia alugado para dois casais do interior de São Paulo, porque o hotel estava lotado. Eu os hospedei nessa casa. De manhã, eles foram tomar o café e seguiram para as Sete Quedas. Por volta das nove, nove e pouco da manhã, veio a triste notícia. Nesse momento, eu fui, juntamente com mais algumas pessoas, me deslocando rapidamente. Cheguei ao local do acidente em torno de quarenta a quarenta e cinco minutos depois. Ainda havia pessoas penduradas, gritos, pessoas ilhadas do outro lado e muita gente do lado que poderíamos chamar de continente. Foi uma coisa absurda. Todo mundo em pavor, desesperado, gritos, choro, e você vendo as pessoas. Muitos já tinham sido levados pela corredeira. O João Lima Moraes, o popular João Mandi, estava ali e teve um papel importante no auxílio ao resgate, de onde ele estava, ali nas pedras. Foi uma coisa terrível, terrível. [00:23:22] ENTREVISTADOR: E me conta como foi o dia seguinte ao acidente. As pessoas ligando, tentando entrar em contato com familiares, poucos orelhões, poucos telefones, hotéis... Como foi essa confusão? NEI: Naquele tempo só existiam fax e telefone fixo. Inclusive no hotel. No Hotel Guarujá II foi montada toda a estrutura de jornalismo do Brasil. Foi ali que vieram as televisões da época, O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo, pessoal de Londrina, enfim, jornais escritos, falados, televisionados, tudo. Ali foi a central. Só que demorava para você passar a matéria. Por exemplo, você mandava uma matéria de manhã para ser exibida só à noite. Ali foi toda a central de divulgação. Foi uma tragédia que tomou proporção mundial. Guaíra ficou estarrecida, ficou de luto. Começaram a chegar familiares, e havia familiares que não tinham contato, porque a comunicação era difícil. Na época, não se sabia ao certo, mas o número oficial de mortos foi 32. [00:24:47] ENTREVISTADOR: Você participou da homenagem final, quando os indigentes foram enterrados no cemitério? Você estava lá ou soube como foi esse momento? NEI: Exatamente nesse dia, não. Mas, na época, eu já tinha uma ligação forte com o comércio de Guaíra e conhecia o secretário responsável pela pasta. Fui até ele. Como nós não tínhamos aqui na cidade estrutura para fazer reconhecimento dos corpos, autópsia e tudo aquilo, eu pedi a ele para entrar no cemitério e ver. Foi um momento que me marcou muito, porque eu contei: havia 19 corpos, todos colocados de maneira rudimentar, esperando vir de fora a Polícia Científica para fazer a autópsia. Naquele momento havia 19 corpos ali. Posteriormente, a grande maioria foi levada, após a identificação, por seus familiares. E, se não me falha a memória, dois ou três foram enterrados como indigentes, porque não apareceu familiar, não apareceu ninguém. [00:26:08] ENTREVISTADOR: E como foi essa busca pelos corpos, que durou quase um mês? NEI: A busca foi extremamente difícil, pelo fato de ser um canal de grande volume d’água e de corredeira muito forte. Isso foi levando os corpos. Houve corpos encontrados a cem quilômetros daqui, rio abaixo. Muitos ficaram enroscados também nas grotas de pedra. Por isso, até hoje, não se tem literalmente a certeza de que foram só 32 mortos. Foi uma coisa muito triste. Houve corpos retirados da água vários dias depois, em um estado que dificultava até a identificação. [00:26:59] [AJUSTE TÉCNICO E NOVO CORTE DE CÂMERA] [00:27:17] ENTREVISTADOR: Vamos voltar ao acidente da ponte, último assunto. Toda essa tragédia aconteceu e alguém tentou colocar a culpa sobre uma pessoa, sobre [nome pouco nítido na gravação]. Você pode me contar como foi essa tentativa? NEI: Com relação a esse fato, que foi atribuído ao Pedimar Porã, que era indígena: ele não era uma pessoa muito antiga ali, mas eu o conheci, conversávamos pouco, como todos conversavam. Na minha opinião — e é só uma opinião pessoal — precisavam arrumar um bode expiatório para alguma coisa. Eu não acredito jamais que ele faria isso, até porque ele era zelador, cuidava dali, estava sempre, vamos dizer assim, vigilante dentro do pátio das Sete Quedas, de todo o complexo. Então eu atribuo isso à criação de um bode expiatório. Estávamos vivendo um momento em que não deram importância para ninguém para acabar com as Sete Quedas. Quando veio essa tragédia, precisavam atribuir a alguém. A formação do lago foi no mesmo ano. Então atribuíram isso a ele. Essa é a minha opinião. [00:29:01] ENTREVISTADOR: Você pode repetir só essa frase? “Eles criaram um bode expiatório.” NEI: Eles criaram um bode expiatório. [00:29:09] ENTREVISTADOR: Vamos fazer uma comparação que eu sei que você gosta de fazer: Sete Quedas e Cataratas do Iguaçu. NEI: Com relação a essa comparação, eu gostaria de fazer um adendo. A natureza foi perfeita. Ela criou duas belezas, eu diria, na mesma direção. O homem, dentro do seu processo de transformação, quis, na sua preponderância, fazer a maior usina do mundo e, para isso, teve que sacrificar uma dessas maravilhas da natureza. Eu conheci as Sete Quedas desde criança, vivi dentro delas. Tive também, ainda bem jovem, a experiência de conhecer as Cataratas do Iguaçu e depois estive lá outras vezes. Na minha visão, as Cataratas do Iguaçu eram bonitas — e são bonitas até hoje; é um dos locais mais visitados do mundo —, só que elas têm uma visão panorâmica praticamente única. Você chega pelo lado brasileiro — elas também podem ser visitadas pelo lado argentino — e tem aquela visão. As Sete Quedas, não. Nas Sete Quedas você cansava. Tinha que fazer aquela enorme caminhada de dois quilômetros e meio e, para cada lado que olhava, tinha uma cachoeira, tinha uma queda, tinha todo o esplendor da natureza ao longo daquele processo de caminhada. Então, para mim, as Sete Quedas eram extremamente superiores às Cataratas do Iguaçu. [00:31:04] ENTREVISTADOR: Vamos começar a falar um pouquinho da despedida. Como foi quando você soube que as Sete Quedas iam acabar? As pessoas acreditaram de começo? Como foi essa notícia? NEI: Eu quero voltar um pouquinho, bem no início. Quando se falou da construção da Usina de Itaipu, que formaria o lago e deixaria as Sete Quedas submersas, eu ainda era criança. Meu pai era operário lá dentro, fazia parte de um órgão do governo ligado ao que hoje vem a ser a nossa Copel. Ele era funcionário dessa empresa, chamada Minas e Energia. Sendo operário, meu pai acompanhou os engenheiros e técnicos, carregando aparelhos de topografia, quando começaram a fazer as demarcações. Eles iam em vários pontos, subindo desde Foz do Iguaçu até Guaíra. Colocavam uma marca metálica, de bronze, que indicava a graduação, a cota que a água atingiria. Eu lembro que, apesar de ser criança, ouvia os mais velhos comentarem que jamais o homem teria capacidade de acabar com uma beleza daquela. Que não teria. Bom, erramos. Guaíra talvez tenha pecado, o sistema pecou e, como nós vivíamos um sistema, vamos dizer assim, de exceção, não tinha para quem apelar. Nós esperamos o fatídico dia. Foram feitas as marcações da cota 220 e, por incrível que pareça, o lago chegou exatamente ali. Nessa altura eu já era adulto, já estava na vida pública e conseguimos constatar. Para nós foi um choque, um luto total. Guaíra, do dia para a noite, paralisou. Ficou totalmente enlutada. Vou dar um exemplo: eu tinha restaurante no hotel, onde servíamos 50, 60, 70, 100 refeições por dia, mais o café da manhã. A partir do outro dia, você não tinha mais nada. Foi fechando tudo. Os hotéis de Guaíra foram fechando, os restaurantes foram fechando. Para se ter uma ideia, juntamente com o diretor do hotel, começamos a doar parte das louças e objetos do hotel, porque não tinha mais porquê. Paralisou. Isso ficou durante vários anos. Foram anos de total ostracismo econômico em Guaíra, porque perdemos a nossa fonte. Foi aí que veio a grande promessa. Na época, engenheiros e técnicos das Centrais Elétricas do Sul do Brasil, a Eletrosul, diziam que aqui seria construído o Complexo de Ilha Grande, acompanhado de ferrovia, rodovia e hidrelétrica. Teríamos uma usina para fazer a contenção dos dejetos de Itaipu Binacional, teríamos ferrovia, rodovia e hidrelétrica. Diziam que Guaíra jamais iria se lembrar das Sete Quedas. De certa maneira, diante do quadro que estávamos vivendo, quase aceitamos e acreditamos nessa ideia. Só que tudo sucumbiu e nada aconteceu. Chegou em 1989, 1990, e simplesmente o governo da época disse: “Está cancelado”. Não se faria mais nada. [00:35:23] ENTREVISTADOR: E quando elas foram sendo inundadas? Foi muito rápido, mas, ao mesmo tempo, pouco a pouco dava para ver a água subindo. Qual era a sensação? NEI: Demorou vários dias, várias semanas. Era uma sensação terrível, principalmente para quem não acreditava que aquilo aconteceria e estava vendo acontecer. Muita gente de Guaíra foi lá, os mais antigos também. Eu tive a oportunidade de ir até quando a água já estava chegando a um determinado ponto. Você via que o canal em si, o canal-base, o que nós chamávamos popularmente de canal, já estava totalmente nivelado. As quedas começaram a diminuir. Começou ali pela queda da ponte, que era praticamente a primeira de cima para baixo. A água começou a subir, e você via que a queda já era bem menor. E não tinha para quem reclamar. Não tinha. O fato estava consumado. [00:36:44] ENTREVISTADOR: E como foi dormir sem o som das Sete Quedas? NEI: Volto a repetir: nós ficamos totalmente à deriva, ficamos de luto, sem saber o que fazer. Não querendo me vitimizar, mas eu, de empresário, fui trabalhar como empregado, de porteiro no hotel, porque não tinha mais o que fazer. Esse foi o meu caso, e muitos foram embora. Muitos empresários deixaram suas propriedades e foram para outras regiões. Teve gente que foi para Mato Grosso, Rondônia, Curitiba, enfim. Foram deixando Guaíra porque não havia alternativa. A própria imprensa chegou a dizer que nós tínhamos nos tornado uma cidade fantasma em determinado período. [00:37:39] ENTREVISTADOR: Me fala mais sobre essa “cidade fantasma”. Como era Guaíra? Como era essa sensação de que aqui tinha, de fato, virado uma cidade fantasma? NEI: A cidade fantasma vem já com a questão da não construção do Complexo de Ilha Grande. Nós havíamos perdido a maior fonte de renda, a maior indústria propulsora da economia local. Aí nos prometeram um grande polo com esse complexo. Tanto é que fizeram mil e poucas casas em Guaíra para acomodar as pessoas e empresas que viriam construir a usina, a ferrovia e a rodovia, fazendo a transposição do Rio Paraná para o Mato Grosso do Sul. E isso não aconteceu. Ali foi o desastre total, porque era gente abandonando, gente indo embora. Aquele grupo de pessoas que veio para Guaíra tinha dado certo fomento à economia guairense. Os hotéis já haviam retomado um pouco daquilo que era possível fazer. E, a partir do momento em que foi decretado o cancelamento da obra do Complexo de Ilha Grande, foi quando a grande imprensa passou a chamar Guaíra de cidade fantasma. [00:39:12] ENTREVISTADOR: Antes de a gente ir para outra pergunta, queria que você falasse sobre o que sente em relação aos últimos anos em Guaíra. Você sente alguma espécie de redescobrimento, de renascimento da cidade? Compara essa Guaíra “cidade fantasma” com a Guaíra de hoje e com a forma como ela tenta se projetar para o futuro. NEI: Eu diria que Guaíra, nos últimos 20, 25 anos, saiu desse luto que viveu, saiu desse ostracismo econômico pelo qual passou. Através de diálogo e de um novo olhar, por meio de todos os setores da sociedade organizada de Guaíra — ainda que de maneira incipiente na indústria, no comércio — começou a encontrar novos caminhos. Veio a questão do comércio com o país vizinho, o Paraguai, o comércio de importados, e gestões que começaram a ter uma visão de não apenas reclamar, mas buscar alternativas junto ao governo estadual e ao governo federal para colocar Guaíra como uma cidade importante. Porque é importante dizer: Guaíra é um dos grandes polos de passagem entre o Norte e o Sul do país. Quem sai do Sul para atingir o Norte do Brasil passa por Guaíra. Foi aí que o comércio começou a se redistribuir e aumentar, a parte hoteleira melhorou, a gastronomia começou também a ganhar uma dimensão melhor e, sem dúvida, a conclusão da ponte sobre o Rio Paraná, substituindo a travessia por balsa, incrementou bastante isso. Eu diria que Guaíra vive uma nova fase, uma fase boa, principalmente agora, buscando o turismo de pesca esportiva, o turismo de aventura. A própria cultura está se levantando, se redescobrindo e colocando projetos em prática. Tivemos também, ainda que de forma acanhada, uma boa recompensa com um percentual maior dos royalties por parte de Itaipu. [00:42:03] ENTREVISTADOR: Então essa vai ser a nossa última pergunta. Conta para mim desde o início: como foi a distribuição dos royalties? Ela foi justa? Foi pouco benéfica para Guaíra até os dias de hoje? NEI: Muito bem. Quando se formou o Lago de Itaipu Binacional, através de todo o seu corpo jurídico e técnico, estabeleceu-se que as indenizações seriam baseadas nos metros quadrados de área inundada e nas benfeitorias que havia em cada propriedade e em cada cidade. Acontece que a cidade de Guaíra está exatamente no último ponto do alagamento, no último extremo. Então, a área em metros quadrados inundada aqui foi a menor. Sem dúvida alguma, foi a menor. No entanto, inundou-se a maior fonte de renda da cidade e uma das maiores belezas do mundo. Isso não foi levado em consideração. Por outro lado, a própria política local, regional e nacional não se ateve, não teve compromisso com Guaíra para fazer um questionamento junto à Itaipu Binacional, no sentido de que isso já tivesse sido considerado no momento da indenização e dos aportes destinados à cidade. Como isso não aconteceu, Guaíra ficou com um dos menores percentuais de royalties, um dos menores valores mensais em dinheiro. Como era cotado em dólar, o nosso percentual em dólar foi um dos menores. Houve lugares em que cidades tiveram áreas maiores submersas e recebiam cinco, seis, dez vezes mais do que nós, por causa desse critério de metros quadrados de área inundada. Aí houve demandas através da política local, juntamente com o governo do Estado, deputados e senadores, no sentido de reverter isso. Numa primeira etapa, levou acho que uns 15 anos e não aconteceu nada. Falava-se, discutia-se, até que, depois de muitos anos de briga, saiu alguma coisa — usando essa expressão —, mas ainda era muito pouco. Por fim, houve um projeto de uma pessoa que jamais podemos esquecer, que teve um papel importante: o então deputado Osmar Serraglio. Ele teve um projeto muito importante e, juntamente com a última gestão do prefeito Eraldo, conseguiram conscientizar os senadores da República e boa parcela dos deputados federais de que havia uma grande injustiça com o município de Guaíra, e que não era possível continuarmos de mãos cruzadas sem fazer nada. Se não me engano, dos 81 senadores, 70 votaram favoravelmente à proposição para o município de Guaíra. Jamais nada vai compensar a perda das Sete Quedas, na minha opinião. Jamais. Mas, pelo menos, é um alívio para a nossa infraestrutura local, para podermos prestar um bom atendimento à comunidade de Guaíra com esse percentual de royalties. [00:45:57] ENTREVISTADOR: Que maravilha. [CORTE / AJUSTE TÉCNICO] ──────────────────────────────────────── SEGUNDA PARTE — MEMÓRIAS A PARTIR DE FOTOGRAFIAS E RECORTES ──────────────────────────────────────── [00:46:04] ENTREVISTADOR: Você pode relaxar um pouquinho mais com a caixinha. Se estiver desconfortável, pode colocar na sua perna. Fica tranquilo. Você vai abrir a caixinha e vão ter algumas memórias, algumas coisinhas aí. Pega uma por uma e vai comentando. Quando quiser comentar, comenta; quando quiser só olhar, pode só olhar. Pode abrir. [00:46:32] NEI: Legal. Essa foto aqui já é de quando estávamos no finalzinho. Eu fiz questão de ir lá, porque as Sete Quedas estavam para terminar. E hoje essa foto é uma lembrança que ninguém mais vai poder ver daquele jeito. [00:46:56] ENTREVISTADOR: Pode olhar para você e, quando quiser, mostrar para a câmera ali atrás. [00:47:02] NEI: Eu fiz um comentário na época. Aqui ficou bem característica a palavra “ADEUS”, como uma despedida. E a pessoa que escreveu esse “adeus” deixou dois pingos de tinta que, para mim, representam duas lágrimas. Eu fiz esse comentário na época e agora é interessante trazer isso à memória. [00:47:36] ENTREVISTADOR: Pode continuar olhando para você mesmo. Assim está ótimo. [00:47:47] NEI: Aqui já é uma cena que nos demonstra tristeza. Mostra a tristeza de saber que hoje não temos mais isso, não existe mais a possibilidade de estarmos lá, naquele lugar onde a gente esteve. E assim vão vindo as memórias com essas fotos. Da mesma forma aqui: era um pedaço das Sete Quedas em que eu fazia essa caminhada três, quatro vezes por dia, levando turistas. Hoje só vem a memória. Sem dúvida alguma, isso nos deixa emocionados. Aqui está o canal também. Não tem como não se emocionar de lembrar que a gente vivenciou isso. Era o nosso caminho de casa, era o nosso pátio de casa. Essa foto aqui já nos traz uma certa indignação. Eu acompanhei também toda a construção dessas torres, que eram torres de transmissão para atingir o Mato Grosso do Sul. Isso nos deixa uma certa indignação porque, em função da construção daquilo que se dizia necessário, que precisava ser feito para o desenvolvimento econômico, social e industrial do Brasil, nós tivemos que perder essa beleza. Aqui também é uma foto aérea que dá uma dimensão das Sete Quedas. Eu já vi vários quadros assim e presenciei aquilo. Nesta foto aérea, todo esse percurso eu fazia caminhando com os turistas, passo a passo, para chegar do início ao final. [00:50:18] NEI: E aqui está aquilo que comentamos anteriormente, a loucura que se tornou o final das Sete Quedas. Estou com uma foto que representa exatamente a ponte do fatídico acidente de 17 de janeiro de 1982. [00:50:49] ENTREVISTADOR: Dá só uma leve viradinha na foto para a câmera. NEI: Essa foto demonstra aquilo que eu falei sobre a loucura que foi o final. Acho que todo mundo queria conhecer as Sete Quedas ainda vivas. Quem já conhecia voltou para ver pela última vez. Era uma loucura. Aqui ainda temos a presença da antiga ponte do fatídico acidente que nós presenciamos, vivenciamos, sofremos. Aqui, mais um dos saltos das Sete Quedas que vêm à memória. A própria foto representa a neblina que se formava. Você tomava uma chuva ao chegar perto, porque a gente conseguia chegar muito próximo da queda. [00:51:58] NEI: E aqui eu tenho mais um saudosismo triste para lembrar. Essa foto representa uma das grandes vivências da minha infância. Um belo dia fui levar um casal de turistas. O marido era de origem japonesa. Eles chegaram à tarde, já no final da tarde, e eu disse: “Agora é impossível, porque não tem iluminação. Marcamos para amanhã cedo para visitar as Sete Quedas”. Eles estavam em lua de mel. Ele gostava muito de fotografia, estava com uma máquina profissional. Quando nós descemos para ele fotografar, em determinado momento ele entregou a máquina para a esposa e escorregou. Foi levado pelas águas. Eu, ainda criança, com oito ou nove anos de idade, presenciei as Sete Quedas engolindo aquele homem exatamente neste lugar da foto. Foi uma coisa que marcou muito a minha vida. Chamamos os guardas, chamamos as pessoas. Eu nem sei dizer se ele foi encontrado, porque ali era um turbilhão de água. Era algo terrível. [00:53:44] NEI: Aqui está o ângulo da ponte. Era uma ponte que balançava, e muita gente tinha mania de subir nela e balançar. Havia também muita gente que sentia medo ao atravessar. Vamos ver mais aqui. [00:54:21] NEI: Aqui, se não me falha a memória, estou vendo uma foto do lado paraguaio. Exatamente aqui nós tínhamos a confluência, o canal, o Grande Canal. Do outro lado havia uma visão menor, naturalmente, mas o país vizinho, o Paraguai, e a comunidade de Salto del Guairá conseguiam ter uma vista parcial das Sete Quedas. Aqui, outra bela visão de um salto. Era um mais lindo que o outro. Se formos falar, não tem como fazer diferenciação entre um e outro. Aqui, tudo indica que estava num período de cheia, porque está bastante avolumado. [00:55:24] NEI: E assim vamos passando pela sequência de fotos das Sete Quedas. Esse aqui era o chamado “Saltinho”. Havia essa ponte, que fazia a ligação com uma das maiores ilhas que compunham as Sete Quedas. Naturalmente, praticamente todo o percurso era feito por pontes e passarelas. Era uma ilha bem grande. Depois dela havia outra ponte. Para ir ao Salto 14, que era o último salto, ainda tínhamos mais duas pontes. Então esse aqui é o famoso Saltinho. Na parte de cima dessa ponte havia um ponto que nós chamávamos de remanso. Era uma parte em que muita gente tomava banho, fazia piquenique. [00:56:37] ENTREVISTADOR: Pode continuar. Quando quiser comentar, comenta; quando não quiser, pode só olhar. Dá só uma viradinha um pouquinho para cá. Isso, está ótimo. [00:56:49] NEI: Aqui é mais uma ponte. Era a penúltima ponte, que fazia a travessia entre a ilha que acabei de citar e o trecho final. Tinha mais uma ponte, um canal, e depois chegávamos ao Salto 14, o último salto do Complexo de Sete Quedas. Aqui também, mais uma vista da ponte. Aqui nós temos as pontes. [00:57:31] NEI: E aqui eu volto a frisar: esse é, sem dúvida alguma, o salto mais bonito. Era o mais volumoso, onde aconteceu aquela tragédia que citei. A gente conseguia chegar muito perto. Como não havia tanta sinalização nem fiscalização, os turistas aproveitavam ao máximo. Pela força da água, formava-se aquela cascata, aquela névoa de água em cima do pessoal. Então esse era o salto mais volumoso. [00:58:11] NEI: Aqui vamos ver. Esse é um recorte. [00:58:14] [PAUSA TÉCNICA PARA TROCA DE BATERIA E AJUSTE DA POSIÇÃO DO MATERIAL] [00:58:41] ENTREVISTADOR: Podemos seguir na ordem em que você estava. [00:58:46] NEI: Aqui estamos com um recorte de jornal, provavelmente da época, cujo texto diz: “Último dia de visitação de Sete Quedas: 40 mil pessoas formaram fila de quilômetros para atingir Sete Quedas”. Quer dizer, aquilo que nós já comentamos é fato: isso aconteceu. Lembrando que, nesse episódio, a ponte já tinha sido reconstruída. Por incrível que pareça, depois de toda a tragédia que aconteceu e já no período final das Sete Quedas, ainda reconstruíram a ponte e ela foi aproveitada por alguns meses. A tragédia foi em janeiro e o lago se formou, se não me falha a memória, entre setembro e outubro. Isso aqui condiz com a realidade daquela época. [00:59:45] NEI: Essa aqui é bem icônica. É também uma foto aérea. Ela pega todo o dorso do canal e as cachoeiras. É bem interessante. Aqui, mais uma vez, aparece aquilo que eu sempre falava e explicava aos turistas: o salto mais bonito, o salto mais imponente das Sete Quedas. Nesta foto ele está numa dimensão um pouco diferente, mais alongada. [01:00:38] NEI: Aqui, mais uma vez, nós temos a ponte que fazia a travessia entre a ilha e o penúltimo espaço para chegar até o Salto 14. Ali nós já tínhamos o canal, um canal mestre. Nós tivemos algumas frases de efeito na época, mas já não surtiam efeito prático. Não conseguiam mais reverter o que já estava estabelecido. [01:01:35] NEI: Aqui diz: “Destruir Sete Quedas é crime, diz prefeito”. Eu costumo dizer que tudo o que vou falar é opinião minha, mas tem uma concepção coletiva. Na época, boa parte da comunidade atribuiu muita culpa ao gestor do município. Mas, na minha opinião, o gestor da época não tinha culpa. Ele era empregado do patrão, tinha que cumprir o que vinha de cima. Talvez seja injusto atribuir a ele a culpa pelo fim. Eu acho que isso não condiz com a verdade, porque o sistema vinha de cima e dizia: “Nós vamos construir uma usina; para construir uma usina, precisamos sufocar as Sete Quedas”. Ele simplesmente cumpriu. Ficou 21 anos no poder como gestor do município, como empregado do governo federal. [01:02:46] NEI: E aqui a frase diz o seguinte: “Figueiredo: é uma pena”. Não vou ler o texto porque não há necessidade. Eu estava ali quando ele e sua comitiva saíram em um Galaxie. Ele deu uma passada muito rápida pelas Sete Quedas. Eu estava muito próximo, junto com outras pessoas, acenando para ele parar, para a gente perguntar, mas ele não parou. Ele simplesmente foi embora. Fez um contorno pelas Sete Quedas, acompanhado por segurança e várias viaturas atrás. Várias pessoas gritavam: “Pare! Pare! Queremos perguntar...”, mas ele não parou. E aqui está a frase: “É uma pena”. É muito pouco para aquilo tudo. [01:03:43] NEI: Aqui eu acredito que sejam autoridades. A imagem está um pouco ofuscada. ENTREVISTADOR: O próprio Figueiredo. NEI: Sim. Mas o relato que fiz é esse: quando ele estava dentro do carro, todo mundo pediu para ele parar e ele não parou. [01:04:12] NEI: E aqui é aquilo que eu disse na entrevista anterior: quando começou a se formar o lago, realmente só havia o que lamentar, sofrer e sentir todo esse episódio. Aqui nós já temos praticamente uma dimensão do lago. Provavelmente há uma numeração indicando onde ficavam partes geográficas das Sete Quedas. Essas fotos aqui eu vou passando, porque já retratam o complexo e nós já falamos bastante sobre as Sete Quedas. Aqui, da mesma forma, é mais uma dimensão de uma das quedas d’água. [01:06:06] NEI: E aqui, essa foto com essa imensidão humana e esse amontoado de ônibus, veículos, Kombis e vans retrata bem aquilo que eu falei há pouco. Foi uma verdadeira enxurrada humana, vamos dizer assim. Era muita gente, muita gente. A foto retrata pessoas descendo a pé para chegar às Sete Quedas, porque já não havia como entrar com os veículos. Foi realmente uma loucura. [01:06:56] NEI: Aqui já é uma foto que retrata o período com pavimentação asfáltica, já no final, nos últimos anos de visitação. Até então era estrada de chão. Essa torre de energia me traz uma lembrança. Ela ficava muito próxima da casa onde eu morei, uns quinhentos, seiscentos metros. A minha casa ficava aqui do lado direito. Essa torre está no continente; não está em uma ilha, porque algumas ficaram em ilhas. [01:07:51] NEI: E, para fecharmos, quero agradecer a todos por essa surpresa. A gente sente muito. Aqui está mais uma visão de uma das cachoeiras das Sete Quedas, compondo todo aquele complexo maravilhoso. Aquilo que jamais, jamais o homem poderia ter feito. Mas, infelizmente, não sei se podemos dizer que, pelo progresso, a gente tem que sacrificar. Talvez essa fosse a visão da época daqueles que detinham o poder. [01:08:25] ENTREVISTADOR: Maravilha. Corta, gente. [FIM DA ENTREVISTA]